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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Independence Day


 Em 1993, “Jurassic Park” se sagrou como a maior bilheteria da história do cinema, mas seu reinado não durou muito, três anos depois, em 1996, a ficção científica “Independence Day” tomou esse posto, e nele ficou menos tempo ainda (!), já no ano seguinte, aportava nos cinemas um épico chamado “Titanic”, e o resto é história...

No panorama cinematográfico dos anos 1990, “Independence Day” ocupa, portanto, esse lugar de êxito transitório tanto no que diz respeito à sua notável bilheteria, como ao avanço de seus efeitos especiais –e existem uma série de razões para o sucesso que o filme de Roland Emmerich teve, e nenhuma delas está relacionada ao seu astro, Will Smith, praticamente revelado ao público por este filme (e, por ele, catapultado ao estrelato).

“Independence Day” é, em linhas gerais, e sem muita sutileza no disfarce, uma versão modernizada de “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, tantas vezes transposta para a telona. Seu apelo fundamental está no emprego imodesto dos efeitos visuais que conceberam cenas antológicas e grandiloquentes, de tal forma impressionantes, que uma parcela extraordinária do público entendeu que teriam de ser vistas na tela do cinema.

Cenas como as imensuráveis naves extraterrestres  sobrevoando inúmeras cidades do mundo e a subsequente destruição de Nova York e de Washington por essas mesmas naves não apenas entraram diretamente para o subconsciente coletivo dos cinéfilos (a despeito de serem emolduradas numa trama bastante genérica) como foram recompensadas com o Oscar de Melhores Efeitos Especiais na cerimônia de 1997.

No início, indícios nebulosos sugerem aos especialistas que algo de extraordinário se aproxima do planeta Terra: Naves monumentais, de origem alienígenas, aos poucos se aproximam da atmosfera, alarmando as autoridades do mundo inteiro, em especial, os EUA, onde o presidente, Thomas Whitmore (Bill Pullman, na melhor fase de sua carreira), emite um alerta geral. A chegada das naves (ilustrada na primeira metade do filme, o que resulta num espetáculo verdadeiramente eletrizante) é recebida com apreensão pelos cidadãos do mundo todo: Logo, os indícios se materializam em fatos quando muitas dessas naves aparecem sobrevoando dezenas de cidades espalhadas pelo planeta.

As tentativas de comunicação se iniciam, mas, as verdadeiras intenções dos alienígenas são descobertas, talvez tarde demais, pelo cientista do MIT David Levinson (Jeff Goldblum) e seu pai, Julius (Judd Hirsch, de “Os Fabelmans”): A chegada deles à Terra é completamente hostil; pois, logo na sequência, vemos cidades como Nova York, Washington e Los Angeles serem varridas do mapa.

A humanidade sofre um impiedoso ataque extraterrestre e, agora, os seres humanos sobreviventes precisam contra-atacar.

Nessa progressão de acontecimentos até que bastante previsíveis –sabemos, claro, que a humanidade haverá de reerguer-se e, ao final apoteótico, prevalecer sobre os vilanescos invasores –o diretor Emmerich usa, como opção para valorizar as cenas, uma ênfase e uma referência à muitos obras predecessoras que funcionaram bem, sobretudo, em sua composição visual: As sequências de destruição aludindo aos grandes clássicos do cinema-catástrofe do passado (potencializadas, porém, com efeitos visuais de última geração); os escombros do mundo pós-ataque remetem à produções pós-apocalípticas como “Mad Max”; as sequências de combate aéreo subsequentes lembram “Star Wars” e afins; as aparições ocasionais dos alienígenas almejam um pavor opressivo semelhante à “Alien”. E tudo isso, configura uma trama conduzida por dezenas de personagens pretensamente carismáticos que nem sempre dizem à que vieram: Além dos já citados, temos também a assessora da Casa Branca, Constance (Margaret Colin), romanticamente envolvida com o personagem de Goldblum; o ex-piloto pinel, abduzido por alienígenas no passado, que deseja ingressar na resistência à invasão por um ingênuo sentimento de acerto de contas (Randy Quaid, de “Lua de Papel”); os militares turrões, truculentos, mas, no fim das contas, de bom coração (esses são vários, Robert Loggia, Adam Baldwin, James Rebhorn); e, finalmente, o piloto de caça vivido por Will Smith, Capitão Steven Hiller, introduzido praticamente a partir da segunda metade do filme, que haverá de protagonizar as mais expressivas incursões contra os alienígenas, com suas tiradas engraçadinhas (mais clichê impossível), inclusive a arrojada manobra final de confronto definitivo contra os alienígenas, onde poderá assim vingar a morte do melhor amigo (Harry Connick Jr., de “Memphis Belle-A Fortaleza Voadora”), morto em batalha pelos invasores (risca aquilo que eu falei, ISTO consegue, sim, ser ainda mais clichê!).

