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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Os Reis de Dogtown


 Está certo que a diretora Catherine Hardwicke realizou o primeiro exemplar da “Saga Crepúsculo”, mas ela começou sua carreira como designer de produção em 1986 no cult-movie “Thrashin-Os Skatistas”, de David Winters (um drama juvenil sobre skate que conta com a participação de muitos skatistas famosos como Tony Alva, Tony Hawk e Christian Hosoi), e estreou na direção de maneira promissora com “Aos Treze”, no qual ficou patente sua habilidade para retratar com energia vívida e orgânica as celeumas da juventude. Obedecendo critérios parecidos, “Lords of Dogtown” é seu trabalho mais pessoal e ambicioso.

Em meados dos anos 1970, em Venice Beach, na Califórnia, um grupo de jovens adolescentes, procura se enturmar no meio local. Isso significa integrar o bando liderado pelo carismático e avoado Skyp (o saudoso Heath Ledger, sempre ótimo) que, de início, controlam a praia como os donos das ondas de surf –o próprio Skyp é dono de uma loja de pranchas, tornada ponto de encontro pela frequência dos jovens. Entre eles, estão três grandes amigos, o impulsivo Jay Adams (Emile Hirsch), o vaidoso Tony Alva (Victor Rasuk, de “Cinquenta Tons de Cinza” e “Stop Loss-A Lei da Guerra”) e o compenetrado Stacy Peralta (John Robinson, de “Elefante”, interpretando o próprio roteirista do projeto). Aprendizes de surfista, os garotos têm toda praia de Venice para surfar mas, com a estiagem sofrida na Califórnia naqueles tempos levando-os, com a ausência das ondas, a adotar a prática do skatismo, eles têm apenas as ruas turbulentas e acidentadas do subúrbio para praticar skate. Ainda assim, são ótimos! É Skyp o primeiro a identificar potencial no grupo: Ele monta uma equipe meio de improviso –chega a encomendar camisetas com a estampa “Equipe Zephyr” –e pensando num lucro imediato com a venda de skates e pranchas, inscreve os jovens numa competição de skate local.

Apesar de alguns atropelos (Tony dá um soco na cara de um dos juízes e Jay desobedece algumas regras da competição!), Stacy sai como primeiro colocado –isso porque, dias antes, o próprio Skyp havia tentado deixá-lo de fora, discriminando-o por ser o único do grupo a responsabilizar-se com um emprego por insistência do pai.

Junto de vários outros colegas, amigos e namoradas –entre esses amigos, o afável Sid (Michael Angarano, de “Quase Famosos”) –Jay, Tony e Stacy começam a procurar um local para treinar suas manobras no skate; uma modalidade que, sem ter sido ainda profissionalizada, não possuía um local para treinamento. A saída é invadir casas sistematicamente à procura de piscinas vazias d’água (ou que, na ausência, dos donos, eles mesmos pudessem esvaziar!), nas quais se torna possível praticar as manobras cada vez mais audaciosas que eles começam a criar.

A medida que vão galgando níveis do esporte –e, com sua repercussão, transformando a percepção do próprio skatismo em um esporte –os assim chamados Z-Boys de Dogtown vão também conquistando fama e dinheiro, logo saindo debaixo das asas do nada visionário Skyp: Jay, desejoso de proporcionar uma vida melhor para sua mãe (Rebecca De Mornay) é o primeiro a se afastar e fechar acordos que iam contra seus princípios, embora sua natureza indomável o faça voltar para os guetos; Tony, um dos mais auspiciosos, é contaminado pelas promessas do empresário Topper Burks (Johnny Knoxville) que passa a agenciá-lo; e Stacy, o último a deixar Skyp, fecha com a fábrica de skates Gordon & Smith.

A fama seduz a cada um deles, e por sua juventude, por imaturidade e inconstância diante de uma situação inédita, ameaça também tragá-los, inclusive, afetando sua amizade: Jay se revolta com os rumos despidos de despretensão em seu caminho; Tony deixa-se levar pelas promessas de ser o melhor do mundo (algo que ele chega até a concretizar no primeiro campeonato mundial de skate), até um acidente envolvendo seu olho quase cegá-lo; e Stacy busca racionalizar o turbilhão que começa a engoli-los, incapaz de conciliar esse estrelato meteórico com o que restou de suas vidas pessoais.

Adotando como linguagem visual uma câmera inquieta, prodigiosa em acompanhar mesmo as bruscas manobras sobre rodas dos skates, a diretora Hardwicke confere o dinamismo e a urgência tão adequados à sua narrativa, compreendendo perfeitamente o tom de euforia que a história exige em sua primeira parte, a sucessão quase asfixiante de sensações vindas de todos os lados que define a segunda, e o declínio moral e sentimental que precede o êxtase que traduz a terceira e última parte.

