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segunda-feira, 14 de março de 2022

EDTV


 Comparado com o brilhante “O Show de Truman” à época de seu lançamento no fim da década de 1990 –e, de fato, guardando algumas semelhanças em seu ponto de partida –“EDTV” acaba se afastando um pouco de seu elogiado similar pela opção, redundante e mercadológica, de abraçar o conceito de comédia romântica a partir de sua segunda metade, e nele se acomodar.

Contudo, é um trabalho bastante simpático e fácil de se aproveitar, despido de pretensões artísticas e cinematográficas mais pedantes que passaram a ser um dos elementos mais criticados nas obras que o diretor Ron Howard passou a entregar na década seguinte, quando já gozava da aclamação obtida por seu projeto posterior, “Uma Mente Brilhante”.

EDTV” é em teoria uma sátira a moda dos reallity shows que dominaram a televisão algum tempo depois. Todavia, qualquer pretensão de acidez se esvai no excesso de boas intenções da narrativa –no fundo, no fundo, o que “EDTV” quer ser mesmo é um romance.

Seu protagonista, Ed (Matthew McConaughey) é um jovem de vinte e poucos anos que topou uma idéia maluca: ser filmado 24 horas por dia em sua rotina, seu relacionamento com a família e seus encontros com os amigos.

Por algum tempo, os tubarões da rede televisiva –exemplificados no personagem deliciosamente cretino do também diretor Rob Reiner –não têm nada em mãos senão um programa onde se sucedem besteiras banais com o protagonista cortando as unhas dos pés e jogando conversa fora com seus amigos; sem falar das intervenções ególatras de seu irmão (Woody Harrelson, hilário).

No entanto, antes que o breve interesse do público se saturasse, Ed acaba por se apaixonar pela namorada (Jenna Elfman) do próprio irmão exatamente durante o programa, o que –para azar dele e sorte da emissora –eleva os índices de audiências e as complicações da vida do rapaz.

“EDTV” vai do retrato gracioso de um programa improvável ao seu viés mais corrosivo, passando pelo relevo sentimental de uma comédia romântica sem necessariamente encontrar ali a sutileza da reflexão.

Apesar do desperdício da oportunidade, não se pode condená-lo por isso: Que mal há num filme querer tão somente agradar seu público?

