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quinta-feira, 30 de maio de 2024

O Dublê


 “The Fall Guy”, a exemplo de inúmeras produções, hoje cultuadas, dos anos 1980, ganhou sua versão cinematográfica (era antes uma série de TV) repaginada e incrementada com todos os divertidos exageros do cinema comercial atual. Ao que parece, entretanto, os funcionários das distribuidoras nacionais são jovens demais lembrar que a série “The Fall Guy”, estrelada por Lee Majors, levava aqui no Brasil o título de “Duro Na Queda” –esta versão cinematográfica chega aqui intitulada meramente como “O Dublê” (!?).

Como em muitas obras já reaproveitadas em filmes turbinados e frequentemente descerebrados, “The Fall Guy”, o filme, amplifica o conceito tímido de ação da série (que acabava um pouco disfarçado com um viés investigativo) com sequências de luta e/ou perseguições elevadas a níveis inacreditáveis. O grande trunfo deste projeto, em si, foi mesmo poder contar com a direção de David Leitch.

Outrora um requisitado coordenador de  dublês da indústria (fez, entre outros, “Clube da Luta”, “300” e “O Ultimato Bourne”), Leitch faz de “The Fall Guy” não apenas um filme pulsante, palpitante e fluído (sua especialidade como diretor), mas também um enaltecimento indelével em forma de longa-metragem de sua antiga profissão: Não faltam menções, em diversas ocasiões do roteiro, ao fato de que clássicos como “Rocky”, “Coração Valente” e “Titanic” jamais seriam realizados sem dublês, ou de que a classe, tão fundamental à indústria cinematográfica, não tem um categoria no Oscar que a prestigie.

No fim das contas, é a direção apaixonada de David Leitch que faz toda a diferença na história de Colt Seavers (Ryan Gosling, sensacional), dublê profissional –e, na maior parte do tempo, quase sempre do imaturo astro Tom Ryder (Aaron Johnson). Aposentado após um acidente num set de filmagens, Colt é convocado de volta à ativa pela produtora  Gail Meyer (Hannah Waddingham, de “Os Miseráveis”) para participar de um filme feito na Austrália e dirigido por Jody Moreno (Emily Blunt), um romance mal-resolvido de seu passado.

Contudo, as circunstâncias são mais complicadas: Gail chamou Colt porque o astro da produção (o próprio Tom Ryder), simplesmente desapareceu. Como o sumiço do ator principal pode interromper a realização do primeiro filme da carreira de Jody, Colt aceita a incumbência, dando uma de detetive nas horas vagas, enquanto atua paralelamente no filme, levando bordoadas usuais como dublê.

O diretor Leitch é inteligente e inquieto na aproveitação desses expedientes –ele molda um vibrante filme de ação (aproveitando a desenvoltura fora do comum de Ryan Gosling), oscilando entre os acréscimos de detalhes investigativos de sua trama (com desenlaces até bem inesperados), inspirados lampejos de metalinguagem (o ‘filme dentro do filme’ proporciona sacadas muitas vezes hilariantes) e os altos e baixos da relação afetiva entre Colt e Jody, construída em oportunidades pouco usuais pela narrativa –e ainda se vale de um gancho muito envolvente e sedutor das obras oitentistas que ele tanto homenageia: O protagonista íntegro e valoroso, cuja integridade e valor escapa (graças ao habilidoso do roteiro) dos olhos de todos, inclusive da mocinha que ele ama, exceto dos da plateia, que por conta disso, identifica-se plenamente com ele.

Não faltam filmes fabulosos na filmografia de David Leitch, cada qual ostentando uma mescla desigual, competente e surpreendentemente funcional de filme de ação com outras variantes da narrativa cinematográfica, “The Fall Guy”, em seus acertos admiráveis (para muito além de seus eventuais lapsos) traz a perícia insuspeita para cenas de ação e pancadaria, definindo com primor a homenagem subliminar que ele faz à profissão de dublê e ao romantismo truculento e nostálgico da década de 1980.

domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Um Lugar Silencioso - Parte 2


 A continuação do inesperado sucesso “A Quiet Place” foi a primeira produção a sofrer os efeitos da pandemia: “Parte 2” estrearia na mesma semana em que foi decretado o isolamento social, bem como o fechamento de estabelecimentos como cinemas em grande parte do mundo. Algo que atrasou em um ano o acesso do público à ele. É muito curioso que também seu enredo gire em torno de um mundo onde os seres humanos se viram privados de uma vida em comunidade por um inimigo desconhecido.

