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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ainda Estou Aqui


 A obra de Walter Salles, certamente o melhor trabalho de sua carreira, traz uma mensagem que nunca cessa de ser enviada: Aos expectadores do presente, jovens demais para conhecerem na pele, a realidade como ela de fato ocorreu, ele traz o testemunho de Eunice Facciolla Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva que, do dia para noite, no ano de 1975, foi levado de sua casa para nunca mais voltar. O contexto em que se insere este drama real é o do Brasil sob o jugo da Ditadura Militar, tema que já rendeu obras do cinema brasileiro como “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, “O Que É Isso, Companheiro?” e tantas outras.

Os primeiros trinta minutos de “Ainda Estou Aqui” são inesperadamente domésticos, tranquilos. A rotina feliz da Família Paiva composta pelo pai, Rubens (Selton Mello, sempre excelente), a mãe, Eunice (Fernanda Torres), e os cinco filhos, Vera (Valentina Herszage), Eliana (Luisa Kosovski), Ana Lúcia (Bárbara Luz), Marcelo (Guilherme Silveira) e Beatriz (Cora Mora), que vive num confortável subúrbio do Rio de Janeiro. Rubens é arquiteto o que provê a sua família uma condição estável e segura. No entanto, é o auge da perseguição militar aos dissidentes –e o governo militar surge mais truculento e autoritário do que nunca.

Não que Eunice e os filhos se dêem conta disso –a maior preocupação, nesta primeira parte, é mais a viagem que a a primogênita, Vera, fará à Inglaterra, onde irá morar com amigos da família. Há somente uma breve e aflitiva cena –certamente um vislumbre do que virá –quando, numa saída com amigos para ir ao cinema, a jovem junto de um grupo de amigos tem seu veículo interceptado numa blitz policial. A atividade dos revolucionários –focando inclusive no sequestro de figuras políticas proeminentes –está acirrando os ânimos das autoridades e, munidos de poder total e impunidade, eles se valem do sistema para sufocar e oprimir famílias inteiras. Mesmo aquelas que tentam ajudar sem aderir à qualquer tipo de violência.

Na calada da noite ou em conversas que aparentam ser triviais, Rubens discute as circunstâncias com alguns amigos (entre eles o personagem de Dan Stulbach). Nada que fique muito claro ao público, ou aos membros de sua família. Para todos os efeitos, Rubens é alguém afável, sossegado, paciente, amoroso e de fácil convívio. Nenhum desses adjetivos, porém, o livram de, um certo dia, receber uma estranha visita de homens armados e mal-encarados. Ele deve ser levado para interrogatório, dizem eles, e então, Eunice nunca mais vê o marido.

Tentativas de Eunice para elucidar a verdade, asfixiada pela angústia de não ter notícias, são severamente caladas: Ela e a filha Eliana são conduzidas a um quartel da polícia onde Eunice, por dias a fio, padece, tratada como uma criminosa, encarcerada sem direito à regalias básicas como água para tomar banho, e submetida a incessantes interrogatórios. Querem que ela aponte ligações de seu marido com conspiradores. Ela nada sabe.

Mais do que efetuar uma reconstituição de situações de enfrentamento político, onde as oposições são claras, verbalizadas e declaradas –como tantas vezes fez o diretor Costa-Gravas –Walter Salles prefere, em vez disso, focar no cotidiano familiar de Eunice, subitamente, transfigurado por uma circunstância dramática sem precedentes: Seu marido desapareceu, e embora as autoridades neguem até mesmo a prisão (o que transforma sua ausência num absurdo insólito) ela precisa seguir com a vida, cuidando dos filhos (os quais procura a todo o custo poupar da agonia extrema de vislumbrar tão imediatamente a morte sem justificativas do pai) e zelando pela casa e pela família –tarefa que vai se tornando quase impraticável a medida que o dinheiro vai faltando (uma vez que Rubens era o provedor, e ela estava proibida de declarar seu desaparecimento por lei, automaticamente não tinha como sacar dinheiro do banco para sanar necessidades básicas), enquanto o jugo opressor dos militares, ainda rondando o movimento de todos eles, vai se intensificando.

