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domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Onze Homens e Um Segredo


A discussão cerca do quão válida uma refilmagem é tem, nesta obra, um de seus melhores argumentos: Ao contrário do que é hábito em Hollywood –onde são refilmadas sucessivamente obras excelentes que não precisariam de uma refilmagem –o time de George Clooney e Steve Sodenbergh refez um filme não tão bom, não tão perfeito e não tão bem-sucedido (uma pequena aventura de assalto feita para aproveitar a fama do Rat Pac, grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Eles assim o fazem com perfeita consciência das limitações da obra original; e em tudo tentam melhorá-la.
É, pois o grande propósito de se realizar uma refilmagem: Repaginar um filme e aproximá-lo mais do potencial de qualidade que não havia sido alcançado da outra vez.
E o diretor Sodenbergh compreende com profunda perspicácia que toda essa premissa depende de charme: Cada personagem que marca presença, cena após cena, é de um carisma desigual.
A frente de todos eles, nesse e em outros quesitos, certamente está Danny Ocean (George Clooney tão eficaz quanto em sua primeira colaboração com Sodenbergh, o brilhante “Irresistível Paixão”). Recém-saído da prisão, ele chega a Las Vegas com um plano já previamente elaborado, por meio do qual visa retribuir toda a impunidade que o gangster Terry Benedict (Andy Garcia) exerce sobre os outros: Dele almeja roubar toda a féria de seu cassino principal.
Para tanto, Danny Ocean conta com um grupo extraordinário de outras dez pessoas com especialidades muito particulares: Seu braço-direito Rusty Ryan (Brad Pitt, que consegue ombrear o carisma e a desenvoltura superlativos de Clooney); o forte e desprendido Frank Catton (o saudoso Bernie Mac); o hábil e inteligente Basher Tarr (Don Cheaddle); o experiente e safo Reuben Tishkoff (Elliott Gould); o meticuloso e estrategista Saul Bloom (Carl Reiner); os experts em tecnologia Virgil e Turk Malloy (Casey Affleck e Scott Caan); o ágil e acrobático Yen (Qin Shaobo); o escorregadio Livingston Bell (Eddie Jemison); e o filho de um grande aliado do passado Linus Caldwell (Matt Damon).
A intenção de Ocean não é apenas de bancar o Robin Hood, roubando do milionário antagonista –no processo de seu intrincado golpe quer roubar dele também a atual companheira, Tess (Julia Roberts), ex-esposa de Ocean.
Como se pode constatar pelos nomes citados, o elenco que Sodenbergh reuniu para seu filme é tão, ou mais, ostensivo que o elenco do “Onze Homens e Um Segredo” original; e ele compensa essas presenças cintilantes dando a todos eles momentos memoráveis.
Contudo, seu grande feito é a execução do assalto propriamente dito que ocupa os últimas e sensacionais vinte minutos de filme: Uma aula de condução de roteiro, direção de cena e manutenção de ritmo, onde cada tomada surpreende o expectador e cada guinada deixa um sorriso no rosto.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Gênio Indomável

