É a partir de uma ideia espantosamente simples que o filme de Ruben Östlund (de “Triângulo da Tristeza”) se desenvolve. No entanto, uma vez estabelecida as linhas gerais dessa ideia, o roteiro e a direção, num refinamento raro, constroem um conto sobre cumplicidade, sobre responsabilidade em conjugação com os mais básicos instintos humanos, resultando numa obra inesperadamente bem-humorada, pontual em sua dramaturgia e surpreendente na reflexão que oferece ao público.
Tudo começa com uma simples viagem de férias de
uma família sueca de classe média-alta para os Alpes Franceses. Formada pelo
pai, Tomas (Johannes Kuhnke), a mãe Ebba (Lisa Loven Kongsli, de “Mulher-Maravilha”) e os dois filhos pequenos, Harry e Vera (os irmãos na vida real
Vincent e Clara Wettergren), a família não poderia ser mais comum –turistas
usufruindo do luxo que o hotel tem a oferecer.
É na ocasião de um mero café da manhã que tudo
parece, subitamente, mudar: Uma avalanche repentina pega de surpresa os
hóspedes instalados na varanda. A avalanche (num plano de câmera formidável
capturado em um único take) irrompe
por sobre todos eles e, enquanto Ebba se joga sobre os dois filhos, Tomas
instintivamente foge do local para, com um certo constrangimento, retornar como
se não fosse nada, depois que a avalanche se revela inofensiva, diferente do
que tinha aparentado. Contudo, nas horas e dias que se seguem, o
constrangimento vai dando lugar a um outro tipo de sentimento, tão sufocante
quanto irreprimível.
Incapaz de aceitar o comportamento do marido –tornado
ainda mais insustentável pelo fato dele, mais tarde, tentar contornar a
situação para benefício próprio –Ebba verbaliza o ocorrido na companhia de uma
amiga, Charlotte (Karin Myrenberg Faber) e seu affair americano (Brady Colbert, de “Violência Gratuita” e “Mistérios da Carne”). Tomas foi impelido a fugir do perigo, e nesse gesto de auto-preservação,
o bem-estar da esposa e dos filhos ficou em segundo plano, e por essa razão
Ebba se ressente.
As férias estão arruinadas e, por essa razão, o
casal já não é capaz de resgatar a harmonia de antes.
Mesmo quando outro casal surge em cena (formado
por Kristofer Hivju, da série “Game of Thrones” e Fanni Metelius), a celeuma a
respeito da atitude de Tomas volta a assombrá-los. O homem até tenta, sem muita
convicção, justificar a covardia de Tomas, afirmando que, quando confrontado
com um medo primitivo, o ser humano pode reagir defendendo sua própria
integridade sem medir as prioridades como o amor pela família. A justificativa
não apenas soa vazia, como também não impede, esse outro casal, de ter, ele
mesmo, sua própria discussão, mais tarde, onde acabam revendo a relação.
Embora haja na direção de Östlund um tom de
observação antropológico que, em sua falta de piedade, lembre as experiências
de Michael Haneke, um dos elementos que fazem de “Força Maior” uma obra tão
sensacional é a magnífica percepção de humor presente na sua reflexão (potencializada
no emprego do 3º Movimento do “Verão” das “Quatro Estações”, de Vivaldi, na
trilha sonora), transformando num saboroso exercício de análise comportamental
e conjugal, uma premissa que nas mãos de algum outro diretor poderia
perfeitamente pender para o desnecessariamente dramático e comiserativo.
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