Está aí, portanto, uma fórmula não muito difícil de ser apreendida e que garantiu à “Independence Day” o largo sucesso do qual, à época, ele desfrutou: Uma trama banal, reduzida à essência e ao simplismo, contada de modo a soar inteligível ao público, povoada por personagens também de fácil compreensão e de forçosa empatia, mas adornada com elementos visuais arrebatadores, as verdadeiras estrelas principais desta produção, além de um viés patriótico, enaltecendo valores norte-americanos (a data para o contra-ataque da Humanidade, 4 de Julho, o usual feriado americano, passa a marcar, na trama do filme, uma comemoração mundial), que acabou contagiando também as plateias do resto do mundo.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Uma Equipe Muito Especial


 É até inconcebível hoje ver Tom Hanks como coadjuvante das não tão estelares Geena Davis e Lori Petty (de “Caçadores de Emoção”), menos ainda quando percebemos que ele é pouco mais que o alívio cômico do filme, mas esse é só um dos indicativos que mostram que “Uma Equipe Muito Especial” –ou "A League of Their Own", seu título original –pertence a outros tempos, afinal, Geena Davis havia acabado de fazer “Thelma & Louise” (e de ser indicada ao Oscar por isso!) enquanto que Madonna (também presente no elenco) estava recém-saída de “Dick Tracy”.

Dirigido pela saudosa Penny Marshall (que havia dirigido Hanks em “Quero Ser Grande”), o filme é consequência direta da indicação ao Oscar de Melhor Filme para “Tempo de Despertar”, em 1990, o que deu à Penny a capacidade para viabilizar o projeto que quisesse.

E o projeto que ela quis diz muito de suas inclinações morais e pessoais como contadora de histórias: A trajetória dos membros da Liga Americana de Beisebol Profissional Feminino, a AAGPBL, fundada por Philip K. Wrigley em 1943 (numa forma de não interromper os campeonatos de beisebol, tão amados pelo público norte-americano, e suprir a ausência de jogadores masculinos que estavam todos lutando na Segunda Guerra Mundial) e mantida até 1954. No filme, o fundador da Liga Feminina chama-se Walter Harvey (e é interpretado por Garry Marshall, diretor de “Uma Linda Mulher” e irmão da diretora Penny), personagem fictício criado a partir do próprio Philip K. Wrigley –é ele quem escala Ira Lowenstein (David Strathairn) para o trabalho de Relações Públicas, e chama o olheiro Ernie Capadino (Jon Lovitz) para percorrer os EUA atrás de habilidosas jogadoras.

Os testes logo revelam talentos promissores no beisebol comos as irmãs Dottie Hinson (Geena) e Kit Keller (Lori), a batedora bidestra Maria Hooch (Megan Cavanagh), a meia-campista e ex-dançarina Mae Mordabito (Madonna), a terceira defensora Doris Murphy (Rosie O’Donell), e outras. Todas seguem, de suas moradas (Dottie e Kit eram do Oregon; enquanto Mae e Doris eram de Nova York) para Chicago e, de lá, para as turnês de jogos que compõem a temporada 1943.

O personagem de Hanks é o técnico rabugento, decadente e alcóolatra Jimmy Dugan, que encara com inicial relutância a tarefa de dirigir o recém-formado time Rockford Peaches, onde todas as protagonista jogam. Pouco a pouco, o esmero e o talento das jogadoras vai não apenas conquistando a aprovação do técnico Dugan como também obtendo inesperado sucesso junto ao público que passa a acompanhar de modo cada vez mais numeroso as disputas nos gramados.