Após uma primeira fase em sua carreira na qual revelou-se um dos meninos prodígios do cinema independente norte-americano, o diretor Gus Van Sant enveredou por um cinema mais comercial –ainda que este “Good Will Hunting” ainda seja, por definição um filme independente –e foi devidamente abraçado por Hollywood, como era de se esperar.
Em seu formato e estrutura, “Gênio Indomável” segue uma cartilha irresistível à Academia de Artes Cinematográficas (e, com efeito, ela acabou premiando-o com dois Oscars): É tocante e bem realizado, cheio de boas escolhas e boas intenções, e seu retrato do subúrbio e da marginalidade jamais se torna ofensivo.
O roteiro do filme –um de seus maiores trunfos, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original –foi escrito pelos próprios atores, os ainda jovens e iniciantes amigos Matt Damon e Ben Affleck que, indignados pela escassez de bom material com o qual pudessem mostrar seus talentos, resolveram eles mesmos escrever um filme para atuar.
Matt Damon ficou assim com o papel principal, o do jovem Will Hunting, dono de uma mente prodigiosa em cálculos matemáticos, porém um delinqüente problemático de temperamento instável que mal consegue manter um emprego. Ben Affleck, por sua vez, ficou com o papel de melhor amigo de Will, um dos vários companheiros de infância, com os quais ele ainda sai, bebe e arruma confusões. Will não seria diferente de nenhum deles. Mas, Will é um gênio. E essa genialidade não passa despercebida a um professor de universidade (Stelan Skarsgaard) que o apadrinha e resolve colocá-lo nos trilhos para que possa seguir uma carreira e tornar-se alguém. Para domar alguém como Will, é chamado um psiquiatra de métodos pouco convencionais (Robin Williams, no papel que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), tão desajustado quanto o próprio Will Hunting.
Não há qualquer proposta de inovação formal ou temática em “Gênio Indomável” –nem tampouco técnica –há, em vez disso, uma clara intenção e capacidade para realizar um filme bem feito, profundo e articulado na história e nos personagens que se deixa observar e interpretado com excelência por um elenco à época cheio de caras novas e promissoras (além de Damon e Affleck, havia também o irmão mais novo deste, Casey Affleck e a jovem Minnie Driver, como a mulher que Will ama).
E isso certamente já basta para estar acima da média.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Passa longe de ser um faroeste nos moldes convencionais este trabalho do diretor Andrew Dominik, passa longe, até mesmo de ser um exemplar do faroeste revisionista surgido entre as décadas de 1960 e 70: O quê Dominik propõe aqui é uma observação distanciada de personagem por meio de uma encenação potencializada em suas propriedades cênicas –um elenco fantástico, uma fotografia sedutora –através da qual a índole de um personagem que nunca se deixa capturar revela-se o mistério insolúvel que, em seu drama, ele contempla.
Nesse sentido, há uma proximidade –não, porém, muito declarada –com a narrativa tortuosamente dúbia cheia de desvios labirínticos de “Cidadão Kane”.
Conhecido fora-da-lei e renegado ex-soldado durante a guerra de secessão, Jesse James era um bandido lendário nos EUA, nos meados de 1890. Fascinado por esse mito, o jovem e titubeante Robert Ford se junta ao seu bando seguindo os passos de seu irmão, Charlie. Mas o cerco cada vez mais apertado das autoridades no encalço de James, e o valor elevado da recompensa por sua captura acirram seu ânimo e o temor de ser traído, conduzindo ele e os homens de seu bando à um jogo de tensão, suspeitas e traições que tenta, por meio deste filme esclarecer as razões de sua morte.
Brad Pitt compõe com empenho sua interpretação de um Jesse James vulnerável em sua paranóia, embora a grande presença seja mesmo a do ótimo Casey Affleck, neste trabalho hermético e contemplativo.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Horas Decisivas

