quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Força Maior


 É a partir de uma ideia espantosamente simples que o filme de Ruben Östlund (de “Triângulo da Tristeza”) se desenvolve. No entanto, uma vez estabelecida as linhas gerais dessa ideia, o roteiro e a direção, num refinamento raro, constroem um conto sobre cumplicidade, sobre responsabilidade em conjugação com os mais básicos instintos humanos, resultando numa obra inesperadamente bem-humorada, pontual em sua dramaturgia e surpreendente na reflexão que oferece ao público.

Tudo começa com uma simples viagem de férias de uma família sueca de classe média-alta para os Alpes Franceses. Formada pelo pai, Tomas (Johannes Kuhnke), a mãe Ebba (Lisa Loven Kongsli, de “Mulher-Maravilha”) e os dois filhos pequenos, Harry e Vera (os irmãos na vida real Vincent e Clara Wettergren), a família não poderia ser mais comum –turistas usufruindo do luxo que o hotel tem a oferecer.

É na ocasião de um mero café da manhã que tudo parece, subitamente, mudar: Uma avalanche repentina pega de surpresa os hóspedes instalados na varanda. A avalanche (num plano de câmera formidável capturado em um único take) irrompe por sobre todos eles e, enquanto Ebba se joga sobre os dois filhos, Tomas instintivamente foge do local para, com um certo constrangimento, retornar como se não fosse nada, depois que a avalanche se revela inofensiva, diferente do que tinha aparentado. Contudo, nas horas e dias que se seguem, o constrangimento vai dando lugar a um outro tipo de sentimento, tão sufocante quanto irreprimível.

Incapaz de aceitar o comportamento do marido –tornado ainda mais insustentável pelo fato dele, mais tarde, tentar contornar a situação para benefício próprio –Ebba verbaliza o ocorrido na companhia de uma amiga, Charlotte (Karin Myrenberg Faber) e seu affair americano (Brady Colbert, de “Violência Gratuita” e “Mistérios da Carne”). Tomas foi impelido a fugir do perigo, e nesse gesto de auto-preservação, o bem-estar da esposa e dos filhos ficou em segundo plano, e por essa razão Ebba se ressente.

As férias estão arruinadas e, por essa razão, o casal já não é capaz de resgatar a harmonia de antes.

Mesmo quando outro casal surge em cena (formado por Kristofer Hivju, da série “Game of Thrones” e Fanni Metelius), a celeuma a respeito da atitude de Tomas volta a assombrá-los. O homem até tenta, sem muita convicção, justificar a covardia de Tomas, afirmando que, quando confrontado com um medo primitivo, o ser humano pode reagir defendendo sua própria integridade sem medir as prioridades como o amor pela família. A justificativa não apenas soa vazia, como também não impede, esse outro casal, de ter, ele mesmo, sua própria discussão, mais tarde, onde acabam revendo a relação.

Embora haja na direção de Östlund um tom de observação antropológico que, em sua falta de piedade, lembre as experiências de Michael Haneke, um dos elementos que fazem de “Força Maior” uma obra tão sensacional é a magnífica percepção de humor presente na sua reflexão (potencializada no emprego do 3º Movimento do “Verão” das “Quatro Estações”, de Vivaldi, na trilha sonora), transformando num saboroso exercício de análise comportamental e conjugal, uma premissa que nas mãos de algum outro diretor poderia perfeitamente pender para o desnecessariamente dramático e comiserativo.

Em tempo: No ano de 2020, foi realizada uma refilmagem norte-americana de “Força Maior”, intitulada “Downhill”, com Will Ferrell e Julia Louis-Dreyfus, como é de se presumir, incapaz de se equiparar, com sua comédia rasteira, à maestria e à excelência desta obra européia.

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