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terça-feira, 4 de abril de 2023

Os Fabelmans


 Steven Spielberg cresceu em uma família amorosa ainda que disfuncional e cheia de seus próprios contratempos. Filmes como “Louca Escapada” ou “E.T. O Extraterrestre” evidenciam, em pequenos detalhes aqui e ali, as inquietações de nível pessoal que sempre o perseguiram –o distanciamento paterno; a opressão acarretada pela realidade adulta; a fuga sempre imaginativa para um refúgio de fantasia; a visão aventuresca com a qual usava o cinema para romantizar a vida. A gênese de cada uma dessas facetas pode ser contemplada e apreciada agora que Steven Spielberg pôde realizar seu filme mais pessoal, “Os Fabelmans”, no qual ele compartilha com o público um pouco de sua própria história.

Conhecemos assim o personagem que representa o próprio Spielberg, Sammy Fabelman, aos sete anos de idade, prestes a entrar num cinema pela primeira vez, junto de seus pais, Burt (Paul Dano) e Mitzi (Michelle Williams), para assistir a “O Maior Espetáculo da Terra”. Metódico, Burt explica ao pequeno Sammy toda a mecânica que envolve o cinematógrafo, enquanto que Mitzi, de uma irreprimível veia artística, enxerga ali a materialização dos sonhos; o protagonista mal sabe, mas sua índole será definida pelo ajuste emocional dessas duas influências aparentemente tão distintas.

Imediatamente capturado pela sequência onde uma colisão de trem leva vários vagões a descarrilar dos trilhos, o pequeno Fabelman pede de presente, fascinado, um trem de brinquedo, para poder reencenar várias e várias vezes aquele momento de colisão. Contudo, Burt não deseja ver o filho destruir um brinquedo que ele poupou para comprar. A saída, bolada por Mitzi, é filmar o descarrilamento de brinquedo, e tê-lo gravado em película para vê-lo e revê-lo sem parar. E é nesse detalhe, a repetição de uma memória feliz reproduzida em cores vivas e num processo tecnológico palpável, que se encontra o cerne da grande paixão do pequeno Fabelman.

Incapaz de olhar o mundo a não ser pela lente de uma câmera, Sammy (então interpretado por Gabriel LaBelle) passa o restante de sua juventude fazendo filmes caseiros, inicialmente tendo suas irmãs como protagonistas de suas produções –que variam de comédias sobre dentistas até filmes de horror com múmias feitas a partir do papel higiênico de casa (!) –e mais tarde, arregimentando até mesmo os colegas de classe e seus amigos do grupo de escoteiros.

É através do cinema que Sammy descobre uma identidade que o define, mas é também através dele que os primeiros rancores com a vida adulta são revelados: Num filme gravado aleatoriamente, Sammy flagra, sem querer, Mitzi junto de Bennie (Seth Rogen), um grande amigo de seu pai. A descoberta do adultério da mãe é um choque tamanho para Sammy que, quando a família se muda do Arizona para a Califórnia, ele decide abandonar em definitivo o hábito de filmar.

Ainda assim, o cinema persiste no caminho do jovem Fabelman: Ele tem a oportunidade de realizar um filme tradicional para o evento anual da formatura, no qual deposita toda sua habilidade e talento, mesmo que com os aspectos pessoais da vida entrando numa espécie de colapso: Mitzi, à essa altura, já não suporta mais o afastamento de Bennie e pede o divórcio à Burt, enquanto que os valentões da escola, sabendo das origens judaicas de Sammy, o acuam de todas as formas.

Se percebemos, nessa terna e delicada trajetória familiar, que o pendor artístico e o fascínio pelo processo criativo, Sammy puxou de Mitzi, notamos também que o minimalismo técnico e a obsessão profissional, ele puxou de Burt, não apenas isso, é o caminho de altos e baixos vivenciados por seu amor (pois, apesar de tudo, do início ao fim, eles nunca deixam de se amar) que define a visão pueril, ligeiramente sombria para com as harmonias familiares, que irá determinar o cineasta que ele virá a ser.

Para aqueles pouco inteirados da trajetória de Spielberg como diretor de cinema, “Os Fabelmans” significará bem pouco, e fará sentido menos ainda; esta é uma obra muito pessoal, feita para materializar uma história sobre pessoas imperfeitas que se dispuseram a construir uma família presumidamente perfeita, e no processo, moldaram um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos.

