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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venom - A Última Rodada


 Venom” foi o estopim de uma iniciativa um tanto estranha da parte da Sony Pictures: Proprietários dos direitos de imagem do Homem-Aranha, os executivos fizeram um acordo com a Marvel Studios até hoje um pouco nebuloso –e assolado por altos e baixos na relação entre as duas empresas –no qual a Marvel poderia usar o Homem-Aranha em seus filmes, desde que a Sony ficasse com um quinhão das gordas bilheterias. Abrindo mão de livre e espontânea vontade desse protagonista –com exceção da premiada animação “Homem-Aranha No Aranhaverso” –a Sony então dedicou-se a realizar produções envolvendo todos os demais personagens do assim chamado ‘Aranhaverso’, ou seja, os vilões, anti-heróis e coadjuvantes que compunham a variada fauna que orbitava, nos quadrinhos, o seu personagem principal (e que não era pouca, visto que a diversidade de personagens que cercam o Homem-Aranha é extremamente rica). A ideia era, portanto, fazer filmes (na realidade, fazer todo um universo!) a partir de personagens introduzidos nas histórias em quadrinhos do Homem-Aranha, só que sem o Homem-Aranha (!), fazendo deles protagonistas eventuais na falta do protagonista factual.

E as coisas até que começaram bem com “Venom”, dirigido por Ruben Fleischer e estrelado por Tom Hardy, fazendo bonito nas bilheterias, contudo, bastou muito pouco para ver que nem tudo eram flores... logo, uma sequência foi providenciada, “Venom-Tempo de Carnificina” , cujo resultados foram bastante lastimáveis; na esteira veio o achincalhado “Morbius”, estrelado por Jared Leto, ainda em 2024, tivemos a catástrofe “Madame Teia” e enquanto escrevo estas linhas, “Kraven-O Caçador” amarga uma bilheteria de cinema que faz dele o último prego no caixão desse universo malfadado. O que nos traz para este “Venom-A Última Rodada”.

Fornecendo um ponto de partida para o roteiro de uma forma um tanto intrincada –ele não continua, na verdade, de onde “Tempo de Carnificina” parou, mas sim das duas cenas pós-crédito envolvendo Venom e Eddie Brock, vistas respectivamente em “Tempo de Carnificina” e “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” –o filme dirigido por Kelly Marcel (diretora de “Walt Nos Bastidores de Mary Poppins” e uma das autoras do argumento de “Cruella”) acompanha Eddie Brock e o simbionte alienígena, unido ao qual ele se torna o poderoso Venom, numa fuga desenfreada. Fugindo do quê? Bem... não fica muito claro, mas na maioria das vezes, Eddie foge de soldados armados e equipados que desejam captura-lo, assim como a todas as pessoas expostas aos tais simbiontes alienígenas desde o primeiro filme (lembre-se este é o terceiro!). todos são levados como prisioneiros pelo oficial linha-dura Strickland (Chiwetel Ejiofor) para a secretíssima Área 55 (a Área 51 foi desativada...) para serem estudados pela Dra. Payne (Juno Temple, fraquinha, fraquinha). Logo, outras ameaças, ainda maiores, surgem no encalço de Eddie e Venom: Outros simbiontes, desta vez, oriundos do espaço sideral, mais especificamente do seu planeta-natal que serve, acima de tudo, como prisão para o vilanesco e poderoso Knull –um ser incomensurável poder, vindo –claro –dos quadrinhos da Marvel, pedido, inclusive, por muitos fãs, para ser introduzido neste derradeiro capítulo mas muito pouco aproveitado, sendo que o prólogo até faz parecer que será o grande antagonista deste filme. Ainda que tudo fique só na promessa...

Por alguma razão que nunca fica muito clara –até porque muitas coisas não ficam muito claras no corre-corre que orienta esta narrativa –o simbionte de Eddie possui o tal ‘codex’ que representa a chave para a libertação de Knull da prisão que o impede de partir para a conquista do universo; sendo assim, ele envia legiões de suas criaturas para a Terra a fim da capturar Venom.