Embora não deixe de começar, obviamente, no ponto crucial em que a “Parte 1” acabou, este segundo filme também aproveita –numa pequena inspiração extraída das lições deixadas em “O Poderoso Chefão-Parte 2” –para retroceder ao passado, e esboçar com mais minúcia e profundidade as circunstâncias em que se deu o surgimento dos monstros sem olhos, guiados pela audição. No prólogo que inicia “Parte 2” nos é mostrado o Dia 1 –e assim, revemos também o personagem Lee, morto ao final do filme anterior e, à propósito, interpretado pelo diretor John Krasinski –descobrimos a chegada das criaturas entre os inicialmente aturdidos seres humanos e, abrupto como muitas das guinadas da trama, retornamos ao Dia 474, quando as duas crianças, Regan (a menina surda-muda Millicent Simmonds) e Marcus (o garoto Noah Jupe) junto de sua mãe (Emily Blunt) descobrem, enfim, a grande fraqueza das implacáveis criaturas.

Destituídos do pai (que sacrificou-se para salvá-los) e com um bebê recém-nascido para cuidar, eles arriscam-se a sair do vale em que estiveram refugiados até então, para cruzarem-se com Emmett, personagem de Cillian Murphy.

Como todo sobrevivente desse mundo pós-apocalíptico –e até de outros mais –Emmett vivenciou tantas tragédias que perdeu completamente a esperança. A sobrevivência é, para ele, uma tarefa tão espiritualmente árdua, que ele próprio, na condição de sobrevivente, se pergunta do porque dedicar-se tanto à ela.

Entretanto, a descoberta ao acaso de Regan representa uma possibilidade de redenção real: Graças aos constantes reparos feitos em seu aparelho auditivo, ela encontrou uma frequência tão insuportável para a audição dos monstros que os desabilita, possibilitando matá-los. Algo antes impraticável.

Apesar de tudo, Emmett reluta muito em dar o passo seguinte: Procurar pela misteriosa fonte da única transmissão radiofônica restante –que aparentemente se encontra numa ilha! –para, através dela, transmitir a frequência que enfraquece os monstros para o mundo todo.

A partir daí o filme, que já era aflitivo e vertiginoso numa intensidade até maior do que o seu formidável antecessor, se bifurca em duas linhas narrativas paralelas. Numa delas, talvez a mais instigante, Regan e Emmett se veem na complicada missão de avançar pelo mar, num mundo onde tudo representa um perigo, não somente os ruídos que eles mesmo podem exprimir, mas também as outras pessoas, brutalizadas e selvagens, que podem encontrar pelo caminho. Na outra, a personagem de Emily Blunt, assim como o jovem Noah Jupe, tentam se manter ilesos mesmo diante de circunstâncias que insistem em deixar os monstros sempre à centímetros de trucidá-los.

Se na “Parte 1” o protagonismo era dividido entre os personagens de Krasinski e Emily Blunt (esposa dele na vida real, vale lembrar), nesta “Parte 2”, é a ótima Millicent Simmonds quem ganha mais estatura e relevância, tendo a interessante dinâmica estabelecida entre seus antagonistas melhor explorada: Ela é, afinal, a pequena heroína que pode ver, mas não ouvir, enfrentando monstros que podem ouvir, mas não ver.

Extraordinariamente enxuto e despido de tempos mortos, “Um Lugar Silencioso-Parte 2” é cirúrgico até mesmo em seu desfecho, quando se encerra subitamente tão logo atinge seu momento-clímax; o que proporciona uma forte sensação de que uma “Parte 3” é tão vindoura quanto inevitável.

Se for tão impecável e envolvente quanto os dois primeiros, que venha!

sábado, 30 de julho de 2022

Os Agentes do Destino


 Há certa beleza nesta adaptação de Phillip K. Dick (autor de "Blade Runner" e "Minority Report"), aclamado escritor de ficção científica cuja obra sempre questionou a manipulação da vida. contudo, o trabalho do diretor George Nolfi, se prima por uma austeridade que lhe confere uma elegância incomum às obras corriqueiras do cinema norte-americano, ele também se mostra mais portentoso do que esclarecido: Se há uma mitologia mais detalhada por trás dos intrigantes ‘homens de chapéu’ que surgem no filme, ela fica completamente relegada nas entrelinhas –as explicações que são fornecidas ao protagonista (e, por conseguinte, ao público) são vagas e sem maiores aprofundamentos. Seriam eles alienígenas? Agentes multi-dimensionais? Titereiros do caos vindos do futuro?

