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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A Fuga


 Em seu livro “Especulações Cinematográficas”, Quentin Tarantino dedica um capítulo inteiro a falar de “Os Implacáveis”, dirigido por Sam Peckinpah, estrelado por Steve McQueen e Ali MacGraw, adaptado de um livro de Jim Thompson, roteirizado por Walter Hill e lançado em 1972. O mesmo filme –talvez, o último grande filme da carreira do astro McQueen –foi refilmado, nos anos 1990, neste “A Fuga” –cujo o título original é o mesmo, “The Getaway”. E talvez seja mesmo imprescindível tecer esse comentário: “A Fuga” é daquelas produções que se mostra muito mais baseada no filme anterior que adaptou a obra do que na própria obra adaptada.

Não à toa, o roteirista aqui é novamente Walter Hill (em colaboração com Amy Jones) que, na segunda metade da década de 1970 e ao longo de toda década de 1980, sagrou-se como um diretor especializado na ênfase da masculinidade e da violência, ambos elementos em constante conjugação; mais ou menos como um pupilo de Sam Peckinpah. Já o diretor deste novo “The Getaway” vem a ser Roger Donaldson (de "Sem Saída") cujo estilo característico, tão charmoso quanto presunçoso, adorna com elementos típicos dos anos 1990, a trama de tormento romântico e perseguição que se desenrola, com algumas referências, sobretudo, na primeira parte, ao requintado cinema policial de Michael Mann, especialmente o clássico “Profissão: Ladrão”.

Carter ‘Doc’ McCoy (Alec Baldwin) e Carol (Kim Basinger) são casados e apaixonados; mais que isso, são frequentemente cúmplices nas investidas criminais que executam. Uma delas (o resgate das mãos de policiais do sobrinho de um chefão fora-da-lei) dá errado: Com isso, graças à traição do muy amigo Rudy Travis (Michael Madsen), Doc amarga pouco mais de um ano atrás das grades de uma penitenciária no México. Para salvá-lo, a esposa, Carol, negocia com o empresário inescrupuloso Jack Benyon (James Woods, todo serelepe numa ponta especial) a libertação de Doc e, com isso, sua participação num grande roubo. As coisas começam a se complicar quando Doc e Carol devem aceitar como companheiros nesse roubo –basicamente, uma invasão explosiva e perigosa numa casa de apostas de corrida de cachorros –o instável Frank Hansen (Philip Seymour Hoffman, ainda bem jovem) e, mais uma vez, o traiçoeiro Rudy.

O assalto se sucede sem maiores atropelos, entretanto, tão logo os três saem com a generosa quantia de dinheiro roubado em mãos, as traições de costume começam a se suceder: Rudy fulmina Hansen à tiros e, ao tentar fazer o mesmo com Doc no ponto de encontro, é alvejado e largado ao léu no leito de um rio. Já, Benyon imaginava outra coisa: Tendo negociado com Carol a liberdade de Doc em troca de favores sexuais (e revelado isso à Doc em cima da hora), Benyon esperava que Carol traísse seu parceiro e se juntasse a ele, mas, Carol descarrega sua arma no próprio Benyon e agora, o casal fica com mais um cadáver nas mãos.

Doc e Carol têm assim, uma mala de dinheiro consigo, porém, as autoridades, os homens de Benyon (chefiados por um sibilante David Morse) e o próprio Rudy (que sobreviveu aos tiros!) para caçá-los até chegarem à fronteira do México, onde os documentos falsos de praxe possibilitarão que desapareçam do mapa. A situação, no entanto, se revela ainda mais complicada com o fato de que, agora, com as novas revelações acerca de toda a real dimensão do trato feito com Benyon, Doc e Carol não mais confiam um no outro como antes.

