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domingo, 19 de fevereiro de 2023

Donnie Brasco


 O filme “Donnie Brasco” foi indicado ao Oscar 1998 de Melhor Roteiro Adaptado, o qual ele perdeu para “Los Angeles-Cidade Proibida”. É bastante incisiva e elegante a forma com que o roteirista Paul Attanasio expõe os meandros e códigos de conduta mafiosos a medida que vai revelando motivações e temperamentos e seus personagens nesta adaptação de um famoso livro escrito por um ex-agente do FBI que trabalhou por anos infiltrado na Máfia de Nova York,

É final da década de 1970 quando o gangster Lefty Ruggiero (Al Pacino) acolhe o jovem joalheiro Donnie Brasco (Johnny Depp) em meio às fileiras de seu clã mafioso. Lefty, porém, a despeito de ser veterano e de gozar de relativo respeito entre os gangsters, não chega nem perto de ser um dos cabeças da Família Bonanno, que exerce poderoso controle sobre o crime organizado do Brooklyn. Ao receber Donnie e responsabilizar-se por ele, Lefty arrisca sua própria pele diante dos inclementes chefões. No entanto, Donnie Brasco é também o agente federal Joe Pistone, perito em infiltração cujo objetivo é reunir o máximo possível de provas judiciais contra a Máfia.

Enquanto ocupa seu lugar na quadrilha e ganha cada vez mais a confiança (e a amizade) de Lefty, Donnie testemunha a ascensão do violento Sonny Black (Michael Madsen) que galga meteoricamente os degraus da hierarquia rumo ao comando após a morte de um dos chefes. O trabalho, perigoso por si só, compromete o casamento do agente federal com Maggie (Anne Heche), assim como sua cada vez maior dificuldade em manter duas vidas paralelas (a de agente infiltrado e a de pai de família) sem colidirem-se. Além disso, a amizade genuína que acaba nutrindo por Lefty lhe coloca um dilema nas mãos; abandonar em definitivo seu disfarce entre os mafiosos significaria colocar deliberadamente a vida de Lefty em perigo.

Construído com austeridade à toda prova pelo diretor inglês Mike Newell –e excedendo-se justamente nessa seriedade ao fazer um filme não tão atrativo assim enquanto entretenimento –o filme não consegue fugir das comparações óbvias (e aqui até inevitáveis) com “O Poderoso Chefão” até mesmo pela reluzente presença de Al Pacino em seu elenco. Há, entretanto, que se reconhecer o belo desempenho de Pacino na composição desse personagem, longe de ser um ‘chefão’ como em seu trabalho mais icônico dentro do sub-gênero gangster, mas sim um subalterno do qual roteiro e direção têm notável inspiração em ressaltar as fragilidades e vulnerabilidades de sua ingrata posição. Ele e o jovem Johnny Depp compensam as poucas novidades que o filme de Newell oferece enquanto cinema, proporcionando um duelo de interpretações afiado no encontro de dois grandes intérpretes cinematográficos vindos de diferentes gerações.

sexta-feira, 18 de março de 2022

O Guardião de Memórias


 Um daqueles livros que, de tempos em tempos, caem nas graças do público leitor e viram fenômeno, “O Guardião de Memórias”, após influenciar um sem-fim de obras melodramáticas (incluindo telenovelas brasileiras!), ganhou uma adaptação pelas mãos do diretor Mick Jackson; de uma filmografia tão eclética quanto oscilante, com trabalhos como “O Guarda-Costas”, “Vulcano-A Fúria”, “L.A. Story” e “Ao Vivo de Bagdá”.

Nas mãos dele, a obra literária de Kim Edwards ganhou uma versão audio-visual efetiva, honesta, cheia de imperfeições, mas consciente de seu poder  de agradar o público ao qual se dirige desde que, na manutenção de seu drama, as cordas certas fossem puxadas.