A trama a girar em torno dessas desengonçadas motivações vai e vem entre diferentes núcleos de personagens, ostentando amadorismo em quase todos eles –nas cenas da Área 55, onde se espera suspense e um clima sci-fi que explique e justifique o plot cósmico que em algum momento este filme abraça, o ritmo se torna sôfrego, as situações forçadas e as atuações lamentáveis (nem mesmo o sempre competente Chiwetel Ejiofor escapa do vexame); nas sequências envolvendo o próprio Eddie Brock, nas quais imagina-se haverá ação e perseguição a proporcionar aos fãs do personagens aquilo que eles querem, tudo é desmazelado, realizado com uma continuidade duvidosa, adornado de um humor forçado e inapropriado, destituído de timing, e, o pior de tudo, jogado em cena com explicações tão vagas que se tem a impressão de que não existem muitas razões para acontecer aquilo que acontece em tela –salvo o fato de que o roteiro assim determinou.

“Venom-A Última Rodada” é um encerramento de trilogia que almejava ser emocionante e, pelo menos, digno, mas se vê comprometido por tantas inconsistências que chega a ser absurdo terem aparecido numa produção de estúdio, onde milhões de dólares são gastos com profissionais cujo trabalho deveria impedir que esses lapsos acontecessem.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sem Notícias de Deus


 Há algo de angelical na beleza amadurecida e melancólica de Victoria April; em contrapartida, há algo de diabólico na sensualidade à flor da pele e na juventude vulcânica de Penelope Cruz, e esse acerto na escalação de duas atrizes em estado de graça, donas de carisma incomum no cenário cinematográfico mundial, para interpretar personagens assim antagônicas e a um só tempo complementares, é pois o elemento em torno do qual se constrói “Sem Notícias de Deus”, do diretor Augustín Diaz Yanes –a razão, por assim dizer, para que tal projeto exista. Não deixa de ser um procedimento um tanto batido que o cinema espanhol parece decalcar do cinema norte-americano: Reunir em cena dois grandes nomes de forte apelo junto ao público a fim de atrair expectadores para o filme.

Sua trama, num gesto de audácia autoral, cutuca diretamente preceitos religiosos para deles extrair uma certa graça –que nem sempre se revela ferina de fato –o Inferno (no qual seus membros condenados falam sempre em inglês!) envia para a Terra a intempestiva e sensual Carmem (Penelope Cruz), enquanto que o Céu (um ambiente preto & branco vintage onde a língua predominante é o francês!) envia a sensata e bem-intencionada Lola (Victoria April). A razão é o salvamento da alma do boxeador Manny (Demián Bichir): O Céu e o Inferno resolveram disputar a sua alma simbolicamente numa queda de braço onde decidirão se o Céu prossegue com sua carência cada vez maior e mais alarmante de almas benevolentes e o Inferno, com as condições precárias e impraticáveis para a superlotação que, nos últimos tempos, o assolou.

Encarnada na esposa de Manny, Lola tem considerável vantagem nessa disputa, mas Carmem pode apelar para as escapadelas e desvios morais que vez ou outra o suscetível Manny comete –e são inúmeros: Inclusive envolvendo o perigo da criminalidade, algo que, em dado momento, ameaça atingir as duas enviadas do além, obrigando-as a fazer algo que não queriam e nem imaginavam: Unir forças.

Longe de emular Pedro Almodóvar –a primeira referência que vem a mente ao vermos Victoria April e Penelope Cruz no filme –embora hajam traços do cinema latino, sobretudo, na abordagem algo debochada da religiosidade, o trabalho de Diaz Yanes, datado de 2001, é, do início ao fim, assombrado por Quentin Tarantino: A abertura é totalmente inspirada em “Pulp Fiction”, e a condução de seu enredo prima por uma manutenção de diálogos abastecidos de um sarcasmo mesclado à inusitado senso de observação, tudo isso, mais a ênfase já nem tanto original na criminalidade urbana remete muito ao diretor de “Cães de Aluguel”. Entretanto, não é somente Tarantino quem parece orientar as inspirações de Diaz Yanes; também o filme alemão “Corra Lola Corra”, dirigido por Tom Tykwer, de 1998, é talvez sua mais inescapável fonte, na repetição dos nomes dos protagonistas –Lola, a personagem feminina principal (lá interpretada por Franka Potente), e Manny (vivido naquele filme por Moritz Bleibtreu) o personagem masculino principal –e na premissa onde uma mulher (ou duas, como aqui) se propõe a toda uma jornada de exaspero físico e significado metafísico a fim de garantir a redenção de um homem.

