Mostrando postagens com marcador Emmanuelle Riva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emmanuelle Riva. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Amor

Há algo de audacioso no fato de se intitular este filme como “Amor” –já deixando bem claro que este não é um romance, algo que o diretor austríaco Michael Haneke jamais faria.
Não são, de modo algum, os procedimentos e as etapas de evolução de um relacionamento amoroso o alvo do interesse de Haneke: O amor que ele vislumbra é aquele moldado ao longo de décadas de convívio, e que sofre um duro teste de fogo quando o casal formado por Jean Louis Trintignant e a saudosa Emmanuelle Riva se vê diante de um incontornável problema, depois que ela sofre as conseqüências de dois derrames simultâneos.
O marido deve então passar a cuidar dela, e testemunhar a mulher que ama definhar (e deixar de ser ela própria) dia após dia enquanto se vê aprisionada num corpo cujas funções motoras já não respondem mais aos seus comandos.
É o amor, portanto, convertido numa dedicação incondicional diante dos males atrozes e imprevistos da realidade (os quais Haneke faz tanta questão de ressaltar), e o mesmo amor que, mais tarde, será também a motivação que o levará a um ato radical visando uma certa libertação no último ato do filme –e que não chega a surpreender se tivermos em mente que este é o mesmo Michael Haneke cruel e implacável desde “O Sétimo Continente”.
Aliás, desde o início (que mostra bombeiros tentando invadir o apartamento do casal, e depois regride no tempo ao começo da trama) sabemos que as coisas não acabarão bem.
Esse simbolismo (o da interrupção abrupta da vida) é evidenciado por Haneke no emprego da música –nenhuma das que tocam no filme termina naturalmente; elas são todas, por alguma razão diferenciada, interrompidas: Em especial, a música que toca na grande cena do filme, na qual parece (mas, apenas parece...) que vemos o personagem de Trintignant ouvir a esposa tocar piano.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Liberdade É Azul

Para Krzysztof Kieslowski, a liberdade é de uma abstração tal que perdê-la (ou mesmo recuperá-la) depende quase que exclusivamente de um estado de espírito. Daí, talvez o fato de que este é, dentre os exemplares da ‘trilogia das cores’, o mais intimista. 
Em tons azuis onipresentes, de sussurro em sussurro, testemunhamos um acidente de carro, e a longa, lenta e dolorida recuperação da única sobrevivente: a personagem de Juliette Binoche. Logo, vamos descobrir que ela, assim como o falecido marido, é uma musicista. E que o projeto incompleto dele (uma composição em homenagem à Unificação Européia) ao parece, é uma incumbência que cabe somente a ela terminar. 
É, portanto, o processo de desvencilhar-se de todas as prisões do luto a grande questão do filme. Justamente por isso pode ser um pouco frustrante, para cinéfilos mais objetivos e desavisados, procurar por um sentido relativo ao título (em português): A liberdade, por assim dizer, não é um elemento que surge de forma literal na narrativa de Kieslowski. 
Ela também não é a única. 
Todos os princípios abordados ao longo da trilogia aparecem nos filmes sem distinção. Ou seja, liberdade, igualdade e fraternidade são questões discutidas nos três filmes. Mas, é claro que a liberdade ganha um outro enfoque aqui. Os personagens, conduzidos por Kieslowski, deixam-se distrair pelas banalidades cotidianas  enquanto marginalizam os momentos de significado, como o garoto no início, que ao ocupar-se com um brinquedo, acaba vendo o acidente só depois que aconteceu. Ou o torrão de açúcar, que captura de tal forma a atenção de Juliette, que todo o resto ao redor lhe perde a importância. 
Se há um fator de destaque, é a música (e não poderia ser mesmo diferente num filme em que a protagonista exerce a música como arte e como vocação), e isso abre espaço para Kieslowski trabalhar a trilha sonora, fundindo-a com a música que surge em cena, em composições que os personagens executam, ouvem, ou mesmo que idealizam em sua própria mente ao ler uma partitura. 
O mais triste dos exemplares de sua trilogia, “A Liberdade é Azul” iniciou com pompa esse projeto que Kieslowski abraçou nos anos 1990, e que terminou por marcar sua época.