Um tanto longo –pelo menos uns vinte minutos de sua extensa duração poderia terem sido enxugados numa edição mais criteriosa –a obra de Walter Salles, adaptada do livro de Marcelo Rubens Paiva, dedicado ao pai e à mãe, parece dispender um tempo desmedido para processar a sensação de luto que permeia sua narrativa desde o momento em que o personagem de Selton Mello desaparece até o final. Como em outros filmes seus, nem sempre as opções de Salles se harmonizam com o potencial plenamente atingido de seu trabalho, mas ele conta uma história deveras poderosa demais para que detalhes tão pequenos venham a interferir.

E ele ainda tem Fernanda Torres –atriz ganhadora já de outros prêmios internacionais (um que sempre me vem à lembrança é o de Melhor Atriz em Cannes por “Eu Sei Que Vou Te Amar”, ainda em 1986), Fernanda fornece um registro estupendo da celeuma gradual que contamina Eunice conforme ela se dá conta de que o pior aconteceu e, ainda assim, precisa ser o suporte da família e não extravasar sua tristeza perante os filhos. Um belíssimo trabalho de uma das grandes atrizes do cinema nacional (ela, que ainda divide a personagem com sua própria mãe, Fernanda Montenegro, a interpretar Eunice já idosa na sequência final) digno de todas as ovações que vem recebendo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Uma Escola Atrapalhada


 Durante a década de 1980, como já foi falado em outras ocasiões, os Trapalhões –formados por Didi (Renato Aragão), Dedé, Mussum e Zacarias –reinavam nas bilheterias nacionais. Seus filmes, feitos para toda a família, levavam multidões aos cinemas e essa tradição se manteve por muito tempo com praticamente uma produção lançada a cada ano. Entretanto, no final daquela década as coisas começaram a mudar; novos nomes emergentes do showbuziness brasileiro (com destaque para Xuxa, Gugu Liberato ou o Grupo Dominó...) passaram a dar as caras nos filmes dos Trapalhões, em princípio, como coadjuvantes de luxo, porém, mais e mais influentes e relevantes na trama a ponto de, em certo momento, suplantarem a importância do próprio quarteto, supostamente protagonista. O auge –ou seria, o cúmulo? –dessa circunstância chegou em “Uma Escola Atrapalhada”, filme lançado em 1990, que em alguns casos gerou indignação na plateia: Os expectadores que foram ao cinema conferir o filme na esperança de ver seus amados Trapalhões como personagens principais (afinal de contas, o adjetivo “atrapalhada” em seu título leva à essa constatação) se depararam com um filme sobre os jovens estudantes de uma escola carioca, às voltas com seus amores, rixas e contratempos diretamente relacionados à escola que frequentam –em suma, quase um embrião oitentista do que viria a ser, quase uma década depois, a novela juvenil “Malhação”.

Dos Trapalhões, contudo, há bem pouco: Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, como veremos mais a frente, são reduzidos aos usuais ‘alívios cômicos’ da obra tal é sua insignificância junto ao enredo.

E quem são os protagonistas? Bem, “Uma Escola Atrapalhada” não traz Xuxa, não traz Gugu Liberato (bem, traz, mas numa breve aparição), não traz o Grupo Dominó (em vez dele, é o Grupo Polegar...). O grupo de jovens estudantes que ocupam a maior parte do tempo da narrativa são vividos por jovens celebridades em ascensão daquele período. Em especial, Angélica –no papel de Tami –que era, então, a mais relevante ‘competidora’ de Xuxa como a mais amada apresentadora infantil do Brasil; e o cantor Supla –no papel de Carlão –cujo atitude parte rock’n roll, parte sufista calhorda, parte bad boy devia fazer a cabeça das meninas. Os dois são o casalzinho protagonista do filme dirigido à duras penas por Antonio Del Rangel (de “O Trapalhão Na Arca de Noé”). E quanto constatamos, de pronto, a incapacidade profunda que os dois têm para atuar, já concluímos o suplício que “Uma Escola Atrapalhada” será...

Tami é uma garota recém-chegada à nova escola do Rio de Janeiro e, por conta disso, seu mistério gera interesse e falatórios pelas dependências do lugar, antro povoado de alunos mimados, filhos de pais ricos, ávidos por posarem como rebeldes. Carlão é o típico exemplar disso: Imaturo, birrento, trajado em roupas estapafúrdias (até mesmo para os padrões dos anos 1980!), ele é irritante, apático e grosseiro –características que, devido ao fato de definirem o protagonista do filme, colocam tudo a perder. E além disso, somos obrigados a testemunhar um ‘pseudo-clipe’ estrelado por ele, besuntado em óleo (!?!).