Nada em relação a isso fica muito claro, passando a impressão, de um certo ponto em diante, que o suspense assim  esboçado em torno de tal mistério foi mais perfumaria do que narrativa, e na expectativa de respostas válidas às questões que ele mesmo plantou, o filme entrega, em seu clímax, um corre-corre aventuresco sem muita inovação, como se ao acelerar o ritmo, um lapso desses pudesse assim ser compensado.

Na trama acompanhamos um jovem congressista (vivido por Matt Damon), candidato ao senado de Nova York, conhecendo uma bailarina (Emily Blunt, hábil em encantar) no dia em que descobre ter perdido sua eleição. Por ela, o rapaz se encanta de imediato. Torna a revê-la por acaso algum tempo depois, mas, quando tenta manter com ela um relacionamento, é detido por estranhas figuras trajando terno e chapéu, donos, ao que parece, de um estranho poder controlador da realidade. Segundo estes, o amor por ela não faz parte do "plano" estabelecido para ele. O papel dela teria sido tão somente de ‘inspirá-lo’ num determinado ponto de sua vida, nada mais. Contudo, os dois compartilham, nesse breve encontro, de um amor avassalador que não estava nos planos dos ‘homens de chapéu’ que, munidos de seus curiosos poderes –capacidade de teleporte, uma espécie de telecinese e alarmante predisposição para se meter na vida alheia (!) –procuram tentar separá-los, numa forma de forçá-los a seguir um rumo predeterminado de vida. apesar disso, o casal enamorado conta com a simpatia de um desses homens (Anthony Mackie, de “Guerra Ao Terror”, antes de se tornar o Falcão em “Capitão América-O Soldado Invernal”) que tentará ajudá-los.

Em sua despretensão e simplicidade este filme, austero e discreto, acerta em quase tudo que se presta, sobretudo a escolha do par central, o sempre competente Matt Dammon e a inglesa Emily Blunt, belíssima. É, no entanto, profundamente frustrante, os rumos adotados por sua premissa, que sugere, durante sua primeira metade, um desafiador questionamento de realidade ao estilo “Matrix”, temperado com elementos mais mundanos e, por que não, introspectivos, para então, gradualmente, ir abandonando esse instigante aspecto –o de uma ficção científica com uma proposta bastante singular perante seus pares –para investir na preguiçosa proposta de um casal apaixonado lutando contra qualquer obstáculo por seu amor. Ainda que esse tal obstáculo apareça na história como um grande e aparentemente intrincado vácuo que nunca recebe a devida justificativa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Jungle Cruise


 Baseado em um brinquedos dos parques temáticos da Disney –e, por aí, já se percebe a origem pouco lisonjeira do projeto –“Jungle Cruise” é parte “Piratas do Caribe”, parte “Caçadores da Arca Perdida” com uma pitada de “Uma Aventura Na África”.

O início, mostrando a perplexa personagem de Emily Blunt, a Dra. Lilly Houghton, a tentar convencer os céticos, irredutíveis e machistas cientistas do início do Século XX de então a financiar uma expedição à Amazônia, já bebe muito das aventuras de Indiana Jones; e essa proximidade nada discreta se intensificará ainda mais conforme o filme avança com nítidas inspirações –algumas que chegam a beirar a cara-de-pau. Temos, por exemplo, os vilões oriundos da Alemanha (na forma do monarca vivido por Jesse Plemons, obcecado por encontrar uma flor de propriedades místicas), as aventuras logo transferidas, da Inglaterra vitoriana, para a selva brasileira; as cenas de ação inventivas, extensas e detalhadas ao estilo Steven Spielberg e, por fim, a busca pelo tesouro, transcorrida ao longo da trama e pontuada de elementos cheios de complexidade e rica cenografia cinematográfica.

