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sexta-feira, 21 de abril de 2023

O Urso do Pó Branco


 O cinema de entretenimento às vezes encontra caminhos tortuosos para chegar ao seu público, e com isso, ocorre de surgir na ribalta produções de origem um tanto incomum. “Cocaine Bear”, dirigido pela atriz Elizabeth Banks é um desses casos. Inspirado numa história real –e, por isso mesmo, encarado com alguma seriedade por alguns que lhe foram conferir –o filme em si abre mão de seu realismo para se fazer uma tremenda homenagem aos filmes slasher dos anos 1980 (época em que a trama se passa), à mescla desigual entre terror e comédia (o chamado ‘terrir’) e ao cinema B em geral, vez ou outra, fonte de obras inusitadas que desafiam a crença do expectador pelo simples absurdo de sua proposta. Em sua carreira como atriz, Banks trabalhou com Sam Raimi (na “Trilogia Homem-Aranha”) e com James Gunn (em “Seres Rastejantes”), entre vários outros diretores –entretanto, é essencialmente a influência desses dois que parece guiar as noções narrativas que ela demonstra aqui. A lembrar que Elizabeth Banks também já havia dirigido um reboot de “As Panteras”.

De Sam Raimi, ela empresta a percepção de gênero, o slasher, no qual a contagem de corpos vem a ser a estrutura que compõe a história (ainda que os personagens bolados para serem basicamente as vítimas do urso sejam elaborados num viés de comédia), e também o apreço por jump scares (tão abundantes em obras como “Evil Dead”); já de James Gunn, ela pega a concepção debochada com a qual molda núcleos inteiros de personagens norteados por uma certa galhofa, porém, inseridos num contexto que não deixar de ter tensão.

Na história real da qual o filme se baseia, um piloto de aeroplano que trafica droga para os EUA (uma característica non-sense do tráfico de drogas nos anos 1980, retratada no filme “Feito Na América”) pensa estar sendo seguido pela polícia e se livra de vários malotes de cocaína  enquanto sobrevoava o Parque Florestal de Chattahoochee-Oconee, na Geórgia, antes dele próprio pular do avião e perder a vida (!). Na realidade, os malotes encontrados e consumidos pelo urso (na verdade, uma ursa) levaram o animal a ter uma overdose sendo encontrado dias depois pela polícia –o animal, hoje, pode ser visto pelo público, empalhado no Kentucky Fun Mall. Para muito além dessa ocorrência curiosa que se espalhou de boca em boca pelos EUA na época, a diretora Elizabeth Banks imaginou todo um filme no qual o urso, enlouquecido pelos efeitos da droga, libera sua fúria contra diversos personagens humanos que inadvertidamente cruzam seu caminho.

E aí entra a sacada bastante inspirada do filme, em não levar-se a sério e construir personagens que são basicamente caricaturas divertidas as quais se acompanha com certo prazer sádico suas idas e vindas, a escapar (ou não) das garras do urso ensandecido. Temos assim os dois comparsas de traficantes Daveed (O’Shea Jackson Jr., de “Straight Outta Compton”) e Eddie (Alden Ehrenreich), instruídos pelo chefão Syd (o falecido Ray Liotta, a quem o filme é dedicado) a recuperar os malotes perdidos a fim de minimizar seu prejuízo; as duas crianças Dee Dee (Brooklyn Prince, de “Projeto Flórida”) e Henry (Christian Convery, da série “Sweeth Tooth”), numa tentativa travessa de cabular aula; a mãe de Dee Dee (Keri Russell) no encalço dos dois; os obtusos guardas-florestais Liz (Margo Martindale, de “Secretariat” e “Menina de Ouro”) e Peter (Jesse Tyler Fergunson, da série “Modern Family”), e os policias Bob (Isaiah Witlock, de “A Última Noite”) e Reba (Ayoola Smart), cada qual ao seu jeito, tentando procurar as drogas extraviadas. Juntam-se a eles também os destrambelhados paramédicos Beth (Kahyun Kim) e Tom (Scott Seiss) –protagonistas de uma sequência insana de perseguição à bordo de uma ambulância! –e um grupo de marginais. Todos esses personagens acabam servindo de fio condutor à trama, na simplicidade atroz de sua proposta: Não é segredo para ninguém que a maioria deles serve de carne para abate ao urso protagonista. E tão mais válidas são suas participações quanto mais tresloucadas e memoráveis forem suas mortes. E nesse sentido, elas realmente são –Elizabeth Banks fez bem seu dever de casa e incorpora maravilhosamente bem o espírito de produção trash (embora o filme, com um orçamento razoável de 35 milhões de dólares e um CGI satisfatório da fera alucinada não seja, deveras, uma produção trash) em sequências sucessivas que unem mortes de incontida sanguinolência macabra com um humor irreprimível inerente ao fato de ser um urso surtado de tanta droga a praticar essas atrocidades: Como quando ele salta alucinadamente de uma árvore para outra escolhendo entre capturar o menino Henry ou o idiota Peter –termina escolhendo este último, pois ele chafurdou, minutos antes, num monte espalhado de cocaína (!); ou quando invade o Q.G. dos Guardas-Florestais e a afobada Liz desfere tiros com sua arma que acertam os marginais que se refugiavam ali, ao invés do urso (!?); ou o encontro entre o policial Bob e os traficantes Daveed e Eddie num gazebo onde acham vários malotes perdidos e após uma troca de tiros hilária (que rende um par de dedos decepados à Daveed!) são encontrados pelo urso, que acaba desmaiando sobre Eddie, quase esmagando-o (!).