Spielberg dirige o filme com bom humor, despido de amargura –até mesmo o personagem de Seth Rogen ganha um retrato carinhoso –e plenamente disposto a exorcizar quaisquer fantasmas de seu passado e de sua vida em família. Consegue realizar uma obra delicada e sincera sobre o poder transformador do cinema que, apropriadamente, se encerra no encontro mítico dele (Spielberg) com um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos –John Ford, cujo “Depois do Vendaval” Spielberg tão bem homenageou numa cena de “E.T.” –a quem o diretor Spielberg coloca em cena interpretado por um dos grande diretores vivos da atualidade (senão o maior), o incomparável David Lynch.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Todo O Dinheiro do Mundo


 Sempre houve uma espécie de ênfase no materialismo presente no cinema de Ridley Scott; vindo da área da publicidade –onde a estética predominante sempre teve mesmo essa orientação –Scott vislumbrou, em filmes como “Alien”, “Blade Runner” ou “Gladiador”, os adereços visuais do mundo que cerca seus protagonistas, e que em grande medida os define. Claro que ele vislumbrava outras coisas também e, para aliviar sua barra, desde “Thelma & Louise”, Scott soube cada vez mais salientar as particularidades de uma bela história.

Em “Todo O Dinheiro do Mundo”, Ridley Scott, como quase todo bom autor de cinema, parece esforçar-se para fazer as pazes com mais essa inquietação, um exorcismo de seus demônios pessoais, e para efetuar tal gesto, Scott escolhe uma história real: A desastrosa e trágica trajetória da Família Getty. Girando em torno de seu patriarca, Jean Paul Getty (Christopher Plummer, soberbo), o filme coloca em foco a ambição e o conflito moral, ocasionado de raras e improváveis circunstâncias, entre o empuxo pessoal e ególatra que leva os homens à ascender e o discernimento ético do juízo de valor.

Se o livro original de John Pearson dedica um tempo desmedido para relatar a história de vida (e de riqueza) de Jean Paul Getty, sedimentando assim sua personalidade talhada em meio à rudeza das negociações bilionárias (algo como um William Randolph Hearst, de “Cidadão Kane”, filme que exerce tremenda influência espiritual neste daqui), o roteiro de David Scarpa é sucinto, indo com muito mais objetividade ao evento central da trama: O sequestro, em 1973 na itália, de Paolo Getty (Charlie Plummer, que NÃO tem nenhum parentesco real com Christopher!), o neto de J. Paul Getty, filho de Gail Harris (Michelle Williams, sempre maravilhosa) e de J.P. Getty Jr. (Andrew Buchan), filho de Getty.

Os sequestradores, um grupo comunista com desespero estampado no rosto, pedem 17 milhões de dólares como resgate à mãe de Paolo. Apesar da fama da família, Gail era uma mera dona de casa de classe média –o verdadeiro bilionário era seu sogro que relutava em dividir sua fortuna com qualquer um. Mesmo o próprio filho, J.P. Getty Jr., acabou trabalhando com o pai depois de adulto, após anos de indiferença, somente para viciar-se em drogas e virar uma marionete nas mãos do pai, servindo aos seus propósitos para tirar os netos da guarda de Gail.

Getty rechaça publicamente o pedido de resgate afirmando que não irá pagar valor algum no sequestro, entretanto, por baixo dos panos, chama um de seus mais hábeis negociadores, o ex-agente secreto e especialista em segurança Fletcher Chase (Mark Wahlberg), para tentar resolver o mais rápido (e barato!) possível a situação na Itália, na qual a polícia local, a cannabieri, apenas exerce sua incompetência.

Inicialmente, as investigações de Chase esbarram na possibilidade de que o sequestro possa ter sido cogitado pelo próprio Paolo –e nessa esteira, as assombrosas richas e mesquinharias envolvidas nas relações de J. Paul Getty com seus familiares vão se descortinando –contudo, a medida que a situação vai se tornando mais alarmante –Paolo, refém real num caso de sequestro real, acaba vendido para um mafioso italiano (Marco Leonardi) quando os comunistas se fartam da situação de impasse, escapa num terminado momento, mas é devolvido aos seus algozes por policiais corruptos, até que tem sua orelha direita amputada –Chase vai se dando conta da posição aflitiva e desamparada de Gail e do inacreditável descaso do Velho Getty.

Um dado curioso a respeito do filme, realizado durante a celeuma de denúncias de abuso sexual que dominou Hollywood em meados de 2017, é que “Todo O Dinheiro do Mundo” tinha, em princípio, o ator Kevin Spacey escalado como J. Paul Getty. Acusado de assédio e com a carreira, até então, seriamente comprometida, Spacey foi afastado da produção, e substituído por Christopher Plummer que, como é de hábito, entregou um trabalho sublime –seja pela excelência de sua performance, seja para apoiar o gesto de cancelamento de um abusador em potencial, no qual foi necessário refazer grande parte do filme devido à troca de intérpretes, a Academia de Artes Cinematográficas indicou Plummer ao Oscar 2018 de Melhor Ator Coadjuvante. Plummer compõe um homem incapaz de confiar nos seres humanos à sua solta, paranóico, demasiadamente ciente do interesse geral em sua vasta fortuna, e seu excesso de preocupação o leva a atitudes tão excêntricas quanto amorais –e nesse sentido, Ridley Scott não se furta de emoldurá-lo, como o protagonista do já citado “Cidadão Kane”, num casulo de riqueza: Getty é sempre mostrado em sua mansão com paredes abarrotadas de obras de arte, vestindo ternos finos, e sempre exibindo, ostentando ou exprimindo um luxo abundante, em contrapartida ao fato existencial onde se revela incapaz de abrir mão de uma fração desse luxo, ou em última instância, de abrir mão de qualquer coisa.