São nessas condições que o filme, dirigido por Jaume Collet-Serra (do suspense “Águas Rasas”), chega à Amazônia antes mesmo de seus créditos iniciais, não tardando a reunir seus protagonistas, no caso, Lilly e o capitão de uma modesta embarcação de rio, Frank (o truculento, porém, carismático e divertido Dwayne Johnson), além do apalermado irmão dela, o afeminado MacGregor (Jack Whitehall, de “O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos”).

Eles empreendem uma viagem ao coração da selva amazônica, onde Lilly acredita que encontrará o segredo da fonte da juventude, uma flor cuja pétala milagrosa cura qualquer mal.

A vertiginosa aventura tem por objetivo emoldurar a dinâmica entre os personagens: Frank é ardiloso e golpista, não confia em ninguém e fornece constantes motivos para que ninguém confie nele; Lilly carrega aquela postura altiva comum a todas as mocinhas protagonistas em geral –é impetuosa, moralista, obstinada e altruísta. Juntos (como era de se supor), eles não se bicam, no entanto, as convenções do roteiro não resistem ao ímpeto de reuní-los romanticamente, e de um ponto em diante, esse romance forçado só começa a funcionar de fato porque Emily Blunt e Dwayne Johnson (bons atores) imprimem certa sinceridade à essa relação, a despeito do fato de serem inicialmente incompatíveis. A trama cresce um pouco a partir do momento em que um ligeiro plot twist revela novas e inesperadas motivações da parte do personagem de Johnson.

Por outro lado, se em certo ponto, os protagonistas encontram equilíbrio, o mesmo não pode ser dito dos dois núcleos de antagonistas (sim, este filme tem DOIS grupos de vilões!): Um deles, o já mencionado monarca germânico é apático, desinteressante e burocrático (proporciona um desânimo inevitável sempre que a narrativa o coloca em cena); já o outro núcleo, embora tenha relação com a reviravolta que o filme, lá pelas tantas apresenta, parece servir à infalível necessidade mercadológica de abarrotar o filme de efeitos visuais: Trata-se de Aguirre (o mesmo personagem retratado por Klaus Kinsky, em “Aguirre-A Cólera dos Deuses”, de Werner Herzog, aqui vivido por Edgar Ramirez), desbravador espanhol surgido aqui como um ser monstruoso amaldiçoado pelas propriedades da selva, numa criação semelhante ao Dave Jones de “Piratas do Caribe-O Baú da Morte”.

A profusão atordoante e francamente incômoda de ação e efeitos visuais de “Jungle Cruise” deixa bem claro o quanto o filme foi concebido mais pelas deliberações de um comité de estúdio e menos pelo bom senso de seu diretor (ainda que Jaume Collet-Serra faça sua parte orquestrando da melhor maneira possível todas as facetas exorbitantes da produção), resultando numa obra forçosamente comercial e, nesse sentido, até mesmo esquizofrênica: É demasiadamente frenético (até mesmo em momentos em que narrativa carecia de pausa para se harmonizar), engraçado até passar do ponto, visualmente tão lindo que chega a ser ofensivo (até mesmo os animais em cena são digitais) e elaborado com base nas fórmulas mais evidentes do mainstream. Sua salvação, quando muito, reside em pequenos detalhes que o fazem agradável e eficaz: O carisma do bom elenco, o exotismo inerente da premissa, o teor nostálgico de aventura à moda antiga presente na ambientação. São esses elementos que garantem o interesse do público e o diferencial do projeto –e, de repente, serão eles quem viabilizarão a realização de suas continuações.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Um Lugar Silencioso