São várias as situações concebidas pela diretora Banks onde um humor imprevisto se choca com a sensação de perigo proporcionada pelo urso alucinado, e é necessário compreender integralmente que isso faz parte da diversão, a forma descontraída, reverente e descompromissada com a qual ela rememora uma característica já não tão comum nas obras de entretenimento de hoje em dia. Por isso mesmo, muito de “Cocaine Bear” –não só a reconstituição de época enfatizada nos figurinos e na trilha sonora –remete à década de 1980, não apenas como referência, mas como evocação. É quase como se “Cocaine Bear” FOSSE uma realização daquele período de fato. O que não deixa de ser uma oportunidade para lembrar o quando o entretenimento já foi inacreditável e divertidamente inconsequente.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Morte e Vida de Charlie


 Revelado no fenômeno adolescente “High School Musical”, o ator Zac Efron demonstrou capacidade em muitos projetos distintos que foram além da obra juvenil que iniciou sua carreira. Um desses projetos foi esta adaptação do best-seller de Ben Sherwood cujo objetivo, nem um pouco disfarçado, é levar a plateia às lágrimas. O resultado –de qualidade satisfatória –mostra que tal objetivo foi atingido por meio de méritos genuínos e sem abraçar obviedades na maior parte do tempo.

Morador de uma cidadezinha costeira, o jovem Charlie St. Cloud (Efron) vive com sua família que restringe-se à mãe enfermeira (Kim Basinger) e ao irmão pequeno Sammy (Charlie Tahan, de “Eu Sou A Lenda”). A vida segue seu rumo normal quando Charlie, que fez fama na cidade como campeão velejador, obtém uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford e prepara-se para deixar o lugar, para ressentimento do seu irmão mais novo, para quem Charlie é um ídolo e companheiro.

Entretanto, a trama dá uma imprevista guinada quando Charlie, numa noite em que a mãe dos dois fez plantão, envolve-se num trágico acidente automobilístico com Sammy.

Charlie é milagrosamente revivido por um paramédico (vivido por Ray Liotta), mas, para Sammy já é tarde.

Contudo, Sammy não deixa Charlie em definitivo: Honrando uma promessa que fizeram em vida –de encontrarem-se, todos os dias, ao pôr-do-sol para treinarem beisebol –Sammy retorna, ao entardecer para Charlie, e somente para ele.

Com isso, nos cinco anos seguintes, Charlie abdica da universidade, dos campeonatos marítimos e de qualquer tipo de futuro, para não ter de despedir-se de seu irmão caçula, que mesmo falecido continua a visitá-lo ao fim de todas as tardes. Trabalhando assim como zelador do cemitério local, em consequência disso, Charlie se torna o ‘esquisitão da cidade’ embora ninguém –nem mesmo ele –se dê conta do dom mediúnico que ele adquiriu naquele acidente: O fantasmo de outro amigo, falecido em exercício como cadete do exército (vivido por Dave Franco) também lhe aparece numa breve, mas significativa cena.