É curiosa a questão que o filme levanta em seu clímax: Na partida final, quando o Rockford Peaches encara o seu rival Racine Belles (time para o qual, de um ponto em diante da trama a descontente e desiludida Kit vai jogar, deixando a irmã Dottie no time adversário), a jogada decisiva do jogo envolve justamente as duas irmãs, Dottie e Kit, e sua constante rivalidade –um mote que atravessa todo o filme, justaposto também com o grande amor que as une. Dottie era sempre a melhor, a mais talentosa, a mais hábil e, como mulher, não tinha dificuldades em sobressair-se como a mais bela e a mais elegante, características que só ressaltavam a insegurança e a vulnerabilidade de Kit. Nesse acerto de contas final entre as duas é apenas sugerido na narrativa que, talvez, tenha sido Dottie quem terminou deixando que sua irmã (e, por consequência, o time dela) vencesse aquela partida.

Amparado em diversos expedientes básicos dos filmes esportivos –desde o técnico implicante até a gradual aceitação do time pelo público, passando pelos conflitos ora engraçados, ora dramáticos, e culminando no emocionante clímax da partida final –"A League of Their Own" traz esses elementos tão bem dispostos e conduzidos pela diretora Marshall que se torna impossível não se emocionar ou não torcer pelas personagens, em sua busca por aceitação e reconhecimento.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Poder da Sedução


 Durante a década de 1990, a repercussão estrondosa de “Instinto Selvagem” redefiniu a noção do cinema comercial hollywoodiano: De repente, um erotismo mais despudorado e irrestrito havia deixado o nicho de produções estilo privê virando tendência entre blockbusters, e atrizes com personagens menos recatadas ganhavam notoriedade. Dentre essa inusitada leva, “O Poder da Sedução”, de John Dahl, ganhou destaque por trazer esses elementos acompanhados de uma improvável sensatez na sua mistura e uma qualidade pulsante em sua realização.

Ele ganhou certa fama, à época, quando vários críticos afirmaram e reafirmaram que ele poderia ter ganhado uma indicação ao Oscar, não tivesse sido, antes do lançamento nos cinemas, exibido na TV a cabo –segundo as regras vigentes do Oscar, um longa-metragem não poderia ter uma exibição televisiva anterior à sua estréia cinematográfica.

Sua estrela era a então não muito conhecida Linda Fiorentino –atriz com a palavra femme fatale escrita na testa! –que depois participou de “Homens de Preto” e buscou seguir os passos de Sharon Stone no irregular thriller erótico “Jade”. Ela é, sem sombra de dúvidas, a grande revelação em “O Poder da Sedução”; assim como a habilidade insuspeita ostentada pelo diretor John Dahl.

Trabalhando como gerente numa pequena empresa de vendas telefônicas, Bridget (Linda) ambiciona uma vida melhor, algo que talvez esteja se aproximando quando seu marido, Clay (Bill Pullman) realiza uma grande venda de anfetaminas e vai para casa com uma bolada. Entretanto, Bridget é vítima de violência doméstica e, vingativa, não pestaneja ao abandonar Clay na primeira oportunidade. Detalhe: Levando consigo toda a grana!

Amparado em elementos que remetem abertamente à “Psicose”, de Hitchcock (o início onde a protagonista foge deliberadamente com o dinheiro), e sobretudo, ao filme noir americano (todas as tramóias e traições que se sucedem a partir daí), o roteiro de Steve Barancik, deste ponto em diante, se torna uma coleção de pequenas sacadas que beiram a genialidade, fazendo a trama avançar com rara inteligência, malícia e personalidade.

Bridget vai se esconder numa cidadezinha chamada Beston, e lá de pronto conhece Mike (Peter Berg) com quem inicia um relacionamento definido acima de tudo pelo sexo. Logo em seguida, aconselhada por seu advogado (J.T. Walsh, de “Os Imorais”), Bridget muda de nome –passa a se chamar Wendy Kroy –e resolve esconder-se em Beston por um tempo: Mesmo de posse do dinheiro, tudo que ela comprar será potencialmente dividido com Clay, a menos que ela obtenha, em cerca de dois anos, o divórcio, para então poder gastar tranquilamente seu dinheiro.

Mas, Clay não pretende deixar barato –até porque, os agiotas que lhe pegam no pé não deixariam –e coloca o detetive Harlan (Bill Nunn), no encalço de sua esposa fugitiva.