O roteiro também em nada ajuda: Segue a velha fórmula na qual o casalzinho se estranha em disputas sexistas até o fim, quando descobrem, de forma bem maniqueísta, que se amam –num desfecho romântico completamente destituído de química e envolvimento.

O restante do filme mostra basicamente o dia-a-dia na escola, com antagonistas criados com a maior afetação do mundo (a caricatura de ditador militar construída por Ewerton De Castro), e as intrigas adolescentes entre os alunos (onde se sobressai a participação de alguns dos membros do Polegar, além do vilãozinho vivido por Selton Mello).

Ah, sim, e quanto aos Trapalhões? Eles sequer surgem juntos na mesma cena –na realidade, isso acontece num único trecho do filme! Enquanto Didi repete o mesmo personagem de sempre –o cearense pau-pra-toda-obra e amigo de todo mundo –enamorado de uma bela professora (Cristina Prochaska) que, por sua vez, ama o professor de educação física (Marcelo Picchi). Mussum interpreta Mago Mumu, uma espécie de cartomante (?!) que trabalha nas redondezas da escola (em alguns momentos, parece que ele o faz DENTRO da escola!!), e Dedé e Zacarias vivem dois agentes anti-bombas (ou algo bem esdrúxulo parecido com isso...) que surgem na história quando a escola sofre um alerta de atentado à bomba (!) –na sequência, eles protagonizam cenas cômicas bem infantilizadas (e sem graça alguma) onde, ao invés de fazerem adequadamente seu trabalho, eles são zoados pelos alunos inconsequentes do lugar.

Realizado com nítidas e presunçosas intenções mercadológicas –e quando isso acontece, o resultado artisticamente nunca é bom –“Uma Escola Atrapalhada” refletia a preocupação dos Trapalhões em perder seu forte apelo de público: Suas produções datadas dos três últimos anos da década de 1980 tinham atraído tão somente o público infantil aos cinemas. Mirando num público mais adolescente, eles tiveram a ideia de experimentar colocando, pela primeira vez, as participações especiais de suas obras no foco principal, imaginando que tal manobra despertaria um interesse súbito. O resultado é que, não apenas “Uma Escola Atrapalhada” trata-se de um dos piores filmes brasileiros já concebidos (praticamente relapso em tudo que se propõe, seja na atuação mambembe de seu elenco, na falta completa de noção de seu roteiro, ou no caos absoluto que contamina sua direção) como também perdeu-se a chance de fazer uma obra válida neste que é o último encontro em cena de cinema registrado do famoso quarteto de humoristas –Zacarias viria a falecer ainda durante a pós-produção do filme (a quem é dedicado).