Belamente conduzida pelo talentoso diretor Graig Gillespie (de “Lars And The Real Girl” e a refilmagem de “A Hora do Espanto”), esta produção tem toda uma roupagem e um esforço artístico na tentativa de emular um filme de antigamente, com todos os trejeitos e aspectos das produções à moda antiga: Não apenas os figurinos e a direção de arte se esmeram nesse objetivo, como também a própria postura narrativa resgata elementos de um cinema mais antiquado e não menos charmoso, com takes mais prolongados do que o habitual, onde é capturada –enquanto é possível –a sutileza da encenação, assim como a maneira com que os atores (como Chris Pine, Casey Affleck e Ben Foster) são orientados a entregar uma atuação de mais languidez e lentidão gestual.
Chris Pine, aliás, é o tipo de ator cujo semblante clássico de bom-mocismo convence como alguém que pertence à uma época antiga; prova disso é o seu bom trabalho como Steve Trevor em “Mulher Maravilha”.
Não é à toa, pois tudo o que vemos em cena pertence realmente à outra época: O ano de 1952.
O inverno se abate sobre a costa de Cap Cod, região da Nova Inglaterra onde trabalham os guardas navais Bernie Webber (Pine), Richard Lievesey (Foster) e Andy Fitzgerald (Kyle Gallner). Eles são designados, ao lado do voluntário Ervin Maske (John Magaro), por seu comandante, o capitão Cluff (Eric Bana) a usar um barco de pequeno porte e tentar encontrar a localização do S.S. Pendelton, enquanto todos os outros barcos da guarda costeira se ocupam do resgate à outro barco, o Fort Mercer, que acidentou-se em outro lugar.
Mas, a situação do Pendelton é extremamente periclitante: Partido ao meio devido à força do mar bravio, a embarcação obrigou seu engenheiro, Ray Sybert (Casey Affleck), à uma decisão desesperada –fazer com que o barco encalhasse num banco de areia, retendo por algum tempo seu afundamento e permitindo esperar por socorro; os botes salva-vidas revelaram-se inviáveis naquele mar intempestivo.
Neste trecho, quando a narrativa sem pressa de Gillespie já chegou quase à metade de sua duração, o filme revela outra faceta, menos envolvente, porém certamente mais comercial: A do filme de aventura marítima vislumbrado pelo estúdio, que lembra bastante, diga-se, a produção “Mar Em Fúria”, com George Clooney, inclusive ostentando o mesmo uso imodesto de efeitos visuais que recriam, com eficácia, a impressão alarmante de se ver jogo em meio à uma tempestade de vento e água.
Bernie e seu pequeno grupo, para desespero de sua noiva Miriam (a bela Holliday Grainger, da série “Os Bórgias”), decidem enfrentar as tormentas inacreditáveis do mar revolto e encontrar a embarcação naufragada. O problema: O pequeno barco que possuem abriga somente doze pessoas, e os sobreviventes do Pendelton contam trinta e dois (!).
“Ou todos viveremos! Ou todos morreremos!” argumenta Bernie, convicto de que deve tentar salvar e levar à terra firme cada um deles.
Esse gesto levou ao que é, até hoje, considerado o maior resgate naval em um barco de pequeno porte de toda a história da guarda costeira norte-americana, como atesta a história real na qual este belo filme é baseado.

domingo, 14 de maio de 2017

Manchester À Beira - Mar

Na cena que abre “Manchester À Beira-Mar” vemos uma conversa capturada de maneira corriqueira –num barco em movimento, um rapaz e seu sobrinho discutem com quem a criança escolheria ficar numa ilha deserta e a criança, a despeito dos contínuos argumentos convincentes que seu tio lhe dá, insiste em escolher o pai –mas, cujo mote será de importância fundamental à sua premissa.
O corte seco e abrupto (como são secos e abruptos, aliás, todos os cortes que a montagem realiza) salta um considerável período de tempo; e isso, aos poucos ficará bem claro.
O jovem que era o tio, Lee (Casey Affleck, vencedor do Oscar de Melhor Ator) trabalha como zelador consertando defeitos técnicos num prédio cheio de pessoas chatas em outra cidade.
A notícia da morte do irmão (interpretado por Kyle Chandler) adiciona mais angústia em sua já melancólica rotina.
No regresso à sua cidade-natal, Manchester, uma sensação de desconforto também retorna, junto com uma série de flashbacks traumáticos que irão revelar o quê o afastou do lugar, e porque, sob inúmeros aspectos, Lee será incapaz de permanecer por lá.
O destino, porém, tem suas maneiras de se mostrar irônico: Antes de morrer, seu irmão, Joe, deixando definido em testamento que seria Lee o tutor de Patrick (o jovem Lucas Hedges numa boa atuação), seu sobrinho, agora um adolescente com dezessete anos.
A narrativa do diretor e roteirista Kenneth Lonnergan contrapõe então o passado que contém a tragédia que modificou tudo (em meio ao qual percebemos a sutil diferenciação da interpretação de Casey Affleck pontuando o “antes” e o “depois” para seu personagem), na forma de lembranças quase intrusivas e fantasmagóricas, e o presente que exige uma resolução a qual o protagonista, em sua perplexidade ao reencontrar seus transtornos mais inapeláveis, não consegue encontrar.
Debruçado nesses elementos, não haveria como o trabalho de Lonnergan evitar o foco no elenco, e ele revela-se aqui, digno do centro das atenções: Todos estão magnificamente bem conduzidos e orientados, com destaque para a breve, mas pra lá de significativa participação da talentosa Michelle Williams no papel de Randi a esposa de Lee –é com ela, por sinal, a cena mais marcante e emblemática de “Manchester Á Beira-Mar”, quando ela e Lee se reencontram e ensaiam uma dolorosa tentativa de exorcizar todas as suas dores e ressentimentos; é onde fica mais nítido o primor dos intérpretes, a maneira objetiva e lúcida com que Casey Affleck consegue trabalhar a expressão das aflições de seu personagem, e a sutileza espetacular com que o diretor soube calibrar esses fatores.
É um filme dolorido e triste, como poucos que o cinema norte-americano se dispõe a fazer, e a excelência com que é realizado por vezes o transforma numa das obras mais notáveis do ano.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Um Sonho Sem Limites

