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terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ajuste Final


 Em seus primeiros projetos cinematográficos, os Irmãos Coen, Joel e Ethan, procuraram visitar distintos gêneros de cinema, a fim de testar suas aptidões e encontrar sua própria voz autoral dentro de expedientes já estabelecidos. É por isso que, em sua primeira fase, fomos brindados com obras como “Gosto de Sangue” (um neo-noir), “Arizona Nunca Mais” (comédia screwball) e “Barton Fink-Delírios de Hollywood” (drama de metalinguagem). À eles, soma-se este “Miller’s Crossing” com o qual os Coen levam um viés inusitado ao filme de gangster.

Ambientado numa cidade norte-americana indefinida (ainda que tenha sido filmado em Nova Orleans), e situado no ano de 1929 (o auge da Lei Seca), “Miller’s Crossing” possui um prólogo que parece um piscadela à “O Poderoso Chefão”, a referência-mor do gênero: Diante da câmera, um descendente de italianos (tal e qual no filme de Coppola) faz um monólogo quase que para a plateia –e para o poderoso ‘chefão’ deste filme, o irlandês Leo O’Bannon, vivido com ar supino por Albert Finney. O descendente de italianos, contudo, é outro gangster, Johnny Casper (Jon Polito, de “A Conquista da Honra”), e ele esboça seu descontentamento com um certo Bernie Bernbaum, um bookmaker clandestino que, apesar de sua insignificância, está incomodando a harmonia de seu negócio de apostas ilegais.

Casper quer Bernie morto. Leo recusa seu pedido. E está, assim, declarada a guerra.

Ouvindo tudo, está Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço-direito de Leo e seu melhor amigo, o único aparentemente capaz de expor opiniões discordantes ao irascível Leo. Tom sabe que, ao negar um pedido relativamente sensato à Casper, Leo está pondo a paz de seu império mafioso à perder, mas, Leo se mantém irredutível e a resposta para isso não tarda à vir: Leo está enamorado  da charmosa vigarista Verna Bernbaum (Marcia Gay Harden, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pollock”) que vem a ser irmã de Bernie Bernbaum (John Turturro). A pedido de Verna, portanto, Bernie goza da proteção indireta de Leo, e seus deslizes constantes, fonte de irritação de Casper, recebem vista-grossa do chefão. Tom, entretanto, sabe que essa paixonite de Leo pode levar à sua derrocada –e, para complicar ainda mais as coisas, Tom e Verna são amantes às escondidas de Leo (!),

Não obstante o requinte cinematográfica que pontua este filme –enfatizado na brilhante fotografia de Barry Sonnenfeld e na música climática, operística e lírica de Carter Burwell –a trama extremamente complexada e intrincada, abarrotada de informações ambíguas, traições, reviravoltas e alianças forjadas de última hora, é contada mesmo através de diálogos carregados de melindres entre os personagens. Nessa circunstância adornada de perfídia, não chega a ser inesperado quando, ao descobrir a traição do melhor amigo, Leo rompe com Tom e este passar para o lado de Casper –a fim de provar sua lealdade ao novo chefe, contudo, Tom é obrigado por seus capangas à levar o incauto Bernie para a floresta de Miller’s Crossing, local onde, pelo jeito, os mafiosos têm o hábito de levar para sacrificar suas incontáveis vítimas.

Amparados em seus valores cinematográficos à toda prova, os Coen dão uma grande contribuição ao conceito narrativo –difundido pela obra-prima de Francis Ford Coppola –no qual as intrigas e tramóias mafiosas, desenroladas num novelo elaborado de mortes e conchavos, ganham uma carregada aura de tragédia e ópera; exemplo disso, entre outras passagens tornadas memoráveis, é o ataque à mansão de Leo, cujo tratamento bastante estilizado e poético deixa um tanto quanto de lado as pretensões de realismo para ressaltar o ambiente em suas minúcias pictórias, como se todos os locais (a mansão, o escritório de Leo, o quarto de Tom, o Clube Shenandoah –olha a referência! –e a própria Miller’s Crossing) fossem palco dos desdobramentos irônicos de uma mitologia muito particular.

Essas considerações, envoltas numa rigidez acadêmica tanto técnica quanto artística, somadas ao inerente humor negro dos Coen, tornam pouco convincentes (ainda que sempre intrigantes) muitos dos desenlaces da trama –um pequenino lapso que, na maioria de seus excelentes trabalhos, os Coen souberam habilmente contornar.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Transformers - O Último Cavaleiro


 Em seu quinto exemplar, a “Saga Transformers”, pode-se dizer, estava uma bagunça só: Na intenção de criar roteiros que fossem cada vez mais mirabolantes e surpreendentes em relação à sua mitologia, a franquia se contradizia convulsivamente. Se no primeiro filme, fica bastante clara a chegada dos Autobots na Terra como sendo seu primeiro contato com os seres humanos, logo, nos filmes subsequentes, essa ideia foi sendo deixada de lado, através de pequenas pistas que foram crescendo até chegarmos no radicalismo da proposta desta quinta produção: Os Transformers não só vieram para a Terra séculos antes, como participaram ativamente de inúmeros eventos fundamentais na história da Humanidade, e no caso dos Autobots, interagindo e colaborando diretamente com os seres humanos (!).

Se essa ideia –que parece muito agradar ao diretor Michael Bay, visto a forma com que ela veio ganhando força filme a filme –contraria muito do que foi estabelecido no começo, ao menos aqui, ela ganha respaldo total do roteiro.

Numa trama que os roteiristas insistem em tornar intrincada (mas, quando muito, é rasa, abilolada e pretensiosa), um planeta constituído de material cibernético –o assim chamado Unicron, elemento extraído do vibrante longa-metragem de animação “Transformers-O Filme” lançado em 1986 –está em deliberada rota de colisão com a Terra. A fim de impedir a destruição total de nosso planeta, os Autobots precisam da ajuda (por alguma razão que o filme não sabe bem explicar...) do humano Cade Yeager (Mark Wahlberg, regressando do filme anterior). Ao que tudo indica, os Autobots, desde sua imemorial interação com os seres humanos que remonta eras da Antiguidade (!?), sempre contaram com um Cavaleiro, portador de uma espada com poderes oriundos da tecnologia de Cybertron –e nessa salada indigesta de ficção científica descerebrada e mitologia de almanaque, sobram respingos até para a Lenda de Camelot e a espada Excalibur, supostamente entregue ao Rei Arthur por um dos Autobots (!?!) –é, a coisa fica bem esquisita mesmo...