“Todo O Dinheiro do Mundo” reúne então diversas facetas a serem contempladas: É um filme cujos bastidores refletiram, à sua maneira, as mudanças imprevistas desses novos tempos, e, do ponto de vista de seu realizador, oferece um oportunidade para resgatar suas inspiração, sua temática incomum e as referências de seu estilo. Apesar disso tudo, a conclusão pesarosa das inacreditáveis falhas morais que a ganância pode exercer no caráter humano (um mote que o relaciona, também, ao clássico “O Tesouro de Sierra Madre”) leva a uma obra que deixa uma impressão amarga no expectador.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Venom - Tempo de Carnificina


 Desde a cena pós-crédito de “Venom” já ficou claro em torno do que giraria a sua continuação: O vindouro embate entre o anti-herói Venom (originado dos quadrinhos da Marvel onde foi um antagonista do Homem-Aranha) e um inimigo ainda pior, o Carnificina (também ele oriundo dos quadrinhos). Vivido por Woody Harrelson, o Carnificina, ou melhor, Cletus Kassidy, é o típico retrato histriônico que o cinema costuma fazer de um psicopata –irrequieto, impulsivo, irradiando periculosidade.

É esse assassino –introduzido num prólogo onde descobrimos o laço que o une à jovem e igualmente perigosa Shriek (Naomi Harris, de “Moonlight” e “Piratas do Caribe-No Fim do Mundo”) possuidora de superpoderes –quem Eddie Brock (Tom Hardy) vem a visitar, seja na mencionada cena pós-crédito do filme anterior, seja no início deste filme. Eddie é jornalista, e seu ofício atrai o interesse de Cletus, então encarcerado e a caminho da pena de morte por injeção letal. O porque de Cletus ter essa, digamos, obsessão em nomear Eddie como seu confidente é um dos inúmeros lapsos sem muita justificativa que povoam o claudicante filme realizado por Andy Serkis.

Gênio da captura de performance –ele personificou Gollum, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e Cesar em “Planetas dos Macacos-A Origem” –Andy Serkis, é de se presumir, tinha também um intrínseco conhecimento do uso cênico da computação gráfica, o que deve tê-lo gabaritado para dirigir este trabalho –no qual, sobretudo sua dupla principal, depende dos efeitos visuais para se fazer convincente –em substituição à Ruben Fleischer, diretor do original.

Nesse quesito –dos efeitos computadorizados –ele até se sai bem (“Tempo de Carnificina” tem a fluidez, a beleza e a precisão minimamente necessárias aos grandes blockbusters, mas isso é tão lugar comum que mal consta como trunfo), entretanto, onde realmente importa (a condução narrativa) o filme encontra inúmeros obstáculos, que começam a se somar logo quando sua premissa (bem) básica inicia sua construção: Em uma das várias entrevistas que se seguem, Cletus consegue atacar Eddie, tirando um pouco de sangue dele.

O sangue de Eddie, como sabemos desde o primeiro filme, está  contaminado com o simbionte alienígena Venom e, a partir da gota ingerida por Cletus, dá origem à um novo simbionte, Carnificina que, para resumir a coisa toda, cresce, liberta Cletus da prisão e se transforma numa verdadeira máquina de matar.

Tudo que ele almeja, a partir daí, é reencontrar e libertar Shriek, presa numa instituição governamental –único lugar que comporta seu poder, um grito devastador.

Nesse ínterim, o –vamos dizer –‘relacionamento’ entre Eddie e Venom não vai bem: O alienígena, vaidoso por acreditar ser o responsável por Eddie ser quase uma espécie de superherói, reluta cada vez mais em aceitar as regras impostas por seu hospedeiro humano, como a de nunca devorar os cérebros humanos dos desafetos que encontra. Com esses atritos constantes, a compatibilidade de Eddie e Venom se vê comprometida justamente quando ambos estão a beira de enfrentar o Carnificina, cujo simbionte quer Venom (seu pai) morto; e cujo hospedeiro (Cletus) quer Eddie morto!

Essa –pasmem –é uma das poucas motivações que fazem algum sentido no filme.

Há, por exemplo, Eddie, insistentemente retratado como um fracassado, enquanto Venom, no roteiro terrivelmente simplista, surge como uma criatura exclusivamente norteada por seus instintos; um é irritante por sua repetição (pois, o primeiro filme já batia muito nessa tecla), o outro, por sua implausibilidade (ao mesmo tempo que se apresenta já inserido em hábitos da civilização, comporta-se como se houvessem outros que ele desconhece). Assim, sem um bom protagonista fica difícil para o expectador comprar seu antagonista: Embora Woody Harrelson seja sempre hábil no registro da uma vilania inconsequente, toda vez que seu personagem deixa essas áreas (em especial, ao investir na relação com Shriek) ele derrapa. O poder dela –seu grito destruidor –é exatamente o ponto fraco de ambos os simbiontes, do bem e do mal, e ainda que nas boas intenções dos realizadores, eles quisessem que essa fosse uma dinâmica intrigante e curiosa, na prática, isso não leva a lugar algum, culminando em contradições ocasionados no desfecho que desafiam a vontade do público em continuar acompanhando o filme.