Enquanto todas essas peças se movimentam –algumas com guinadas notáveis de esperteza e senso de reviravolta –um plano nebuloso de Bridget segue em gestação; envolvendo o ingênuo Mike, sua intenção de deixar Beston para sempre, sua atração quase obcecada por aquela mulher misteriosa, sensual e intratável que surgiu em sua vida, e alguns segredos que ele se esforça para esconder de todos daquela região.

Hábil como pouquíssimas obras são capazes de ser, “O Poder da Sedução” disfarça suas qualidades extraordinárias por trás de uma realização de aspectos humildes e singelos, enquanto foca numa história primorosamente bem construída e, num conceito, certamente arrojado –mesmo o muito mais influente “Instinto Selvagem’ partia de princípios básicos subjetivos onde o protagonista masculino era os olhos do público; aqui (ainda que John Dahl seja mais econômico do que Paul Verhoeven no que tange à cenas de sexo) nem se discute que o papel principal seja sem dúvidas o de Bridget/Wendy. E mesmo diante desse protagonismo, em momento algum a produção se esforça no sentido de torná-la uma personagem mais palatável, mais agradável ao expectador; do início ao fim, Bridget/ Wendy é dissimulada, ardilosa, traiçoeira e calculista, e em momento algum, perde o interesse do público por isso.

Mérito da atriz que soube interpretar com astúcia e adequação uma personagem concebida com rara solidez, do roteirista Steve Barancik, autor de uma das mais formidáveis revisões do filme noir nos anos 1990 (ombreando com a obra-prima “Los Angeles-Cidade Proibida”), e do diretor John Dahl, extremamente talentoso em identificar esses e vários outros ótimos elementos.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gasparzinho - O Fantasminha Camarada

Ainda durante os anos 1990, quando o emprego da computação gráfica no cinema permanecia visto como um ato constante de experimentação, o diretor Brad Silberling –com a luxuosa produção de Steven Spielberg –saiu na frente com a primeira produção a trazer um protagonista digital (até então, filmes como “Jurassic Park” e outros, contentavam-se em ostentar criaturas coadjuvantes ou aparições ocasionais como presenças exclusivamente geradas por computador).
O que sobrou em audácia nesta decisão, contudo, compensou o anacronismo quase nostálgico que predomina no restante de todo o filme –algo que a direção perspicaz de Silberling trata de virar a seu favor, visto que “Gasparzinho” (ou “Casper”, no original) é a adaptação cinematográfica de um personagem de desenho animado tão antiquado que poucas crianças haveriam de lembrar com exatidão dos detalhes de sua fonte original.
Assim, temos o personagem principal, o fantasma Gasparzinho (na voz do jovem Malachi Pearson) –recriado com minúcia e inteligência pelos efeitos visuais –que, tendo falecido muito jovem, conserva um maravilhamento infantil diante de tudo, assim como um desejo de ter amigos. Vontade dificíl de ser realizada, uma vez que sua moradia, a Mansão Whipstaff, é a famigerada casa mal-assombrada da cidade, graças às travessuras de seus três tios, também fantasmas, que compõem o Trio Assombroso.
(Há, inclusive, uma sensacional referência a “Os Caça-Fantasmas” na cena em que Dan Akroyd, devidamente trajando o figurino daquele filme, desiste de tentar conter aquelas assombrações!)
Usando porém da desenvoltura típica dos personagens de animação, Gasparzinho consegue trazer para sua mansão a única visita que lhe parece importar: A jovem Kat Harvey (Christina Ricci, crescendo de forma encantadora depois de seu papel de Wednesday em “A Família Addams”), filha do atrapalhado pesquisador paranormal Dr. Harvey (Bill Pullman), viúvo cujos objetivos buscam, lá no fundo, contactar do além, de alguma forma, a esposa falecida.
O choque com os fantasmas é inevitavelmente entrelaçado pela inocência e pela comicidade caricata típica das animações antigas, mas não deixa de ser divertido (e tome outras referências, sobretudo, nas participações inacreditáveis de Clint Eastwood, Mel Gibson e Rodney Dangerfield).
Contudo, assustar não é o objetivo de Gasparzinho: Ele quer um amigo, oportunidade que ele enxerga em Kat (ou, talvez, até algo mais!).
Assim, o filme de Silberling, tal e qual seu protagonista, cheio de doçura e boas intenções (características potencializadas pela ótima trilha sonora de James Horner) se torna um exemplo louvável de transposição competente de um personagem animado para o live-action e uma agradabilíssima fábula infanto-juvenil com direito até a um romance adolescente –quando Gasparzinho, no trecho final, expõe seus sentimentos a Kat, em um desfecho meio hesitante mas ainda assim enternecedor.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Enquanto Você Dormia