Assim sendo, no percurso cada vez mais insano dessa premissa, os protagonistas –na verdade, o pra lá de perdido Cade Yeager e a historiadora inglesa Vivian Wembley (Laura Haddock, de “Guardiões da Galáxia”), um interesse amoroso dos mais aleatórios e despropositados –encontram o personagem de Sir Edmund Burton (Anthony Hopkins, coitado, manchando sua boa reputação), profundo conhecedor da história secreta dos Transformers e sua relação com a centenária linhagem dos cavaleiros –entre os quais, como nos é revelado em uma cena, Sam Witwick (Shia Labeouf) do filme original, que descobrimos estar morto (!!!) –da qual o último membro vem a ser o próprio Cade. Ou seja, Cade e a Dra. Wembley, em algum momento do turbilhão insano e caótico de tiros e explosões intermitentes que é a narrativa deste filme, devem encontrar as pistas do paradeiro da espada que seria Excalibur, uma vez que ela pode acionar uma ancestral nave alienígena localizada no fundo do Oceano Atlântico capaz de deter o avanço do Unicron.

Essa é a premissa do filme, mas, francamente, pouca história ou desenvolvimento de personagens ou de trama se consegue perceber neste filme barulhento, vertiginoso e ensurdecedor de Michael Bay –aqui, sua predisposição para sequências de ação está ligada no nível máximo e o filme não dá um minuto para o expectador tomar fôlego. Mais que isso: Ele não poupa nem sua própria narrativa; detalhes usuais como a elaborada investigação em busca do misterioso cajado de Merlin, por exemplo –que poderia remeter referências mais identificáveis como “Indiana Jones” ou "Código Da Vinci” –ou a manjada relação amor/implicância do casal central são completamente negligenciados pela direção que trata tudo como uma ferramenta à serviço da ação ininterrupta. Sua obra acaba sendo um atordoante teste de resistência aos expectadores que exigirem um mínimo de coerência em meio à essa sucessão apoteótica de pirotecnia.

A execração unânime da crítica e, principalmente, a indiferença maciça do público nas bilheterias referendaram “O Último Cavaleiro”, tal e qual seu irônico título, como o último capítulo dos filmes dos Transformers dirigidos por Michael Bay –ainda que ele tivesse se mantido por perto como produtor executivo –já no ano seguinte, 2018, uma espécie de reboot foi lançado (“Bumblebee”) visando resgatar um espírito mais contido, semelhante à cultuada série de animação, mas, essa é uma outra história...

quarta-feira, 29 de março de 2023

Transformers - O Lado Oculto da Lua


 Tivesse qualidade palpitante como entretenimento (tal qual o primeiro filme) ou fosse uma porcaria indefensável (tal qual o segundo), uma coisa ficou clara: A franquia “Transformers” era rentável. A crítica poderia expor, em minúcias, onde tudo estava errado –e quase sempre dizia respeito ao estilo histérico e espalhafatoso do diretor Michael Bay –mas, o público comparecia em peso nas bilheterias. Diante dessa constatação, não havia como não aprovar a realização de um terceiro filme tão logo o segundo fez dinheiro o suficiente para se pagar.

Embora tenha gerado relativamente menos expectativa do que o filme anterior –a parcela mais exigente do público já havia entendido que a qualidade se restringiu ao filme inaugural da saga –esta terceira produção não deixou de enfrentar alguns contratempos, além de vir pontuada com alguns indícios de que, sim, Michael Bay, apesar dos pesares, estava atento às reclamações dos expectadores e fez questão de compor um filme que se afastasse de muitas das notórias características negativas apontadas em “A Vingança dos Derrotados”. Em seu novo filme, por exemplo, ele deu uma ênfase mais dedicada aos personagens dos robôs (aqui, mais influentes na história); enxugou consideravelmente o excesso de piadinhas, tornando-as mais pontuais (embora, na boca de Shia LaBeouf, continuassem irritantes); aboliu completamente a ambientação insistente do deserto presente nos dois filmes anteriores; e acima de tudo, devolveu seu jovem protagonista, Sam Witwick (LaBeouf), ao status de perdedor nato –o que contraria, de forma um tanto incômoda, a postura de “bonzão” que ele ostentava na produção anterior.

Houve outro fator –este um pouco inesperado –que tornaram as coisas diferentes neste terceiro filme: A personagem de Megan Fox, Micaela (que, notamos, teria muito mais peso nesta trama) acabou sendo retirada. O motivo: Alegações meio inconsequentes da parte da atriz (afirmando que Michael Bay era um carrasco com o elenco e a equipe, comparando-o à Hitler) deixaram descontente o produtor Steven Spielberg que, imediatamente, ordenou o afastamento dela. Em seu lugar, foi escalada a modelo Rosie Huntington-Whiteley (namorada do astro de ação Jason Statham) a fim de interpretar o novo interesse amoroso de Sam, Carly –entretanto, é visto e perceptível que, embora mudasse o nome da personagem e a beldade que a interpreta, tudo o mais no roteiro de “O Lado Oculto da Lua” trata como se ela ainda fosse Micaela. Tanto é que Megan Fox realmente estava lá nas primeiras semanas de gravação!

Enfim vamos à história: Ingressando na vida adulta (e obviamente assumindo um cargo de simbólica inferioridade perante seu chefe interpretado por John Malkovich), Sam vive uma fase complicada. A namorada (agora, Carly) já não lhe dá atenção, ocupada que está com seu próprio emprego (e com as exigências do patrão vivido por Patrick Dempsey). E seu melhor amigo, Bumblebee, um dos Autobots, finalmente se deu conta de que é mais que um carro de estimação de um humano e agora se ocupa das missões junto dos demais Autobots, sem ter muito tempo para ele –atitude, diga-se, completamente oposta da demonstrada pelo personagem no outro filme.