Essas escolhas parecem afastar “Sem Notícias de Deus” de uma maior identificação dentro do cinema espanhol ao qual pertence, aproximando-o mais de elementos em voga no cinema hollywoodiano ao qual sua intriga central (o embate meio destrambelhado e ambíguo no fim das contas entre o Bem e o Mal) busca, pelo jeito, parodiar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

As Bem-Armadas


 Comédias já foram um lugar comum no cinema comercial norte-americano. Não mais. Expectadores e críticos de cinemas nos últimos anos certamente notaram a escassez do gênero nos circuitos comerciais. A razão para isso é, certamente, a cultura do politicamente correto (na qual, todo o assunto abordado, seja ele qual for, é passível de ofender os envolvidos, conforme as palavras erradas forem usadas) e, por consequência, a cultura do cancelamento (na qual, uma vez considerado ofensivo –mesmo que nem sempre o seja –um filme, uma obra, uma pessoa, ou qualquer coisa que seja, é taxada pelos moralistas de plantão à solta pela internet e se torna alvo de injúrias, difamação, rejeição e desprezo). Comediantes não podem mais fazer piada sob o risco de virarem alvo em potencial do próprio tema que abordaram, e com isso, as comédias, em especial, aquelas de humor mais afiado e, de repente, crítico, deixaram de serem feitas.

É, portanto, necessário relembrar, de tempos em tempos, algumas dessas obras. “As Bem-Armadas”, realizado há dez anos atrás, não é exatamente um filme tão antigo, porém, conferi-lo hoje já provoca aquela sensação de estarmos vendo um trabalho realizado numa época diferente. Seu apelo de público foi –e até hoje continua sendo –a reunião em cena de duas atrizes que sempre estiveram em estado de graça: A estrela Sandra Bullock (no mesmo ano em que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo esplêndido “Gravidade”) e a comediante Melissa McCarthy.(dois anos depois de ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Missão Madrinha de Casamento”, aliás, repetindo a parceria com o diretor daquele filme, Paul Feig).

Sandra é Sarah Ashburn, agente do FBI cujo comportamento rígido, reto e certo lhe proporcionou a garantida antipatia da maior parte de seus pares investigadores. Melissa é Shannon Mullins, policial da cidade de Boston que, por sua vez, tem –até demais! –o traquejo das ruas: é desbocada, indisciplinada e mundana. Ambas, mulheres da lei tão antagônicas, elas são –claro! –colocadas como parceiras pela força das circunstâncias: A agente federal é designada e seguir o rastro de um misterioso líder do tráfico de drogas a partir da pista descoberta através de um meliante que a policial prendeu.

Pouquíssimo disposta a abrir mão de sua investigação para a Agente Ashburn (até porque seu irmão ex-presidiário, vivido por Michael Rapaport, está envolvido com os traficantes), a Detetive Mullins acaba aceitando-a como aliada. Assim sendo, no decurso da tumultuada investigação e da aproximação assim exigida, as personagens descobrem que, por trás das incompatibilidades extremas, podem criar um laço de companheirismo e amizade capaz de sobrepujar todas as diferenças –e o diretor Paul Feig aproveita assim para explorar cada instante da notável sintonia que Sandra e Melissa conseguem obter em cena.

Ambas talentosas, hábeis em fazer comédia (mérito que nem toda a atriz que se preze tem, nem mesmo algumas conceituadas) e conhecidas por serem pessoas de fácil convivência nos bastidores, a dupla principal é, de fato, o coração do filme, e o diretor nem se preocupa em esconder isso. O enredo do filme –tolo no fim das contas, se pararmos para pensar que os propósitos da trama policial levam somente à expedientes cômicos –sua fauna de histriônicos coadjuvantes –que até reúne alguns nomes de destaque como Thomas F. Wilson (o Biff de “De Volta Para O Futuro”), Demian Bichir e Marlon Mayans –e todas as decisões do projeto visam circundar e centralizar suas protagonistas. E elas fazem bem seu papel: Ninguém no filme consegue capturar mais a atenção do que elas, nem protagonizar uma piada que seja mais divertida –embora aquelas que não têm muita graça também apareçam vez ou outra.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Godzilla Vs Kong


 Se houve um sopro de esperança, em meio a esse mais de um ano de pandemia que foi 2020 e que está sendo 2021, este foi o desempenho pra lá de positivo de “Godzilla Vs Kong” nas bilheterias –tudo leva a crer que, depois de fracassos homéricos como “Tenet” e “Mulher Maravilha 1984”, as salas de cinemas têm a chance de recuperar seu apelo de público e levar as pessoas para assistirem filmes na tela grande outra vez.

Mas, e a produção responsável por tal feito, vale a pena?