Nele, há uma palpável predisposição para evocar os trabalhos do diretor Douglas Sirk, o mestre do melodrama norte-americano, tais como “Imitação da Vida”, “Sublime Obsessão” e “Tudo O Que O Céu Permite”. Na noite de 1964 em que Norah (a belíssima Gretchen Mol) dá à luz aos seus filhos gêmeos, uma série de acontecimentos definem para sempre a vida de todos os personagens ali envolvidos: Seu marido –que à propósito era médico ortopedista –David (Dermot Mulroney, de “Muito Bem Acompanhada”) e a enfermeira Caroline Gill (Emily Watson) se encontram sozinhos no pronto-socorro, fazendo com que apenas os dois tivessem ciência de que dentre o casal de gêmeos que acabara de nascer, Paul e Phoebe, a menina havia nascida com Síndrome de Down. Atormentado pela lembrança da irmã deficiente que morreu aos 12 anos, destruindo com isso a alegria de viver de sua mãe, David toma uma decisão extrema: À revelia de Norah, que desmaiou durante o parto e não ficou sabendo de nada, David orienta Caroline para que entregue a menina, naquela mesma noite, à uma casa de abrigo. Entretanto, Caroline segue sua consciência que não permite que ela deixe uma inocente criança recém-nascida num lugar precário e terrível. Ela passa a cuidar da criança como se fosse sua mãe. Paralelamente, David –que tem uma ligeira noção de que a filha seguiu viva e criada por Caroline em algum lugar dos EUA –leva Norah a acreditar que a filha morreu ainda no parto, crente que isso basta para que a esposa siga em frente.

Contudo, não é bem isso que acontece: Nos anos que se seguem, a medida que a narrativa retrata a trajetória das duas famílias, Caroline se envolve com um solícito caminhoneiro conforme luta arduamente pelos direitos de Phoebe estudar em escolas de crianças normais, enquanto que David e Norah (donos de um tempo mais considerável de tela) testemunham seu casamento sofrer graves abalos, iniciados pelo alcoolismo dela –originado justamente do fato de não superar a falta desesperadora da filha –seguido da negligência de David tanto na questão matrimonial (na angústia de guardar consigo um segredo tão atroz, ele passa a isolar-se de Norah que, carente, passa a procurar o amor nos braços de outros homens), quanto parental (David não aceita, a medida que Paul vai crescendo, a aptidão dele para a música, exigindo que o filho siga a carreira médica como ele).

Por meio de uma câmera fotográfica que recebe de presente, e na qual descobre sua verdadeira paixão, David registra as fotos da história de sua família –esse é, pois, o “Guardião de Memórias” –e, aos poucos, descobre o paradeiro de Caroline e Phoebe, capturando em fotos, também o destino da própria filha.

Apaixonado por arquétipos e paradigmas cinematográficos, o diretor Mick Jackson persegue, em seus projetos, os elementos que enfatizam este ou aquele gênero, e os explora com um entusiasmo e uma paixão que, não obstante as falhas pontuais e eventuais de seu estilo, acabam contagiando o expectador. “O Guardião de Memórias” representa para ele uma oportunidade de emular Sirk, John Dahl, Frank Borzage, Edmund Goulding, King Vidor e outros diretores expressivos do melodrama. Como eles, Jackson enfatiza as emoções amargas –ainda que a direção de atores ocasionalmente se revele escorregadia –e inflama as situações dramáticas no enredo, focando em mazelas cotidianas –sendo aqui a circunstância adversa dos portadores de Síndrome de Down, ainda que tratada com superficialidade. O grande mérito de seu trabalho, para além do afago no público exclusivo dessa categoria, está no hábil afastamento em ceder ao óbvio, não transformando o personagem de David num mero vilão sem sentimentos, mas valendo-se das propriedades de sua premissa para justificar, contextualizar e (ao menos tentar) compreender as motivações de seus terríveis atos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Bettie Page