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Intriga Internacional

Habilidoso para com os contos de suspense de ordem dramática e psicológica, o diretor Alfred Hitchcock fascinou de tal forma a audiência que muitos se esqueciam que ele também era um hábil artesão de filmes de ação e aventura, como atesta o primor inconteste de seu “Correspondente Estrangeiro”, ainda em sua fase britânica.
Era questão de tempo que, já em solo americano, Hitchcock viesse a entregar uma produção de característica parecidas, e a obra que ele terminou realizando foi alardeada (com certa justiça) como o ponto alto de sua carreira: O empolgante, eletrizante e precioso “Intriga Internacional”.
Nascido quase que a partir de uma brainstorm onde o diretor sugeria ao roteirista Ernest Lehman cenas que gostaria de ver num filme –uma perseguição no Monte Rushmore aqui, um assassinato na sede das Nações Unidas ali –enquanto tentavam costurar em torno dessas intenções um fio narrativo coeso e plausível, “Intriga Internacional” terminou se tornando mesmo a trajetória incauta do inicialmente perplexo protagonista Roger Thornhill (Cary Grant, irretocável em sua quarta colaboração com Hitchcock).
Tal e qual tantos outros protagonistas de Hitchcock fadados a embarcar num mundo de perigos quase por uma questão de mal-entendidos, Thornhill, um executivo publicitário de Nova York, acaba confundido com um agente secreto, um certo George Kaplan, quanto requisita o garçom em um restaurante, no exato instante em que este chama por aquele nome.
Capangas a mando de um certo Vandamm (James Mason) estavam à espreita e, seguindo a lógica, deduzem que Thornhill é Kaplan; e assim o sequestram, tentando matá-lo embebedando-o num acidente de carro forjado depois que as tentativas de Vandamm de tirar-lhe informações não dão em nada (afinal, ele de fato não sabe nada!).
“Intriga Internacional” já mostra ao público aí o porque de ser uma das mais empolgantes obras de ação do cinema: Tudo nele é impecável, desde a vibrante trilha sonora de Bernard Herrmann, até a dinâmica montagem de cenas como a da bêbada (e divertida) escapada de Thornhill de seus captores (entre os quais um ainda jovem Martin Landau).
Na sequência, Thornhill quer porque quer provar sua inocência e vê suas tentativas de provar a existência daqueles homens misteriosos sendo contrariadas –seus antagonistas são hábeis em desaparecer sem deixar vestígios.
Dessa forma, Thornhill segue a pista que lhe resta: A identidade de George Kaplan, com quem sua compleição elegante o leva a ser confundido frequentemente.
Neste trecho, descobrimos muito antes do próprio protagonista que Kaplan, na verdade, não existe: Trata-se de um personagem-fantasma criada pelo Departamento de Contra-Espionagem Norte-Americano, justamente para desviar as atenções do vilanesco Vandamm de seu verdadeiro agente –o azar de Thorhill foi justamente ter fornecido, sem querer, um corpo, um rosto e uma voz à Kaplan, tornando-o real.
Após ser incriminado pelo assassinato de um diplomata da ONU, Thornhill tem de fugir de trem da polícia e dos homens à mando de Vandamm, e pega um expresso para Chicago, tentando rastrear Kaplan. No percurso, ele cruza-se com a estonteante Eve Kendall (Eva Marie-Saint, uma das coisas mais sensacionais do filme) que lhe oferece o respiro de uma noite romântica.
Mas, Thornhill vem a descobrir –um tanto tardiamente –que Eve tem mais envolvimentos nessa trama do que sua mera intenção solícita em ajudá-lo. Ela mesma entra em contato com o que parece ser George Kaplan e marca um encontro de Thornhill com ele.
O encontro não ocorre, em vez disso, Thornhill escapa por um triz de ser morto por um avião em um campo rural aberto, naquela que é uma das cenas de perseguição mais fantásticas e antológicas da História do Cinema –com direito a infindáveis referências em tudo quanto é tipo de filme, como por exemplo “Arizona Dream” –ao tentar reencontrar Eve, depois disso, Thornhill descobre que ela é amante de Vandamm (!).
E não só isso: Eve é também o tal agente secreto, cujo personagem fictício de George Kaplan tinha por objetivo proteger das desconfianças de Vandamm.
Embora o roteiro e a condução do filme sejam eletrizantes o suficiente para que o público não identifique lapsos ao longo de seu agitado enredo, nunca é devidamente explicado o porque da própria Eve ter despachado Thornhill para a armadilha envolvendo o avião, nem tampouco quem exatamente arquitetou aquela armadilha.
O que importa é que, a partir daqui, Thornhill já não é mais o personagem que caiu de paraquedas numa trama de espionagem incerta: Ele agora tem um objetivo (salvar Eve e, se possível, ficar com ela).
E esse objetivo o leva, aos trancos e barrancos, para o estado de Dakota do Sul, onde se dá a aguardada perseguição sobre os rostos dos famosos presidentes norte-americanos no Monte Rushmore –que responde também pelo grande clímax do filme.
Hitchcock realmente depositou em seu filme tudo do bom e do melhor que Hollywood tinha a oferecer naquele período, desde uma mistura desigual de astros consagrados e cobiçados com talentos reais, até uma equipe técnica e artística no auge do domínio de seu ofício.
O resultado de tanto primor é uma produção de grandiosidade palpitante e excelência à toda prova em cada uma de suas cenas, brindada com a percepção mundana e minimalista de Hitchcock de que, não importa o elitismo de uma obra de cinema, ela tem por obrigação refletir em seus expectadores o ápice do prazer e da satisfação a que se pode almejar.
E tudo isso, para o espanto de gerações e gerações de apreciadores, “Intriga Internacional” consegue obter.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Tucker - Um Homem e Seu Sonho