Nicole Kidman está mesmo tentadora neste ótimo filme, talvez, o melhor já engendrado por Gus Van Sant que aqui harmoniza como nunca antes em sua carreira as propensões de cinema comercial com uma saudável e salutar reflexão típica do cinema independente.
Ele não dá folga ao expectador: Realizador ainda jovem (o filme é de 1995) e ávido por experimentações na área de seu ofício, Van Sant constrói uma narrativa intrincada e fragmenta que se auto-impele o tempo todo, indo e vindo no passado e presente, deixando que o ‘antes’ se esclareça pelo comentário do ‘depois’.
Tudo isso molda uma crítica afiada, inteligente, mas nunca rabugenta, nem pretensamente séria, à mentalidade muito classe média e bem norte-americana de ‘vencer a qualquer preço’.
Essa condução ainda que confusa em primeira vista (e sensacional numa revisão) jamais perde o charme e a capacidade de envolver o expectador, em muito graças ao bem conduzido elenco que, nas mãos de Van Sant, entrega atuações cheias de ironia e controlada perplexidade.
É por isso que desde o início sabemos que algo de bem errado aconteceu, e que o cerne dessa possível tragédia –que não sabemos o que foi, mas assistimos diversas testemunhas dando seu parecer a esse respeito –é a ambiciosa (e deliciosa) Suzanne Stone (Nicole Kidman, no papel responsável por ela ter se tornado uma estrela na década de 1990), uma ‘garota do tempo’ da emissora de TV de uma cidadezinha que sonha com o estrelato –e com tal determinação ela almeja esse sonho que suas atitudes no dia-a-dia soam de um exagero e histrionismo absurdo, e por isso mesmo possível!
Suzanne é casada com Larry Maretto (Matt Dillon, que trabalhou com Van Sant no ótimo “Drugstore Cowboy”), o relativamente ingênuo e grosseiro dono de um restaurante de comida italiana.
É por meio de uma reportagem sobre o cotidiano de um grupo de adolescentes desajustados (entre eles um jovem Joaquim Phoenix e o recém-oscarizado Casey Affleck), onde Suzanne vê a chance de deixar de ser a mera apresentadora da previsão do tempo para alçar vôos mais altos, que ela começa a enxergar o empecilho que seu marido pode significar em sua ascensão.
Inexplicavelmente pouco lembrado nos dias de hoje –até então, ele sequer ganhou uma edição em DVD! –“Um Sonho Sem Limites” está certamente entre os melhores trabalhos lançados nos anos 1990. Ele une o ímpeto talentoso e criativo que Van Sant demonstrou em “Drugstore Cowboy”, aliado ao prestígio (e conseqüente tarimba para um maior orçamento e um elenco notável como este) obtido com “Garotos de Programa” –qualidades que não soube expressar tão bem no filme seguinte, o imediatamente anterior “Até As Vaqueiras Ficam Tristes”.
Van Sant ainda faria muitos outros filmes e consolidaria uma carreira audaciosa ainda que cheia de altos e baixos –incluindo algumas indicações ao Oscar por “Gênio Indomável” e “Milk-A Voz da Igualdade" –mas, o seu melhor trabalho de direção continua sendo este pulsante, divertido e sedutor conto de crime e castigo nos subúrbios norte-americanos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2017