Há, em princípio, algo de diferenciado entre este filme e os outros trabalhos da diretora Mary Harron (de obras como “Psicopata Americano”): Uma simpatia bastante genuína para com sua personagem principal, embora ainda assim, seu usual tom cáustico se mantenha.
Ao biografar a Rainha das Pin-Us, Harron aproveita para lançar um olhar cheio de ironia crítica sobre as contradições de uma época, e a forma como, no contraste com o presente, essa mesma época se mostra de traços nostálgicos tão curiosos e improváveis.
Interpretada com vigor e certeza por Gretchen Mol (que faz desta a melhor atuação de sua carreira), a protagonista Bettie Page surge já colhida no furacão de interesses ideológicos que polarizaram os EUA dos anos 1950: De um lado, o conservadorismo ferrenho de políticos que instituíram comitês para julgar atividades que eles supunham por contravenções, do outro, a liberdade de expressão (inclusive no que tange ao erotismo) buscada por profissionais e artistas que especularam os mais diversos meios de mídia, em especial, as revistas fotográficas obscuras e clandestinas, produzidas tão somente para atender a demanda de cidadãos comuns com gostos... peculiares.
Há um flashback (como há em muitos filmes com essa natureza biográfica na trama) e regressamos até os anos 1930, quando descobrimos que, desde a infância até o princípio da vida adulta, nos anos 1940, Bettie já experimentava formas diversas de abuso: Primeiro, do próprio pai, depois do marido (ponta do ator Norman Reedus, da série “The Walking Dead”) com quem teve um rápido e malfadado matrimônio, e até mesmo de desconhecidos, numa sequência particularmente desconcertante.
É notável que desde o início, o filme de Harron já deixa evidente em sua sempre inocente protagonista (apesar das várias facetas de sordidez do mundo que a cerca) um fascínio contumaz e fidedigno pelas virtudes da religião –que ela terminou abraçando no final.
Já entramos no início da década de 1950 quando Bettie decide ir morar em Nova York, inicialmente com planos de fazer um curso de interpretação teatral, ministrado pelo personagem do ator Austin Pendleton (de “Um Amor A Cada Esquina” e “Uma Mente Brilhante”).
Com seu desempenho no curso prosperando a passos de tartaruga e os parcos empregos disponíveis apenas de secretária ou garçonete, Bettie procura completar sua renda fazendo ensaios fotográficos, os quais, do início ao fim, ela encara com ingenuidade e sem qualquer malícia. Mas, não a diretora Mary Harron. Ela deixa bem clara a escala gradual que as fotos de Bettie vão galgando em direção à pornografia que a fará notória –do inicial e banal ensaio à beira de uma praia, até os ensaios pagos na agência de revistas gerenciada pelo casal Klaw (Lili Taylor e Chris Bauer) que a fotografam usando roupas de couro e botas de salto alto ao estilo ‘bondage’ até as fotos mais picantes –enfatizando o teor cada vez mais subversivo na trajetória da personagem e, ao mesmo tempo, proporcionando ao público (sobretudo, o masculino) as cenas de nudez total da esplêndida Gretchen Mol que ele tanto quer ver!
O filme –no qual até então predominava uma fotografia em preto & branco –adquire cores quando (a exemplo de “Touro Indomável”, de Martin Scorsese) mostra as cenas filmadas por câmeras Super 8, ou os ensaios fotográficos de Bettie nas revistas.
Também o filme fica colorido toda vez que Bettie viaja para Miami, onde conhece a fotógrafa Bunny Yeager (Sarah Paulson) que com ela faz alguns de seus mais notáveis ensaios, inclusive um para a ainda emergente revista Playboy.
Em algum momento, a fotogenia natural e cintilante de Bettie a faz destacar-se de todas as demais modelos e a torna famosa até para seu próprio prejuízo: Ela é reconhecida nos ensaios e nas audições para teatro, nos restaurantes e nos lugares públicos.
Até que, por fim, é intimada a depor num comitê governamental (interessante que Harron tenha escalado como um dos políticos do comitê, o ator David Strathairn, que estrelou o filme de mesmo tema, “Boa Noite e Boa Sorte”, num papel de posições opostas), onde Bettie sequer tem a chance de dar sua própria versão dos fatos depois de ser deixada em espera por 12 horas (!).
A redenção, para Bettie –o que Mary Harron torna até bastante natural –se encontra na fé.
Produzido pela HBO Films, e criticado por alguns por seu caráter seletivo dos percalços mostrados na trajetória real de Bettie Page, o filme de Mary Harron é irônico por, ao contrário das demais obras independentes que ela realizou, fazer um certo esforço para não se mostrar tão desconfortável ao expectador, função que, a despeito de alguma infidelidade factual, ela cumpre com mérito, sobretudo, graças à bela e carismática presença de Gretchen Mol.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Marcas da Vingança