Os Autobots, por sua vez, liderados por Optimus Prime, têm assuntos realmente sérios com os quais lidar: Atuando em parceria com o governo dos EUA –personificados na personagem pouco aproveitada da grande Frances McDormand –os Autobot acabam descobrindo que a relação entre sua espécie e a dos seres humanos remonta há mais tempo do que parecia, no caso, desde a chegada do homem na Lua (reconstituída num prólogo todo pomposo), onde foi descoberta toda uma base ocupada de Decepticons.

É preciso muita boa vontade do expectador para que seja comprada a proposta de “O Lado Oculto da Lua” ao fazer drama e suspense com a suposição realista de uma invasão alienígena, tantas vezes que esse filão já foi explorado pelo cinema. No que diz respeito ao estilo de Michael Bay, pouca coisa mudou de fato, não obstante seus esforços: As cenas de ação em geral brilham com sua execução exemplar –as técnicas 3D turbinaram os efeitos visuais, influenciados pelo fenômeno “Avatar” poucos anos antes –mas, toda essa extravagância perde qualquer respaldo quando a narrativa busca apoio nos quesitos que deveria ser sólidos, mas não são: Como o roteiro (redundante e, ocasionalmente, até vergonhoso), os personagens (construídos com visível preguiça) e o elenco (orientado de maneira grosseira e superficial). “O Lado Oculto da Lua” é o tipo de filme cujas falhas gritam muito mais alto que seus acertos.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Transformers - A Vingança dos Derrotados


 Produzido por Steven Spielberg, o primeiro “Transformers”, quando aportou nas salas de cinema no ano de 2007, revelou-se um belo achado: Descobrimos que o estilo bombasticamente sinético de Michael Bay poderia se encaixar com certa propriedade num produto oriundo da cultura pop dos anos 1980; descobrimos o promissor potencial (depois de um tempo não consumado) do jovem protagonista Shia LaBeouf, além da formosura de Megan Fox. Também descobrimos as vastas possibilidades na área do entretenimento que poderia nos oferecer a arrojada combinação entre robôs gigantes e efeitos visuais de ponta. Um sucesso absoluto.

E como costuma ocorrer com sucessos absolutos, a continuação foi quase um reflexo espontâneo. O problema: Apesar das honoráveis exceções de “O Poderoso Chefão Parte II”, “O Império Contra-Ataca” e alguns outros, Hollywood pouco aprendeu sobre a fina arte de realizar continuações tão boas quanto seus originais. E não haveria de ser o ansioso, truculento e afoito cinema de Michael Bay que possuiria bom senso o bastante para dar uma pausa, observar tudo o que funcionou no primeiro filme (que seriam o carisma de alguns personagens e o apelo dos imensos robôs que viravam carros, combinados num roteiro profundamente referencial às aventuras dos anos 1980) e replicá-lo com critério, parcimônia e elegância no segundo. Em vez disso, Michael Bay –provavelmente agraciado com muito mais liberdade criativa aqui –potencializou tudo o que havia no filme anterior, tornando-o maior, mais longo, mais intenso e mais frenético, beirando assim o insuportável. As piadinhas (em especial, aquelas partidas de Sam, personagem de LaBeouf) se eram pontuais, espontâneas e genuinamente divertidas antes, se multiplicaram de forma a logo cansarem, tal é a frequência com que saem insistentemente (e agora sem tanta espontaneidade) da boca do protagonista (e, aqui neste caso, dos coadjuvantes também); os efeitos visuais flertando com o revolucionário, se representavam os maiores chamarizes daquela produção (similar ao que “Jurassic Park” fizera pouco mais de uma década antes), agora predominavam de tal maneira em cena (e com tamanha ausência de cuidado ao serem inseridos em qualquer contexto) que logo enjoavam, devido a profusão com que robôs de todas as cores, todos os formatos e tamanhos (até mesmo uns nanicos colocados na trama sem a menor relevância!) apareciam na tela.

Em sua trama pouco inspirada, também “A Vingança do Derrotados” se mostrava uma espécie de equívoco: Disposto talvez a não arriscar, os roteiristas Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman trilhavam todos os segmentos narrativos do filme anterior, revisitando-os, e acrescentando adendos situacionais que não somavam em absolutamente nada ao enredo. É dessa maneira que o outrora perdedor, Sam Witwick, agora namorando a espetacular Micaela (Megan Fox) ingressa na faculdade para tristeza de seu melhor amigo, o autobot Bumblebee –e todas as piadas já recauchutadas do primeiro filme onde Bumblebee não consegue falar e usa das músicas do rádio para se comunicar são repetidas aqui, como se fossem novidade (!); também a questão um tanto estranha de um jovem adulto não se empolgar com a presença de um robô alienígena e nem de um sex-simbol ambulante como Micaela em sua vida é bastante forçada (tanto que esses elementos serão revistos e contrariados no filme seguinte, mas aí é outra história...). Em meio ao processo de  adequação à faculdade de sempre (mostrado com todos os clichés possíveis, incluindo os valentões da vez), Sam segue demonstrando mais interesse no tédio da vida estudantil acadêmica do que nas circunstâncias assombrosas com as quais se deparou no primeiro filme, até que os perversos Decepticons retornam com um plano de trazer seu líder, Megatron, de volta à vida. O que, em resumo, leva ao caos barulhento e visual que costuma acometer os filmes de Michael Bay –e que ele considera cenas de ação –atingindo seu clímax numa sequência em plenas Pirâmides do Egito.