Se há um mérito real em “Tempo de Carnificina”, ele está no fato de que é objetivo e enxuto com seus noventa e sete minutos de duração –isso, e a presença inebriante, segura e apaixonante da maravilhosa Michelle Williams, anos-luz melhor que todo o resto do filme: e mesmo assim sua participação é básica e mal aproveitada –no mais, a continuação do filme de 2018 (que apesar do entretenimento diverito que era já possuía preocupante inclinação para o genérico) se mostra desanimadora e pouco atrativa; é um sinal de alerta, afinal, quando sua intrigante cena pós-crédito (sim, este filme também tem uma!) chama muito mais a atenção do que todo o longa-metragem que veio antes dela.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sexy Por Acidente

A atriz e comediante Amy Schumer é a mais perfeita tradução norte-americana do cinema moderno para a personagem britânica de “O Diário de Bridget Jones”. Claro que Renee Zelwegger incorporou-a com perfeição  no filme de 2001, mas Amy Schumer vai além de um bom desempenho no papel; ela leva essa adequação para o mundo real.
Foi assim com o ótimo “Descompensada”, o filme que certamente a revelou, e é assim neste “Sexy Por Acidente” que mesmo não equiparando a mesma qualidade, ainda assim orbita as mesmas angústias femininas que já ditavam a narrativa daquele filme anterior.
Talvez até para efeitos de referência, a personagem de Amy, aqui, se chama Renee. E ela é uma coleção ambulante de todas as inseguranças da mulher moderna: Tem baixa alto-estima (salientada nas constrangedoras situações cotidianas mostradas já no início), briga com a balança (o que a leva a protagonizar sucessivas gafes na academia que frequenta) e amarga um emprego que não lhe satisfaz (num subsolo onde sua única companhia é o personagem hilariamente melancólico vivido por Adrian Martinez).
Tudo começa a mudar para Renee quando, num acidente com uma bicicleta ergométrica, ela bate a cabeça e, a partir daí, (talvez inspirada por um pedido feito numa fonte dos desejos na noite anterior) passa a acreditar que seus sonhos foram atendidos e ela se tornou linda!
Entretanto, o expectador e todos os demais coadjuvantes percebem a verdade; que absolutamente nada mudou (!) e ela continua a mesma.
Sua atitude, porém, é outra: Convicta de que agora é bela e sexy, Renee se candidata ao cargo de recepcionista de Avery Leclaire (Michelle Williams), um emprego que outrora ela jamais ousaria almejar; e passa a paquerar homens na rua, descolando até mesmo um namoro com o boa-praça Ethan (Rory Scovel).
Na mensagem algo non-sense do humor norte-americano que exibe (e que se baseia numa comédia de vergonha alheia que não agrada ao público com unanimidade), “Sexy Por Acidente” quer deixar um recado bem claro às suas expectadoras: De que a auto-confiança é tudo, e por mais que não pareça, é muito mais válida nas relações interpessoais do que uma bela estampa.
Na trajetória que os diretores Abby Kohn e Marc Silverstein (também roteiristas) escolheram para expor essas ideias, os percalços experimentados pela personagem principal se sucedem com relativa indulgência, embora não lhes falte sagacidade e polimento –algumas situações podem remeter impressões similares ao do clássico “Muito Além do Jardim”.
E Amy Schumer é, com frequência, uma força da natureza. Não há um instante de hesitação quando ela demonstra seu inconformismo diante do comportamento cafajeste e seletivo dos homens em geral diante de mulheres mais ou menos feias (a participação da top-model Emily Ratajkowski é notável); ou quando assume a certeza de que ficou bela em sequências que poderiam representar o ponto frágil do filme caso não houvesse ali uma atriz convicta e destemida. “Sexy Por Acidente”, no entanto, deixa de ser uma comédia oscilante entre o constrangedor e o afiado quando adentra sua meia hora final e diz a que veio –quando um novo acidente faz Renee, digamos, ‘voltar ao normal’ com toda sua insegurança e incerteza sobre si mesma.
O filme então começa a empolgar de verdade ao colocar a protagonista diante de conquistas improváveis no âmbito profissional, romântico e pessoal, confrontada, porém, por toda sua vulnerabilidade e pela ilusória constatação de que foi tudo um passe de mágica –e é desnecessário dizer que, por isso mesmo, Amy Schumer brilha, no domínio pleno do humor que demonstra.
Se depender da iniciativa da atriz, haverão muitos filmes ainda protagonizados por ela, a abordar com bom humor as facetas íntimas e irônicas de ser mulher no mundo de hoje.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Venom