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Palhaço

Dizem que para os atores, o drama é uma energia que se recolhe para dentro e a comédia uma energia que se emana para fora.
Ao descobrir-se como diretor de cinema, o ator Selton Mello descobriu também formas novas de aproveitar sua desenvoltura como intérprete –“O Palhaço”, seu segundo filme como diretor, é o primeiro onde ele coloca a si mesmo como protagonista; e o único até então, onde ele tentou tal coisa. Isso talvez explique a imensa identificação que ele estabeleceu com o personagem Benjamin, filho do dono do circo, palhaço no picadeiro, pau-para-toda-obra fora dele.
Ele é um dos muitos integrantes do Circo Esperança que singra as cidades do interior brasileiro –numa tradição que certamente remete a infância dos expectadores hoje adulto; e numa exaltação da arte circense que remete algo de Federico Fellini.
Embora seja seu pai (Paulo José, maravilhoso) o dono do circo, e não lhe falte energia para namorar a cuspidora de fogo (Giselle Motta), contabilizar o lucro e ser também ele palhaço, sobra para Benjamin a parte nada divertida do trabalho: As queixas dos demais funcionários, a diplomacia para com pessoas de fora, as carências inevitáveis desse meio de vida.
Dizer que Benjamin obedece aquele máxima de que todo palhaço é triste seria versar na redundância: Benjamin é todo desilusão e infortúnio. Quando sofre, até sua dor parece uma piada pronta para divertir outrem (caso da jovem, com quem ele alimenta a esperança de construir um relacionamento, mas acaba se equivocando). E mesmo suas fixações –ventiladores (os quais nunca tem dinheiro para comprar) e a carteira de identidade (que ele não tem, mas pedem em todo lugar que vai) –passeiam pela melancólica possibilidade de soarem patéticas.
O medo de ser engraçado fora do âmbito que lhe cabe é o grande drama de Benjamin.
Daí sua opção de, em algum momento, partir do circo, e seguir seu próprio destino, naquele dilema eterno, entre o drama e o humor, a tragédia e a comédia, experimentado no cotidiano e na vida por todos nós.
Numa narrativa preciosista –que lembra muito o estilo de Wes Anderson –o diretor Selton Mello segue seu protagonista de perto, mas não deixa de prestar imenso carinho e atenção aos seus outros personagens: O próprio pai que, na implausibilidade de seu romance, sabe estar sendo enganado pela jovem que ama, mas protela essa decisão até o último instante; os dois músicos que sempre choram por dinheiro a fim de atender os fictícios familiares doentes; o ajudante de palco perturbado por recorrentes sonhos com cabras; o inseguro homem forte cuja bravura cede à primeira crítica; e a garotinha vivida por Larissa Manoela, que de certa maneira representa toda a luz e esperança num amanhã melhor –e a quem é reservada a tarefa de encerrar o filme com otimismo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O Filme da Minha Vida


Apesar do título pretensioso, o diretor Selton Mello fez um filme cuja emoção e beleza fazem jus à essa pretensão.
Ator brilhante e reconhecidamente talentoso, em sua terceira incursão atrás das câmeras (as duas anteriores são “Feliz Natal” e “O Palhaço”) Selton Mello conta com lirismo insuspeito a história de Toni Terranova, vivido por Johnny Massaro.
Como protagonista, ele é silencioso, introspectivo, tímido, o quê só agrega valor aos méritos da narrativa que passeia por suas impressões ao longo de todo o filme.
Seu pai, como ele mesmo explica, é francês (e interpretado pelo fantástico Vincent Cassel), e sua mãe (Ondina Clais) é brasileira.
Se Toni é o eixo da narrativa então esses dois personagens (bem como seu amor cheio de altos e baixos) são o motor que a impulsona: Ao regressar para a cidadezinha de Remanso depois de formado, lá pelo ano de 1963, Toni simultaneamente vê a partida do próprio pai.
A razão pela qual ele deixou uma família que ama é a grande dúvida que passará a perseguir Toni. Como outras questões também: O dilema quase existencialmente entre duas irmãs completamente diferentes; Petra (Bia Arantes), desejável, insinuante e inacessível que atormenta a libido dele e de toda cidade; e Luna (a linda Bruna Linzmeyer) que o enreda com ternura, compreensão e companheirismo.
Martirizado por essas transições naturais da vida –e tendo como uma espécie de figura paterna o rude e inepto Paco (o próprio Selton Mello num equilíbrio preciso entre o divertido e o trágico) –Toni passa a exercer a função de professor, lecionando francês para alunos adolescentes do local. E nesse gesto, o filme de Selton Mello se define por completo: Há todo um esforço narrativo que emula o cinema europeu em geral e o francês em particular, não somente na presença vivaz e essencial de Vincent cassel (ator que preza muito o cinema brasileiro), como também nas escolhas musicais (fundamentais para o clima inebriante das cenas), nas opções estéticas da direção de fotografia (cujas lentes estilizadas de Walter Carvalho remetem à “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” e outras obras de visual arrojado), no romantismo e na nostalgia quase passional impregnada à trama, e no andamento lúcido e impecável, mas também desigual e peculiar.
Os últimos vinte minutos de “O Filme da Minha Vida” são uma amostra da perfeição com que a narrativa consegue unir suas pontas soltas num todo surpreendente, harmonioso e de aquecer o coração.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Auto da Compadecida