Assimilando com rara compreensão uma série de regras deixadas por hábeis diretores de filmes de terror ao longo da história, este filme, um dos mais assustadores dos últimos tempos, não baseia seus sustos no som, mas, ao contrário, no silêncio.
Ambientado em algum ponto de um desolado futuro onde o mundo sofreu os ataques de monstros perigosíssimos que não podem enxergar, mas podem ouvir, “Um Lugar Silencioso” acompanha uma família composta pelo pai (John Krasinski, também diretor do filme), pela mãe (Emily Blunt, casada com Krasinski na vida real) e pelos filhos, Noah Jupe (de “Extraordinário”) e Millicents Simmonds (que interpreta uma surda-muda) –e cuja deficiência auditiva é trabalhada com notável eficácia dramática pela narrativa, seja na hábil construção da personagem ou nas situações em que ela se vê, como os outros, a tentar passar despercebida dos algozes cegos.
Há um terceiro filho mais novo que é atacado pelos monstros já na primeira cena, na qual fica bem claro o temor onipresente e completamente justificado que os personagens experimentam o tempo todo.
Nesse mundo dominado por silêncio, cada mínimo ruído pode ser a diferença entre a vida e a morte: Os monstros identificam os menores sons.
É necessário andar descalço e sorrateiramente (e quase sempre sobre trilhas feitas com areia). A comunicação se dá só por meio de linguagens de sinal –pouco se ouve a voz uns dos outros. Todos os utensílios e atividades que fazem barulho são abolidos.
É o único meio de sobreviver.
Entretanto, há uma complicação para esta família em questão: A mãe está grávida. Logo, o bebê irá nascer, e todas as precauções precisam ser tomadas para que os sons involuntários que disso possam advir não atraiam as criaturas.
Todavia, os quarenta minutos finais –quando a família casualmente se separa e as dolorosas contrações do parto se iniciam –são uma aula de como construir simultâneos momentos aflitivos no cinema (com destaque para o show de atuação de Emily Blunt na asfixiante cena dentro da banheira).
Sensato, Krasinski segue fielmente as lições deixadas por Steven Spielberg em “Tubarão”, e outras por M. Night Shyamalan em “Sinais”, “A Vila” e “O Sexto Sentido”: A sugestão, mais que qualquer artifício espalhafatoso ou pirotécnico, é o verdadeiro cerne da apreensão.
Em meio ao silêncio esmagador que predomina na narrativa –e que promove uma imersão incomum no cinema moderno –os sons, quando ocorrem, explodem em cena com sobressaltos irreprimíveis.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

No Limite do Amanhã


Inúmeros foram os filmes que se aproveitaram do mote de “Feitiço do Tempo” –onde um mesmo dia se repete indefinidamente para o atormentado protagonista –poucos, porém, foram os que souberam usar esse conceito para criar algo igualmente notável e, mais ainda, com indiscutível rigor técnico de continuidade exigido por uma produção onde o mesmo evento se repete diversas vezes.
“No Limite do Amanhã”, que reuniu o astro Tom Cruise e o diretor Doug Liman (ambos fizeram juntos depois “Feito Na América”) gira em torno dessa premissa numa roupagem de ficção científica com invasão alienígena e pontuais inserções de filme de guerra: A arrojada cena de batalha no início do filme –e que, por repetição se estende por todo ele –é nitidamente inspirada, decalcada e influenciada de “O Resgate do Soldado Ryan”.
Há uma guerra contra uma raça ainda desconhecida de alienígenas no futuro. Não ficam muito claras as razões dessa batalha (como não ficam muito claras inúmeras questões deste filme), nem o porque do conflito se dar em terra, num campo de batalha, e não no espaço sideral. Dessa forma, a humanidade envia um batalhão de soldados a uma ofensiva em céu aberto, com consequências desastrosas.
Integrante escorregadio dos esforços de marketing desse conflito, o major William Cage (Tom Cruise, balanceando bem o humor e a estoicismo do personagem) é forçado a ir a campo e acaba morto logo nesse primeiro combate. No entanto, ao ser fulminado no mesmo instante em que seu sangue toca o sangue alienígena, ele adquire um inusitado dom roubado dos inimigos: Repetir aquele mesmo dia, toda a vez que morre, revivendo-o e reiniciando-o continuamente.
Até se dar conta de sua imprevista condição, o versátil diretor Liman vai saber muito bem orquestrar os ótimos momentos de humor que irão intercalar com as cenas de ação, pródigas em tudo que a indústria hollywoodiana tem de melhor em termos técnicos.
Em algum momento, Cage encontra a casca-grossa sargento Rita Vatraski (a ótima Emily Blunt), a única pessoa que parece compreender sua nova capacidade e ser capaz de instruí-lo a usá-la: Tentar retroceder todas as vezes, aprender cada vez mais, e procurar encontrar um meio de salvar a raça humana.
Embora certamente carente de originalidade por motivos óbvios, a premissa em si (extraída de uma história em quadrinhos japonesa) é inventiva na maneira com que as cenas se sucedem levando o expectador a envolver-se, tentando acompanhar os infortúnios improváveis dos personagens e as maneiras como a produção fará para recriar as mesmas sequências com pequenos diferenciais.
O entusiasmo do diretor Liman com esse material –que ele converte efusivamente num passatempo bem divertido –o faz relevar até mesmo inclinações mais evidentes e banais que contaminam a trama perto do final (como o envolvimento afetivo dos dois protagonistas).  E é notável o fôlego que Tom Cruise demonstra para personagens que dele exigem grande dedicação física.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O Lobisomem