Ao conferir as considerações de Tarantino acerca de “Os Implacáveis”, podemos entender algumas das escolhas tomadas aqui neste filme. Em primeiro lugar, as escolhas para os antagonistas: Se no filme de 72, Benyon era vivido por um ligeiramente inadequado Ben Jonhson (velho demais e sexualmente apático demais para o papel), nesta versão, Benyon tem a maldade libidinosa de James Woods (sem dúvidas, um acerto), enquanto que em 72, tínhamos o contido e truculento Al Lettieri para o papel de Rudy, aqui temos, o nada contido e ainda mais truculento Michael Madsen, dando toda a dimensão psicopata e imprevisível que ficou faltando em Rudy no filme anterior, durante sua sórdida sub-trama na qual empreende uma perseguição ao casal Doc/Carol levando como reféns, o desafortunado veterinário Harold (James Stephens) e sua espevitada esposa Fran (Jennifer Tilly), cuja Síndrome de Estocolmo logo a leva a tornar-se amante de Rudy (!?).

Já os protagonistas de “The Getaway” são um caso curioso –e sobre muitos aspectos até de apelo junto ao público, a grande razão de ser do projeto: Casados na vida real, Kim Basinger (assombrosamente linda, e no auge de seu status de sex-simbol máximo no cinema de então) e Alec Baldwin estrelam a obra em circunstâncias até bem parecidas com as quais o público se acostumou a ver Ali MacGraw e Steve McQueen no “The Getaway” dos anos 1970 –foi durante essas filmagens, que McQueen (divorciado à pouco tempo) engatou um romance com MacGraw (então casada com o produtor Robert Evans).

Dito isso, não são as cenas de ação (executadas com minúcia e precisão técnica o suficiente para não fazer feio ante a comparação com Peckinpah) nem a trama frenética e palpitante em torno da perseguição (bem equacionada entre as manobras de roteiro e a criteriosa montagem) que representam o maior atrativo desta produção na época em que foi lançada (meados de 1994) e agora: São as tórridas cenas de sexo entre o casal Alec Baldwin/Kim Basinger (cuja primeira colaboração juntos foi a comédia “Uma Loira Em Minha Vida”). Na verdade, essas cenas por pouco não tiraram completamente a atenção sobre todo o restante do filme –não apenas pelo irresistível apelo (em plenos anos 90, época do sexploitation chic, as produções erotizadas como “Instinto Selvagem”) da nudez em cena de uma estrela como Kim Basinger, como também pela ousadia até hoje flagrante de tais sequências –ainda é possível observar nessas cenas indícios, que repercutiram desde o começo, nos quais o casal principal pode ter chegado às vias de fato durante as filmagens (!).

Portanto, “A Fuga”, embora tenha predicados técnicos e artísticos de cinema (tímidos, no fim das contas), deixa esses tais aspectos de lado, que fizeram de “Os Implacáveis” o filme sensacional de ação que ele é, para abraçar considerações mercadológicas (e, hoje, estranhas) bem particulares de sua época.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Donnie Brasco


 O filme “Donnie Brasco” foi indicado ao Oscar 1998 de Melhor Roteiro Adaptado, o qual ele perdeu para “Los Angeles-Cidade Proibida”. É bastante incisiva e elegante a forma com que o roteirista Paul Attanasio expõe os meandros e códigos de conduta mafiosos a medida que vai revelando motivações e temperamentos e seus personagens nesta adaptação de um famoso livro escrito por um ex-agente do FBI que trabalhou por anos infiltrado na Máfia de Nova York,

É final da década de 1970 quando o gangster Lefty Ruggiero (Al Pacino) acolhe o jovem joalheiro Donnie Brasco (Johnny Depp) em meio às fileiras de seu clã mafioso. Lefty, porém, a despeito de ser veterano e de gozar de relativo respeito entre os gangsters, não chega nem perto de ser um dos cabeças da Família Bonanno, que exerce poderoso controle sobre o crime organizado do Brooklyn. Ao receber Donnie e responsabilizar-se por ele, Lefty arrisca sua própria pele diante dos inclementes chefões. No entanto, Donnie Brasco é também o agente federal Joe Pistone, perito em infiltração cujo objetivo é reunir o máximo possível de provas judiciais contra a Máfia.