Se não chega a ser um realizador magistral, ao menos, Paul Schrader aprendeu com os melhores, tendo seu roteiro para “Taxi Driver” dirigido por Martin Scorsese, com quem colaborou em várias ocasiões.
“Marcas da Vingança” é um trabalho que oscila assim entre um talento que quase alcança a excelência  minado por circunstâncias que lhe impõe uma quase mediocridade.
No que já de imediato parece ser um flaskback (e de fato é) acompanhamos as lembranças pesarosas do protagonista todo desfigurado –mas, mantendo uma pose de autoridade –em um avião.
É 1987 e a narrativa retrocede quatorze anos –iniciando a trama assim em 1974.
Num hotel à beira-mar de Miami acompanhamos Alan (Joseph Fiennes, de “Shakespeare Apaixonado”), o rapaz que virá a se desfigurar; entretanto ali ele é o boa pinta camareiro do lugar e seus clientes são o casal Brice, Mark (Ray Liotta) e Ella (Gretchen Mol).
Numa narrativa algo noir (uma paixão de Schrader), o filme faz muito lembrar em sua primeira parte os desenlaces de “Corpos Ardentes” e demais produções onde o personagem principal invariavelmente se envolve com a mulher errada –porque Alan vai, sim, se envolver com Ella. E a obsessão por seu corpo e por seu amor será tanta que o rapaz não irá pestanejar ao pegar um carro e ir atrás do casal na cidade onde moram.
Contudo, Mark é muito mais perigoso do que parece: Quando a formação católica de Ella a obriga a confessar seu pecado à Mark, ele usa de suas influências e incrimina Alan para que este vá preso por um crime que não cometeu e, uma vez encarcerado, já está também planejado seu assassinato.
Mas, Alan –com o rosto, o queixo e a mão direita dilacerados por um tiro –sobrevive e, nos quatorze anos vindouros prepara cuidadosamente sua vingança.
O filme de Schrader abandona então suas similaridades com o film noir e se revela profundamente influenciado por “OConde de Monte Cristo” –como nessa premissa clássica, Alan muda de identidade (agora é o poderoso e respeitado advogado Manny Esquema, visto no avião do início) e planeja despedaçar Mark (que não o reconhece) aos poucos, incriminando-o, tirando-lhe o dinheiro que tem e, por fim, levando-lhe a esposa.
É, portanto, um prato que se come frio, essa tal de vingança.
Uma série de elementos soam inverossímeis no filme de Shrader, que até diverte mesmo assim, mas os aspectos que de fato depõe contra sua qualidade são ainda mais circunstanciais: o roteiro –ponto forte de Schrader em detrimento de sua capacidade na direção –salta abruptamente no tempo acarretando um lapso imenso entre a fase relembrada e o momento presente (1987), deixando vários pontos obscuros acerca de como Alan ascendeu até se tornar o Sr. Esquema ou em quais condições isso se deu; um problema que impede a aproximação do público com o protagonista.
No papel principal, Joseph Fiennes oscila em equívocos: Não tem autoridade o suficiente quanto o personagem exige dele e, no mais, fica no registro do sofredor romântico como em outros de seus trabalhos.
Membro mais reconhecido do elenco, Ray Liotta –nota-se –é ligeiramente reverenciado em cena, e essa adulação o faz perder um pouco o controle da própria canastrice.
Até mesmo a encantadora Gretchen Mol, cuja beleza e sensualidade tornam mais difícil julgar sua atuação, perde a mão de sua caracterização em alguns momentos.
Ainda assim, junto com esses lapsos, como  em outros trabalhos de Schrader, convive uma inspiração e uma concepção de bom cinema que agregam qualidades indiscutíveis ao todo, resultando num válido entretenimento.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Cartas Na Mesa