Muito, sobretudo, porque nos aspectos que verdadeiramente importam, seus realizadores compreendem o que faz de um filme uma experiência arrebatadora aos olhos do público. Com competência e arrojo visual, “Godzilla Vs Kong” é o produto mais sincero e eficiente a aportar nos cinemas trazendo a proposta de transportar o público para um outro mundo do lado de lá das telas. Um mundo mágico, de perigos e deslumbres visuais, e cenas hipnóticas de destruição cuja ressonância dramática tem a apropriada duração de seu entretenimento. E isso tudo começou lá atrás, quando “Godzilla”, de Gareth Edwards, foi lançado.

Lá, naquele esforço (bem-sucedido) para trazer o icônico monstrengo nipônico para o contexto da cinematografia hollywoodiana, nos foi apresentada a ideia de que Godzilla era só primeiro de outros monstros que dariam as caras nas telas eventualmente –entre eles, o clássico macaco gigante, King Kong, no divertidíssimo e efusivo “Kong-A Ilha da Caveira” –e culminaria no encontro deles, aqui, em “Godzilla Vs Kong”.

Claro que haviam obstáculos a serem transpostos, e  primeiro deles, por incrível que pareça, era a própria história (!); afinal, ao mesmo tempo que um filme não pode deixar de ter uma premissa minimamente desenvolvida, era claro para qualquer um que ninguém iria assisti-lo interessado na construção do roteiro. Os expectadores iriam conferir a obra em busca do embate cinético entre dois dos monstros mais famosos das telas de cinemas –que já se encontraram em outras ocasiões, como naqueles filmes antigos japoneses, estrelados pelo Godzilla.

A surpresa é que a produção dirigida por Adam Wingard se sai magnificamente bem desse curioso paradoxo: Seu roteiro não é (e nem almeja ser) um primor de dramaturgia, e nem tampouco se preocupa muito com eventuais lapsos narrativos (os núcleos de personagens humanos, por exemplo, parecem pertencer a dois filmes distintos que mal se preocupam em conectarem-se uns aos outros), mas sua função, para justificar e qualificar o combate entre os dois monstros, cumpre seu objetivo, entrega sucessivas cenas espetaculares, e ainda fornece oportunidades para que imagens atordoantes sejam construídas em cena.

Quando reencontramos o descomunal Kong, ele já não está mais nos anos 1970, como em seu filme anterior, e de certa forma, nem em seu habitat natural, a Ilha da Caveira: Agora, ele está numa contenção de última geração, um simulacro high-tech da Ilha da Caveira, onde cientistas –entre eles a personagem de Rebecca Hall –estudam a possibilidade de usá-lo e controlá-lo quando assim for necessário. Fundamental para isso é o laço que Kong constrói com uma garotinha surda-muda.

A oportunidade, por sinal, não tarda a surgir: O lagartão Godzilla, uma vez mais, ressurge do fundo do oceano, mas, desta vez, ao contrário do que fez no filme de 2014, e em sua continuação, “Godzilla II-O Rei dos Monstros”, lançada em 2019, ele ataca os humanos ao invés de tentar protegê-los. Oriunda do filme de 2019, a jovem Maddie (a maravilhosa Millie Bobby Brown, da série “Stranger Things”) é a única que acredita que Godzilla não é uma força do mal e, se atacou instalações de pesquisa de uma empresa privada, é porque ele percebeu, antes de qualquer um, o perigo escondido para todo o planeta que reside ali.

Assim, Maddie, ao lado do hacker Bernie (Brian Tyree Henry) e do nerd Josh (Julian Dennison, de “Deadpool 2”), seguem uma pista que os leva até Hong Kong, onde o verdadeiro vilão do filme espera o momento de atacar –e não estou falando do personagem manipulador de Demián Bichir.

Paralelo a isso –lembra quando eu falei de dois filmes que parecem nunca se encontrar? –Kong é conduzido por outros protagonistas humanos (como o personagem de Alexander Skasgaard, de "A Lenda de Tarzan") para além do mar, e seu encontro com Godzilla. Depois disso, essa trama imbrica por alguns outros mistérios nunca relevantes o suficientes (porque, no final, tudo o que queremos são sequências de luta entre os dois monstros!) que levam até o Centro da Terra (numa belíssima referência visual e narrativa ao clássico de Jules Verne) e consequentemente à batalha-clímax, ocorrida no centro de uma metrópole, e que conta com a aparição-surpresa uma terceira (e bastante famosa) criatura.