Após ter sido revelada para o público em um bom papel na aventura de ação “Velocidade Máxima”, em 1994 –embora já tivesse uma carreira considerável antes disso –a atriz Sandra Bullock teve a felicidade de embarcar num projeto que revelou suas mais reluzentes qualidades: O aspecto de ‘moça comum’, a despeito da beleza cinematográfica, e, sobretudo, a capacidade cativante de encantar completamente a platéia.
Este projeto, claro, era uma comédia romântica.
E como tal, “Enquanto Você Dormia” tem todos os reflexos condicionados do gênero, padece de todas as deficiências que se pode presumir –inclusive uma negligência rudimentar para com a premissa e as motivações –e contenta-se, como cinema, em entregar o óbvio e fazer o básico. Com efeito, “Enquanto Você Dormia” só fez sucesso de público; só chegou a ser notado pela crítica; e só vale a pena ser recordado hoje, uns vinte anos depois de sua realização, por causa exclusivamente de Sandra Bullock.
Ela interpreta Lucy Moderatz, uma jovem e sonhadora nova-iorquina que amarga a mediocridade de trabalhar no guichê do metrô. Lucy, contudo, é otimista, e muitos de seus sonhos de felicidade estão direcionados para o executivo anônimo (vivido por Peter Galagher) que passa diariamente em sua estação; Lucy está apaixonada por ele.
Parece, portanto, uma providência do destino quando, certo dia, o rapaz é empurrado da plataforma e cai desacordado no trilho do trem: É Lucy quem o acaba salvando.
Mais: No hospital, ela descobre que com a forte batida na cabeça ele entrou em coma e, devido a uma sucessão de mal-entendidos dos quais ela não tem controle, a numerosa família dele acaba pensando que ela é sua noiva!
Maravilhados com a moça que Peter (o nome do rapaz) ainda não tinha lhes apresentado (e que ainda por cima lhe salvou a vida!), os familiares –a mãe (Micole Mercurio), o pai (Peter Boyle), o tio (Jack Warden) e a avó (Glynis Johns) –a recebem calorosamente de braços abertos; e tão amorosos eles são que Lucy não tem coragem para desmentir o equívoco.
Entretanto, alguém tem lá suas suspeitas: É Jack, irmão mais velho de Peter (e interpretado por Bill Pullmann, ator até então associado a tipos de coadjuvantes azarados e perdedores que, um ano depois, esteve no sucesso “Independence Day” e estrelou o desafiador “A Estrada Perdida”, de David Lynch).
Mais perspicaz do que sua alegremente desleixada família, Jack percebe as incoerências na história de Lucy, e passa a vigiá-la bem de perto –tão de perto que, pouco a pouco, os dois começam a se apaixonar; e, se há nesta produção algo genuíno e indiscutível é a forma como Sandra Bullock consegue ser apaixonante dentro e fora do filme.
É ela e sua doçura bem administrada que conduz o expectador através da trama do filme com suas reviravoltas pouco surpreendentes, mas ainda assim (graças a ela) prazerosas de se acompanhar.