É uma obra especialmente curiosa no retrato pulsante de uma geração, tornando-a protagonista de suas aflições e expectativas como qualquer geração jovem de qualquer época. Os mesmos episódios serviram de inspiração também ao documentário “Dogtown and Z-Boys-Onde Tudo Começou”, lançado em 2001 (quatro anos antes deste filme), dirigido pelo próprio Stacey Peralta e narrado por Sean Penn.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amante À Domicílio


Um ator brilhante normalmente mais associado a coadjuvantes –mas, tendo seu momento de brilho em pelo menos uma ocasião, no magnífico “Barton Fink-Delírios de Hollywood” –John Turturro arrisca-se na direção reservando para si um personagem que representa, em geral, uma massagem de ego para qualquer intérprete que se preze: Altivo, solene e inabalável.
Fioravante tem todas essas características e ainda divide muitas cenas com o notável elenco feminino que para este filme foi arregimentado.
De humor tipicamente nova-iorquino, Turturro já escancara sua referência mais óbvia colocando Woody Allen como seu co-astro –e amplificando ao máximo a sensação de déja vu ainda estamos numa comédia de raízes profunda e culturalmente judaicas!
Murray Schwartz, personagem de Allen, desfez-se a pouco da livraria que pertenceu a sua família por gerações. Ao mesmo tempo, seu funcionário e amigo de longa data, o próprio Fioravante, terminou na dependência de bicos ocasionais como encanador e eletricista.
Mas, Murray tem um plano impronunciável: Ofertou –meio que à revelia dele –os serviços viris de Fioravante a sua médica (Sharon Stone) que, curiosa por realizar um ménage à trois ao lado da amiga (Sofia Vergara), encontrou em Fioravante, proposto por Murray, uma saída para seu anseio.
Relutante mas, de certa maneira passivo, ele concorda com a situação imediatamente criada por Murray que vira, no frigir dos ovos, seu cafetão. Ele, com a sucessão de serviços bem prestados (!), eles iniciam um novo negócio que bate de frente com a rigidez da comunidade judaica do bairro onde moram quando Murray resolve atrair como cliente a viúva Avigal (a francesa Vanessa Paradis), o objeto do desejo, por sua vez, do patrulheiro do bairro Dovi (Liev Schreiber) que passa a vigiar a dupla de perto.
Há um humor contido e pretensamente elegante neste filme bem menos atrevido e malicioso que sua premissa é capaz de sugerir.
Ele revela um bom diretor de cenas em John Turturro certamente mais voltado para as sutilezas da atuação do elenco –como era de se esperar –do que para aspectos mais técnicos como montagem e ritmo. No final, ele próprio parece bastante consciente de que, se existem acertos em seu filme, eles ocorrem pelas inspiradas escolhas de seus atores e atrizes.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Chef


Tendo sido responsável pelo filme que viabilizou a construção do Universo Marvel no cinema (“Homem de Ferro”), além de sua continuação, de outra obra de imodestas intenções comerciais (o não tão bem-sucedido “Cowboys & Aliens”) e da excelente e aplaudida versão live-action de “Mogli-O Menino Lobo”, o ator e diretor Jon Favreau experimentou certamente as mais variadas facetas da ribalta –desde o reconhecimento numa obra popular passando pela frustração de um trabalho sem o mesmo êxito e a reafirmação de sua capacidade.
Em face dessa trajetória, a trama de “Chef” pode ser perfeitamente vista como uma metáfora transparente e espirituosa sobre os percalços da criação artística.
Para tanto, é significativo que Favreau (normalmente aparecendo como coadjuvante nos filmes dirigidos por si próprio) tenha reservado a si mesmo o papel de protagonista –a identificação não somente é plena, mas ele deseja também torná-la óbvia para o expectador.
Ele é Carl Casper, chef de cozinha de um restaurante cujo proprietário (Dustin Hoffman, uma das muitas participações especiais que surgirão) acomodou-se ao básico para satisfazer seus clientes: Nada de inovações culinárias, mantendo sempre o mesmo menu que faz sucesso entre a clientela fidedigna.
“Se você fosse num show dos Rolling Stones não ficaria indignado se Mick Jagger não cantasse ‘Satisfaction’?” argumenta ele.
Os atritos com Casper começam em função disso: Lá vem um exigente crítico gastronômico (Oliver Platt) para avaliar o chef que, devido a isso, quer dar uma bela reformulada no menu. O proprietário é contra e, por conta disso, Casper recebe severas críticas por sua acomodação –iniciando assim uma atrapalhada rusga digital com o crítico trocando hilárias farpas pelo Twitter (que ele aprendeu a pouco, com o filho pequeno, a usar!).
Incapaz de demonstrar todo o potencial de sua arte, Casper se demite, mas as presepadas na internet ao invés de fazê-lo famoso o fizeram infame: Apesar de seu talento não há contratantes interessados no chef disponível.
É sua ex-esposa (vivida por uma deslumbrante Sofia Vergara) quem sugere aquilo do qual ele procurava evitar: Trabalhar em um trailer-lanchonete.
Entretanto, é ali, naquele pequeno restaurante ambulante –num tour que vai de Miami até Los Angeles (e levando a tiracolo seu sub-chef interpretado por John Leguizano e seu filho vivido por Emjay Anthony) –que Casper irá redescobrir o prazer de exercer a própria arte sem as amarras do protocolo, estreitar os laços entre ele e seu próprio rebento e, quem sabe, reacender a chama do amor que outrora tivera pela ex-mulher.
Sem maiores pretensões como a de fascinar os críticos ou de arrebatar as bilheterias, e munido de uma simplicidade salutar –tal e qual seu próprio protagonista –o diretor Jon Favreau prepara, em “Chef”, um prato delicioso em todos os sentidos; é um desafio não ficar com água na boca diante dos takes constantes de pratos apetitosos e convidativos que os personagens preparam ao longo de todo o filme.