sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A Suprema Felicidade


 Expectadores um pouco mais jovens talvez lembrem do falecido Arnaldo Jabor mais como um comentarista esportivo e político do canal Globo do que como o cineasta, papel que ele desempenhou, e pelo qual ficou conhecido lá pelos anos 1970 e 80, com obras como “Toda Nudez Será Castigada” e “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Com o golpe para a produção cinematográfica brasileira que foi a extinção da Embrafilme no início dos anos 1990, ele (como tantos outros profissionais da área) teve de abandonar o cinema por um tempo e ganhar dinheiro de outras formas. Diferente de outros profissionais, no entanto, Arnaldo não aproveitou o movimento da Retomada, que se iniciou logo naquele período, para voltar ao cinema; Arnaldo acabou aderindo de uma vez à persona que aparecia, vez ou outra, nos telejornais, destilando comentários ácidos.

Isso durou até 2010, quando ele enfim resolveu voltar em grande estilo para as telas de cinema, desta vez, entregando aquele que pode ser visto como seu “Amarcord” –um registro cheio de nostalgia e transfigurado de licenças poéticas de sua juventude.

É curioso que possa ser estabelecido, também, um paralelo entre “A Suprema Felicidade” e o semi-biográfico e amalucado “A Dança da Realidade”, de Alejandro Jodorowsky, lançado em 2013, três anos depois deste daqui, em relação à personagem da mãe: Interpretada pela inebriante Mariana Lima, a mãe (tal e qual no filme de Jodorowsky, ainda que com menos radicalismo) surge nua em diversas cenas (!), protagoniza algumas sequências musicais de pontual importância à narrativa e surge, em sua inapelável candura, como um contraponto exato à truculência paterna.

Acompanhamos aqui a infância (e depois adolescência e, em seguida, início da vida adulta) de Paulo, interpretado em suas três fases distintas por três atores diferentes: Aos 8 anos, pelo pequeno Caio Manhente; aos 13, por Michel Joelsas (de “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”) e, por volta dos 19, por Jayme Matarazzo. Longe de obedecer alguma cronologia, a trama vai e vem no tempo, oscilando entre diferentes momentos da vida de Paulo. Começa quando, ainda na infância, ele testemunha os percalços do pai (Dan Stubach), oficial do exército, durante a Segunda Guerra Mundial, e a frustração subsequente que acabou o consumindo de nunca ter tido a oportunidade para pilotar um avião. Ocasionalmente, a narrativa salta para a adolescência, quando, às voltas com o bullying do colégio católico em que estudou, ele passou a questionar algumas das doutrinas cristãs que lhe foram ensinadas. Mais tarde, muitos desdobramentos de sua vida e da vida de outros personagens encontrarão algum arremate, mesmo que desajeitado, quando ele irá se apaixonar pela stripper do cabaré El Dorado, mesmo lugar onde ele reencontra o pai, após um período de afastamento.

Não há dúvida de que Arnaldo Jabor evoca a obra ímpar de Federico Fellini na atmosfera quase mágica com a qual declama seu saudosismo e sua nostalgia do início ao fim, lançando mão, inclusive, de uma galeria de figuras excêntricas, caricatas e memoráveis extraídas certamente de suas memórias: O mendigo colecionador de livros velhos e revistas usadas (Emiliano Queiroz); o pipoqueiro de comentários divertidíssimos e libidinosos (João Miguel); o padre que professava exultante e carnavalesco os dogmas religiosos em sala de aula (Ary Fontoura); os parentes da mãe, moradores de uma casa onde a maioria dos hóspedes eram cegos (!!!); a avó espalhafatosa e macarrônica (a saudosa Elke Maravilha) –nenhum desses personagens, entretanto, se sobressai mais, em carinho e evidência, do que o do avô, vivido com brilho inconteste por Marco Nanini.

É o avô, desde quando Paulo era criança que, na falta de um pai que fosse atencioso e acolhedor, conduz Paulo às primeiras saídas noturnas, à descoberta de toda uma vida boêmia à pulsar pela noite afora, onde era ouvida música e onde eram discutidos sentimentos como o amor mundano pelas mulheres e a nem sempre harmoniosa relação com elas.

Arnaldo Jabor ficou mais de vinte anos sem filmar, e isso é sentido na tela: Na mescla irregular de gênero que ele almeja costurar na particularidade das suas reminiscências; no ritmo irregular e demasiado ininterrupto que ele imprime aos segmentos; e no manejo desordenado de muitos personagens com seus arcos dramáticos à pairar sem muito cuidado para lá e para cá no enredo. A despeito desses lapsos que minam constantemente o interesse do expectador durante toda sua (longa) duração, “A Suprema Felicidade” ainda conserva elementos fascinantes, envolvente e cativantes para torná-lo uma obra a ser destacada.

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