Projeto acalentado já há alguns anos pela Sony Pictures, “Venom” entrou na pauta da produtora a partir do momento em que público e crítica deixaram bem claro que eles não estavam sabendo o que fazer na condução da franquia de sua estrela principal, o Homem-Aranha –Venom é um dos integrantes de sua ampla galeria de vilões, chegando a aparecer em “Homem-Aranha 3”, interpretado por Topher Grace, e é um dos mais apreciados personagens surgido os quadrinhos dos anos 1990.
Com o acordo entre a Sony e a Marvel Studios permitindo a migração do herói para os filmes dos Vingadores e seu Universo Compartilhado –além de filmes solo, dentro desse Universo, cujo primeiro exemplar é “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –o caminho ficou livre para que outros personagens relativos à mitologia do Homem-Aranha ganhassem o cinema em seus próprios longa-metragens; e “Venom” é só o primeiro dessa safra.
Dirigido por Ruben Fleischer, de “Zumbilândia” e “Gangstersquad”, o filme desenvolve uma história independente com referências aos quadrinhos quando muito sucintas: Afinal, o personagem e sua origem está diretamente ligado ao Homem-Aranha e, por ora, o filme fugiu completamente de maiores conexões.
Pode-se dizer que existem dois protagonistas no filme. O primeiro deles começa a ser pouco a pouco introduzido já na cena inicial; uma nave rumo à Terra que surge entre as estrelas num take que lembra bastante a cena inicial de “O Predador”. Ao cair na Terra, descobrimos que a nave traz organismos extraterrestres que a inescrupulosa Fundação Vida, empresa do vilão Carlton Drake (Riz Ahmed, de “Jason Bourne”), trata de acobertar e iniciar procedimentos para experiências ilícitas.
Os organismos, espécies de criaturas em forma de plasma chamadas ‘simbiontes’, logo é descoberto, precisam de hospedeiros para se manter. Se de início, as experiências envolviam animais para o processo de simbiose, com o tempo, Carlton autoriza o uso de cobaias humanas que vão morrendo sucessivamente.
É aí que surge o outro grande protagonista da história, seu personagem principal de fato, o repórter Eddie Brock (Tom Hardy) que persegue avidamente pelos indícios de crimes perpetrados por Carlton e sua fundação.
Como é de se esperar num embate entre um homem comum (Eddie) e outro de largos recursos (Carlton), em seis meses, Eddie tem sua vida destruída: Ele perde seu emprego, seu apartamento e até mesmo sua namorada Annie (a maravilhosa Michelle Williams).
Entretanto, sua história com a Fundação Vida não terminou, pois, uma cientista perplexa vem bater à sua porta a fim de denunciar as mortes que se seguem na empresa. Ao invadi-la, Brock encontra várias pessoas já moribundas com simbiontes e acaba sendo infectado por um deles –o que promove assim o encontro dos dois protagonistas do filme, o relutante Eddie Brock e o simbionte que lhe dará habilidades inimagináveis.
Nos dias que se seguem, enquanto é violentamente perseguido pelos homens de Carlton (desejoso de ter o alienígena de volta), Eddie descobre que o simbionte pode comunicar-se com ele (e se autodenomina Venom) e juntos, possuem poderes espantosos capazes de assumir a forma de uma criatura de massa negra e volátil extremamente forte –e, no contexto em que se descobrem tão eficientes trabalhando juntos, Eddie e o simbionte são até mesmo capazes de acabar sendo os heróis da história toda.
Até pela circunstância em que chegou ao cinema, o filme tem amplo potencial para decepcionar muitos fãs que esperam um Venom absolutamente fiel à sua fonte dos quadrinhos: A fim de omitir a presença do Homem-Aranha (essencial à sua origem, é sempre bom lembrar) muito da trama original foi modificada e das motivações do próprio personagem, como também a forma final de Venom trouxe mudanças –a grande aranha desenhada em seu peito, réplica do famoso uniforme negro do Homem-Aranha nos anos 1980, deixou de existir.
O diretor Fleischer compensa esses detalhes, contudo, com o máximo de voltagem pop que sua narrativa consegue evocar; as cenas de luta e de perseguição, que usam e abusam da boa forma do astro Tom Hardy, são em sua maioria competentes e vibrantes.
E “Venom” cumpriu sua tarefa direitinho: Se não é nenhum filmaço de qualidade inquestionável (seu trabalho, enquanto filme de ação nunca ultrapassa o trivial, e seu roteiro não hesita em empregar soluções fáceis e previsíveis), seu oportuno lançamento em cinema, ocorrido num período sem maiores concorrentes de outros estúdios, propiciou uma gorda bilheteria, muito além das expectativas modestas que a Sony Pictures alimentava para este projeto.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Incendiário