Não se pode negar que haviam algumas boas intenções no projeto deste segundo “Transformers”: Ao abordar ligeiramente a subtrama da “morte de Optimus Prime”, o roteiro fazia uma ligeira referência ao longa-metragem de animação, “Transformers-O Filme” (lançado ainda durante a época gloriosa do desenho animado, em 1986) tomando emprestado um dos mais dramáticos e marcantes arcos narrativos acompanhados pelos fãs. Uma pena que, de tudo aquilo, muito pouco sobrou: O roteiro de Kruger, Orci e Kurtzman mal aproveita as circunstâncias esboçadas na animação oitentista –que, com não muita atenção, pode-se notar que era muito mais bem roteirizada, mesmo sendo um produto infantil, do que todos os mais recentes longa-metragens feitos para cinema, presumidamente feitos para adultos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Grande Lebowski


 A premissa do “homem errado” rendeu alguns dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, mas nas mãos dos Irmãos Coen ela representa o ponto de partida de uma de suas obras mais notáveis: O quê passa longe de ser pouca coisa.

Mais conhecido como Dude pelos amigos que, como ele, freqüentam o mesmo bar de boliche, Jeff Lebowski (Jeff Bridges, sensacional) descobre da pior maneira que tem um homônimo milionário: Enrascadas relacionadas a esse outro Lebowski vêem até ele atrapalhar sua tranqüilidade movida à maconha e ócio –a pra lá de jovem esposa desse velho magnata desapareceu (ou foi raptada) e os responsáveis por esse ocorrido não o deixam em paz.

De um lado, o outro Lebowski (David Huddleston, de “Banzé No Oeste”), milionário cadeirante e assoberbado, o quer como intermediário no momento de pagar o resgate –afinal, o Dude é o único capaz de dizer se os sequestradores e os homens violentos que inutilizaram seu precioso tapete da sala são as mesmas pessoas.

Para ajudá-lo (ou seria atrapalhá-lo?), Dude conta com o insano Walter (John Goodman, hilário), parceiro do torneio de boliche e completamente pinel devido à sua experiência na Guerra do Vietnam –reza a lenda que os Coen basearam esse personagem divertidíssimo, irredutível e impagável no diretor John Milius (de “Conan-O Bárbaro”).

Tentar descrever “O Grande Lebowski” é uma tarefa relativamente ingrata: Os Coen valeram-se de seu talento desigual para criar uma obra engraçadíssima, cuja natureza ligeiramente intrincada remete ao estilo detetivesco do autor Raymmond Chandler por pura graça, mas cuja trama a envolver crime e suspeita fica, por assim dizer, em segundo plano. O destaque quase sempre são exatamente seus personagens, um mais bizarro e idiossincrático que o outro, e as circunstâncias nas quais diferentes dinâmicas se estabelecem a partir de encontros movidos por distintos interesses, sempre com o personagem de Jeff Bridges como uma espécie de mestre de cerimônias.

Além de Dude e Walter, o velho milionário Lebowski e sua jovem e nada confiável esposa (Tara Reid, de “American Pie”), temos o braço-direito do velho rico, vivido com sofisticação caricata por Phillip Seymour Hoffman, o  pacato amigo do boliche Donnie (Steve Buscemi), o adversário do torneio Jesus Quintana (John Turturo, numa participação breve, irrequieta e antológica), o arremedo de ator pornô travestido de bandido de meia-tigela vivido por Peter Stormare (de “Fargo” e “Minority Report-A Nova Lei”), a artista plástica, excêntrica e egocêntrica, filha do Velho Lebowski (Julianne Moore), o gangster da pornografia interpretado com fleuma inacreditável por Ben Gazarra, e o cowboy –e também narrador do filme –que calmamente interfere vez ou outra na narrativa como quem não quer nada (Sam Elliot, formidável).

Originário de um culto quase sem precedentes no cinema –há relatos até mesmo de uma religião surgida a partir dos preceitos e da filosofia de vida do Dude (!?) –o filme dos Irmãos Coen foi um fracasso comercial na época de seu lançamento em 1998, mas foi redescoberto pelo público ao longo dos anos até se tornar um fenômeno cultural. Isso se deve, sem sombra de dúvidas, ao fato de que os expectadores de então não perceberam de imediato seu humor tão complexo quanto irresistível, sua abordagem desigual de comportamentos esquisitos (mas que depois ditaram moda) e na manutenção imprevista de uma trama tão carregada de nuances originais que foi precipitadamente tachada de non-sense.

Em resumo: Que filme sensacional os Coen fizeram!