Enquanto ocupa seu lugar na quadrilha e ganha cada vez mais a confiança (e a amizade) de Lefty, Donnie testemunha a ascensão do violento Sonny Black (Michael Madsen) que galga meteoricamente os degraus da hierarquia rumo ao comando após a morte de um dos chefes. O trabalho, perigoso por si só, compromete o casamento do agente federal com Maggie (Anne Heche), assim como sua cada vez maior dificuldade em manter duas vidas paralelas (a de agente infiltrado e a de pai de família) sem colidirem-se. Além disso, a amizade genuína que acaba nutrindo por Lefty lhe coloca um dilema nas mãos; abandonar em definitivo seu disfarce entre os mafiosos significaria colocar deliberadamente a vida de Lefty em perigo.

Construído com austeridade à toda prova pelo diretor inglês Mike Newell –e excedendo-se justamente nessa seriedade ao fazer um filme não tão atrativo assim enquanto entretenimento –o filme não consegue fugir das comparações óbvias (e aqui até inevitáveis) com “O Poderoso Chefão” até mesmo pela reluzente presença de Al Pacino em seu elenco. Há, entretanto, que se reconhecer o belo desempenho de Pacino na composição desse personagem, longe de ser um ‘chefão’ como em seu trabalho mais icônico dentro do sub-gênero gangster, mas sim um subalterno do qual roteiro e direção têm notável inspiração em ressaltar as fragilidades e vulnerabilidades de sua ingrata posição. Ele e o jovem Johnny Depp compensam as poucas novidades que o filme de Newell oferece enquanto cinema, proporcionando um duelo de interpretações afiado no encontro de dois grandes intérpretes cinematográficos vindos de diferentes gerações.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Thelma & Louise

Um dos melhores filmes de Ridley Scott (o quê não é pouco, se lembrarmos que esse é o mesmo diretor que nos deu “Blade Runner-O Caçador de Andróides” e “Alien”), e também um dos mais sensacionais, expressivos e competentes libelos do feminismo, lançado numa época em que esse tipo de manifestação, fosse numa obra de arte, fosse num filme comercial, era considerado muito incomum. Não apenas isso, o trabalho de Scott conseguiu também o feito improvável de ter suas duas protagonistas (Suzan Saradon e Geena Davis, ambas geniais) indicadas ao mesmo Oscar de Melhor Atriz em 1991 –vencido por Jodie Foster, por “O Silêncio dos Inocentes”; o filme de Scott acabou vitorioso na categoria de Melhor Roteiro Original para Callie Khouri.
Em todos os aspectos possíveis, “Thelma & Louise” é uma realização extraordinária.
Thelma Yvonne Dickinson (Geena, absolutamente brilhante em sua evolução de jovem vulnerável à mulher confiante) e Louise Elizabeth Sawyer (Suzan, esplêndida em suas nuances dramáticas, engraçadas e tensas) são amigas de longa data: A primeira amarga uma vida de dona de casa ao lado de um marido rabugento e negligente (Christopher McDonald), e a segunda vive à beira da insatisfação com seu emprego de garçonete e seu namoro pouco frutífero com um saxofonista (Michael Madsen). Dando um intervalo ocasional nessa vida medíocre, as duas saem para uma inocente viagem de fim de semana, que logo se converte numa situação mais aflitiva: Durante a parada num bar de beira de estrada, Thelma é quase estuprada por um caminhoneiro. Louise impede o ato, mas não consegue evitar de matá-lo com um tiro à queima-roupa. Agora, as duas são fugitivas da lei em potencial.
A possibilidade se torna fato depois que, ao terem todo seu dinheiro roubado por um vigarista caroneiro (estréia de Brad Pitt no cinemão), elas enveredam, por fim, ao crime.
Deste ponto em diante, o filme de Scott se torna uma espécie de libelo feminista –quando esse tipo de movimento representativo ainda estava longe de virar moda na cultura pop –e as sensacionais protagonistas incorporam versões femininas pontuais e caprichosamente remodeladas de arquétipos cinematográficos normalmente relacionados aos homens: Thelma engendrando uma atrevida tentativa de assalto à um posto de gasolina, numa cena que remete ao clássico primeiro assalto registrado em “Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas”, ou a arrepiante seqüência final quando, encurraladas, as duas heroínas acabam reproduzindo o mesmo desfecho icônico de “Butch Cassidy”, naquela que deve ser uma das grandes cenas de toda a filmografia de Ridley Scott –e, meu Deus, que trilha sonora espetacular é aquela!
Um dos mais fenomenais filmes a retratar as mulheres no cinema, munido não de discursos planfetários ou ideológicos, mas, de pura e simples maestria.