Saído das fileiras de filmes de terror, o diretor Adam Wingard soube observar, na narrativa desse espetáculo um tanto desafiador, as engrenagens que acessam o interesse do público, bem como os fatores que diferenciam meras cenas de destruição (algo que este filme tem em profusão) das imagens antológicas de fato: A incontornável condição humana.

As câmeras prodigiosas de Wingard assumem pontos de vista tão improváveis quanto privilegiados, mas um dos aspectos mais inspirados de sua realização é compreender (e acrescentar isso ao seu espetáculo) que a circunstância humana é cheia de limitações. Como as câmeras (ou o olho humano) não podem enxergar num ângulo de 360°, os movimentos que o enquadramento realiza são insanos (chegam a ficar de ponta cabeça), isso sem falar dos solavancos, da poeira e dos detritos que parecem ser jogados em nossa cara. Essa percepção, somada aos efeitos visuais cheios de propriedade, oferecem uma formidável sensação de imersão nas cenas apoteóticas de confronto. Tudo num nível de primazia, que sinceramente, poucos esperavam.

De repente, está aí o segredo do sucesso de “Godzilla Vs Kong”: Ser tão incrivelmente surpreendente em seus acertos a ponto de atingir um nível, como cinema, que poucos realmente nutriam em suas expectativas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Uma Vida Melhor


 O ator mexicano Demian Bichir ficou conhecido por seu papel na série “Weeds”, mas o grande ponto de virada de sua carreira foi mesmo a indicação ao Oscar de Melhor Ator obtida por este “Uma Vida Melhor”; nele, Bichir interpretada, com primazia sólida e inconteste, um protagonista representativo das aflições sociais, físicas  e factuais de todos os imigrantes latinos nos EUA; Carlos Galindo, seu personagem, é um mexicano que vive e trabalha como jardineiro em L.A. junto do filho adolescente, Luiz (José Julián). A situação de Carlos se encontra sempre na corda bamba: Imigrante ilegal, ele precisa se manter longe do jugo policial, uma vez que é a única pessoa com quem o filho pode contar.

De seu lado, Luiz estuda numa escola onde as opções, aos filhos de imigrantes, se resumem em aderir à criminalidade das gangues, ou viver a mediocridade da subordinação.

Entretanto, o roteiro de Eric Eason e Roger L. Simon e a direção de Chris Weitz tratarão de dispor os elementos que ameaçarão mesmo esse frágil status quo: Carlos está à beira do ameaçador desemprego; seu contratante, Blasco (Joaquin Cosio), deseja vender a caminhonete com a qual movimentava o negócio de jardinagem nas mansões de Beverly Hills.

Ele sugere a Carlos que compre seu veículo progredindo de empregado à empregador, mas Carlos reluta em assumir tal risco; contudo, diante da alternativa –voltar à disputar serviços de um dia com imigrantes em situação ainda pior que a dele –Carlos decide tomar um empréstimo da irmã, Anita (Dolores Heredia), e realizar a compra.

Em seu primeiro dia, porém, Carlos tem a caminhonete roubada pelo outrora aparentemente confiável Santiago (Carlos Linares), ficando sem opções.

Agora, Carlos, ao lado de Luiz, deve seguir as pistas que tem a fim de reaver o veículo roubado e sua única chance de colocar a vida sua e do filho nos trilhos.

Mais do que fornecer um retrato das ingratas circunstâncias dos imigrantes latinos e sua celeuma trabalhista nos EUA (embora essa também seja uma das intenções do diretor Chris Weitz), o filme acompanha pai e filho nessa tortuosa jornada, entrevendo suas diferentes índoles e percepções acerca das mazelas com que se deparam: Luiz é impulsivo, agressivo, tem a impaciência da juventude, e com frequência isso o leva a não compreender as atitudes do pai, e não ser compreendido por ele; Carlos entende na pele as aflições experimentadas por seu povo e, na ânsia de passar certa conciliação ao filho, exprime sua compaixão, mesmo por aqueles que, num primeiro momento, não parecem merecê-la, como Santiago.

Em sua contundência quase aventuresca, o roteiro lança mão do recurso de jamais compensar qualquer boa ação do personagem principal, afunilando suas desventuras em vez disso, o que ajuda a afligir gradativamente o público. Na esteira dessas frustrações, vemos Carlos e Luiz não só perderem à caminhonete –o objeto que a narrativa lhes faz sempre tentar recuperar, e sempre lhes toma de seus dedos por meios de inquietantes estratagemas –mas, também a terem sua permanência em solo americano contestada –o que pode levar Carlos à deportação para o México, afastando-o de Luiz.

