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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Ligeiramente Grávidos


O filme responsável por revelar o ator Seth Rogen, o talentoso diretor de comédias Judd Apatow –tão mais notável pela rara demanda de talentos genuínos para esse gênero que Hollywood possui –e por promover uma aparentemente auspiciosa transição (que não se concretizou) da bela atriz Katherine Keigl da TV (onde fazia o seriado “Grey’s Anatomy”) para o cinema é, com mérito, considerado um dos melhores da década de 2000-2010.
Ilustra com propriedade a máxima de que a mais simples história pode adquirir ares notáveis desde que realizada com habilidade.
No caso, não existe qualquer intenção de inovação na trama que une romance e comédia, a respeito de dois indivíduos incompatíveis, mas cujos caminhos se cruzam num enlace afetivo –uma comédia romântica, veja só!; Ben (Rogen, extremamente carismático) é um maconheiro de 23 anos que mal se dá conta de que deixou a adolescência.
Alisson (Heigl, linda e interessante) é funcionária de uma rede de TV, bela, ambiciosa e não raro com olhos só para o trabalho.
Após uma noite de bebedeira onde ela comemora uma aguardada promoção e ele, junto dos amigos alienados, faz o de sempre, esse improvável casal descobre que tem pelo menos uma coisa em comum: Eles terão juntos um filho!
Nos hilários nove meses que se seguem à gestação, eles irão descobrir cada qual as responsabilidades da paternidade, os contra-tempos da vida a dois, e encontrarão, inesperadamente, carinho e companheirismo um no outro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Trovão Tropical

O grande problema de Ben Stiller como diretor –função iniciada nos anos 1990, com “Caindo Na Real”, com Winona Ryder –é sua vontade de fazer demais: Ele incrementa tanto a narrativa que lhe poda a objetividade.
Dentre seus trabalhos atrás das câmeras –entre os quais existem alguns títulos consideráveis –o melhor e mais acertado talvez seja “Trovão Tropical”, sobretudo, porque seu humor se constrói sobre uma série de ocorrências inesperadas e genuinamente hilárias.
Com sacadas assim já se inicia o filme. Uma série de trailers falsos parodiam o que já era em si uma paródia, com filmes impraticáveis como “O Rei do Peidaço” (!), uma versão ainda mais esculachada e escatológica de “O Professor Aloprado”, com Eddie Murphy, estrelada pelo personagem de Jack Black (inspirado, segundo consta, no falecido Chris Farley); “O Beco de Satã”, uma sátira de todos os clichês de dramalhões sérios com o exageradamente dedicado ator vivido (brilhantemente) por Robert Downey Jr. e ainda com uma ponta de Tobey Maguire (ao lado de quem Downey Jr. fez “Garotos Incríveis”). Para finalizar, o próprio Ben Stiller aparece como o astro (remetendo à Sylvester Stallone) de uma série interminável, repetitiva e absurda de filmes de ação, “Scorcher”, que já está em sua sexta parte (!).
Mal atingiu seus primeiros quinze minutos e o filme de Stiller já se revela assim demolidor para com os contumazes reflexos involuntários da fútil Hollywood.
Muito mais virá: Todos os astros mostrados nos trailers (e mais o rapper Alpha Chino –que vive injuriado com a confusão da pronúncia de seu nome soar como Al Pacino!) cada um ao seu modo enfrentando um princípio de decadência, sem vêem reunidos num mesmo projeto de filme de guerra –que, de início, já satiriza a cena clássica de “Platoon” –inspirado nas memórias de um ex-combatente do Vietnam (Nick Nolte). Sem conseguir o realismo desejado, o perplexo diretor (vivido por Steve Coogan, de “Philomena”), pressionado pelos engravatados do estúdio –entre os quais, o executivo boca-suja, desprezível e incontrolável vivido magnificamente por um irreconhecível Tom Cruise –decide levar seu elenco para a selva a fim de promover uma experiência real.
Contudo, o diretor morre explodido por uma mina terrestre (!), deixando-os abandonados na selva com armas reais e à mercê de verdadeiros inimigos armados. E os atores, celebridades alienadas e fúteis, julgando tratar-se de um daqueles laboratórios de filmagem que simulam uma realidade, mal se dão conta da encrenca em que se meteram.
O elenco se diverte tanto quando o expectador nesta comédia destruidora sobre as engrenagens do cinema, que debocha de tudo e não perdoa absolutamente nada, nem ninguém: A tiração de sarro implacável vai desde os coadjuvantes (pena que o intratável e engraçadíssimo agente vivido por Matthew McConaughey aparece tão pouco) até os protagonistas que incluem o hilário australiano Kirk Lazarus (e Downey Jr. está realmente ótimo), cuja dedicação à arte da atuação o leva a escurecer a pele –ele que é loiro de olhos azuis! –para interpretar um negro (!) no filme dentro do filme (e sua interpretação para o modo como um negro se porta e fala é o extremo mais inacreditável de estereótipo a que se pode chegar!); Tugg Speedman o astro em busca de reconhecimento de Stiller (vítima de deboche dos colegas por cometer a ‘apelação’ de encarar um papel de retardado mental!); Jeff Portnoy (Jack Black), o ator viciado em heroína que vai passar poucas e boas com sua abstinência na selva; o rapper Alpha Chino (Brandon T. Jackson) que se ressente da atitude agressiva exigida dele devido à sua sensibilidade enrustida; e o figurante Kevin Sandusky (Jay Barruchel), que tenta manter um pouco de austeridade em meio à tanta gente desgovernada.
Como é de hábito, Ben Stiller como diretor é irrequieto e incansável: Ele incrementa cada segmento com referências, observações e detalhes. Seu filme tem citações e piadas desde as primeiras até as últimas cenas, não deixando espaço para o expectador recuperar o fôlego, e nem tampouco (no caso deste filme tão divertido quanto corajoso) para que os produtores de Hollywood, grande alvo de sua chacota, respirem aliviados.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Menina de Ouro