Diretora colocada no radar das grandes bilheterias pela comédia romântica “O Diário de Bridget Jones”, Sharon Maguire tentou um vôo mais ambicioso com este “Incendiário”.
Embora seja (ou assim se pretenda) um drama contundente sobre o luto, a estrutura no fim das contas acaba até lembrando “Bridget Jones”: Como nele, há uma protagonista bem desenvolvida e fascinante (características que a embriagante Michelle Williams conserva intactas do início ao fim) e o foco narrativo, a despeito de todo o contexto, voltado para sua indecisão entre dois homens distintos. Aqui, no caso, o mulherengo, playboy e jornalista Jasper (Ewan McGregor) que contra muitas expectativas se mostra genuinamente apaixonado; e o amigo relutante, porém envolvente Terrence (Matthew MacFadyen).
Tudo o mais, entretanto, é deliberadamente diferente da comédia romântica que fez a fama de sua diretora: E esse radicalismo estilístico é tão abrupto, convicto e proposital que ela aqui parece quase renegá-lo.
Negligenciada pelo marido –que trabalha arduamente no esquadrão anti-bombas e anti-terrorismo inglês –e integralmente dedicada ao filho pequeno, a personagem de Michelle não deixa de aproveitar os ocasionais momentos de liberdade para ser tudo aquilo que ela não é: Uma mulher sedutora, sensual e promíscua.
E é assim que Jasper a encontra pela primeira vez. Sendo ambos vizinhos, a despeito da diferença de classe social, os encontros (menos de natureza romântica e muito mais de natureza sexual) se sucedem. No segundo deles, enquanto transam no sofá do bagunçado apartamento, uma tragédia oferece a grande e dramática guinada da trama: Um atentado ocorre no mesmo estádio em que o filho e o marido dela foram, vitimando milhares, eles incluso (e Jasper só não estava lá porque optou por ficar com ela!).
Viúva e sem o filho para cuidar, a personagem de Michelle mergulha num pesar indescritível que, em dado momento –não obstante os esforços de Jasper e Terrence em tentar lhe trazer conforto –ameaça roubar-lhe a sanidade.
Se há um elemento que impede o filme de Sharon Maguire de ceder por completo às mediocridades melodramáticas com as quais seu estilo parece flertar desde o começo é a presença perfeita e impecável de Michelle Williams que eleva o filme com uma atuação primorosa em seus mais íntimos pormenores.
Mas, uma grande atriz ainda não é capaz de fazer milagres: Sem um roteiro que esboce motivações plausíveis ou inteligíveis, e sem uma direção que conduza a narrativa com mais parcimônia e menos pieguice, tudo que ela pode fazer é valorizar as cenas dando dimensão plenamente humana à sua personagem (mérito que, numa intensidade um pouco mais baixa, McGregor e MacFadyen também dividem com ela).
É pois um elenco excelente e empenhado que Maguire reuniu a frente das câmeras, pena que ela não tinha um material verdadeiramente qualitativo e digno para fazer jus a ele.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Oz - Mágico e Poderoso

O próprio diretor Sam Raimi admitiu que não estava animado com a idéia de um filme que revisitava o universo do clássico “OMágico de Oz”, de Victor Fleming, mas o roteiro escrito por Mitchell Kapner e David Lindsay, inspirado em elementos pouco conhecidos da série de livros de L. Frank Baun, ambientados em Oz, e repleto de espertas referências ao clássico terminou o conquistando.
E o estilo de Raimi, uma junção deliberadamente gaiata entre modernidade e anacronismo, funciona muito bem na narrativa desta história.
Voltamos aproximadamente trinta anos no tempo em relação à história na qual a menina Dorothy vai para Oz através de um furacão. Ou seja, neste roteiro, Dorothy ainda não nasceu e aquela que é sua tia Annie (vivida por Michelle Williams, que voltará, mais tarde, em outra personagem), ainda jovem, se acha indecisa entre casar com aquele que será seu futuro marido e um flerte ainda inicial com o mágico (vivido com entusiasmo por James Franco que trabalhou com Raimi em sua trilogia do “Homem-Aranha”).
Em algum momento desse prólogo em preto & branco (e também achatado num formato de tela quadrado 4:3 adotado por Raimi), o expectador mais informado sabe que haverá um furacão e que por meio deste, o mágico será conduzido ao espetacular e aí então colorido mundo de Oz (e não só as cores despontam esplendorosas em cena, como a tela também adquire o formato widescreen).
O mágico –um personagem de moral questionável no qual a atuação de Franco remete aos trejeitos normalmente associados à Johnny Depp –se encontra assim num mundo dotado de magia de verdade, com personagens genuinamente dotadas de magia, como a bruxa do oeste Theodora (a linda Mila Kunis), a primeira a encontrá-lo, e as demais bruxas, Evanora, do Leste (Rachel Weisz) e Glinda, do Sul (novamente, Michelle Williams).
Fugindo do que se supõe por óbvio num filme como este, o roteiro ludibria protagonista e plateia mostrando Theodora e Evanora como personagens boas para revelar suas intenções reais a partir da metade do filme, quando Glinda é introduzida e conhecemos melhor o funcionamento dos antagonismos na Terra de Oz –Theodora, aliás, é um caso mais elaborado de uma personagem complexa que sofre uma metamorfose ao longo da trama, e a atriz Mila Kunis se encarrega maravilhosamente bem do recado.
Como numa espécie de tradição herdada do filme original, neste daqui, ao longo de sua aventura em Oz, o mágico encontra alguns personagens de peculiaridade temática e visual que irão lhe acompanhar em sua jornada: O subserviente macaco com asas Finley (voz de Zack Braft) e a delicada menina de porcelana (voz da jovem Joey King).
Aquela que talvez seja a sacada mais referencial e apaixonada de Sam Raimi surge perto do final, quando o plano engendrado pelo mágico se revela. Engenhoso, cheio de estratégia e carregado de ilusionismo, o tal plano consiste de derrotar o poder das bruxas com a única magia mais poderosa que a delas: A magia do cinema.
Ainda que colorido e notadamente infanto-juvenil, o trabalho exercido por Raimi não deixa de incluir alguns reflexos involuntários do diretor de filmes de terror que ele é: E “O Mágico de Oz” em si, sempre agregou, nas entrelinhas de sua mitologia, características de perversidade, incorreção política e sadismo que casam muito bem com o assombro abrupto, algo adolescente, dos filmes de terror de Raimi.