Em meados dos anos 1980, o diretor Francis Ford Coppola deixou-se fascinar pela trajetória de Preston Tucker, o criador do Tucker Torpedo, um automóvel que, nos anos 1940, ostentava inovações técnicas tão a frente de seu tempo que encontrou diversos empecilhos circunstanciais que, por anos, impediram seu criador de ser reconhecido por seus méritos.
Coppola certamente enxergou ali um reflexo de si mesmo: O artista sem saber o que fazer diante do resultado fenomenal (e frequentemente incompreendido) de sua própria criação.
O diretor vinha de uma década de 1970 onde entregou “O Poderoso Chefão Parte I e Parte II” e “Apocalypse Now”, obras que provocaram um abalo sísmico no panorama no cinema mundial –e permanecem influentes até hoje –mas, viu-se um tanto quanto intimidado, ao adentrar a década de 1980, com a pressão de manter o mesmo nível altíssimo de qualidade criativa.
Sua ideia para o filme –que já datava dos anos 1970 –envolvia experimentalismos narrativos e até mesmo a possibilidade de realizar um musical (obsessão que Coppola saciou com “O Fundo do Coração”), no entanto, muitas dessas aspirações foram por terra quando o estúdio de Coppola, a American Zoetrope, faliu.
Retomado em 1988 graças à colaboração do amigo (e, aqui, produtor) George Lucas, o projeto adquiriu assim uma nova orientação –se antes (leia-se com sua própria produtora) Coppola podia conceber a maluquice cinematográfica que tivesse em mente, agora as coisas eram diferentes. “Tucker” migrou, de uma realização cheia de liberdades poéticas e expedientes inovadores para um trabalho financiado, com necessidade prática de se fazer comercial e, portanto, assolado por algum convencionalismo.
Preston Tucker é, assim, vivido por Jeff Bridges com uma série magistral de trejeitos planejados, e nas mãos dele, acaba sendo um protagonista cujo ímpeto de invenção lhe parece irreprimível.
Após um prólogo de virtuoso fôlego narrativo –onde Coppola imula elementos do marketing da época –ao contar a juventude de Tucker, onde seu espírito inventivo de inovação não passava despercebido, acompanhamos o personagem principal a partir dos anos 1940, quando a ideia de um automóvel inovador lhe ocorre; “O carro do futuro!” como ele costumava dizer.
Contudo, o pioneirismo é uma faca de dois gumes e a mesma característica que fazia o projeto de Tucker ser tão a frente de seu tempo também assustava seus financiadores, representados, de um modo geral, pelo pessimista Abe Karatz (Martin Landau).
A saída também lhe é peculiar: Tucker coloca um anúncio numa revista e, diante da enorme procura pelo automóvel ali divulgado, os financiadores resolvem investir em sua ideia.
Mas, como ele e Karatz descobrem mais a frente, fabricar um carro –ou toda uma linha de carros –não é tarefa simples. E, por mais irônico que possa parecer, tal dificuldade não diz respeito à logística complicada do desenho de produção, nem ao dinheiro necessário à demanda ou mesmo à disponibilidade da matéria-prima principal, o aço –questão resolvida com a inesperada intervenção do excêntrico e lendário Howard Hugues (Dean Stockwell, inspirado) –a maior dificuldade corresponde aos empecilhos em todos os campos possíveis (técnicos, judiciais e até políticos) plantados pelas três grandes produtoras de automóveis da época (a Ford, a Crysler e a General Motors, jamais diretamente mencionadas), para que o carro de Tucker não visse a luz do dia –ou, em última instância, para que seu criador tivesse tão pouca credibilidade junto à opinião pública que seus carros, verdadeiramente fabricados, não chegassem ao conhecimento do povo americano.
A verdade era que o carro de Tucker era simplesmente bom demais para as “Três Grandes” permitirem sua criação.
Acusado de fraude e de um sem fim de outros delitos, Tucker vai ao tribunal –no julgamento que ocupa os últimos vinte minutos de filme –basicamente incriminado de apropriar-se de dinheiro público e não construir carro algum com ele. Detalhe: Os cinquenta perfeitos exemplares do Tucker Torpedo que sua fábrica conseguiu produzir (antes de ser confiscada pelo governo para produzir casas pré-fabricadas) estavam estacionados do lado de fora do tribunal; bastava que qualquer um fosse até a janela para olhá-los e comprovar sua existência.
Nem isso o promotor e o juiz quiseram permitir (!).
Narrado num envolvente ritmo de jazz, e decupado numa execução primorosa e diferenciada de iluminação, “Tucker” não é uma obra maiúscula como aquelas pelas quais Coppola é reconhecido, mas é um trabalho de um diretor visionário, espirituoso para com as engrenagens que impulsionam a realização cinematográfica, fluido, bonito e agradável.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Cartas Na Mesa