É a jovem Tess (Amanda Crew, de “Evocando Espíritos” e “Sex Drive-Rumo Ao Sexo”), outra jovem velejadora do lugar, quem aparecerá para tentar libertar Charlie das prisões existenciais a que ele se impôs, e que o impedem de viver plenamente e encerrar seu luto.

Dirigido com hegemonia e transparência por Burr Steers (de “Orgulho & Preconceito & Zumbis”), “A Morte e Vida de Charlie” é um drama com pitadas de romance e até de certa aventura que se encaixaria com perfeição em meio aos ‘clássicos da sessão da tarde’ tão inofensivo e abertamente emotivo ele é –trata-se exatamente de uma dessas produções hollywoodianas feita sob medida para adequar-se ao gosto do público, sem ofendê-lo e sem exacerbá-lo, veículo perfeito para um astro emergente. A diferença é que, no mais, ele acerta em tudo que deveria: O astro em questão, Zac Efron, tem talento o bastante para sair-se bem em cativar o público feminino sem irritar o público masculino, a trama –com algumas reviravoltas até bastante pontuais, inesperadas e capazes de preservar o interesse na narrativa –não é condescendente para com os expectadores e o trabalho da direção conduz o filme com bela noção de ritmo, lógica e atmosfera.

Trocando em miúdos: Não é nada fora do comum, mas funciona que é uma beleza.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Kill The Messenger

Um grande filme investigativo agraciado com uma belíssima interpretação de Jeremy Renner, este “Kill The Messenger” –genericamente traduzido como “O Mensageiro” em português –une as orientações cinematográficas que definem grandes obras do sub-gênero como o clássico “Todos Os Homens do Presidente” e o premiado “Spotlight-Segredos Revelados” a um senso de denúncia que por vezes acaba rondando circunstâncias bem reais, mas que por seu teor mirabolante e absurdo soam inacreditáveis. Nesse sentido, o trabalho do diretor Michael Cuesta se aproxima da comédia de aventura “Feito Na América”, com Tom Cruise, todavia, se aquele era um trabalho que descontraía o expectador fazendo-o divertir-se com as guinadas tortuosas de sua premissa, também baseada num fato real, aqui, a condução metódica e austera de Cuesta impõe uma densa e adulta seriedade.
Está em pauta a lógica jornalística que foi torcida diante das circunstâncias.
Jeremy Renner vive Gary Webb, repórter do jornal regional San Jose Mercury News. Na busca por uma história bombástica e na proximidade intuitiva com alguns traficantes, ele acaba conhecendo Coral Baca (a absolutamente deliciosa Paz Vega), esposa de um traficante condenado disposta a entregar a Webb um documento que veio parar por acidente em suas mãos: Um protocolo rasurado e confidencial sobre Danilo Blandon (Yul Vazquez), um agente da CIA –talvez, um informante, talvez, um infiltrado –que tinha conexões com traficantes em todo solo americano.
Até aí nada demais. Contudo, ao aprofundar suas investigações, Webb descobre que Danilo Blandon, na qualidade de agente duplo a serviço da CIA, era mais que um mero espião entre os traficantes: Ele era um dos maiores e mais expressivos fornecedores de drogas dos EUA!
Tudo leva à constatação, mais tarde corroborada por outras fontes de Webb, de que o governo dos EUA contribuiu para a circulação de drogas ilegais em certos guetos americanos desde que o dinheiro ilicitamente obtido por esse tráfico financiasse uma guerrilha destinada a provocar uma revolução na Nicarágua, ditando os rumos políticos daquele país.
Sem intimidar-se com as advertências que as fontes encontradas lhe dão (ao mesmo tempo que confirmam, extraoficialmente toda essa verdade), Webb segue em frente e escreve uma matéria que coloca o pequeno San Jose Mercury News no radar de gigantes da mídia jornalística como o Washington Post e outros.
Contudo, os grandes jornais –e, portanto, os jornalistas profissionais neles inseridos –têm ligações com a CIA e, por conta delas, sua postura é defensiva para com os orgãos do governo: Na sequência às revelações, eles procuram invalidar a descoberta de Webb e, aos poucos, em função das próprias convicções, passam a atacá-lo e desacreditá-lo.
A pressão é tamanha que se estende até os profissionais que trabalhavam com Webb, sua editora Anna Simmons (Mary Elizabeth Winstead) e o dono do jornal Jerry Ceppos (Oliver Platt); ambos intimidados e pressionados pela postura antagônica dos veículos de mídia maiores acabam por negligenciar o empenho de Webb em perseguir a verdade, afastando-o da execução do jornalismo.
Esta é, pois, uma trama sobre um “Davi contra Golias” onde os desdobramentos não obedecem sobremaneira as expectativas do público, tão acostumado a ver a verdade prevalecer, sobretudo, em âmbitos americanos nos quais essa máxima é tão defendida.
Mais do que expor uma verdade desconcertante acerca de atividades obscuras e duvidosas do governo americano, o filme coloca o íntegro e transparente Gary Webb na angustiante posição de um mártir terminando por apontar os lapsos morais quando outros profissionais da área do jornalismo priorizam fatores secundários (e de interesse pessoal) em detrimento da verdade.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Uma Noite Fora de Série


