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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ainda Estou Aqui


 A obra de Walter Salles, certamente o melhor trabalho de sua carreira, traz uma mensagem que nunca cessa de ser enviada: Aos expectadores do presente, jovens demais para conhecerem na pele, a realidade como ela de fato ocorreu, ele traz o testemunho de Eunice Facciolla Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva que, do dia para noite, no ano de 1975, foi levado de sua casa para nunca mais voltar. O contexto em que se insere este drama real é o do Brasil sob o jugo da Ditadura Militar, tema que já rendeu obras do cinema brasileiro como “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, “O Que É Isso, Companheiro?” e tantas outras.

Os primeiros trinta minutos de “Ainda Estou Aqui” são inesperadamente domésticos, tranquilos. A rotina feliz da Família Paiva composta pelo pai, Rubens (Selton Mello, sempre excelente), a mãe, Eunice (Fernanda Torres), e os cinco filhos, Vera (Valentina Herszage), Eliana (Luisa Kosovski), Ana Lúcia (Bárbara Luz), Marcelo (Guilherme Silveira) e Beatriz (Cora Mora), que vive num confortável subúrbio do Rio de Janeiro. Rubens é arquiteto o que provê a sua família uma condição estável e segura. No entanto, é o auge da perseguição militar aos dissidentes –e o governo militar surge mais truculento e autoritário do que nunca.

Não que Eunice e os filhos se dêem conta disso –a maior preocupação, nesta primeira parte, é mais a viagem que a a primogênita, Vera, fará à Inglaterra, onde irá morar com amigos da família. Há somente uma breve e aflitiva cena –certamente um vislumbre do que virá –quando, numa saída com amigos para ir ao cinema, a jovem junto de um grupo de amigos tem seu veículo interceptado numa blitz policial. A atividade dos revolucionários –focando inclusive no sequestro de figuras políticas proeminentes –está acirrando os ânimos das autoridades e, munidos de poder total e impunidade, eles se valem do sistema para sufocar e oprimir famílias inteiras. Mesmo aquelas que tentam ajudar sem aderir à qualquer tipo de violência.

Na calada da noite ou em conversas que aparentam ser triviais, Rubens discute as circunstâncias com alguns amigos (entre eles o personagem de Dan Stulbach). Nada que fique muito claro ao público, ou aos membros de sua família. Para todos os efeitos, Rubens é alguém afável, sossegado, paciente, amoroso e de fácil convívio. Nenhum desses adjetivos, porém, o livram de, um certo dia, receber uma estranha visita de homens armados e mal-encarados. Ele deve ser levado para interrogatório, dizem eles, e então, Eunice nunca mais vê o marido.

Tentativas de Eunice para elucidar a verdade, asfixiada pela angústia de não ter notícias, são severamente caladas: Ela e a filha Eliana são conduzidas a um quartel da polícia onde Eunice, por dias a fio, padece, tratada como uma criminosa, encarcerada sem direito à regalias básicas como água para tomar banho, e submetida a incessantes interrogatórios. Querem que ela aponte ligações de seu marido com conspiradores. Ela nada sabe.

Mais do que efetuar uma reconstituição de situações de enfrentamento político, onde as oposições são claras, verbalizadas e declaradas –como tantas vezes fez o diretor Costa-Gravas –Walter Salles prefere, em vez disso, focar no cotidiano familiar de Eunice, subitamente, transfigurado por uma circunstância dramática sem precedentes: Seu marido desapareceu, e embora as autoridades neguem até mesmo a prisão (o que transforma sua ausência num absurdo insólito) ela precisa seguir com a vida, cuidando dos filhos (os quais procura a todo o custo poupar da agonia extrema de vislumbrar tão imediatamente a morte sem justificativas do pai) e zelando pela casa e pela família –tarefa que vai se tornando quase impraticável a medida que o dinheiro vai faltando (uma vez que Rubens era o provedor, e ela estava proibida de declarar seu desaparecimento por lei, automaticamente não tinha como sacar dinheiro do banco para sanar necessidades básicas), enquanto o jugo opressor dos militares, ainda rondando o movimento de todos eles, vai se intensificando.