Enquanto esperávamos pela entrega de prêmios, mal podíamos imaginar que seria uma noite repleta de surpresas não tão boas assim (“Esquadrão Suicida” levando o Oscar de Melhor Maquiagem, derrotando o infinitamente superior “Star Trek-Sem Fronteiras”?!), de muitas declaração dúbias de posicionamento político (as insistentes piadinhas de Jimmy Kimmell com o presidente norte-americano, Donald Trump, e a vitória, bastante emblemática do iraniano “O Apartamento” como Melhor Filme Estrangeiro) e de, pelo menos, uma grande justiça finalmente sendo feita: A premiação como Melhor Coadjuvante para a extraordinária Viola Davis.
Quem experimentou uma noite complicada foi a equipe de “La La Land-Cantando Estações” que, apesar de sagrar-se como o grande vencedor da noite, acumulando seis prêmios (incluindo Melhor Diretor para Damien Chazelle), viu muitas das suas quatorze indicações se distribuírem entre os outros candidatos –ainda que os prêmios técnicos para “Até O Último Homem” e o de Melhor Edição de Som para “A Chegada” sejam completamente válidos –além de protagonizar o bizarro momento pelo qual o Oscar 2017 será lembrado: Os veteranos atores Warren Beatty e Faye Dunaway (o casal do clássico “Bonnie & Clyde”) pisaram no palco para anunciar a categoria mais importante. Diante de uma visível confusão da parte de Beatty, “L aLa Land” é anunciado. Porém, após passados três minutos em que os produtores do musical faziam o seu agradecimento, eis que o produtor do evento e o apresentador Jimmy Kimmell, com certo constrangimento, revelam que houve um erro, e que o vencedor era, na realidade, “Moonlight-Sob A Luz do Luar” (!).
Ao que parece, Warren Beatty tinha recebido o envelope errado (contendo, na verdade, o nome do filme vitorioso na categoria de Melhor Atriz, que foi pra Emma Stone, de “La La Land”, entregue pouco antes) e isso levou à maior e mais inacreditável gafe já registrada na História do Oscar.
Vai ficar na memória como algo ainda mais absurdo do que a entrega errônea do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante feita por Jack Palance na cerimônia de 1992.
Ao menos, a vencedora da categoria de Melhor Atriz, Emma Stone, estava absurdamente linda, a única capaz de rivalizar com ela em esplendor era mesmo a fantástica Amy Adams; este ano, o Globo de Ouro teve mais mulheres lindas do que o Oscar. Fazer o quê...


MELHOR FILME
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

MELHOR DIREÇÃO
"La La Land-Cantando Estações", Damien Chazelle

MELHOR ATRIZ
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"

MELHOR ATOR
Casey Affleck, "Manchester À Beira-Mar"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis, "Um Limite Entre Nós"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Moonlight-Sob A Luz do Luar"

MELHOR FOTOGRAFIA
"La La Land-Cantando Estações"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"O.J.-Made In America", Ezra Edelman

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The White Helmets"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Apartamento" (Irã)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Até O Último Homem"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Mogli-O Menino Lobo"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Esquadrão Suicida"

MELHOR FIGURINO
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"A Chegada"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"La La Land-Cantando Estações"

MELHOR TRILHA SONORA
“La La Land-Cantando Estações"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"City of stars", de "La La Land-Cantando Estações"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Manchester À Beira-Mar"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Zootopia"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Piper"