O humor excessivamente norte-americano dos comediantes Steve Carell e Tina Fey é baseado na circunstância da ‘saia justa’, da vergonha alheia. Quando acertam, eles conseguem extrair pérolas cômicas de algumas situações. Quando não, o constrangimento passa facilmente para quem assiste.
Dirigido por Shawn Levy, um especialista em musicais, comédias e filmes inofensivos, “Uma Noite Fora de Série” oscila entre esses dois extremos qualitativos.
É na totalidade de sua duração um programa familiar, com uma ligeira intervenção de situações um pouco mais escabrosas que deixam a dúvida se os realizadores optaram por esse humor mais pesado momentaneamente ou se foi um lapso.
Tina e Carell são Phil e Claire Foster, um casal suburbano de meia idade enfrentando uma crise de monotonia que acomete várias relações; paira sobre eles, o fantasma da separação de um casal de amigos (vividos por Mark Ruffalo e Kristen Wiig, as primeiras das inúmeras participações estelares que estão por vir) e o medo de que tal desfecho pode ocorrer a eles também.
Dispostos e ter uma noite revigorante de sexta-feira, eles vão a um badalado restaurante e, enfastiados da lista de espera para uma mesa, resolvem se passar por um outro casal que fez reserva perante a recepcionista (Olivia Munn) –e a partir dessa artimanha gaiata, a premissa dá seu ponto de partida.
Como numa caricatura de Hitchcock, eles são confundidos com misterioso casal (que descobrem ser, mais tarde, James Franco e Mila Kunis) cuja identidade travessamente resolveram assumir. Entretanto, como logo descobrirão, esse casal está sendo perseguido por policiais corruptos (Common e Jimmi Simpson) a serviço da máfia (o gangster maioral é ninguém menos que Ray Liotta) por conta de revelações comprometedoras.
Além disso, cruzam-se com a policial honesta vivida por Taraji P. Henson e com o casal interpretado por Mark Wahlberg e uma Gal Gadot “pré-Mulher Maravilha”.
Eu mencionei Alfred Hitchcock, mas na verdade, tão logo as confusões começam a se empilhar uma após a outra levando o desafortunado casal a uma noite infernal, é outra referência que acaba vindo à mente: “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Como naquele filme, os protagonistas se vêem tão aturdidos quanto o expectador, mergulhados numa trama que nem eles mesmos entendem, impedidos, situação após situação de simplesmente voltar para casa –e ainda por cima, com o ostensivo cenário da noite nova-iorquina como pano de fundo.
Contudo, se o filme de Scorsese tinha na comédia uma salutar reflexão sobre valores e solidão, o filme com Steve Carell e Tina Fey só tem a intenção de extrair algumas risadas do expectador –saldo que, mesmo despretensioso, quase acaba no vermelho.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Marcas da Vingança