quarta-feira, 4 de março de 2020

O Siciliano

Goste ou não, a obra de Michael Cimino pulsa cinema do mais alto nível pelos poros. Percebe-se seu requinte mesmo em trabalhos não tão aclamados como o caso de “O Siciliano”, que enseja uma adaptação cinematográfica da biografia do lendário bandido Salvatore Giuliano, escrita por Mario Puzo, mesmo autor de “O Poderoso Chefão” e, como na saga dos Corleone, carregada de um romantismo para com os códigos de honra entre mafiosos e um refinamento em relação à violência que deflagram.
Cimino encarou a realização de “O Siciliano” sete anos depois de “O Portal do Paraíso” e dois anos depois de “O Ano do Dragão”, seus projetos anteriores, e existem uma certa influência de ambos a determinar a personalidade de sua direção aqui: Como no primeiro, Cimino concebe tomadas sucessivas onde os personagens adentram recintos e ambientes em sincronia com a câmera –numa espécie de ênfase existencial da transição de uma fase para outra da história, e de seus personagens para os momentos divisores de suas trajetórias. Como no segundo, Cimino abraça um gênero com som e fúria, dando a ele as considerações de seu próprio estilo, ligeiramente constrangido pelo escopo da superprodução que comanda (reflexos do trauma de “O Portal do Paraíso”...), mas ainda assim, entregando belíssimas cenas.
O protagonista de “O Siciliano” é o então desconhecido Christopher Lambert que Cimino pareceu ter selecionado a dedo para o papel. Ele vive Salvatore Giuliano, camponês da cidade siciliana de Montelepre, cujo maior inconformismo é a desigualdade de seu povo, com os ricos usufruindo de fartura e os pobres perecendo na carência.
Numa tentativa de roubar trigo para os camponeses poderem fazer pão, Giuliano, ao lado do fiel amigo Aspanu Pisciotta (John Turturro) têm um violento embate a tiros com os policiais locais, do qual Giuliano sai alvejado. Desenganado de que morreria devido ao ferimento, Giuliano tem uma miraculosa recuperação –evento enxergado pelo roteiro como o ponto de virada de sua trajetória –e passa a partir daí, a almejar muito mais que apenas prover clandestinamente os necessitados: Libertando da cadeia os foras-da-lei Passatempo (Andreas Katsulas, de “O Fugitivo”) e Terranova (Derrick Branche), Giuliano passa a integrar, junto dos homens sob seu comando, um bando refugiado nas montanhas da região que se dedica a roubar dos ricos para dar aos pobres –ele tira-lhes o dinheiro para que comprem com ele seus próprios lotes de terra.
Seu comportamento à la Robin Hood o torna adorado em toda Sicília.
E também chama a atenção do poder de manobra das massas de sua imagem para os influentes poderosos locais como o hedonista Príncipe Borsa (Terence Stamp), a Duquesa Camila (Barbara Sukowa, de “Europa”), com quem Giuliano tem um breve affair, e em especial, o mafioso Dom Masino Croce (Joss Ackland, de “Máquina Mortífera 2”), um ameaçador misto de figura paterna e de rival implacável.
Eles almejam trazer para si o apoio de Giuliano contra os comunistas nas vindouras eleições, no entanto, Giuliano prefere se manter apolítico, e dedicado à sua cruzada de prover terra para cultivo ao povo, mesmo que por caminhos tortos e violentos. Pode desequilibrar a balança de poder o seu envolvimento com Giovana (Giulia Boschi), irmã do mais prolífico candidato de esquerda de Montelepre; e isso pode, por fim, levar os mafiosos mais poderosos não apenas da Sicília, mas de toda a Itália –materializados na figura de Trezza (Ray McAnally, de “A Missão”) –a armar uma verdadeira cilada contra Giuliano, onde estará em jogo o descrédito dele junto ao povo siciliano e a traição de um de seus mais leais arregimentados.
Nunca deixou de haver coragem no cinema praticado por Michael Cimino. Aqui, ela aparece na audácia em conceber sua visão pessoal desse lendário revolucionário tendo a memória tão recente da obra-prima, “O Bandido Giuliano”, assinado por Francesco Rossi, entretanto, a adaptação da obra de Mario Puzo subtraiu muitas de suas qualidades narrativas em função da manutenção do esqueleto principal da trama. Quem não teve acesso ao livro observa uma lamentável e predominante fragilidade nas motivações da maioria dos personagens em meio aos acontecimentos na meia hora final.
Ainda assim, um Michael Cimino menor está mais acima da média do que muita produção aclamada de hoje em dia.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Margot e O Casamento

A relação entre as irmãs Margot (Nicole Kidman com sua mescla habitual de beleza ofuscante e empenho louvável) e Pauline (Jennifer Jason Leight, igualmente eficaz) não poderia ter mais tensão e sentimentos conflitantes –e esse é um terreno no qual o diretor Noah Baumbach se mostra bastante confortável em explorar.
Realizador de obras ora magníficas, ora pedantes, mas sempre impregnadas da predisposição de analisar a fundo as particularidades de seus personagens, como “Francis Ha”, “Enquanto Somos Jovens” e “A Lula e A Baleia”, Baumbach tem apreço particular pelo tipo de estudo psicológico feito na cinematografia europeia –daí a similaridade de alguns de seus filmes com obras do cinema francês –incluindo a novelle vague –em “Frances Ha” e em muitos dos diálogos de exposição cultural, intelectual e sentimental constantemente flagrados aqui.
Pauline está prestes a casar. Oposto quase perfeito da sofisticada irmã mais velha, Margot, com a qual havia anos não falava, ela a recebe vinda da cosmopolita Nova York na pequena cidadezinha onde ela e o noivo, Malcolm (Jack Black), vão se casar.
Margot chega junto do filho adolescente Claude (Zane Pais), ocultando alguns segredos –o divórcio com o marido, Jim (John Turturro) é iminente –e trazendo desconfortáveis verdades familiares que sua presença trata de tornarem irreprimíveis.
Apesar do clima pretenso de amenidade e descontração, há tensão toda vez que Margot e Pauline está juntas –e os ressentimentos com frequência se manifestam nos diálogos.
Margot não aprova Malcolm, e suas afirmações a esse respeito perdem em recato conforme o convívio aumenta. O passado das duas, ao lado do pai abusivo e intolerável, também começa a ser esmiuçado, revelando as razões para alguns desses comportamentos.
Oscilando com vibração típica de filme independente entre comédia e drama, “Margot e O Casamento” parece contentar-se em registrar duas grandes atrizes fazendo seus esforços para alcançar registros humanos brilhantemente estudados, e nisso se satisfaz.
Acontece de outros detalhes perderem assim sua importância diante desse ‘registro do banal’ que Noah Baumbach quer fazer –e que faz parte do objetivo geral de toda sua filmografia, mas que aqui, pela primeira vez, corre o risco de soar de fato irrelevante.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amante À Domicílio