O ator Matheus Nachtergaele (interpretando João Grilo com um brilhantismo singular) rouba todas as cenas nesta maravilhosa adaptação da peça de Ariano Suassuna.
Ainda no final da década de 1990, foi idéia do diretor Guel Arraes realizar uma minissérie filmada em 35 milímetros que depois, submetida a uma montagem mais criteriosa, se convertesse em filme a ser lançado nos cinemas –dando origem à uma tática que depois tornou-se moda.
João Grilo, um típico retirante do Nordeste, vive de pequenos bicos em serviços ordinários que arruma no pequeno vilarejo do sertão em que vive, junto de seu inseparável companheiro Chico (Selton Mello, também ele inspiradíssimo).
O quê se prova atípico em João Grilo, porém, é seu faro acentuado para oportunidades –que, na verve graciosa, esperta e regional de Ariano Suassuna (preservada em toda sua pluralidade verbal) se desdobra em seqüências memoráveis: De língua ferina, João Grilo por vezes vale-se de sua lábia afiada para ludibriar e tirar certo proveito dos personagens ao seu redor, como o dono de mercearia (seu empregador, na maioria das vezes), e sua esposa infiel (vividos por Diogo Vilela e Denise Fraga); ou o perplexo padre da paróquia (o saudoso Rogério Cardoso), e seu ambicioso superior, o cardeal (Lima Duarte). As peripécias de João Grilo chegam ao limite quando ele se cruza com um ensandecido cangaceiro (Marco Nanini), o que leva João Grilo, junto de outros, para uma aventura além-morte, onde encontrarão Cristo (personificado –para efeitos de reflexão –pelo ator negro Maurício Gonçalves) e o Diabo (um pernicioso e rabugento Luis Melo).
A salvação de João Grilo se encontra, contudo, na imensa confiança e fé que ele deposita em Nossa Senhora, a Compadecida (a quem toda a importância moral e o peso simbólico, a esplêndida presença de Fernanda Montenegro faz o mais absoluto jus).
Um trabalho admiravelmente cinematográfico –apesar das consideráveis origens televisivas do projeto –cujo teor se revelou tão incrivelmente brasileiro que sua linguagem sequer foi assimilada no restante do mundo para que fosse compreendido e indicado à prêmios (como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) como era do seu merecimento.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Cheiro do Ralo

“Esse cheiro que você está sentindo é do ralo...”
Ainda que ostente, durante o filme todo, uma indiferença quase traduzida em desprezo para com a opinião alheia, Lourenço (Selton Mello, genial) não consegue suportar a idéia dos outros pensarem que é ele quem fede e não o ralo entupido de seu escritório de antiguidades.
Em sua rotina de comprar ou não as quinquilharias e parafernálias que as pessoas oferecem em sua loja, Lourenço estabelece uma espécie de jogo impiedoso: Não importa a ele negociar o valor afetivo que o item possui para a pessoa –nesse sentido, sua avaliação é cruel e insensível. Pior: Conforme seu humor do dia ou sua primeira impressão a respeito do portador de determinado objeto a reação de Lourenço pode ser francamente rude.
Negociar sistematicamente esses itens (e o filme em si é quase todo constituído de intermináveis gags, ora divertidas, ora tragicômicas, que se formam por meio dessa sucessão) o tornam tão tremendamente desprovido de tato e de empatia que, não tarda, Lourenço está também negociando a própria condição humanamente digna daquelas pessoas –como a jovem certamente viciada (Silvia Lourenço) que ele induz a fazer um striptease; o homem a quem ele pergunta quais seriam os limites do aceitável para ele; a mulher casada (Lorena Lobato) de quem ele extrai um pequeno show erótico; o rapaz (Pedro Vicente) que ele recusa só para vê-lo voltar para casa carregando os livros pesados, e muitos outros casos.
Se há algo que se interpõe (ou não) nesse ciclo vicioso é a ‘Bunda’, ou melhor dizendo, a garçonete (cuja pronúncia do nome ele sequer presta atenção) interpretada pela bela Paula Braun, dona de um traseiro bem formado pelo qual Lourenço se apaixona.
Ele vai cortejá-la (não visando um relacionamento, mas, disposto a “comprá-la”, como ele mesmo diz) na lanchonete de quinta categoria onde ela trabalha, o quê o obriga a comer a péssima comida de lá. A comida vai para o vaso sanitário do escritório contribuindo ainda mais para o fedor que emana do ralo e que, dia a dia, vai sabotando o já instável equilíbrio de Lourenço. Isso se reflete em sua incapacidade de tolerar a noiva (Fabiana Guglielmetti), terminando com o relacionamento quando “os convites do casamento já estavam na gráfica!”, e na imensa carência de uma figura paterna, expressada no bizarro esforço de colecionar partes que seriam dele: Um olho vendido a preço de ouro por um desconhecido; uma prótese de perna comprada pouco depois.
O quê o diretor Heitor Dhalia, adaptando o livro de Lourenço Mutarelli, registra assim é a deterioração ética de um ser humano por meio das interferências externas, assim como fez –guardadas as devidas proporções –Paul Anderson em “Sangue Negro”, ainda que num tom e num gênero completamente diferente.
Os grandes responsáveis pelo resultado notavelmente objetivo e afiado que ele consegue aqui são certamente o esmero da equipe técnica (a fotografia e a cenografia são tão econômicas quanto minimalistas fazendo lembrar o início de carreira dos Coen ou de Wes Anderson) e do elenco (composto quase que em sua totalidade de nomes desconhecidos e, por isso mesmo, inspirados e compenetrados no projeto), e a atuação comprometida e brilhante de Selton Mello, onde ele faz um resgate respeitoso e reverente dos trejeitos e maneirismos peculiares do grande Paulo César Pereio (que participa deste filme como a voz inconformada do pai da noiva ao telefone).
Para uns uma comédia ácida, para outros um drama amargo, para mim um filme sensacional.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Lavoura Arcaica