Um tanto longo –pelo menos uns vinte minutos de sua extensa duração poderia terem sido enxugados numa edição mais criteriosa –a obra de Walter Salles, adaptada do livro de Marcelo Rubens Paiva, dedicado ao pai e à mãe, parece dispender um tempo desmedido para processar a sensação de luto que permeia sua narrativa desde o momento em que o personagem de Selton Mello desaparece até o final. Como em outros filmes seus, nem sempre as opções de Salles se harmonizam com o potencial plenamente atingido de seu trabalho, mas ele conta uma história deveras poderosa demais para que detalhes tão pequenos venham a interferir.

E ele ainda tem Fernanda Torres –atriz ganhadora já de outros prêmios internacionais (um que sempre me vem à lembrança é o de Melhor Atriz em Cannes por “Eu Sei Que Vou Te Amar”, ainda em 1986), Fernanda fornece um registro estupendo da celeuma gradual que contamina Eunice conforme ela se dá conta de que o pior aconteceu e, ainda assim, precisa ser o suporte da família e não extravasar sua tristeza perante os filhos. Um belíssimo trabalho de uma das grandes atrizes do cinema nacional (ela, que ainda divide a personagem com sua própria mãe, Fernanda Montenegro, a interpretar Eunice já idosa na sequência final) digno de todas as ovações que vem recebendo.

sábado, 21 de novembro de 2015

Que Horas Ela Volta?

Gratificante é a palavra que mais me ocorre ao pensar neste belo trabalho do nosso cinema. É claro, que o cinema nacional não se equipara ao brilhantismo e à sofisticação do cinema feito na Argentina, por exemplo, mas é ótimo conferir uma obra que prova a excelência à que podemos almejar.
No início, "Que Horas Ela Volta?" tem todos aqueles maneirismos incômodos do cinema independente e marginal de autor, com aqueles takes abstratos, onde ângulos de câmera parecem posicionados para captar o mais absoluto nada (e a prova dessa identificação foi a aclamada -e não menos merecida -premiação no Festival de Sudance, berço dos filmes independentes), logo, contudo, a história e suas personagens e o bom trabalho da diretora Anna Muylaert começam a nos cativar.
Val é empregada doméstica de uma família de classe alta paulista a mais de uma década. Nesse período, ela praticamente criou o filho da patroa, Flavinho, enquanto chora as saudades da filha, Jessica, que deixou  no nordeste, mas para quem sempre envia dinheiro.
Um belo dia, Jessica (que pretende prestar vestibular) vai visitá-la, e acaba, por alguns dias, ficando na casa dos patrões da mãe (já que ela mora no próprio serviço), até que possam resolver a situação e encontrar lugar para morar.
É exatamente a partir daí que o filme elabora interessantes e pertinentes situações a respeito do estado das coisas, das divisões sociais de classe, e dos comportamentos humanos, mascarados muitas vezes por protocolos que impedem (ou ajudam) as pessoas a esconder aquilo que são.
Jessica, por exemplo, não tem um pingo da subserviência da mãe e, feito um furacão, acaba abalando muito do status quo que parecia petrificado naquela residência: Ela convence os patrões da própria mãe a lhe ceder o quarto de hóspedes, e essa é só a primeira coisa que faz ao chegar.
Não funcionaria se o seu elenco não fosse magnífico: Regina Casé está sensacional, e faz jus a todo o falatório em torno de sua interpretação (inclusive considerada para muitos prêmios), como Val, ela consegue ser luminosa, encantadora e genuíuna, jamais caindo no sentimentalista ou no melodramático. Igualmente surpreendente é a jovem e pouco conhecida Camila Márdila, talvez a verdadeira força do elenco, apesar da poderosa presença de Regina, e que surpresa poder ver, irreconhecível, o jovem Michel Joelsas (o garotinho do ótimo "O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias") agora quase um moço.
No fim, "Que Horas Ela Volta?" deixa uma sensação muito agradável, de um filme que cumpriu plenamente seu dever e seu objetivo: Oferecer uma admirável discussão sobre as desigualdades (e percepções) sociais, emocionar o público com uma história bela e bem contada, e entregar uma obra de cinema, caprichada em todo e qualquer aspecto.
Não há porque pedir mais do que isso.