Expectadores um pouco mais jovens talvez lembrem do falecido Arnaldo Jabor mais como um comentarista esportivo e político do canal Globo do que como o cineasta, papel que ele desempenhou, e pelo qual ficou conhecido lá pelos anos 1970 e 80, com obras como “Toda Nudez Será Castigada” e “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Com o golpe para a produção cinematográfica brasileira que foi a extinção da Embrafilme no início dos anos 1990, ele (como tantos outros profissionais da área) teve de abandonar o cinema por um tempo e ganhar dinheiro de outras formas. Diferente de outros profissionais, no entanto, Arnaldo não aproveitou o movimento da Retomada, que se iniciou logo naquele período, para voltar ao cinema; Arnaldo acabou aderindo de uma vez à persona que aparecia, vez ou outra, nos telejornais, destilando comentários ácidos.
Isso durou até 2010, quando ele enfim resolveu
voltar em grande estilo para as telas de cinema, desta vez, entregando aquele
que pode ser visto como seu “Amarcord” –um registro cheio de nostalgia e
transfigurado de licenças poéticas de sua juventude.
É curioso que possa ser estabelecido, também,
um paralelo entre “A Suprema Felicidade” e o semi-biográfico e amalucado “A Dança da Realidade”, de Alejandro Jodorowsky, lançado em 2013, três anos depois deste
daqui, em relação à personagem da mãe: Interpretada pela inebriante Mariana
Lima, a mãe (tal e qual no filme de Jodorowsky, ainda que com menos
radicalismo) surge nua em diversas cenas (!), protagoniza algumas sequências
musicais de pontual importância à narrativa e surge, em sua inapelável candura,
como um contraponto exato à truculência paterna.
Acompanhamos aqui a infância (e depois
adolescência e, em seguida, início da vida adulta) de Paulo, interpretado em
suas três fases distintas por três atores diferentes: Aos 8 anos, pelo pequeno
Caio Manhente; aos 13, por Michel Joelsas (de “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”) e, por volta dos 19, por Jayme Matarazzo. Longe de obedecer alguma
cronologia, a trama vai e vem no tempo, oscilando entre diferentes momentos da
vida de Paulo. Começa quando, ainda na infância, ele testemunha os percalços do
pai (Dan Stubach), oficial do exército, durante a Segunda Guerra Mundial, e a
frustração subsequente que acabou o consumindo de nunca ter tido a oportunidade
para pilotar um avião. Ocasionalmente, a narrativa salta para a adolescência,
quando, às voltas com o bullying do colégio católico em que estudou, ele passou
a questionar algumas das doutrinas cristãs que lhe foram ensinadas. Mais tarde,
muitos desdobramentos de sua vida e da vida de outros personagens encontrarão
algum arremate, mesmo que desajeitado, quando ele irá se apaixonar pela stripper do cabaré El Dorado, mesmo
lugar onde ele reencontra o pai, após um período de afastamento.
Não há dúvida de que Arnaldo Jabor evoca a obra ímpar de Federico Fellini na atmosfera quase mágica com a qual declama seu saudosismo e
sua nostalgia do início ao fim, lançando mão, inclusive, de uma galeria de
figuras excêntricas, caricatas e memoráveis extraídas certamente de suas
memórias: O mendigo colecionador de livros velhos e revistas usadas (Emiliano
Queiroz); o pipoqueiro de comentários divertidíssimos e libidinosos (João
Miguel); o padre que professava exultante e carnavalesco os dogmas religiosos
em sala de aula (Ary Fontoura); os parentes da mãe, moradores de uma casa onde
a maioria dos hóspedes eram cegos (!!!); a avó espalhafatosa e macarrônica (a
saudosa Elke Maravilha) –nenhum desses personagens, entretanto, se sobressai
mais, em carinho e evidência, do que o do avô, vivido com brilho inconteste por
Marco Nanini.
É o avô, desde quando Paulo era criança que, na
falta de um pai que fosse atencioso e acolhedor, conduz Paulo às primeiras
saídas noturnas, à descoberta de toda uma vida boêmia à pulsar pela noite
afora, onde era ouvida música e onde eram discutidos sentimentos como o amor mundano
pelas mulheres e a nem sempre harmoniosa relação com elas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário