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quarta-feira, 31 de julho de 2019

Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu

Com a possível exceção das artimanhas do grupo Monty Python, este é o filme inaugural das fases de comédias abiloladas, mais apoiadas em esquetes e gags visuais que propriamente na história. Ainda assim este filme tem um fio narrativo que orienta sua sequência de cenas a despeito dos filmes que vieram depois, cada vez mais aparados em referências a sucessos cinematográficos e outros filmes.
É, portanto, ao trio de roteiristas Jim Abrahams, Jerry Zucker e David Zucker que se deve a iniciativa da realização desta comédia hoje icônica ante o estilo que origina. Mais roteiristas do que realizadores (isto é, diretores e produtores), o trio responsável pelo show “The Kentucky Fried Theater” (logo convertido no longa-metragem para cinema “The Kentucky Fried Movie”) inspirou-se num filme dos anos 1950 intitulado “Entre A Vida e A Morte” para elaborar esta comédia: Parte do filão claudicante dos filmes-catástrofes, “Entre A Vida e A Morte” é aquele tipo de produção cujo tom pomposo das atuações, o clima geral de perigo e tensão somado às motivações da premissa soam ridículos nos dias de hoje.
A rigor, “Entre A Vida e A Morte” e “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu” têm a mesma trama: Um avião tripulado, repleto de passageiros enfrenta graves complicações em seu voo, quando sua tripulação sofre intoxicação alimentar (!). A esperança recai sobre os ombros de um dos passageiros, um ex-piloto que abandonou a aviação devido a um trauma do passado.
A diferença: Se “Entre A Vida e A Morte” foi uma produção pretensamente séria tornada uma comédia involuntária pelo efeito do tempo sobre suas caracterizações equivocadas, “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu” é, por sua vez, uma comédia completamente assumida, e que ainda por cima aproveitou a oportunidade para satirizar a nova onda de filmes-catástrofes dos anos 1970 de então, iniciada por produções como “Aeroporto” –com o qual, este filme estabelece similaridades propositais de objetivos satíricos.
Veterano de guerra, daqueles tipicamente abalados por suas experiências traumáticas (e não tenha dúvidas, esse pretexto também serve à tiração de sarro), o protagonista, Ted Striker, vivido por Robert Hays (de “Olhos de Gato”), toma um voo com destino a Chicago disposto a convencer sua amada, Elaine (Julie Hagerty), uma das comissárias de bordo, a reatar o namoro.
No decorrer da viagem, um peixe servido no jantar causa intoxicação na tripulação e em boa parte dos passageiros –algo que realmente ocorre em “Entre A Vida e A Morte” –comprometendo o voo que se encontra em pleno ar. A única pessoa a bordo apta para aterrissar o avião em segurança e salvar a vida de todos é Ted, desde que ele consiga superar os traumas do passado que criaram uma espécie de bloqueio que o impede de pilotar um avião.
Se algo na premissa sugere alguma seriedade, tanto em “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu” como em “Entre A Vida e A Morte” ela soa impagável de tão nonsense –o mais impressionante é o filme dos anos 1950 ostentar suas impressões de drama em torno de um enredo tão risível.
Já, o trabalho dos comediantes vai no sentido oposto: Ao conceber uma obra onde o elenco é orientado a expressar uma improvável seriedade, eles entregam uma produção frequentemente hilariante.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Ghost - Do Outro Lado da Vida

Ao enveredar por um projeto solo, o diretor Jerry Zucker (outrora famoso por sua colaboração com o irmão David Zucker e com Jim Abrahams nas comédias rasgadas “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu 1” e “2”) saiu-se com uma obra das mais inesperadas: Um romance mediúnico, por assim dizer, mais terno e gracioso do que engraçado, pleno em seu romantismo (potencializado pela canção “Unchained Melody”) ao mesmo tempo que econômico em sua comédia (ainda que o humor esteja lá, em momentos que encontram sua intensidade, graças, sobretudo à Whoopy Goldberg, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
Sinônimo de bilheteria na época, o hábil galã Patrick Swayze vive Sam, um rapaz morto em um assalto onde é baleado acidentalmente. Entretanto, seu espírito permanece junto da garota amada, Molly (Demi Moore, curiosamente, antes de virar um furacão sexual nos anos 1990, após “Proposta Indecente”).
Com essa manobra, o afiado, direto e (para a época) originalíssimo roteiro de Bruce Joel Rubin (vencedor do Oscar) dá a guinada que o torna pertinente: A duras penas, Sam acaba aprendendo as idiossincrasias de ser um fantasma (como atravessar paredes, por exemplo) e descobre, imperceptível aos vivos, que seu assassinato foi planejado por seu suposto amigo Carl (Tony Goldwyn, cujo crédito mais expressivo é a dublagem do protagonista de “Tarzan”, da Disney), e que Molly pode ser a próxima vítima dos criminosos.
Para impedi-los ele precisa aprender com um fantasma experiente que assombra as instalações do metrô (vivido por Vincent Schiavelli) como tocar e mover as coisas, já que sua forma é intangível –e nessa oportunidade, a direção de Zucker encontra uma chance para moldar uma série de cenas intrépidas, galantes e líricas que registram o personagem em sua aventura. A única aliada de Sam (e a única que pode se comunicar com ele) é Oda Mae (Whoopi, realmente divertidíssima) uma golpista até então ignorante de sua capacidade mediúnica.
Grande sensação do início dos anos 1990, “Ghost”, com sua receita certeira e bem administrada de uma enxuta e objetiva trama paranormal aliada à avidez do público por um romance funcional (e, de fato, a química entre Swayze e Demi é um dos grandes achados do filme), foi um estrondoso sucesso de bilheteria, e foi também durante algum tempo, poderosamente influente: Não foram poucos os filmes e séries que, naqueles anos, fizeram referência ao seu bem sacado enredo básico.