Tendo realizado algumas obras relevantes nos anos 1980, o diretor John Dahl teve seu estilo intrincado e instigante de pronto relacionado aos grandes estetas do film noir do passado.
É esse estilo que, em “Cartas Na Mesa”, ele emprega para revestir de charme a narrativa que acompanha de maneira tensa as rodadas aparentemente intermináveis de pôquer sobre as quais o filme se debruça.
Recém-saído do filme que revelou seu talento ao mundo, “Gênio Indomável”, Matt Damon vive o estudante de Direito Mike McDermott que uma jogada desafortunada faz perder, já no início do filme, todo o dinheiro que tinha para o mafioso russo Teddy KGB (John Malkovich, sempre de um preciosismo a toda prova).
Apesar da capacidade de ler as reações de seus adversários e de prever a sucessão de cartas ser para ele um dom natural, Mike se ressente desse episódio a ponto de prometer à namorada (Gretchen Mol) que nunca mais irá jogar novamente.
Isso, entretanto, dura somente até que Les ‘ Worm’ Murphy (Edward Norton, também ele, um talento recém-descoberto em Hollywood) saída da prisão.
Worm é o pequeno demônio que incita os caprichos e os excessos de Mike em seu ombro direito. E uma vez com os pés fora da prisão, ele já deve dinheiro para pessoas potencialmente perigosas, extensões que levam, inclusive, à Teddy KGB!
Mike é seu amigo de infância (certamente o único que lhe restou) que ampara todas as suas encrencas: Acaba assim contraindo uma dívida homérica em nome de Worm e, embora tenha tido uma ou outra recaída pela tentação de jogar (o quê terminou mnando seu relacionamento, e comprometendo a confiança de seu mentor, vivido por Martin Landau, depositada nele) será essa dívida que o conduzirá realmente de volta às mesas de pôquer e à uma inevitável revanche contra KGB.
No cinema de John Dahl –como pode ser conferido no anterior (e fantástico) “O Poder da Sedução” –importa menos a busca por inovação e mais o primor de um execução bem feita e certamente envolvente. Ele honra completamente esses predicados aqui, valendo-se desses dois jovens talentosos (Damon e Norton) para entregar personagens críveis e interessantes e sequências de jogatina que exigem nervos de aço do expectador.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

9 - A Salvação


Indicado ao Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem de Animação, o jovem diretor Shane Acker ganhou inesperados entusiastas de sua obra –os diretores Timur Bekmanbetov (de “Guardiões da Noite”) e Tim Burton –que se apresentaram a ele, como produtores dispostos a viabilizar uma expansão de seu trabalho em forma de um longa-metragem de animação.
Assim surgiu este curioso e notável “9-A Salvação”, lançado em 2009.
Corajosamente contrariando a proposta do curta –cuja trama se desenvolve se diálogos baseada em gesto e pantomina –o longa agrega vozes de atores famosos aos seus personagens o quê atribui a cada um deles as características humanas e particulares de seus dubladores.
O protagonista 9 (voz de Elijah Wood) é, como todos os outros, uma mescla de boneco de brinquedo com andróide. Sua lembrança é de acordar num laboratório em meio a um mundo devastado.
E a recriação desse mundo –uma espécie de universo cyberpunk pós-apocalíptico retrô –sinaliza mais à percepção dos adultos que à das crianças: A narrativa de Shane Acker não esconde o fatalismo e as consequências contundentes da guerra.
No contexto em que o curioso robozinho está inserido, o mundo –numa cronologia situada provavelmente nos anos 1940 –sucumbiu por completo à guerra. Os homens projetaram armas (inclusive biológicas) com tanto afinco para combater uns aos outros que, em algum momento, esses maquinários adquiriam autonomia e se voltaram contra os humanos.
O mundo no qual o pequenino 9 acorda já não tem mais seres humanos –quando muito, são cadáveres que surgem corajosamente em meio aos escombros sem fim.
Logo, 9 descobre outros andróides como ele: O primeiro a encontrar é o sábio 2 (voz de Matin Landau), em seguida, ele conhece toda uma comunidade controlada pelo paranóico e irritadiço 1 (voz de Christopher Plummer) sob o jugo truculento de seu braço-direito 8 (Fred Tatasciore) e os delírios inexplicáveis de 6 (voz de Crispin Glover).
Quando 2 é capturado por uma das tenebrosas máquinas de destruição que patrulham a terra, 9 parte ao lado de 5 (voz de John C. Reilly) para salvá-lo. Acaba descobrindo os renegados restantes de sua espécie: A corajosa e intrépida 7 (voz de Jennifer Connelly) e os inteligentes ainda que ininteligíveis 3 e 4.
Junto as informações que cada um tem –e buscando sempre escapar do encalço mortal da grande máquina que os persegue –os pequenos andróides tentam elucidar o grande mistério de sua origem e de como isso pode representar a última esperança para a Terra num plano elaborado pelo cientista que os criou.
Uma alternativa bastante interessante às animações genéricas, festivas e pueris, carregada de um estilo incomum e bem administrado.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1995