A figura do lobisomem, da maneira como é conhecido no cinema, teve diversas incorporações: “O Lobisomem de Londres”, de 1935, com Henry Hull; “O Lobisomem”, de 1941, com Lon Chaney Jr.; o oitentista “Um Lobisomem Americano Em Londres”, de 1981 –o primeiro filme a ganhar o recém-instaurado Oscar de Melhor Maquiagem –e “Lobo”, de 1994, com Jack Nicholson, entre outros.
Há um pouco de cada um desses trabalhos na versão de 2009 do diretor Joe Johnston (de “Capitão América”) para este famoso monstro da Universal, mas, sobretudo, do filme de 1941 cujo protagonista Lawrence Talbot (Benicio Del Toro, todo manhoso), renomado ator do teatro britânico e afastado de casa a cerca de 20 anos, regressa a sua terra natal –uma pequena aldeia nos confins da Inglaterra vitoriana –a fim de esclarecer a misteriosa morte do irmão, assassinado pelo que parece ser uma criatura monstruosa e selvagem.
Lawrence retoma o convívio com a aflita cunhada Gwen (Emily Blunt, encantadora) e com o pai excêntrico e distante (Anthony Hopkins, no piloto automático) e, na calada da noite, sai ao encalço da misteriosa fera, mal conseguindo sobreviver ao seu ataque. Logo, sua maldição passará para ele, que se transformará no mesmo ser bestial durante a lua cheia.
O diretor Jonhston, pode-se afirmar, pegou o bonde andando nesta reformulação do clássico: O roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”), a exemplo do que ele já havia feito com o enredo de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, agrega elementos detetivescos ao conhecido tormento da dicotomia entre o homem bom e a fera selvagem que vive dentro dele, como o investigador Frederick Abberline (Hugo Weaving) extraído diretamente do caso verídico de Jack, O Estripador. Essas características foram inicialmente trabalhadas pelo diretor Mark Romanek (de “Retratos de Uma Obsessão” e “Não Me Abandone Jamais”) cuja visão excessivamente autoral deve ter entrado em conflito com as intenções do estúdio.
Johnston, de estilo mais maleável e comercial –e completamente distinto do de Romanek –assumiu o projeto para terminar o que o outro começou.
O resultado justamente por isso dispõe de qualquer rompante de personalidade em sua narrativa, embora salte aos olhos o fato de que os realizadores adotaram um sedutor estilo de horror gótico –enfatizado no primor técnico de seu desenho de produção –afastando-se do terror juvenil e do ‘torture-porn’, tendências então predominantes em meio às produções blockbusters.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Garota No Trem