sábado, 26 de novembro de 2016

Kill Bill

Volume 1
Desde o começo, os filmes de Quentin Tarantino sempre tiveram por definição uma característica bastante referencial –obras como “Pulp Fiction” comprovam isso –mas, foi a partir da saga “Kill Bill” que ele deixou de lado uma certa preocupação em demonstrar uma postura mais séria e abraçou definitivamente seu lado cinéfilo, harmonizando-o com o lado de realizador: Isso porque, para ele, os filmes de artes marciais e os faroestes spaghetti eram acalentados com mais carinho do que as obras intelectuais de Michelangelo Antonioni, por exemplo (pode parecer uma comparação presunçosa, mas até 2005 haviam críticos que apontavam sim Tarantino como o “novo Antonioni”).
Foi com esta saga sobre vingança que Tarantino passou a ser visto com um verniz muito mais pop e, por conseguinte, passou a ter ainda mais influência no cinema hollywoodiano.
O plano de Tarantino era conceber um filme ágil de artes marciais enquanto esperava as complicações envolvendo seu vindouro épico sobre a Segunda Guerra Mundial se resolverem, como a complicada agenda dos astros que ele almejava, Warren Beatty e Adam Sandler (mas, as coisas deram errado e ele terminou realizando esse épico, “Bastardos Inglórios”, com Brad Pitt e Eli Roth no lugar deles).
Até isso tudo ser solucionado, o filme ágil que Tarantino planejava havia se tornado, ele próprio, num épico cujo roteiro previa uma duração de três horas (!). A saída para manter um formato mais enxuto foi dividir “Kill Bill” em dois volumes.
Assim sendo, o primeiro deles mostra "A Noiva" (Uma Thurman, magnífica) acordando repentinamente de um coma de cinco anos. Agora ela quer vingança contra aqueles que, no dia de seu casamento, mataram seus convidados, e tentaram matá-la mesmo grávida, colocando-a assim naquele leito de hospital. Ela elabora então uma lista contendo o nome desses traidores, seus antigos colegas no grupo de assassinos de aluguel do qual fazia parte (que incluem a ardilosa Daryl Hannah, Michael Madsen, Lucy Liu e Vivica A. Fox), e por fim Bill (David Carradine, soberbo), seu ex-chefe e ex-amante.
Nenhum lugar do mundo onde estiverem será longe demais para escapar da sua vingança.
E, deveras, o filme explode com elementos que, até então, pareciam que jamais veríamos num filme de Quentin Tarantino, como cenas insanas e alucinantes de lutas (cortesia da excelência da dublê Zoe Bell, e do coreógrafo de lutas Yuen Woo Ping) e até mesmo um momento vibrante em que o filme se transforma num anime japonês (quando a personagem de Lucy Liu é apresentada), terminando num gancho perfeito, aflitivo e empolgante para a retomada da trama, no segundo filme.

Volume 2
A história acerca dessa divisão, por sinal, foi muito alardeada na campanha de marketing de “Kill Bill”, cujo intervalo de tempo entre o lançamento das duas produções foi mais ou menos uns dez meses.
Passando a impressão de que eram um filme só dividido em dois.
Todavia, até hoje é assunto de discussão e teoria se essa divisão já não fazia parte dos planos de Tarantino desde o começo, visto que ambos os volumes são óbvia, visível e pensadamente dois filmes completamente diferentes.
Se o volume 1 era um filme de ação, e como tal ostentava uma exuberância visual em detrimento de uma carpintaria dramática mais complexa, o volume 2, pouco a pouco, seguia em sentido inverso: Desconstruindo a ordem subconsciente das expectativas que a própria trama provocava, Tarantino (re)introduziu uma série de elementos que tratavam de humanizar os mesmos personagens que surgiam quase cartunescos e caricatos no volume 1 (deixando explícita a forte influência que o clássico japonês "Lady Snowblood" teve sobre o trabalho de Tarantino), mas que no volume 2 adquiriam dimensão trágica, propósitos e insuspeita autenticidade.
Isso amplia ainda mais a natureza do filme que, mesmo assim, não deixa de lado a sinergia desigual das cenas de luta; elas apenas deixam de ser o foco principal em prol dos elementos que realmente importam à narrativa.
A lista já está na metade. Quando reencontramos a "Noiva" (não apenas seu verdadeiro nome é revelado neste volume, como também a sua motivação), ela está prestes a completar a sua vingança. Faltam, entretanto, alguns dos nomes mais difíceis de serem eliminados. Os percalços de sua vingança a farão recordar suas duras lições de aprendizado das artes marciais, com seu antigo mestre (uma sucessão memorável e divertida de cenas) e explicarão melhor o seu comportamento e o de outros personagens.
Ao final de tudo, estará Bill aguardando-a pacientemente com uma revelação surpreendente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Cães de Aluguel