O filme de Clint Eastwood surgiu discretamente, aparentando de arrancada uma semelhança bastante grande com “Girlfight”, um trabalho independente da diretora Karyn Kusama, estrelado por Michelle Rodriguez (de “Velozes e Furiosos”) e lançado alguns anos antes.
Entretanto, “Menina de Ouro” foi pouco a pouco arregimentando admiradores que enfatizavam a guinada brusca, dramática e magnífica que a trama sofria em seu terceiro ato e que só aprofundava os relacionamentos e as questões íntimas já muito bem construídas pelo roteiro austero e objetivo de Paul Hagis e pela direção de Eastwood. E ainda lançava o filme numa outra reflexão completamente diferente e inesperada.
Quando o filme começa, Eastwood lança seu olhar –carregado de empatia e de parcimônia para com os pormenores mais simples –sobre a vida de Maggie (Hillary Swank, vencedora do Oscar de Melhor Atriz), uma garota pobre, porém determinada a freqüentar uma academia de boxe e, se possível, fazer sucesso como uma lutadora campeã.
Para tanto, ela insiste na tentativa de ser treinada pelo dono do lugar, Frankie Dunn (Clint Eastwood), uma espécie de descobridor de talentos do pugilismo. Mas, Frankie não vê futuro numa moça com talento para o boxe –um esporte predominantemente masculino –e o pouco de receptividade que Maggie consegue vem de Eddie ‘Scrap’ Dupris (Morgan Freeman, que ganhou aqui seu único Oscar até então, de Melhor Ator Coadjuvante), o zelador do ginásio que tem com Frankie uma relação de implicante convivência típica dos homens de idade avançada que nutrem profunda ligação afetiva.
O filme de Eastwood até aí se constrói com solidez como um drama bem conduzido, prazeroso e envolvente sobre personagens comuns unidos por compatibilidade e por um amor de natureza mundana, sem arroubos sentimentais, mas nem por isso menos belo.
Todavia, há um crescendo notável na narrativa quando, após muita perseverança, Frankie cede em treinar Maggie, e ela rapidamente se destaca nos ringues chegando a disputar o título de campeã de pesos-médios. Soa quase como uma sacada de gênio, quando uma fatalidade inesperada muda o rumo das coisas e dá um novo enfoque ao relacionamento dos dois e conduz a trama de Frankie e Maggie num gênero completamente diverso.
“Menina de Ouro” acaba sendo não apenas um tributo e um testemunho à maturidade de Clint Eastwood como cineasta, mas também uma obra singular que leva o espectador por meio da subversão de suas próprias expectativas, a uma profunda discussão sobre a eutanásia, num trabalho tão ou até mais contundente do que o ótimo filme espanhol “Mar Adentro”, lançado naquele mesmo ano.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Regras da Atração

As tentativas de tradução das obras do escritor Brett Easton Ellis para o cinema até por volta de 2003 não foram felizes em capturar aquilo que de fato as fazia singular: A verve e a narrativa audaz, plena de cinismo e conhecimento prático do mundo pernicioso de seus personagens.
Esses filmes (“Abaixo de Zero” e “Psicopata Americano”) contentavam-se em transpor sem maiores arroubos de estilo as tramas que o texto discorria, ignorando o fato de que era a linguagem que fazia o seu diferencial.
Isso mudou com “Regras da Atração”.
Cheio de energia e inconformismo do ponto de vista narrativo, esta obra conta sua história por meio de uma sucessão de cenas magníficas, atrevidas, inusitadas e brilhantes –minha preferida, apesar da excelência de todas as outras, é o momento em que o casal protagonista (talvez no único momento em que se encontram no filme) fica em frente um do outro, com a tela dividida no close de cada um, e então as câmeras fazem um movimento sincronizado e se fundem, num efeito sensacional!
Mas, vamos à trama propriamente dita: Anos 1980. O jovem e niilista Sean Bateman (James Van Der Beek, num papel com ousadia o suficiente para afastá-lo da imagem de ídolo adolescente da série “Dawson’s Creek”) é o fornecedor de drogas do campus. Cético e cínico quanto a tudo, ele deixa-se afetar pelas cartas de amor que recebe de uma admiradora anônima que, ele suspeita, ser a levemente desajustada Lauren (Shannyn Sossamon, luminosa), esta, por sua vez, espera seu suposto namorado Victor (Kip Pardue), voltar da Europa.
Nesse meio tempo sua assanhada colega de quarto (Jessica Biel, absurdamente linda e fútil) pode jogar charme para cima de seu pretendente, bem como o atirado homossexual Paul (Ian Somerhalder, numa interpretação audaciosa).
Subversivo este filme acompanha a vida diária dos "habitantes" de uma universidade norte-americana com sua cronologia embaralhada, dividida entre as festas realizadas ao longo das semanas pelos alunos, que recebem deles os nomes mais estranhos. A cada sequência surge um novo narrador apresentando um novo ponto de vista de desenlaces que vão do cômico ao trágico. O resultado de tal atrevimento narrativo é devastador.
Acumulando com perícia as funções de diretor e roteirista, Roger Avery (que dividiu o Oscar de Melhor Roteiro Original com Quentin Tarantino por “Pulp Fiction”) compôs uma obra de intenções ambíguas, que inclusive permanecem ambíguas na mente do expectador muito tempo depois do desconcertante e imprevisto final –afinal, aquelas tragédias ocorridas com o trio principal, mostradas no início do filme pouco antes do flashback, aconteceram de fato?