Um ator brilhante normalmente mais associado a coadjuvantes –mas, tendo seu momento de brilho em pelo menos uma ocasião, no magnífico “Barton Fink-Delírios de Hollywood” –John Turturro arrisca-se na direção reservando para si um personagem que representa, em geral, uma massagem de ego para qualquer intérprete que se preze: Altivo, solene e inabalável.
Fioravante tem todas essas características e ainda divide muitas cenas com o notável elenco feminino que para este filme foi arregimentado.
De humor tipicamente nova-iorquino, Turturro já escancara sua referência mais óbvia colocando Woody Allen como seu co-astro –e amplificando ao máximo a sensação de déja vu ainda estamos numa comédia de raízes profunda e culturalmente judaicas!
Murray Schwartz, personagem de Allen, desfez-se a pouco da livraria que pertenceu a sua família por gerações. Ao mesmo tempo, seu funcionário e amigo de longa data, o próprio Fioravante, terminou na dependência de bicos ocasionais como encanador e eletricista.
Mas, Murray tem um plano impronunciável: Ofertou –meio que à revelia dele –os serviços viris de Fioravante a sua médica (Sharon Stone) que, curiosa por realizar um ménage à trois ao lado da amiga (Sofia Vergara), encontrou em Fioravante, proposto por Murray, uma saída para seu anseio.
Relutante mas, de certa maneira passivo, ele concorda com a situação imediatamente criada por Murray que vira, no frigir dos ovos, seu cafetão. Ele, com a sucessão de serviços bem prestados (!), eles iniciam um novo negócio que bate de frente com a rigidez da comunidade judaica do bairro onde moram quando Murray resolve atrair como cliente a viúva Avigal (a francesa Vanessa Paradis), o objeto do desejo, por sua vez, do patrulheiro do bairro Dovi (Liev Schreiber) que passa a vigiar a dupla de perto.
Há um humor contido e pretensamente elegante neste filme bem menos atrevido e malicioso que sua premissa é capaz de sugerir.
Ele revela um bom diretor de cenas em John Turturro certamente mais voltado para as sutilezas da atuação do elenco –como era de se esperar –do que para aspectos mais técnicos como montagem e ritmo. No final, ele próprio parece bastante consciente de que, se existem acertos em seu filme, eles ocorrem pelas inspiradas escolhas de seus atores e atrizes.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Quebra-Nozes


Clássico infantil assombrado pelo viés elitista e culto que sempre o envolveu, o “Quebra-Nozes” ganhou em 2010 do diretor Andrei Konchalovsky uma adaptação esmerada (empenhada, inclusive em preencher arestas então despercebidas de sua premissa; ganhando assim o sub-título “A História Não Contada”) e que não consegue escapar do entrave que normalmente faz dele algo inacessível: A erudição e as músicas clássicas que intervêm numa narrativa supostamente infantil.
As crianças não têm paciência com música clássica –daí o fato de “Fantasia”, de Walt Disney, ser normalmente mais apreciado pelo público adulto.
Konchalovsky até busca engendrar um meio que moldar tais músicas ao andamento natural do roteiro, mas, sua pouca experiência para com o melindroso gênero musical o trai: Os atores, no geral, não ocultam um ocasional constrangimento durante as cantorias; as músicas não resultam envolventes ou interessantes o bastante para justificar sua inserção nas passagens que se seguem; e o arranjo do desenho de som com a trilha sonora se revela frouxo e redundante.
Entretanto, o diretor também consegue agregar alguns valores positivos ao filme, o que contribui para um equilíbrio mais razoável no seu resultado final.
Na Áustria, a garota Mary (Elle Fanning, um dos acertos do filme) é sonhadora, no que recebe um paternal incentivo de seu Tio Albert (Nathan Lane), em contraponto à frieza indiferente –e ocasionalmente rude –do pai (Richard E. Grant).
Tio Albert, como ficará claro, não somente é um personagem catalisador da trama –a despeito de ser coadjuvante –como é, o próprio Albert Einstein (!), num arranjo que, embora divertido, não encontra maiores propósitos.
Ganhando de presente dele um boneco quebra-nozes, Mary se depara, na noite de Natal, com seu brinquedo vivo e falando (!), afirmando para ela que todas as coisas inanimadas estão, na realidade vivas, como seus brinquedos da casa de bonecas ou os adereços da árvore de Natal. Conduzida pelo Quebra-Nozes, a menina toma conhecimento de um reino cujo príncipe de direito foi transformado por maldição num boneco de madeira –o próprio Quebra-Nozes –e terminou destituído por um Rei Rato (John Turturro, impagável) com auxílio da feitiçaria de sua mãe (Frances de La Tour, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”).
A chegada de Mary ao reino simboliza a presença de alguém capaz de quebrar a maldição e dar novo rumo à disputa pelo reino.
Embora haja zelo no aspecto aventuresco da narrativa, o diretor encontra complicações no excesso de personagens (que ganham diálogo longos que isolam suas cenas uns dos outros) e na premissa algo intrincada acerca da tentativa dos “ratos” em tentar ocultar indícios de seu mundo na ‘realidade’, fazendo com que os minutos que passam drenem pouco a pouco a vontade do expectador em chegar ao fim.
Se esse aspecto narrativo se revela falho, a concepção de arte, com um desenho de produção quase cyberpunk, possui momentos inspirados que valorizam as cenas de ação em especial as transcorridas no clímax do filme, e acabam salvando um pouco da diversão.
Por isso mesmo, uma produção curiosa e desigual, fadada a ganhar cada vez mais obscuridade na memória cinéfila.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Cartas Na Mesa


Tendo realizado algumas obras relevantes nos anos 1980, o diretor John Dahl teve seu estilo intrincado e instigante de pronto relacionado aos grandes estetas do film noir do passado.
É esse estilo que, em “Cartas Na Mesa”, ele emprega para revestir de charme a narrativa que acompanha de maneira tensa as rodadas aparentemente intermináveis de pôquer sobre as quais o filme se debruça.
Recém-saído do filme que revelou seu talento ao mundo, “Gênio Indomável”, Matt Damon vive o estudante de Direito Mike McDermott que uma jogada desafortunada faz perder, já no início do filme, todo o dinheiro que tinha para o mafioso russo Teddy KGB (John Malkovich, sempre de um preciosismo a toda prova).
Apesar da capacidade de ler as reações de seus adversários e de prever a sucessão de cartas ser para ele um dom natural, Mike se ressente desse episódio a ponto de prometer à namorada (Gretchen Mol) que nunca mais irá jogar novamente.
Isso, entretanto, dura somente até que Les ‘ Worm’ Murphy (Edward Norton, também ele, um talento recém-descoberto em Hollywood) saída da prisão.
Worm é o pequeno demônio que incita os caprichos e os excessos de Mike em seu ombro direito. E uma vez com os pés fora da prisão, ele já deve dinheiro para pessoas potencialmente perigosas, extensões que levam, inclusive, à Teddy KGB!
Mike é seu amigo de infância (certamente o único que lhe restou) que ampara todas as suas encrencas: Acaba assim contraindo uma dívida homérica em nome de Worm e, embora tenha tido uma ou outra recaída pela tentação de jogar (o quê terminou mnando seu relacionamento, e comprometendo a confiança de seu mentor, vivido por Martin Landau, depositada nele) será essa dívida que o conduzirá realmente de volta às mesas de pôquer e à uma inevitável revanche contra KGB.
No cinema de John Dahl –como pode ser conferido no anterior (e fantástico) “O Poder da Sedução” –importa menos a busca por inovação e mais o primor de um execução bem feita e certamente envolvente. Ele honra completamente esses predicados aqui, valendo-se desses dois jovens talentosos (Damon e Norton) para entregar personagens críveis e interessantes e sequências de jogatina que exigem nervos de aço do expectador.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Transformers