De ritmo certamente apetecível às intenções abertamente comerciais da obra, e ornado com a habilidade que o diretor Weitz já demonstrou em trabalhos dos mais variados gêneros, “Uma Vida Melhor” imprime um viés de melodrama nem sempre perfeito aos seus objetivos realistas, naturalistas e neo-realistas. O fator que o faz funcionar de verdade é, sem dúvida, a presença austera e catalisadora de Demian Bichir, formidável ator que compreende de forma instintiva e precisa as nuances estóicas na trajetória de seu personagem.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

sábado, 2 de setembro de 2017

Alien - Covenant

Desde que se aventurou a revisitar (e a pré-sequenciar) sua obra-prima “Alien”, de 1979, com “Prometheus”, de 2012, e este “Alien-Covenant”, Ridley Scott tem buscado nas mais altas inspirações uma forma de ramificar sua criação com exemplares à altura do inspirado trabalho que ele mesmo entregou.
Até agora, porém, isso não deu certo.
Se “Prometheus” e seu roteiro multifacetado e equivocadamente desconexo se aproveitavam de elementos extraídos do livro “As Montanhas da Loucura”, de H.P. Lovecraft (que sem dúvida, também inspirou o próprio “Alien”), este novo trabalho parece ser influenciado diretamente por “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells.
É quase como numa versão do Dr. Moreau daquele livro –alguém que, na concepção de grandeza que atribui a si mesmo e na disponibilidade de recursos que obteve, tenta brincar de Deus –que reencontramos o andróide David, interpretado por Michael Fassbender, remanescente de “Prometheus” e a maior conexão, por assim dizer, deste filme com aquele.
O outro andróide da trama, Walter, é também ele vivido por Michael Fassbender e integra, por sua vez, a tripulação da nave Covenant, destinada a cruzar o espaço sideral até um planeta a ser colonizado.
Algo, porém, muda os rumos da missão de maneira trágica –complicações que terminam tirando a vida de seu capitão (uma ponta não creditada de James Franco) e despertando o restante da tripulação (que inclui nomes como Demien Bichir e Danny McBride) do hipersono do qual só acordariam em uns sete anos.
E o filme, assim, já começa errado: Dando uma justificativa cheia de meandros desnecessariamente complicados para o seu ponto de partida e estabelecendo uma motivação (a morte de seu marido, o personagem de Franco) para a protagonista Daniels (Katherine Waterston, de “Vício Inerente” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, chorona e apática) que pouco afeta o público ainda nesse início.
A liderança da nave Covenant passa assim para Oram (Billy Crudup, canastrão) que deixa-se intrigar pelas mensagens de rádio vindas de outro planeta desconhecido e toma a precipitada decisão de rumar para lá averiguar.
É a partir daí que o filme de Scott introduz o personagem do andróide David, retomando-o uma década depois dos acontecimentos do filme anterior, desta vez, tentando atrelar a si mesmo o papel de criador, e não de criatura, enquanto se vale das circunstâncias a disposição para dar vida à monstros, iniciando assim as conexões narrativas deste “Covenant” com “Prometheus” e, na intenção vaga dos realizadores, com o restante da franquia “Alien” –isso porque, sim, o monstrengo aparece aqui, indo de encontro a uma das questões frustrantes do filme anterior, mas ele não faz muito mais do que isso (simplesmente aparecer) no que diz respeito a honrar toda mitologia que se criou em torno daquele grande filme.
Marcado por cacoetes de filmes de terror –entre os quais a criação de personagens estabanados, condenados a tomar sempre a decisão errada que sela seu destino, e outros visivelmente feitos somente para morrer, diálogos constrangedores e cenas gratuitas que precedem mortes sangrentas, como o providencial banho no chuveiro com nudez –o difícil é ignorar o fato de que o próprio Ridley Scott está vulgarizando o conceito que ele mesmo criou.
Mas, claro, há uma produção milionária que garante excelência e beleza a todo o aparato técnico.
Ridley Scott tentou consertar, é verdade, os equívocos de “Prometheus” conseguindo, no processo tão somente cometer equívocos novos e se distanciando ainda mais daquele primor que em “Alien” ele pareceu executar com tanta facilidade.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.