MELHOR EDIÇÃO
"Até O Último Homem "

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Sing”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Assassino Em Mim

Não podia surgir nada muito medíocre da iniciativa de Michael Winterbottom em adaptar a obra maldita de Jim Thompson. Um dos mais incomuns diretores britânicos, e realizador de diversos projetos dos mais pouco usuais possíveis, ele captura o tom analítico que tanto incomoda no livro, e tem, no ator Casey Affleck, um imenso trunfo para o resultado a que se pretende: Na narrativa dilacerante de Winterbotton, a atuação de Affleck é um registro preciso de tudo de lúgubre e perverso que pode se esconder na alma humana, travestido da mais corriqueira faceta de normalidade. 
Sua história principia-se na década de 1960, numa cidadezinha do interior, onde um rapaz que trabalha como policial busca ocultar de todos os seus conhecidos seu instinto psicopata. Mas quando passa a se envolver com uma bela prostituta, seus anseios assassinos o levam a tramar a morte dela, de maneira cruel e violenta. Em meio às investigações, novas circunstâncias o fazem continuar vitimando outras pessoas, incluindo sua noiva, deixando assim um rastro de mortes. 
Winterbottom cria com crueza e visceralidade uma narrativa naturalista a serviço de um resultado forte e impactante. Suas cenas de assassinato (duas delas, em especial) são desagradáveis, realistas, desconcertantes e perturbadoras.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Gerry

"Gerry" é um filme difícil. Na realidade, ele é assim porque seu realizador, Gus Van Sant, é um cara difícil.
Ele até mesmo deixa de ter uma postura como autor à sua maneira iconoclasta. Ao longo de sua carreira, Van Sant já fez de quase tudo: filmes independentes que flertavam com o experimental ("Drugstore Cowboy"), filmes independentes que flertavam com o comercial ("Gênio Indomável"), obras de ressaltada sensibilidade artística ("Garotos de Programa"), delírios autorais que não deram certo ("Até As Vaqueiras Ficam Tristes"), tentativas mainstream ("Encontrando Forester"), produções com singular senso de observação ("Elefante"), obras aclamadas e ousadas financiadas por grandes estúdios ("Milk-A Voz da Igualdade"), obras feitas à parte dos grandes estúdios, mas que obtiveram aclamação ("Um Sonho Sem Limites"), projetos pessoais insossos ("Inquietos") e projetos pessoais catastróficos (o remake de "Psicose").
Dentre tantas coisas, sua identidade sempre transpareceu com mais ênfase no cinema independente.
Daí vem a "trilogia da morte", da qual "Gerry" faz parte, junto com "Os Últimos Dias" e "Paranoid Park".
Por meio de sussurros, de elipses silenciosas, acompanhamos a estranha trajetória de dois amigos, ambos chamados Gerry.
São eles interpretados por Matt Damon e Casey Affleck.
Os dois vão a um deserto peregrinar, e em algum ponto descobrem-se perdidos naquele ermo de areia, onde, nos dias inclementes que se seguirão, não encontrarão nem mesmo um refúgio de sombra para o sol que lhes castiga.
Há uma subjetividade em todos os aspectos de "Gerry" –e que propicia à obra inúmeras conclusões distintas.
Tal subjetividade se encontra presente já na primeira cena, que acompanha, com uma melancolia onipresente, os dois amigos dentro do carro, sem trocar uma palavra, enquanto seguem em direção ao deserto em que se perderão. É também indicativo de um certo simbolismo –a favor do qual a narrativa de Van Sant trabalha –a cena intrigante da pedra gigante sobre a qual um dos ‘Gerrys’ vai parar após tanto andar; o fato dele mesmo não saber como foi parar lá pode ser uma das pistas deixada por Van Sant neste trabalho denso, circular, hermético e enigmático.
Mais do que em qualquer filme feito por Van Sant, este está aberto a múltiplas interpretações.