Diretor cuja carreira é indissociavelmente atrelada aos filmes de ação (e dos mais descerebrados possíveis!), Michael Bay ganhou uma franquia à qual relacionar seu nome quando aceitou o convite do produtor Steven Spielberg para comandar a primeira adaptação cinematográfica dos famosos brinquedos de Hasbro (e que renderam uma bem-sucedida série de desenhos animados a partir dos anos 1980): Transformers, os robôs que viravam carros.
Spielberg demonstrou, com essa escolha, apurado faro mercadológico; ele percebeu que Bay, com seu estilo de filmar a ação, obcecado com o visual publicitário, daria a roupagem adequada ao filme –de fato, a maneira com que o diretor consegue fetichizar as máquinas já é meio caminho andado, dando aos robôs gigantes uma identificação humana que os formidáveis efeitos visuais só tratam de potencializar.
Ainda assim, o fio narrativo de Bay, por mais frágil que seja, necessita de uma contraparte humana de fato, que vem a ser Sam Witchwyck (personagem que Shia LaBeouf interpretada com improviso desesperado), um adolescente com uma única coisa em mente: Convencer seu pai a lhe comprar um carro e obter meios para assim impressionar a garota mais bela da escola, Michaela (a espetacular Megan Fox).
O carro em questão, porém, não é bem um carro: Trata-se de um robô alienígena (!), Bublebee, vindo do planeta Cybertron, consumido por uma guerra intergaláctica entre os honrados Autobots (dos quais Bublebee faz parte, assim como seu líder, Optimus Prime, e seus demais companheiros) e os perversos Decepticons (liderados pelo cruel Megatron). As duas facções de robôs gigantes trazem sua guerra para a Terra à procura de um artefato denominado “Allspark”, um cubo dotado do poder de atribuir vida às máquinas –ou algo assim...
E o quê um mero adolescente americano com hormônios em fúria tem a ver com um conflito que ameaça todo o planeta? Como é habitual aos filmes de Bay, tais amarras menos relevantes (!) o filme trata de realizar da forma mais rudimentar possível (e esse é o mesmo tratamento dado à dezena de outros personagens que surgem de forma um pouco aleatória na trama); o que interessa ao seu diretor é a ação ininterrupta –cujo elevado volume suplanta qualquer atenção à história, às motivações ou à dramaturgia –as imagens exuberantes captadas em filtros de câmera estilosos e, no caso deste filme em especial, prestar homenagem ao seu produtor, Spielberg, por meio de uma série de pequenas referências: A relação de amizade entre Sam e Bublebee remete (ou, pelo menos tenta remeter) ao afeto entre Elliot e o alienígena em “E.T. O Extraterrestre”; o caminhão no qual Optimus Prime se transforma faz alusão ao modelo usado no suspense “Encurralado”; o diminuto decepticon que cria um tumulto à bordo do Força Aérea Um parece uma referência aos “Gremlins”; e assim por diante.
Tremendo sucesso de bilheteria, “Transformers” foi o primeiro exemplar de uma franquia cujos títulos seguintes foram minguando no fato –óbvio desde o início –de que os filmes não tinham nada de novo a oferecer. Uma parcela do público, contudo, não se incomoda com isso, e a franquia “Transformers” goza de contínuas bilheterias rentáveis, apesar de contínua também ser sua queda de qualidade.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Os Irmãos Coen já fizeram de quase tudo: Homenagens ao cinema (“Barton Fink-Delírios de Hollywood” e recentemente “Ave, César”); homenagens à gêneros muito específicos (o filme gangster com “Acerto Final”, o film noir com “Gosto de Sangue”, o faroeste com “Bravura Indômita”); cult-movies (“O Grande Lebowski”); ganhadores do Oscar (“Fargo” e, sobretudo “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e até mesmo obras inclassificáveis (“Queime Depois de Ler” e “Um Homem Sério”).
Mas, eis que nessa ânsia por renovação e por jamais se prender numa fórmula, eles decidiram fazer também uma versão moderna do clássico conto da Grécia Antiga “A Odisséia”, assim como também uma produção musical: Tudo num só filme!
Além de ser isso tudo, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” é, de certa maneira, também uma homenagem ao cinema, como será possível perceber mais a frente.
Durante o período da Grande Depressão norte-americana (década de 1930), o presidiário Everett Ulisses McGill (George Clooney, em espetacular paródia do astro antigo Clark Gable), junto de seus dois amigos, Delmar (Tim Blake Nelson, sensacional) e Pete (John Turturro), resolve fugir dos trabalhos forçados da prisão estadual e toma a longa estrada para casa, disposto a voltar para os braços de sua relutante mulher, Penny (Holly Hunter) –no quê já fica perfeitamente perceptível a transposição de “A Odisséia” de Omero (cujo protagonista se chama Ulisses!) para esta versão bem-humorada e deliciosamente desmiolada que se vale dessa ambientação inusitadamente norte-americana dessa saga mitológica para fazer uma esperta sondagem das raízes provincianas em muitas das características, positivas e negativas, dos EUA.
Como vem a afirmar as palavras proféticas de um senhor no começo do filme, a viagem dos três será repleta de contratempos e distrações, além da constante perseguição da polícia –na forma de uma presença espectral e diabólica que parece ter um dom sobrenatural para encontrá-los.
Eles encontrarão Tommy Johnson (Chris Thomas King), um jovem tocador de banjo –numa referência ao filme “A Encruzilhada”, talvez? –que afirma ter vendido a alma ao diabo em troca de talento ao dedilhar o instrumento (junto dele, eles cantam uma música numa rádio local que, no percurso de sua fuga, vai se tornar uma das mais tocadas da estação!); como o próprio Ulisses, encontrarão sereias –ou melhor, lavadeiras de rio! –cuja voz melodiosa será capaz de enfeitiçá-los; além de um ciclope (John Goodman) que os conduzirá à encrencas envolvendo a Ku Klux Khan (numa seqüência musical que se atreve a estabelecer analogias propositais ou não entre as manifestações nazistas e os grandes musicais da Antiga Hollywood) e até mesmo a folclórica e torturada figura do ladrão de bancos Baby Face Nelson (Michael Badalucco).
Tirando de letra a difícil tarefa estabelecida pelo conceito desafiador de conceber um musical em termos tão inusitados (não só a trilha sonora é inebriante como o elenco arrasa nas seqüências cantadas), este belo trabalho dos sempre talentosos irmãos Coen marca a primeira dentre as inúmeras colaborações frutíferas com o igualmente talentoso astro George Clooney, que se mostra extremamente à vontade (ele chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical) trabalhando ao lado de seus já habituais colaboradores: Holly Hunter, John Goodman, John Turturro e Charles Durning, todos já fizeram filmes com os Coen antes.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Barton Fink - Delírios de Hollywood