É muito legal ver a iniciativa do diretor Tate Taylor em manter-se variado ao assumir esta adaptação do best-seller, “A Garota No Trem”, de Paula Hawkins, ainda que o resultado não iguale seu até então melhor filme, “Histórias Cruzadas”.
É por sinal, possível enxergar similaridades entre os dois projetos, especialmente, na atenção e no carinho que o diretor dedica às personagens femininas.
E também no primor com que escolhe as atrizes para interpretá-las.
Falta, contudo, certa experiência para Tate Taylor saber enfatizar as grandes interpretações que surgem em cena –talvez, por se arriscar num gênero como o suspense, no qual a abordagem do drama não é o objetivo em si, mas a moldura para transposição da trama para o público, ele demonstrou menos serenidade aqui do que em outros de seus trabalhos.
De qualquer forma, há algo de irrepreensível na atuação de Emily Blunt, que interpreta Rachel, uma alcoólatra que passa de trem diariamente em frente á duas residências vizinhas. Numa, mora a mulher que vive a vida que antes era sua –ela casou-se com o ex-marido de Rachel e agora está na casa que era dela. Na outra, mora a jovem que vive a vida idealizada que Rachel gostaria de viver –ela e seu jovem e vigoroso marido estão visivelmente apaixonados.
Mas, nem tudo é como a mente fragilizada de Rachel pensa: a jovem, de nome Megan, interpretada pela linda Haley Bennett (de “Sete Homens e Um Destino”) com olhos de ressaca tal e qual a intrigante Capitu de Machado de Assis, trabalha como babá na casa de Anna (Rebecca Fergunson, de “Missão Impossível-Nação Secreta”), a atual esposa do ex de Rachel.
A narrativa alterna os pontos de vista dessas três protagonistas –não raro enfatizando o antagonismo entre elas –e alternando também a cronologia a fim de revelar gradativamente a trama sórdida que involuntariamente as une.
Até que Megan desaparece, e os indícios logo começam a apontar para uma tragédia.
Rachel que, em sua atroz instabilidade psicológica surge como uma das possíveis suspeitas do crime, acredita que viu algo revelador da janela do trem em suas sucessivas passagens pela frente da casa.
Esmiuçar tais lembranças escorregadias que insistem em se dissolver em sua mente para elucidar esse mistério passa então a ser uma espécie de objetivo na vida de Rachel, quando aparentemente ela não tinha mais nenhum. Entretanto, não apenas esses segredos haverão de esclarecer o que aconteceu com Megan, como também farão Rachel e Anna descobrirem a real verdade acerca do próprio passado.
Livro e filme, portanto, não economizam na dramaticidade que permeia a vidas dessas três protagonistas. Se o livro vale-se de inúmeros lances tipicamente literários para tornar a trama envolvente, o filme –na falta de um meio para recorrer às mesmas manobras –busca por artifícios mais cinematográficos e termina tropeçando em alguns deles.
É mencionado no making of que “A Garota No Trem” é “Janela Indiscreta” em movimento, e a referência ao mestre Hitchcock até poderia engrandecer ainda mais o trabalho de Tate Taylor, mas ao contrário do mestre, Taylor deixa de lado a sugestão implícita no promissor ponto de vista expressado no primeiro (e melhor) terço da obra para sustentar-se, a partir da metade, no folhetim básico, o quê torna seu filme redundante.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Looper - Assassinos do Futuro

Realizador do ainda vindouro “Star Wars-Episódio VIII” e de alguns episódios da série "Breaking Bad", além do curioso filme “Vigaristas”, Rian Johnson constrói este surpreendente conto de ficção científica lembrando muito o estilo rocambolesco e fascinante de Christopher Nolan, oferecendo uma percepção inusitada do tempo e de suas manipulações ocasionadas por esse tipo de trama.
A verdade é que Johnson tem uma visão incomum sobre os elementos paradigmáticos que regem um gênero e, se já foi prazeroso vê-lo brincar com isso em “Vigaristas”, aqui é incrível testemunhar os caminhos inesperados com os quais ele dá solidez ao seu roteiro.
2044. No universo de criminalidade urbana concebido por Johnson, os personagens (à um passo da marginalidade) convivem com uma realidade tão inacreditável quanto paradoxal: Nos trinta anos à frente as viagens no tempo serão uma possibilidade, ainda que ilegal. Dessa forma, execuções são realizadas enviando os condenados ao passado para serem eliminados por atiradores denominados "loopers".
E nada mais proveitoso, rentável e tranquilo do que lucrar com a morte de alguém que não necessariamente morreu “ainda”...
Assim, os “loopers” enriquecem obedecendo a mais rígida e banal das disciplinas: Matam quem se teleporta vindo do futuro no horário e lugar estabelecido, livram-se do corpo e vão colher os frutos de uma missão cumprida.
Mas a carreira dos "loopers" é também fugaz. Mais cedo ou mais tarde, eles recebem a si mesmos, vindos do futuro, para exterminar, evento que costuma encerrar suas carreiras, permitindo que passem a aproveitar os anos que lhes resta de vida.
Providencialmente, um desses “loopers”, Joe (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, ator que, de uma forma ou de outra, sempre aparece nos filmes de Rian Johnson), falha em executar seu "eu futuro" (personificado, por sua vez, por Bruce Willis, num interessante trabalho de equivalência de trejeitos com Gordon-Levitt) que agora se encontra a solta, disposto ao que tudo indica, a cumprir uma missão a fim de alterar o futuro. Missão essa que parece relacionada a um misterioso garotinho vivendo numa fazenda com sua jovem mãe (a bela Emily Blunt).
Dessa maneira, é justo e correto dizer que não é um, mas vários os filmes que se descortinam em “Looper-Assassinos do Futuro”.
Há o filme inteiramente centralizado na figura de Gordon-Levitt, e que joga interessante luz sobre o dia-a-dia dos “loopers”, com personagens inclusive que, à despeito de se mostrarem curiosos, serão meio que descartados no segmento seguinte, o segundo filme que “Looper” é, e que inicia-se com a chegada de Bruce Willis. Um novo filme, que joga uma luz interessante sobre os eventos expostos no começo, e parece atrair ainda mais a atenção do expectador: Então, este não é mais um filme de ação genérico, como a enganosa presença de Willis poderia, em princípio, sugerir.
O terceiro filme dentro de “Looper” –e que responde por seu terço final –é o mais incomum de todos. Johnson joga fora a ambientação urbana e coloca seus personagens, assim como o elaborado conceito fantástico que os cercam, em uma fazenda (!), onde escolhas atrozes e surpreendentes terão de ser feitas.