Tendo realizado algumas obras relevantes nos anos 1980, o diretor John Dahl teve seu estilo intrincado e instigante de pronto relacionado aos grandes estetas do film noir do passado.
É esse estilo que, em “Cartas Na Mesa”, ele emprega para revestir de charme a narrativa que acompanha de maneira tensa as rodadas aparentemente intermináveis de pôquer sobre as quais o filme se debruça.
Recém-saído do filme que revelou seu talento ao mundo, “Gênio Indomável”, Matt Damon vive o estudante de Direito Mike McDermott que uma jogada desafortunada faz perder, já no início do filme, todo o dinheiro que tinha para o mafioso russo Teddy KGB (John Malkovich, sempre de um preciosismo a toda prova).
Apesar da capacidade de ler as reações de seus adversários e de prever a sucessão de cartas ser para ele um dom natural, Mike se ressente desse episódio a ponto de prometer à namorada (Gretchen Mol) que nunca mais irá jogar novamente.
Isso, entretanto, dura somente até que Les ‘ Worm’ Murphy (Edward Norton, também ele, um talento recém-descoberto em Hollywood) saída da prisão.
Worm é o pequeno demônio que incita os caprichos e os excessos de Mike em seu ombro direito. E uma vez com os pés fora da prisão, ele já deve dinheiro para pessoas potencialmente perigosas, extensões que levam, inclusive, à Teddy KGB!
Mike é seu amigo de infância (certamente o único que lhe restou) que ampara todas as suas encrencas: Acaba assim contraindo uma dívida homérica em nome de Worm e, embora tenha tido uma ou outra recaída pela tentação de jogar (o quê terminou mnando seu relacionamento, e comprometendo a confiança de seu mentor, vivido por Martin Landau, depositada nele) será essa dívida que o conduzirá realmente de volta às mesas de pôquer e à uma inevitável revanche contra KGB.
No cinema de John Dahl –como pode ser conferido no anterior (e fantástico) “O Poder da Sedução” –importa menos a busca por inovação e mais o primor de um execução bem feita e certamente envolvente. Ele honra completamente esses predicados aqui, valendo-se desses dois jovens talentosos (Damon e Norton) para entregar personagens críveis e interessantes e sequências de jogatina que exigem nervos de aço do expectador.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Arte, Amor e Ilusão