São quase indefiníveis as muitas perplexidades expostas por Luiz Fernando Carvalho ao expectador em “Lavoura Arcaica”.

A trama, em si, talvez tivesse um desenvolvimento simples e certamente sem surpresas se fosse contada em ordem cronológica, sem os arroubos autorais e simbólicos que nunca deixam de pairar na tela durante as duas horas e meia de filme.

Mas essa talvez seja a única forma que levar os acontecimentos do livro de Raduan Nassar para o cinema: Dando-lhes o mesmo rebuscamento que o leitor encontra na obra literária.

Selton Mello personifica aqui, mais que seu personagem, André, a dor de seu personagem: Um dilaceramento que o define, antes mesmo de sabermos porque sofre e quais eventos o levaram a refugiar-se naquele quarto de hotel barato, onde ele declama os mais shakesperianos pensamentos acerca da vida e do farod de existir, enquanto enche a cara de vinho.

Leornardo Medeiros, seu irmão mais velho, é quem vai buscá-lo, confrontando-o, de início, com uma austeriade, que ambos logo irão perceber é só uma fachada.

Todos aqui sofrem de algum pesar impronunciável. E todos (à exceção de André) acreditam que é melhor submeter sua existência à um conformismo do que escrutinar essa dor.

Os flashbacks que intercalam a estranhamente lenta aproximação dos dois vão trazendo alguma luz à escuridão daqueles acontecimentos: Ambos vêem de uma família de descendência libanesa, na qual o pai (Raul Cortez) parece exercer influência autoritária e avassaladora, em contraponto ao amor incondicional e algo sufocante da mãe (essa dicotomia pai e mãe/opressão e ternura surge também, de maneira mais branda, em “A Árvore da Vida”, de Terence Malick).

Os tormentos de André, contudo, não estão por inteiro esclarecidos: Eles dizem respeito à Ana, a personagem de Simone Spoladore, e ao sentimento incestuoso que ela desperta no protagonista, cuja incapacidade de negá-lo, dispara uma necessidade de contestação que ele irá arremessar contra os ditames da família, da sociedade e de Deus, levando-o àquele rompimento existencial.

Mas, André deve regressar ao seio familiar, e com ele, regressarão verdades difíceis de serem encaradas.

“Lavoura Arcaica” está longe de ser um filme perfeito. E talvez não fosse nem esse o objetivo de Luiz Fernando Carvalho. As cenas que se seguem na tela pulsam de poesia visual, deixando claro o quanto ele próprio se enamorou do material e gerando infinitas possibilidades de interpretação, mas a narração em off teria encontrado um resultado muito mais feliz se ele tivesse deixado o próprio ator Selton Mello incumbido da narração (que, assim como no livro, pertence ao personagem André), ao invés de Luiz Fernando narrar ele mesmo as passagens.