terça-feira, 21 de março de 2017

O Turista Acidental

Um dos mais interessantes filmes do diretor Lawrence Kasdan (que a despeito de ter entregado filmes ora excelentes, ora irregulares ao longo da carreira sempre foi mais lembrado como o roteirista de “O Império Contra-Ataca”) onde se percebe sua inclinação para o cinema europeu, de tintas mais intimistas.
O termo “turista acidental” define o protagonista Macon Leary (William Hurt, primoroso) das mais variadas formas: Metódico e introspectivo, ele é autor de uma série de guias turísticos para executivos que não gostam de viajar (e que, à propósito, leva esse mesmo título!). Para tanto, ele próprio tem de encarar contínuas viagens a fim de escrever seus livros.
Macon é, ele mesmo, um “turista acidental” através da vida: Os relatos que sua voz em off faz dos eventos que com ele acontecem não diferem em nada do tom melancólico, algo rabugento, com o qual se dá a narrativa de seus livros.
Talvez tenha sido essa postura que levou sua esposa Sarah (Kathleen Turner, que já havia feito “Corpos Ardentes” com o diretor e o ator) a pedir o divórcio depois da morte do filho, levando Macon a ir morar com seus igualmente metódicos irmãos.
Por acaso, ele acaba conhecendo Muriel (Geena Davis, esfuziante), uma extrovertida treinadora de cães com quem –para a surpresa do próprio Macon –acaba se relacionando.
Todos esses acontecimentos, de caráter irrisório, ganham um inesperado e adorável tom de enaltecimento na narrativa agridoce, de ritmo muito particular, estabelecida por Kasdan.
A analogia entre o ato de viajar e o ato de viver ganha contornos fascinantes e envolventes graças a uma reunião de talentos em absoluto estado de graça: Não só o roteiro e a direção de Kasdan está prodigiosos, como ele também deve muito do seu brilhante resultado ao elenco, onde se destacam Geena Davis, por este trabalho, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, e William Hurt, numa composição criteriosa, complexa e destemida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A Estrada Perdida

Certos filmes de David Lynch são difíceis de serem definidos, principalmente porque o diretor apresenta seus filmes como se fossem sonhos materializados. 
Ele lhes dá a mesma característica desconexa, onde os eventos não necessariamente explicam uns aos outros, onde as convenções de narrativa adquirem um propósito completamente novo e o roteiro está para gerar mais perguntas do que respostas.
Esse estilo singular de cinematografia surgiu, pela primeira vez, no cult e experimental "Eraserhead", esboçou alguns vestígios no desfecho algo enigmático de "Veludo Azul" (a cena com os capangas mortos em pé!) e se expressou com mais ênfase, ao menos nos anos 1990, em meio à série televisiva "Twin Peaks".
No cinema mesmo foi somente com o lançamento de "A Estrada Perdida" que David Lynch conseguiu reencontrar aquele contador de histórias do início de sua carreira, apaixonado pela metodologia onírica onde a fachada do absurdo esconde uma trama rocambolesca de ponderações muito pessoais.
“A Estrada Perdida” começa com um casal, um saxofonista (Bill Pullman, longe dos papéis cômicos e histriônicos) e sua esposa sensual (Patricia Arquette, estonteante). Eles passam a receber fitas cassete com tomadas de sua casa sendo filmada por alguém desconhecido, o quê os deixa alarmados.
(E percebe-se aí, uma provável influência desta obra no filme “Cachê” de Michael Haneke, e ainda que o estilo de Haneke seja bastante distinto, Lynch é o tipo de realizador que poderia influenciar seu trabalho)
As fitas, que vão chegando dia a dia, vão se revelando cada vez mais preocupantes; com o cinegrafista, quem quer que seja, invadindo cada vez mais sua privacidade, sem eles o terem percebido.
A última delas contém uma revelação inesperada e brutal.
E é quando o filme dá uma surreal e magnífica virada: o personagem principal, até então interpretado por Pullman acaba preso e, na cadeia, transforma-se no jovem Balthazar Getty (!?!), isso mesmo, outro ator, outro personagem, com outro nome e outra história!
A partir daí, vemos ele se cruzar com outros personagens, alguns podem ou não pertencer a mesma história do início, como Patrícia Arquette (mais deliciosa do que nunca) que antes era a esposa (e morena), mas então reaparece como amante de um gangster (e loira).
O gangster em questão (Robert Loggia), homem violento e bruto, não se dá conta, no início do caso entre o jovem e sua amante. Todavia, Lynch nos faz presumir e sentir que, no clima soturno e obscuro que envolve mesmo os acontecimentos mais banais, algo de terrível está prestes a acontecer.
Tal pressentimento é reforçado graças à presença amedrontadora e antológica do Homem Misterioso, interpretado com predicados extraordinários por Robert Burke: Uma presença em cena que nos instiga e abre o leque de possibilidades de sua trama a medida que ela vai se fragmentando mais e mais entre memórias efusivas, delírios e dimensões paralelas.
Ou não. 
Lynch até dá algumas pistas, deixando suspensa a ilusão de que elas podem ajudar a elucidar esse quebra-cabeça, mas a sensação, ao final deste filme magistral, provavelmente será a impressão enevoada que se tem ao despertar de um sonho, cujo significado nos escapa por completo.