Por mais improvável que possa parecer haviam argumentos que isentavam o diretor Neil Labute das acusações de misoginia em seu primoroso e corrosivo "Na Companhia de Homens"; e eles em geral estavam relacionados na retrato austero, humano e crível da única personagem feminina da trama.
É o próprio Neil Labute quem abre mão dessas ressalvas ao criar neste "Arte, Amor e Ilusão" um dos mais incisivos e subversivos ataques ao sexo oposto já materializado em filme, mostrando as mulheres como seres de uma crueldade atroz.
Valendo-se da mesma objetividade cirúrgica de seu mais audaz trabalho (mas, desprovido da excelência que ostentou nele), Labute estabelece a enxutíssima narrativa num conjunto de atos que se sucedem em cortes rápidos e ilustram a situação que ele deseja expor de maneira sucinta, sem espaço para considerações paralelas, e isso tudo começa no museu onde tímido e acanhado Adam (Paul Rudd, o “Homem-Formiga”) trabalha como vigia. É lá, num dos turnos da noite que ele encontra Evelyn (a linda e metódica Rachel Weisz), uma artista plástica que comportamento (ou, pelo menos, de discurso) notadamente anarquista e idealista tentando pichar um quadro de museu (!).
Contra as probabilidades, Adam começa a namorar com Evelyn (note a conotação bíblica e primitiva no nome dos dois protagonistas), ao passo que ela provoca uma transformação no comportamento dele e na sua relação com um casal de amigos (vividos por Gretchen Mol e Fred Weller).
Embora a narrativa de Labute engane o expectador com uma condução serena, sugerindo normalidade, perto do fim, uma surpresa das mais desagradáveis aguarda o expectador e os personagens.
E, a partir deste ponto, o texto vai revelar as surpresas que o filme reserva em seu terceiro ato, por isso, se não viu o filme e não quiser saber, não leia a partir daqui!
Pois bem, a restar uns vinte minutos para o seu desfecho (o filme é enxutíssimo, tem apenas noventa e seis minutos de duração), pouco depois que Adam pede Evelyn em casamento, a narrativa se ocupa de mostrar uma alardeada apresentação de arte promovida por Evelyn, quando Labute dá então seu derradeiro (e devastador) golpe final: Ela revela que, na verdade, todo o namoro e o relacionamento que tiveram nos últimos meses fez parte de uma espécie de experimento que ela realizou, onde tentou (e conseguiu) ilustrar o modo como uma pessoa é capaz de se metamorfosear sob influência de outra. Não apenas isso, mudar até mesmo as relações que tinha antes.
A revelação em si é chocante quando o filme chega nesse momento, ainda mais porque o diretor e a atriz não economizaram esforços para fazer o próprio expectador gostar da personagem, e porque a partir desse trecho a expressão dela de frieza para com a manipulação sentimental que realizou é de uma crueldade que a iguala ao personagem de Aaron Eckhart em “Na Companhia de Homens”.
Chega a doer no coração quando o personagem de Paul Rudd pede de volta a ela o anel de noivado que foi de sua avó e ela afirma, impassível, que quando a exposição acabar o entregará de volta.
Tão exasperante é o efeito que este filme de Labute suscita no expectador que é difícil dizer o que exatamente ele quis com ele: Um retrato contundente da falta de empatia? Uma triste constatação dos efeitos unilaterais do amor? Ou um misógino exemplo de pesadelo masculino feito para chocar?
As três coisas provavelmente, ainda que, estando ele certo ou não, isso não rendeu uma obra à altura de seus melhores trabalhos.