Se na cerimônia do ano anterior (a ser publicada semana que vem) o grande vencedor havia sido Steven Spielberg, em 1995, foi a vez de um de seus apadrinhados, o realizador Robert Zemeckis, de “De Volta Para O Futuro” –que recebeu seu Oscar pelas mãos do próprio Spielberg e viu seu “Forrest Gump-O Contador de Histórias” consagrar-se com 6 estatuetas.
A lamentar o reconhecimento tão tímido prestado à “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, de Quentin Tarantino (somente Melhor Roteiro Original), e a completa ausência de prêmios a um dos melhores filmes da noite –senão O melhor –o primoroso “Um Sonho de Liberdade”.
Tom Hanks fez história ao receber seu segundo Oscar consecutivo de Melhor Ator (falaremos sobre o primeiro também na semana que vem) e ficou um gosto um pouco amargo na boca pela vitória de Jessica Lange por um filme realizado em 1991, no entanto, lançado só em 1994 –significa que, se fosse lançado em seu ano de produção, Jessica competiria com Jodie Foster, por “O Silêncio dos Inocentes” e com Suzan Sarandon e Geena Davis por “Thelma &Louise” (ou seja, não teria a menor chance!).
Agora, barbada foram os coadjuvantes: Não havia como negar o prêmio ao estupendo Martin Landau por “Ed Wood” e nem à maravilhosa Dianne Wiest por “Tiros Na Broadway”.

MELHOR FILME
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR DIREÇÃO
"Forrest Gump-O Contador de Histórias", Robert Zemeckis

MELHOR ATRIZ
Jessica Lange, "Céu Azul"

MELHOR ATOR
Tom Hanks, "Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dianne Wiest, "Tiros Na Broadway"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Martin Landau, "Ed Wood"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"A Great Day In Harlem"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"A Time For Justice"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Sol Enganador" (Rússia)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR MAQUIAGEM
"Ed Wood"

MELHOR FIGURINO
"Priscilla-A Rainha do Deserto"

MELHOR SOM
"Velocidade Máxima"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"As Loucuras do Rei George"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Can You Feel The Love Tonight", de "O Rei Leão"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pulp Fiction-Tempo de Violência"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bob’s Birthday"

MELHOR MONTAGEM
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Kafka’s It’s A Wonderful Life” e "Trevor”

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ed Wood

Dando continuidade ao seu propósito como cineasta de enaltecer o obscuro e o indesejado, Tim Burton optou, nesta segunda colaboração com Johnny Depp (o primeiro foi o sensacional “Edward-Mãos de Tesouras”) uma fonte inesperada: Nada de criaturas fantásticas ou seres macabros, nada de histórias fantasiosas ou tramas sobrenaturais, o tema deste filme é a vida e a carreira daquele considerado o “pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood –isso, pelo menos, até Tommy Wiseau tirar o posto de Pior Filme de Todos os Tempos de seu “Plan 9 From The Other Space” com “The Room”, mas essa é outra história...
Edward Davis Wood Jr. (vivido com maneirismo e brilho por Depp) é, como todo profissional apaixonado por seu ofício, um entusiasta. Tamanha é sua paixão que, nos percalços para conseguir realizar um filme, Wood não se dá conta da qualidade rasteira do que produz –isso para ele parece ser o de menos. E é o de menos também para o diretor Burton e para o roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski (que depois escreveriam também o ótimo “O Povo Contra Larry Flint”): Em seu relato, ganha destaque a fauna exótica e notável –e plenamente identificável com as criaturas estranhas pelas quais Burton nutre admiração –de colaboradores que Ed Wood reúne ao seu redor, que contribuem à frente e atrás das câmeras para realizar seus filmes, mas também agem como uma família disfuncional com suas peculiaridades e manias.
Entre eles, está o outrora astro Bela Lugosi, em fase decadente (personificado com irônica sensibilidade por Martin Landau, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que se torna uma presença constante em alguns dos trabalhos de Wood.
Acima de tudo, o filme é uma oportunidade para observar Burton, cujo registro cinematográfico quase sempre prima pelo fantasioso, narrar acontecimentos reais e ainda mais impregnados pela afeição em comum da metalinguagem –nesse sentido, apesar do inusitado da afirmação, “Ed Wood” é como se fosse o seu “8 e ½“: São hilárias as cenas em que Ed Wood executa suas filmagens displicentes (como quando um ator, atacado em cena pelo que deveria ser um monstro tentacular, tem de movimentar os tentáculos com suas próprias mãos), ou os erros crassos que entravam mesmo assim nos filmes (quando George Steele, um de seus atores, muito grande para interpretar um morto-vivo que sai do túmulo, entala no caixão; ele pede ajuda e dois contra-regras vão lá segurar seus braços enquanto Wood ordena ao câmera que “Continue filmando! Continue filmando!”), as descobertas das manias cada vez mais excêntricas (o hábito de vestir-se de mulher que culminou na realização de “Glenn Or Glenda”, e a resignada aceitação da esposa, vivida por Patrícia Arquette, a mais esse desvio) e até a breve cena em que ele troca uma idéia com Orson Welles (Vincent D’Onofrio), o que lhe dá motivação e inspiração para fazer o seu próprio “Cidadão Kane”; justamente o Pior Filme de Todos Os Tempos, “Plan 9 From The Outher Space” –que Wood realizou com energia e fôlego, completamente ignorante da ruindade atroz de sua produção.
Bem no fundo, Tim Burton parece se identificar com Ed Wood exatamente nisso: No fato incontornável de que o criador apaixonado não consegue quantificar o amor de seus expectadores, somente o seu próprio, durante o ato de criação.