A essência de todo o cinema de Tarantino está em “Reservoir Dogs”. O cerne de sua trama é basicamente o mesmo no ótimo “Os Oito Odiados”, e há muitos elementos (sobretudo, o personagem que deve esconder sua procedência dos outros à sua volta) também presentes em “Bastardos Inglórios”.
E continua sensacional, depois de vinte e cinco anos de sua realização.
Sempre que o revejo, eu me pergunto se os elementos que o faziam tão novo (e que introduzia ao cinema esse sopro de renovação chamado Quentin Tarantino) aparecem para aqueles que só o vêem agora, depois que muito do estilo que o define já foi assimilado até por produtos bem mais industriais, e que o próprio Tarantino (hoje um diretor pop) empregou sua premissa, de maneiras variadas, em outros trabalhos.
Contudo, bastam-me alguns minutos vendo o filme para perceber que ele não envelheceu, ao contrário, o tempo foi lhe dando mais predicados, evidenciando o preciosismo de seu ritmo cadenciado, o brilho das interpretações, e até mesmo as manobras espertas de Tarantino para contornar as restrições orçamentárias (com as quais, a partir de “Kill Bill” ele não mais precisou lidar).
Começamos em uma cafeteria aleatória, onde um grupo de engravatados joga conversa fora (é extremamente curioso estabelecer a relação deste filme com outro –também ele excelente –lançado no mesmo período: “O Sucesso A Qualquer Preço”, de James Foley, que também lançando mão de um recurso quase teatral, deixava recluso num mesmo ambiente vários personagens masculinos vestindo terno e gravata, lidando com certa ausência de valores morais e cuja tensão parecia prestes a explodir. Neste caso, os personagens eram vendedores).
Os homens discutem sobre a letra da música “Like A Virgin” de Madonna, ou sobre a importância de gorjetas para as garçonetes. Há uma agressividade no ar.
Na cena seguinte, descobriremos que esses engravatados, que aparentavam ser executivos ou algo assim, são assaltantes e que o golpe que planejavam não deu tão certo assim: Eles estão divididos e em fuga, rumando para o ponto de encontro combinado onde, esperam, todos que não morreram aparecerão para conseguirem elucidar quem dentre eles os traiu.
A partir desse ponto, Tarantino (que interpretava um dos assaltantes, morto logo nesse início) mantêm seus personagens nesse espaço fechado, onde a tensão irá galgar outros níveis à medida que as revelações sobre os indivíduos ali reunidos surgirão na tela, algumas compartilhadas entre eles, outras expostas somente para o expectador.
Até fechar no desfecho genial e apoteótico, o diretor nos entregará inúmeros momentos memoráveis, como a longa, angustiante e detalhada cena da tortura contra o policial, na qual o ator Michael Madsen ostenta uma mescla assustadora de frieza e desdém.
Se há alguém, contudo, que está sensacional aqui, este é Harvey Keitel. Uma pena que sua colaboração com Tarantino tenha se resumido à este filme e à uma participação em “Pulp Fiction”: Keitel traz para o filme a presença palpável e calorosa de um Randolph Scott, ou mesmo um John Wayne, nos tempos da Velha Hollywood. Uma espécie de ator cada vez mais em falta.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.