Claro que, devido ao tamanho da produção e ao alcance do filme, esta nova obra traz uma mensagem diferente do enredo pessoal e individualista –da mocinha que tão somente queria voltar para casa –falando, agora, dos esforços altruístas em ajudar toda uma comunidade e, no processo, amarrar devidamente alguns ganchos narrativos ao icônico filme de 1939.

domingo, 14 de maio de 2017

Manchester À Beira - Mar

Na cena que abre “Manchester À Beira-Mar” vemos uma conversa capturada de maneira corriqueira –num barco em movimento, um rapaz e seu sobrinho discutem com quem a criança escolheria ficar numa ilha deserta e a criança, a despeito dos contínuos argumentos convincentes que seu tio lhe dá, insiste em escolher o pai –mas, cujo mote será de importância fundamental à sua premissa.
O corte seco e abrupto (como são secos e abruptos, aliás, todos os cortes que a montagem realiza) salta um considerável período de tempo; e isso, aos poucos ficará bem claro.
O jovem que era o tio, Lee (Casey Affleck, vencedor do Oscar de Melhor Ator) trabalha como zelador consertando defeitos técnicos num prédio cheio de pessoas chatas em outra cidade.
A notícia da morte do irmão (interpretado por Kyle Chandler) adiciona mais angústia em sua já melancólica rotina.
No regresso à sua cidade-natal, Manchester, uma sensação de desconforto também retorna, junto com uma série de flashbacks traumáticos que irão revelar o quê o afastou do lugar, e porque, sob inúmeros aspectos, Lee será incapaz de permanecer por lá.
O destino, porém, tem suas maneiras de se mostrar irônico: Antes de morrer, seu irmão, Joe, deixando definido em testamento que seria Lee o tutor de Patrick (o jovem Lucas Hedges numa boa atuação), seu sobrinho, agora um adolescente com dezessete anos.
A narrativa do diretor e roteirista Kenneth Lonnergan contrapõe então o passado que contém a tragédia que modificou tudo (em meio ao qual percebemos a sutil diferenciação da interpretação de Casey Affleck pontuando o “antes” e o “depois” para seu personagem), na forma de lembranças quase intrusivas e fantasmagóricas, e o presente que exige uma resolução a qual o protagonista, em sua perplexidade ao reencontrar seus transtornos mais inapeláveis, não consegue encontrar.
Debruçado nesses elementos, não haveria como o trabalho de Lonnergan evitar o foco no elenco, e ele revela-se aqui, digno do centro das atenções: Todos estão magnificamente bem conduzidos e orientados, com destaque para a breve, mas pra lá de significativa participação da talentosa Michelle Williams no papel de Randi a esposa de Lee –é com ela, por sinal, a cena mais marcante e emblemática de “Manchester Á Beira-Mar”, quando ela e Lee se reencontram e ensaiam uma dolorosa tentativa de exorcizar todas as suas dores e ressentimentos; é onde fica mais nítido o primor dos intérpretes, a maneira objetiva e lúcida com que Casey Affleck consegue trabalhar a expressão das aflições de seu personagem, e a sutileza espetacular com que o diretor soube calibrar esses fatores.
É um filme dolorido e triste, como poucos que o cinema norte-americano se dispõe a fazer, e a excelência com que é realizado por vezes o transforma numa das obras mais notáveis do ano.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sete Dias Com Marilyn