Daí o fato de “Ed Wood” ser filmado em um belíssimo preto & branco –não há, afinal, meio-termo na concepção de uma arte como o cinema, cujo combustível é, quase sempre, o amor incondicional de seus artesões.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Na terceira parceria do incomum ator Johnny Depp com o estiloso diretor Tim Burton (antecedida por “Edward-Mãos de Tesouras” e “Ed Wood”), o foco do projeto foi uma antiga história de terror norte-americana, muito mais lembrada pelo público por um irregular curta-metragem da Disney exibido com freqüência durante o Halloween.
Todavia, o que o roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) propunha, era uma quase reinvenção da trama conhecida, para fins mais práticos: Nele, o famoso protagonista Ichabod Crane (Johnny Depp, deitando e rolando com o papel) é um astuto, porém covarde oficial de policia de Nova York –enquanto que na animação, fidelíssima à história clássica, Crane é um mero professor.
Se a ocupação muda, de certa maneira o personagem não: Na atuação minimalista e de trejeitos estudados de Depp, Ichabod Crane é, acima de tudo, um homem da ciência, daí o fato até plausível de suas investigações, mergulhadas em métodos científicos, irritarem seus superiores de arcaica mentalidade do final do Século XVIII. Como forma de propor-lhe um verdadeiro teste a fim de constatar a eficiência dos métodos de Crane, ele é então enviado à Província de Sleepy Hollow. Lá, várias mortes ocorridas (inclusive a que abre o filme numa breve participação de Martin Landau) são atribuídas a um fantasmagórico cavaleiro sem cabeça (interpretado pelo ator Christopher Walken, mas incorporado, na maior parte das cenas físicas pelo habilidoso dublê Ray Park).
Descrente, ainda que assustado (e a covardia é uma característica que, por vezes o define), o oficial Crane conduz sua investigação disposto a esclarecer o caso munido de lógica e ciência. Mas, ele cai nas malhas de uma trama rocambolesca que vai muito além da simples premissa de assombração embutida no conto e se alastra até conluios realizados entre membros da alta sociedade de Sleepy Hollow e descobre, estarrecido, que o cavaleiro sem cabeça é real, embora no final das contas, seja usado como executor de outro, e ainda misterioso, vilão.
Como ocorre em todos os exemplares de sua filmografia, Tim Burton usa seu senso formal para a construção de cenas primorosas e captura aqui uma essência específica de um elemento do seu passado responsável pela sua formação como cineasta: Em “Cavaleiro Sem Cabeça”, esse elemento responde pelos filmes sofisticados e ligeiramente irreais concebidos pelos estúdios da Hammer (Christopher Lee, um dos grandes astros desse estúdio, aparece numa ilustre ponta no início, tendo, a partir deste filme, marcado presença em praticamente todos os trabalhos de Burton). Um dos muitos aspectos aos quais Burton paga tributo –e esta obra é repleta de maravilhosos elementos visuais –é a característica peculiar daqueles filmes onde a direção de arte e a iluminação criavam uma atmosfera de tal forma etérea que não se podia distinguir o dia da noite. Ao lado de seus competentes colaboradores, Tim Burton realiza assim um filme de encher os olhos –a fotografia de Emmanuel Lubezki, o desenho de produção de Rick Heinrichs, bem como a trilha sonora de Danny Elfman, todos aspectos impecáveis que transformam este filme numa gratificante experiência cinematográfica.