Se não chega a ser um realizador magistral, ao menos, Paul Schrader aprendeu com os melhores, tendo seu roteiro para “Taxi Driver” dirigido por Martin Scorsese, com quem colaborou em várias ocasiões.
“Marcas da Vingança” é um trabalho que oscila assim entre um talento que quase alcança a excelência  minado por circunstâncias que lhe impõe uma quase mediocridade.
No que já de imediato parece ser um flaskback (e de fato é) acompanhamos as lembranças pesarosas do protagonista todo desfigurado –mas, mantendo uma pose de autoridade –em um avião.
É 1987 e a narrativa retrocede quatorze anos –iniciando a trama assim em 1974.
Num hotel à beira-mar de Miami acompanhamos Alan (Joseph Fiennes, de “Shakespeare Apaixonado”), o rapaz que virá a se desfigurar; entretanto ali ele é o boa pinta camareiro do lugar e seus clientes são o casal Brice, Mark (Ray Liotta) e Ella (Gretchen Mol).
Numa narrativa algo noir (uma paixão de Schrader), o filme faz muito lembrar em sua primeira parte os desenlaces de “Corpos Ardentes” e demais produções onde o personagem principal invariavelmente se envolve com a mulher errada –porque Alan vai, sim, se envolver com Ella. E a obsessão por seu corpo e por seu amor será tanta que o rapaz não irá pestanejar ao pegar um carro e ir atrás do casal na cidade onde moram.
Contudo, Mark é muito mais perigoso do que parece: Quando a formação católica de Ella a obriga a confessar seu pecado à Mark, ele usa de suas influências e incrimina Alan para que este vá preso por um crime que não cometeu e, uma vez encarcerado, já está também planejado seu assassinato.
Mas, Alan –com o rosto, o queixo e a mão direita dilacerados por um tiro –sobrevive e, nos quatorze anos vindouros prepara cuidadosamente sua vingança.
O filme de Schrader abandona então suas similaridades com o film noir e se revela profundamente influenciado por “OConde de Monte Cristo” –como nessa premissa clássica, Alan muda de identidade (agora é o poderoso e respeitado advogado Manny Esquema, visto no avião do início) e planeja despedaçar Mark (que não o reconhece) aos poucos, incriminando-o, tirando-lhe o dinheiro que tem e, por fim, levando-lhe a esposa.
É, portanto, um prato que se come frio, essa tal de vingança.
Uma série de elementos soam inverossímeis no filme de Shrader, que até diverte mesmo assim, mas os aspectos que de fato depõe contra sua qualidade são ainda mais circunstanciais: o roteiro –ponto forte de Schrader em detrimento de sua capacidade na direção –salta abruptamente no tempo acarretando um lapso imenso entre a fase relembrada e o momento presente (1987), deixando vários pontos obscuros acerca de como Alan ascendeu até se tornar o Sr. Esquema ou em quais condições isso se deu; um problema que impede a aproximação do público com o protagonista.
No papel principal, Joseph Fiennes oscila em equívocos: Não tem autoridade o suficiente quanto o personagem exige dele e, no mais, fica no registro do sofredor romântico como em outros de seus trabalhos.
Membro mais reconhecido do elenco, Ray Liotta –nota-se –é ligeiramente reverenciado em cena, e essa adulação o faz perder um pouco o controle da própria canastrice.
Até mesmo a encantadora Gretchen Mol, cuja beleza e sensualidade tornam mais difícil julgar sua atuação, perde a mão de sua caracterização em alguns momentos.
Ainda assim, junto com esses lapsos, como  em outros trabalhos de Schrader, convive uma inspiração e uma concepção de bom cinema que agregam qualidades indiscutíveis ao todo, resultando num válido entretenimento.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Motoqueiros Selvagens