domingo, 14 de maio de 2017

Manchester À Beira - Mar

Na cena que abre “Manchester À Beira-Mar” vemos uma conversa capturada de maneira corriqueira –num barco em movimento, um rapaz e seu sobrinho discutem com quem a criança escolheria ficar numa ilha deserta e a criança, a despeito dos contínuos argumentos convincentes que seu tio lhe dá, insiste em escolher o pai –mas, cujo mote será de importância fundamental à sua premissa.
O corte seco e abrupto (como são secos e abruptos, aliás, todos os cortes que a montagem realiza) salta um considerável período de tempo; e isso, aos poucos ficará bem claro.
O jovem que era o tio, Lee (Casey Affleck, vencedor do Oscar de Melhor Ator) trabalha como zelador consertando defeitos técnicos num prédio cheio de pessoas chatas em outra cidade.
A notícia da morte do irmão (interpretado por Kyle Chandler) adiciona mais angústia em sua já melancólica rotina.
No regresso à sua cidade-natal, Manchester, uma sensação de desconforto também retorna, junto com uma série de flashbacks traumáticos que irão revelar o quê o afastou do lugar, e porque, sob inúmeros aspectos, Lee será incapaz de permanecer por lá.
O destino, porém, tem suas maneiras de se mostrar irônico: Antes de morrer, seu irmão, Joe, deixando definido em testamento que seria Lee o tutor de Patrick (o jovem Lucas Hedges numa boa atuação), seu sobrinho, agora um adolescente com dezessete anos.
A narrativa do diretor e roteirista Kenneth Lonnergan contrapõe então o passado que contém a tragédia que modificou tudo (em meio ao qual percebemos a sutil diferenciação da interpretação de Casey Affleck pontuando o “antes” e o “depois” para seu personagem), na forma de lembranças quase intrusivas e fantasmagóricas, e o presente que exige uma resolução a qual o protagonista, em sua perplexidade ao reencontrar seus transtornos mais inapeláveis, não consegue encontrar.
Debruçado nesses elementos, não haveria como o trabalho de Lonnergan evitar o foco no elenco, e ele revela-se aqui, digno do centro das atenções: Todos estão magnificamente bem conduzidos e orientados, com destaque para a breve, mas pra lá de significativa participação da talentosa Michelle Williams no papel de Randi a esposa de Lee –é com ela, por sinal, a cena mais marcante e emblemática de “Manchester Á Beira-Mar”, quando ela e Lee se reencontram e ensaiam uma dolorosa tentativa de exorcizar todas as suas dores e ressentimentos; é onde fica mais nítido o primor dos intérpretes, a maneira objetiva e lúcida com que Casey Affleck consegue trabalhar a expressão das aflições de seu personagem, e a sutileza espetacular com que o diretor soube calibrar esses fatores.
É um filme dolorido e triste, como poucos que o cinema norte-americano se dispõe a fazer, e a excelência com que é realizado por vezes o transforma numa das obras mais notáveis do ano.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os Chefões

Abel Ferrara chega a parecer, em “Os Chefões”, uma versão mais modesta e menos suntuosa de Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), Sergio Leone (“Era Uma Vez Na América”), ou até mesmo Martin Scorsese (“Caminhos Perigosos” e “Os Bons Companheiros”), influências das quais seu trabalho tira muito emprestado.
E, talvez, por sua natureza ítalo-americana, seu registro gangster das angústias que remetem a tradições cuja cultura está do outro lado do oceano, é notável, até mesmo a restrição orçamentária comum ao tipo de cinema independente que Ferrara realiza nos anos 1990 lhe confere charme.
Nesta obra cheia de personalidade, a vida tumultuada de três irmãos envolvidos com negócios escusos da máfia –o mais velho e austero Ray (Christopher Walken), o imprevisível Chez (Chris Penn, em grande atuação), e o mais jovem e inconseqüente Johnny (Vincent Gallo) –é colocada em perspectiva durante o funeral deste último, que foi assassinado.
O universo mafioso da década de 1930 é descortinado com ênfase nas entrelinhas mais viscerais, nos personagens que disfarçam psicopatia com requinte (além de Chris Penn, chama muito a atenção a composição de Benicio Del Toro, antes do Oscar por “Traffic”, para um coadjuvante de muita relevância) e nos comportamentos propensos à auto-destruição, uma característica que desperta especial interesse em Ferrara (algo que ele compartilha com o diretor alemão Werner Herzog. Não foi, definitivamente, por acaso, que Herzog quis, portanto, refilmar um dos mais cultuados trabalhos de Ferrara, “Vício Frenético”, mas essa é uma outra história...).
O diretor Abel Ferrara investiga, com pompa e circunstância, as trajetórias mundanas de crime e castigo fazendo a narrativa oscilar no tempo e intercalar variados e complementares flashbacks, sempre acrescentando em sua obra os simbolismos religiosos –essencialmente católicos –que pontuam sua filmografia.