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1993, trata-se de uma das mais desafiadoras metalinguagens já elaboradas do cinema, abordando um período que sempre fascinou seus realizadores: Eles fariam, mais tarde, outros e distintos filmes sobre a Velha Hollywood.
Barton Fink, é o nome de um dramaturgo nova-iorquino alçado à posição de roteirista de Hollywood em meio aos anos 1940. E, na interpretação cheia de angústia de John Turturro, ele é também um prato cheio para que os irmãos Joel e Ethan Coen explorem a dicotomia entre os fantasmas da criação artística em oposição às circunstâncias opressivas da realidade.
Quando sua trajetória começa, Barton é celebrado em Nova York pela primorosa peça de cunho social que escreveu –e que coleciona elogios da crítica desde então.
Não demora muito para que um flerte inevitável para com a indústria cinematográfica aconteça e, quando Barton menos espera (assim como a platéia), ele já está num quarto alugado de um hotel na Califórnia, incumbido de escrever um roteiro no qual seu eufórico produtor (Michael Lerner) deposita imodesta expectativa.
É nesse ponto que os Coen se revelam, confrontando o quase sempre perplexo Barton Fink com toda a sorte de ironias possíveis (e até mesmo impossíveis!) do mundo real.
Acometido por um súbito (e até compreensível) bloqueio criativo, Barton constrói de maneira um pouco relutante uma amizade com seu vizinho de quarto, Charlie, o caixeiro viajante bonachão e misterioso vivido magnificamente por John Goodman.
As conversas com ele quebram um pouco da rotina acachapante que Barton descobre entre aquelas quatro sufocantes e escaldantes paredes (a onda de calor registrada em Los Angeles faz até com que seus papéis de parede descolem!).
Há, pelo menos, outra breve visita do mundo exterior, por assim dizer: Audrey Taylor, a esposa e secretária (Judy Davis) de um roteirista alcoólatra (John Maroney) muito admirado por Barton.
Cada um desses personagens lhe expõe uma faceta cruel e sarcástica das coisas como elas são: Charlie é procurado pela polícia sob suspeita de ser um serial killer, o quê não parece encaixar na visão que Barton tem dele; Audrey sofre, resignada, a injustiça de ser a real autora dos trabalhos aclamados de seu marido, no entanto, essa indignação pode ser (ou não) o estopim de uma possível tragédia.
As reviravoltas que ocorrem a partir daí ratificam a capacidade dos Coen em trabalhar a ambivalência moral de seus personagens, assim como de adotar uma narrativa que poderia soar acadêmica em seu formato, mas que subverte toda e qualquer expectativa em sua essência.
São instantes que os Coen sugerem sem nunca, de fato, esclarecer, deixando inúmeros plots e ganchos narrativos numa dúvida que persiste depois que o filme se acabou.
A ironia torna a martirizar a vida de Barton Fink quando, após vencer o bloqueio criativo depois de muitos percalços até inacreditáveis, ele entrega (depois de uma cena de um incêndio desconcertante onde os Coen descartam o cenário opressor do filme) o roteiro finalizado com a alma e a poesia que pretendia fazer, e ele é, curiosamente, rejeitado por seu produtor –agora com a personalidade toda transformada pelos novos tempos –o quê reflete muito da esquizofrenia criativa dos grandes estúdios (com a qual, é provável, os Coen já tiveram de lidar) na ânsia de tentar atender as vontades do público.
Num rumo inverso ao dos contos morais a que estamos acostumados, os Coen pegam seu protagonista e o fazem regressar ao lúdico (ao invés de sair dele) numa cena calma e serena em uma praia quase deserta. Uma jovem (que remete em muito à garota de pureza plena que aparece na cena final de “A Doce Vida”) lhe pergunta a respeito da caixa que carrega (que remete, por sua vez, à uma acidez ao estilo Luis Buñuel), um enigma perene do filme.
Ele pergunta a ela se ela trabalha com cinema.
“Não seja bobo...” é a resposta que ele recebe, para então perceber que a imagem da moça à sua frente é a fotografia que ele olhava em seu quarto de apartamento, durante toda a aflitiva experiência em agradar os engravatados de Hollywood –e o quê é o cinema, senão uma fotografia em movimento?