Já na primeira cena a capacidade de fazer rir do filme de Walt Becker já fica bem clara: O grupo formado por John Travolta, Tim Allen, Martin Lawrence e William H. Macy percorre uma rua, todo supino, sob suas motos. É Macy quem acaba fazendo uma micagem qualquer e se dá mal; embora tenha dois comediantes notórios entre seus protagonistas (Allen e Lawrence) e um astro com timing cômico (Travolta), é o único ator de fato (Macy), quem consegue trazer para si os momentos mais hilários.
O mote de “Motoqueiros Selvagens” é a típica crise de meia idade que acomete os homens na faixa etária dos quatro grandes amigos.
Woody (Travolta) almeja uma sensação de liberdade que há tempos não experimentava, enredado pelos aborrecimentos da vida urbana e por um casamento sem ânimo.
Seus amigos, Doug (Allen), Bobby (Lawrence) e Dudley (Macy) podem até não compartilhar do mesmo grau de desespero, mas identificam-se com sua injúria pela vida comportada o suficiente para ir com ele em viagem pelo país a bordo de suas motos, planejada em cima da hora e na qual rege a regra do rompimento com os vínculos da sociedade; sem telefones celulares, Internet ou qualquer distração.
No entanto, na primeira tentativa que os quatro motoqueiros de araque engendram para confraternizar com motoqueiros reais –no caso, a gangue dos Del Fuegos, liderada por um ameaçador Ray Liotta –um contratempo acontece: Uma tentativa até inocente de retribuir a hostilidade sofrida leva Woody a, sem querer, botar fogo no bar que serve de moradia para os Del Fuegos! E agora, os quatro amigos têm toda uma gangue em seu encalço.
Esse detalhe gera menos tensão e mais uma oportunidade de arremate para a narrativa episódica: Quando os quatro pretensos motoqueiros chegam à uma cidadezinha hospitaleira às voltas com uma comemoração regional –e o personagem de Macy encontra uma divertida chance de romance nas curvas da personagem vivida por Marisa Tomei –é providencial que a gangue de motoqueiros malvadões apareça para oferecer o tempero de algum conflito na condução tão tranquila e descontraída que vinha se construindo; além da oportunidade para os urbanizadas e civilizados heróis demonstrarem lá ao seu jeito que têm coragem.
Serve para mais outra coisa também: A participação cheia de significado e enaltecimento do grande Peter Fonda, um grande ator a quem para sempre foi relacionado o clássico “Sem Destino” –não tê-lo num filme de motoqueiros seria como falar sobre pintura e não mencionar Leonardo Da Vinci.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Hannibal


No que diz respeito à obra-prima “O Silênciodos Inocentes”, público e crítica durante muito tempo aguardaram por uma continuação, visto que essa continuação já existia nos livros escritos por Thomas Harris –dos quais “O Silêncio...” sequer é a primeira história...
A despeito do sucesso daquela obra, de sua inclusão perene no subconsciente da cultura cinematográfico e de sua consagração junto ao Oscar (de onde “Silêncio dos Inocentes” saiu com um número espantoso de cinco prêmios principais), demorou um pouco mais do que o ideal, e quando tal continuação veio, o público teve de se satisfazer com o mero fato do ator Anthony Hopkins voltar a dar vida a Hannibal Lecter; tudo o mais que fazia daquele filme uma experiência inigualável foi substituído: O diretor Jonathan Demme foi trocado pelo especialista em épicos Ridley Scott (recém-saído, por sinal, de “Gladiador”) e –talvez, o detalhe que mais incomodou os expectadores –a espetacular Jodie Foster (que pelo filme original arrebatou o Oscar de Melhor Atriz) não aceitou reprisar o papel da agente do FBI Clarice Starling, sendo substituída por Julianne Moore, uma atriz interessante e competente que não merecia essa ingrata tarefa.
Dez anos depois de ter fugido de seu cárcere, o brilhante e psicótico Dr. Hannibal Lecter reaparece em Veneza usufruindo da boa vida de homem culto que é.
Torna-se alvo de um plano vingativo movido por uma de suas vítimas do passado, Mason Verger, um raro caso de sobrevivente de um encontro com Lecter –todavia, ele foi terrivelmente desfigurado (o quê torna irreconhecível o ator Gary Oldman, ou qualquer outro que tivesse sido posto neste papel) –ao mesmo tempo, notamos que pouco a pouco o destino torna a colocá-lo no caminho da agente do FBI, Clarice Staling, então num ponto algo decadente de sua carreira –ela encontra particular obstrução do promotor Paul Krendler, personagem de Ray Liotta que, perto do fim, protagoniza a cena mais assombrosa e absurda da produção.
Após uma década ninguém duvidava de que seria difícil para o Ridley Scott (ou qualquer diretor que viesse a assumir essa tarefa) recriar a mesma atmosfera impressionante do filme de Jonathan Demme, ainda mais que, para essa empreitada, ele contava apenas com Anthony Hopkins no papel-título e não com sua notável antagonista, Jodie Foster, como a agente Starling –consequência disso, Scott cede à tentação de amplificar –ou explicitar –tudo o quê no filme anterior era pleno de sutileza.
O resultado: O palpitante suspense psicológico que elevava aquele filme é convertido aqui, sobretudo, nos trinta minutos finais, num festival de bizarrices travestido de registro psicótico com intenção de chocar; a elegância mórbida dá lugar à vulgaridade do terror gore.
Não que tais elementos não façam de “Hannibal”, no fim das contas, um filme divertido, mas ele está se metendo a dar continuidade a uma das grandes obras do cinema.

