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quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Oito Mulheres e Um Segredo

Amigo de longa data de Steve Sodenbergh, o diretor Gary Ross (de “Seabiscuit” e “Jogos Vorazes”), não pestanejou quando surgiu-lhe a oportunidade de reverenciar a mais lucrativa e bem-sucedida realização dele: O formidável filme de assalto “Onze Homens e Um Segredo” que refilmava com pompa e circunstância um filme estrelado por Frank Sinatra e rendeu toda uma trilogia de relativo sucesso.
A nova versão de Ross pega carona num esforço artístico em Hollywood em enaltecer protagonistas femininas, e é a partir desse ímpeto que chegamos à personagem de Debbie Ocean (Sandra Bullock), não só irmã do protagonista Danny Ocean vivido por George Clooney, mas também introduzida de modo muito semelhante a ele próprio no primeiro filme.
Debbie sai da cadeia após uma pena de cinco anos. E sai com um plano meticulosamente arquitetado. Ainda nebuloso (embora maiores informações não tardem a chegar), o plano de Debbie não deixa imediatamente claro os detalhes de sua execução e nem, no fim das contas, os objetivos verdadeiros por trás dele.
É no andamento característico de um filme clássico de assalto –e que Sodenbergh soube executar como ninguém –que o diretor Ross demonstra estar se esbaldando: Ele saboreia cada etapa, desde o recrutamento das aliadas até o planejamento do golpe e, por fim, sua tensa e inquieta realização.
Na primeira dessas etapas, ele introduz o elenco notável que conseguiu arranjar: Além de Bullock (cuja excessiva sisudez da protagonista atrapalha suas chances de revelar-se simpática), há também Cate Blanchett como Lou, a aliada N° 1 de Debbie; a divertida Helena Bonham-Carter como a estilista Rose Weil; a prestidigitadora Constance (Awkwafina), capaz de roubar um relógio de pulso debaixo do nariz do dono; a hábil hacker Bola 9 (a cantora Rihanna); a especialista em jóias Amita (Mindy Kaling) e a comparsa Tammy (Sarah Paulson).
A intenção é roubar um colar de diamantes de valor vultuoso durante as festividades do Baile Met Gala, em Nova York, repleto de celebridades.
Uma dessas celebridades vem a ser Daphne Kluger (Anne Hathaway, a mais sensual, mas também a mais histriônica do elenco) que o grupo reunido em torno de Debbie irá tramar para que seja a pessoa a usar o colar naquela noite. Trajada num vestido desenhado por Rose Weil, observada de perto pela infiltrada Tammy, e vigiada de perto pelas tecnologias de segurança que Bola 9 tratará de burlar, ela será, no momento certo, um alvo fácil para as mãos ágeis de Constance que irá tirar-lhe o colar e passa-lo à Amita (instruída a desmontá-lo) e à Lou.
Na referência clara e nada disfarçada que concebe, Gary Ross se coloca, de livre e espontânea vontade, numa espécie de armadilha: Pelo mesmo formato narrativo que adota, o clima, o ritmo e a atmosfera similares que evoca, e até por algumas bem-vindas participações especiais (Elliot Gould e Qin Shaobo marcam presença, e bem que George Clooney podia ter aparecido também...), tudo em seu filme faz lembrar “Onze Homens...” e, por consequência, com ele ser comparado –e por esse prisma, o filme de Ross, ainda que simpático e gracioso, não chega aos pés da excelência da obra de Steve Sodendbergh.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Onze Homens e Um Segredo