“O primeiro amor é um doce desespero...”
Certamente, não haveria de ser fácil capturar, mesmo que na fugacidade da tela de cinema, o fascínio provocado por Marilyn Monroe, na ausência dela própria que partiu de nosso mundo e descansa em paz desde 1962.
Os produtores deste sensível trabalho –inspirado num fragmento real da vida de Marilyn –foram imensamente felizes ao confiar no talento da jovem Michelle Willians que, embora na vida real não se pareça de forma alguma com a estrela, conseguiu, em cena, captar todos os sesu trejeitos, a sua exuberância e uma característica geralmente indefinível que a acompanha, e que responde por grande parte do charme deste projeto.
Em 1957, com apenas 23 anos, o jovem inglês Colin Clark (Eddie Redmayne, administrando adequadamente o acanhamento e a impetuosidade do personagem) consegue um emprego como diretor assistente na produtora de Lawrence Olivier (Kenneth Brannagh) às vésperas das filmagens de "O Príncipe e A Corista" que trazia dos EUA a estrela americana Marilyn Monroe (Willians).
Em meio às filmagens, marcadas pela conturbada personalidade da atriz, o jovem torna-se seu amigo e confidente, e por ela se apaixona.
É deveras impressionante ver a composição de Michelle Willians como uma Marilyn Monroe avoada, complicada, carente e problemática –e no final das contas, apaixonante. Felizmente, porém, o filme não é só dela. Brilhante também está Kenneth Brannagh, magistral como um Lawrence Olivier comprometido com sua arte, perplexo pelas complicações de sua estrela e, no fim, profundamente inspirado por ela mesma.
“Eu tentei mudá-la, mas ela continuou brilhante, apesar de mim.”
Um filme sobre as aspirações e inspirações da arte, sobre os sempre saborosos bastidores do cinema e suas divertidas histórias ocultas, e sobre o desabrochar de novas experiências que, quase sempre confluem em emoções poderosas –que o diga o jovem Colin que, pelo menos durante um curto período de tempo teve, em seus braços, uma deusa como Marilyn Monroe.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Segredo de Brokeback Mountain

Um dos grandes trabalhos da carreira de Ang Lee, pelo qual ele conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor (o segundo viria por “As Aventuras de Pi”), este filme vinha, como era de se imaginar, embalado num tema controverso: O romance proibido entre dois homens.
O curioso é que o tratamento dado pelo diretor Lee conduzia a história como qualquer romance, ignorando o gênero dos protagonistas envolvidos: Uma forma austera e admirável de se abordar uma trama que poderia involuntariamente resvalar em várias posturas sócio-políticas.
O filme em si agradou público e crítica e a maior polêmica que o cercou envolvia mais os veículos de mídia que não lhe davam o devido enaltecimento, e os prêmios que lhe eram negados por um suposto preconceito (um deles, o Oscar de Melhor Filme).
A narrativa de Lee, que se estenderá pelo filme ao longo de décadas, começa nos anos 1960, ao apresentar, com minúcia exclusiva e detalhamento cuidadoso os dois cowboys que serão protagonistas do filme, Ennis Del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos de um brilhantismo interpretativo à toda prova).
E aí já tem-se a primeira manobra notável de sua premissa: Os personagens principais deste romance homossexual são também figuras emblemáticas de um gênero cuja postura e atitude é sempre relacionada à uma arraigada masculinidade tradicional: O western.
Ennis e Jack empregam-se para trabalhar como pastores de ovelhas durante uma temporada na montanha de Brokeback, para juntar dinheiro cada um movido por suas próprias razões.
Durante o longo período em que têm tão somente a companhia um do outro, os dois homens acostumados e criados num ambiente de rústica masculinidade apaixonam-se, contra tudo aquilo que lhes foi ensinado. E o tempo que Ang Lee dispõe para relatar o nascimento dessa ligação afetiva é uma das muitas escolhas brilhantes que passam despercebidas do expectador: Tão certeira, centrada e incisiva é sua direção e o tratamento com o qual aborda o roteiro que corremos o risco de achar que este grande trabalho foi feito com facilidade.
Ao voltarem da montanha, e de volta cada um para suas próprias vidas (Jack é peão de rodeio; Ennis, um pobre criador de gado) eles casam-se e têm filhos, sem jamais se esquecerem. Durante as décadas que virão, os dois buscarão momentos fugazes juntos na montanha Brokeback, único lugar onde podem expressar seu amor.
Tudo neste filme tematicamente ousado evita a panfletagem, ou o escândalo. Sereno, Ang Lee reveste o filme com uma percepção apurada de que todos os seres têm uma equivalente necessidade em querer ser feliz, e sobre inúmeros aspectos, esse é o norte para o qual apontam as motivações de seus personagens e de sua própria história. O preconceito, quando existe, é registrado como algo irrisório que pouco, no final das contas, importará.

Como em todos os seus magistrais trabalhos, Ang Lee, aqui, também volta seu olhar para aqueles que mais lhe interessam: Os personagens cuja inadequação para com as normas vigentes serve de empecilho para que se tornem aquilo que desejam ser, e em sua grandeza, por vezes, se resignam à miserável condição do drama humano.