sábado, 10 de junho de 2017

Os Bons Companheiros

Para muitos a obra-prima de Martin Scorsese, este filme, onde ele finalmente pode valer-se de seu talento sem igual, e sua técnica fabulosa para ilustrar sua visão pessoal dos gangsteres, a exemplo do que seu conterrâneo, Francis Ford Coppola já havia feito (e pelo qual ganhou ampla consagração) em “O Poderoso Chefão”, faz parecer que Scorsese realizou filmes sobre máfia a vida toda: Na realidade, são bem poucos títulos e, antes deste, datada de 1990, ele só havia realizado o independente “Caminhos Perigosos” que focava em criminosos marginais.
Em “Os Bons Companheiros”, sua atenção recai sobre os aspetos sedutores da vida dos mafiosos, e no quanto ele são decisivos na definição do fascínio de seu jovem protagonista, algo que ele reitera bastante ao longo de sua formidável narração em off.
Nos anos 1960, em Nova York, Henry Hill, um garoto de doze anos inicia sua carreira de gangster, apadrinhado por marginais poderosos ainda não-pertencentes à Máfia. Durante trinta anos (e já vivido por Ray Liotta, que dá conta do recado), sempre com os mesmos companheiros descendentes de irlandeses e italianos (interpretados por um metódico Robert De Niro e um explosivo Joe Pesci), ele enriquece à custa de crimes, casa-se com uma judia (a bela Lorraine Bracco) e sofre os efeitos do comportamento do meio em que vive.
Como era de se esperar neste fenomenal épico-gangster, a trajetória de ascensão e queda em direção à mediocridade de seu protagonista é narrada com a costumeira paixão que o diretor italo-americano Scorsese dá a seus projetos, tanto que na cerimônia do Oscar de 1990, ele competiu diretamente com “O Poderoso Chefão-Parte 3”, o último filme da trilogia com a qual “Os Bons Companheiros” passou a ser para sempre comparado –e ele é, diga-se, digno dessa comparação.
Vale lembrar que no Oscar daquele ano, tanto “Os Bons Companheiros”, como “O Poderoso Chefão-Parte 3” perderam para o faroeste “Dança Com Lobos”, de Kevin Costner, um filme que os críticos são unânimes em afirmar que é inferior a este grande trabalho de Scorsese.
É uma história calcada na violência crua que ele já havia retratado magnificamente em "Taxi Driver" com atuações esplêndidas de todo o seu elenco, sobretudo o baixinho e ameaçador Joe Pesci (ganhador do Oscar de Ator Coadjuvante).