A discussão cerca do quão válida uma refilmagem é tem, nesta obra, um de seus melhores argumentos: Ao contrário do que é hábito em Hollywood –onde são refilmadas sucessivamente obras excelentes que não precisariam de uma refilmagem –o time de George Clooney e Steve Sodenbergh refez um filme não tão bom, não tão perfeito e não tão bem-sucedido (uma pequena aventura de assalto feita para aproveitar a fama do Rat Pac, grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Eles assim o fazem com perfeita consciência das limitações da obra original; e em tudo tentam melhorá-la.
É, pois o grande propósito de se realizar uma refilmagem: Repaginar um filme e aproximá-lo mais do potencial de qualidade que não havia sido alcançado da outra vez.
E o diretor Sodenbergh compreende com profunda perspicácia que toda essa premissa depende de charme: Cada personagem que marca presença, cena após cena, é de um carisma desigual.
A frente de todos eles, nesse e em outros quesitos, certamente está Danny Ocean (George Clooney tão eficaz quanto em sua primeira colaboração com Sodenbergh, o brilhante “Irresistível Paixão”). Recém-saído da prisão, ele chega a Las Vegas com um plano já previamente elaborado, por meio do qual visa retribuir toda a impunidade que o gangster Terry Benedict (Andy Garcia) exerce sobre os outros: Dele almeja roubar toda a féria de seu cassino principal.
Para tanto, Danny Ocean conta com um grupo extraordinário de outras dez pessoas com especialidades muito particulares: Seu braço-direito Rusty Ryan (Brad Pitt, que consegue ombrear o carisma e a desenvoltura superlativos de Clooney); o forte e desprendido Frank Catton (o saudoso Bernie Mac); o hábil e inteligente Basher Tarr (Don Cheaddle); o experiente e safo Reuben Tishkoff (Elliott Gould); o meticuloso e estrategista Saul Bloom (Carl Reiner); os experts em tecnologia Virgil e Turk Malloy (Casey Affleck e Scott Caan); o ágil e acrobático Yen (Qin Shaobo); o escorregadio Livingston Bell (Eddie Jemison); e o filho de um grande aliado do passado Linus Caldwell (Matt Damon).
A intenção de Ocean não é apenas de bancar o Robin Hood, roubando do milionário antagonista –no processo de seu intrincado golpe quer roubar dele também a atual companheira, Tess (Julia Roberts), ex-esposa de Ocean.
Como se pode constatar pelos nomes citados, o elenco que Sodenbergh reuniu para seu filme é tão, ou mais, ostensivo que o elenco do “Onze Homens e Um Segredo” original; e ele compensa essas presenças cintilantes dando a todos eles momentos memoráveis.
Contudo, seu grande feito é a execução do assalto propriamente dito que ocupa os últimas e sensacionais vinte minutos de filme: Uma aula de condução de roteiro, direção de cena e manutenção de ritmo, onde cada tomada surpreende o expectador e cada guinada deixa um sorriso no rosto.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Outra História Americana

O ator Edward Norton sempre foi o tipo de intérprete que faz a diferença nos filmes de que participa. 
Os roteiros que recebem sua atenção, não raro, resultam em obras que deixam o expectador com os nervos à flor da pele. Gosto particularmente dos primeiros de sua carreira na segunda metade dos anos 1990: “Cartas Na Mesa”, “As Duas Faces de Um Crime” ou mesmo o fundamental “Clube da Luta” (outro, de uma fase mais recente é o tenso e visceral “Vale Proibido”). 
“A Outra História Americana” é o seu trabalho mais emblemático, seja por sua exuberância como ator, seja pelo modo como ele costuma interferir nos bastidores de um filme: Muitos são aqueles que afirmam que esta é menos a visão do diretor Tony Kaye, e mais a visão do próprio Norton sobre a história de um skinhead arrependido e sua ressonância moral, demonstrando a presente atuação dele, não só como protagonista, mas determinando o resultado final do roteiro, da montagem, e por conseqüência, do filme. 
Ele é Derek, um jovem neo-nazista cujas escolhas de vida foram caras à sua família. Ao expressar sua raiva, quase que o tempo todo, ele termina cometendo um brutal assassinato, e vai para a cadeia onde tem experiências infernais. O verdadeiro drama, contudo, o aguardava do lado de fora: Ao sair, anos depois, redimido e recuperado, ele encontra seu irmão mais novo, seguindo os mesmos passos que ele. 
Não fica a menor dúvida para quem assiste à este filme: Edward Norton é o sol de onde a narrativa tira calor. E ele faz jus à essas sustentação: Consegue ser hipnótico nos rompantes quase assustadores de fúria, profundo nos momentos intimistas, e termina desconstruindo com minúcia magistral esse mesmo personagem, ao nos conduzir em sua jornada de transformação. 
Mais impressionante ainda, é perceber, durante todo esse processo, o quanto Norton é jovem. 
Tudo o mais fica em segundo plano no filme, e essa afirmação é usada por muitos como um dos pontos fracos da produção: A de que seu ator principal é muito melhor do quê todo o filme; Pura implicância: o trabalho de Tony Kaye, se não é primordial, é correto, deixando que seu elenco brilhe à vontade (e temos, além de Norton, um bom Edward Furlong; uma bela e sensível Beverly D’Angelo; um assustador Stacey Keach, além das boas presenças de Elliot Gould e Fairuza Balk), a trama é envolvente do início ao fim, montada com precisão e audácia (suas idas e vindas no tempo são hipnóticas), e o final... bem, o final é um dos momentos mais inesperados e desconcertantes do filme, do qual cada um deve tirar suas próprias conclusões em seus devidos termos. 
Uma coisa porém é certa: Dificilmente saímos indiferentes à jornada de Derek.