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Lugar Onde Tudo Termina

Um personagem. Um motociclista. De índole tão inconseqüente e auto-destrutiva que, de início, sabemos que ganha a vida arriscando-se em apresentações num globo da morte. Esse é o estopim narrativo que principia este trabalho do diretor Derek Cianfrance, mais ambicioso do que o elogiado “Namorados Para Sempre” –ou “Blue Valentine” –tornando aqui a trabalhar com o ator Ryan Gosling, intérprete justamente desse personagem, Handsome Luke, e dele arrancando uma notável atuação.
Na interpretação de Gosling, Luke desafia o público: Dentre os vários personagens é, de longe, aquele que mais monopoliza o expectador, apesar de tudo que ainda virá, ele obtém facilmente sua afeição, embora cometa o tempo todo atos que não o fazem merecedor.
Que o diga Romina (interpretada por Eva Mendes) uma antiga aventura que Luke descobriu carregar um filho seu.
Disposto a arcar com a paternidade, Luke entra em atrito com o então marido de Romina, Kofi (Mahershala Ali, de “Moonlight-Sob A Luz do Luar”), e termina associando-se ao escuso Robin (Ben Mendelsohn, de "Rogue One”) com quem envereda para o crime, assaltando bancos.
Por sua personalidade e por sua necessidade, esses serão atos que ele não será capaz de interromper.
Em algum momento, portanto, o caminho de Luke cruza-se com o do policial Avery Cross (Bradley Cooper, ótimo) e então o filme o abandona, por assim dizer.
Num recurso bastante inesperado, é Avery quem assume o centro da trama quando o filme já abandona seu primeiro ato e, embora os elementos do plot anterior jamais sejam esquecidos, a obra de Cianfrance, em alguns momentos, parece ter se metamorfoseado num outro filme, desta vez acerca das aflições de um jovem policial ambicioso cercado de corrupção por todos os lados.
Mais a frente, com habilidade inata, também essa premissa irá se modificar, restabelecendo o caráter humano de sua história.
Dito isso, é realmente notável como a narrativa transfere com surpreendente naturalidade o protagonismo de um personagem para o outro (primeiro, Ryan Gosling, uma lembrança que persiste por todo o filme; depois, Bradley Cooper; e, por fim, o jovem Dane Deehan) numa trama sobre culpa, destinos que se entrecruzam e conseqüências do passado, que se estende por décadas.
Neste filme, assim como no anterior “Blue Valentine” e no posterior “A Luz Entre Os Oceanos”, o diretor Derek Cianfrance demonstra grande interesse por laços familiares que se formam por caminhos tortos, bem como o sinuoso e corrosivo efeito que eles desenvolvem nas vidas dos envolvidos ao longo dos anos.
A maneira hábil com que ele consegue compreender tais desdobramentos dramáticos e a forma certeira e talentosa como os expressa em cena é o grande brilho deste filme.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Campo dos Sonhos

“People will can!” essas três palavras (cuja tradução para o português não chega nem perto da força emocional com que são ditas pelo elenco) fazem parte do amplo leque de elementos que tornam este filme um objeto de culto por seus apreciadores.
Em 1989, quando chegou aos cinemas a lúdica e insólita história do fazendeiro (Kevin Costner) que arrisca tudo para atender a uma voz misteriosa e constrói um campo de beisebol no meio de uma plantação de milho, para então receber ocasionais ‘visitas’ dos fantasmas de célebres jogadores de beisebol do passado, este trabalho foi recebido como uma bela reafirmação, muito bem conduzida pela sensibilidade do diretor Phil Aden Robinson, do modo de vida americano, o quê o cinema hollywoodiano volta e meia gosta de fazer. O tempo, contudo, coloca todas as coisas em uma perspectiva genuína, e “Campo dos Sonhos”, com o passar dos anos passou a ser visto como a obra singular que é.
Os valores, tão norte-americanos, materializados na paradisíaca visão da fazenda e seus campos extensos e amarelos de milho, estão lá, como também está Kevin Costner, ator que, por muito tempo, foi referência para esse tipo de associação ao ideal americano (não por acaso, no ano seguinte, chegaria aos cinemas o filme que o consagrou junto ao Oscar, o faroeste de tintas ecológicas e pacifistas “Dança Com Lobos”).
Um olhar mais atento pode notar, porém, que “Campo dos Sonhos” tem muito mais que isso: Lá está, também, uma das últimas atuações do maravilhoso Burt Lancaster (à medida que foi envelhecendo, suas aparições em filmes foram ficando cada vez mais escassas). Ele está enternecedor no papel do velho médico cujo objetivo de vida o afastou de seus sonhos, mas que terá uma nova chance justamente com a intervenção de Costner, e de muito da maravilhosamente pouco explicada magia que permeia todo o filme.
Lá, também está James Earl Jones e seu vozeirão, carrancudo de início, num personagem que me lembrou um bocado o escritor J.D. Salinger de “O Apanhador No Campo de Centeio”, mas que vai se desnudando como ser humano ao longo da trama, terminando por ser uma das presenças mais emocionantes do filme.
Mas, talvez, o mais brilhante de tudo seja mesmo a direção de Aden Robinson (nos últimos anos, ele tem se dedicado mais à TV, onde dirigiu-se episódios para a minissérie “Band Of Brothers”, por exemplo), que consegue criar um clima mágico e lírico, ao mesmo tempo dosado com certa subversão, mas que jamais deixa de encantar o expectador.
Ao fim de “Campo dos Sonhos” somos deixados com uma sensação de bem-estar, de otimismo e de gratidão, por um filme tão maravilhoso ter chegado até nós.