Eis aqui, portanto, uma prova e tanto de que pode ser este cara, Rian Johnson, a fazer o melhor de todos os “Star Wars”!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Diabo Veste Prada

Talvez, o mais saboroso retrato do mundo da moda do cinema. E os responsáveis por isso são, em grande medida, o tino acurado da atriz Meryl Streep e sua lendária capacidade em capturar o tom exato de personagens não raro difíceis como a editora de moda e chefe infernal; o roteiro equilibrado, gracioso e leve de Aline Brosh McKenna, que soube traduzir para o cinema o Best-seller de Lauren Weisberger com bastante bom senso; e a direção perspicaz e austera de David Frankel (diretor mais habituado a trabalhos televisivos, como a série “Band Of Brothers”, cuja desenvoltura adquirida nesse meio deve ter sido fundamental para saber modular as diferentes impressões surgidas no processo de adaptação do livro). Isso tudo aliado a inúmeros acasos felizes que cercaram a produção e ajudaram “O Diabo Veste Prada” a consagrar-se como um dos melhores filmes de 2006, quando normalmente é muito difícil para comédias em geral integrar a lista de ‘melhores do ano’.
Outra grata surpresa do filme é Anne Hathaway. Então, conhecida pelo filme “O Diário da Princesa” e sua continuação (nos quais parecia que o papel de ‘princesinha Disney’ lhe cabia tão bem que nele ficaria por toda a carreira), Anne começou a revelar, por este filme, que tinha crescido e que, dentro do projeto certo, era capaz de ser uma atriz convincente, elegante e até sensual, chegando a confrontar a própria Meryl Streep numa das cenas finais e essenciais do filme.
Anne é Andy Sachs, uma jovem algo idealista que arruma emprego no último lugar provável: Ela se torna assistente pessoal da tirânica Miranda Priestly (Meryl, numa das mais sensacionais atuações de sua grande carreira), a famigerada editora da revista RunWay (uma substituta, no filme, para a prestigiada Vogue). Contudo, Andy é tudo, menos alguém antenada com a moda, o quê sua desdenhosa colega de trabalho (Emily Blunt, um daqueles acasos felizes de que falei) lhe joga o tempo todo na cara.

Como toca aos filmes desse manancial desde os tempos de Frank Capra, a determinação fará com que Andy viva uma metamorfose e prevaleça nesse mundinho e aparência e vaidade, e aprenderá a conviver com a chefa demoníaca, até se ver numa situação que contraria seus princípios, mas aí já é revelar demais do filme. E as reviravoltas que ele reserva (ainda que inocentes, no final das contas) preservam-lhe um sabor delicioso.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Caçador e A Rainha do Gelo

"Branca de Neve e O Caçador" era um filme que tinha lá seus problemas, mas eles eram amplamente compensados pela convicção com que o diretor Rupert Sanders adotava um tom épico-realista (cuja referência-mor era "O Senhor dos Anéis") para recontar a história de Branca de Neve.
Se havia uma protagonista das mais banais, interpretada pela péssima Kristen Stewart havia, em compensação, uma antagonista magnífica, numa formidável atuação de Charlize Theron como a bruxa má, Ravenna.
Assim, o filme acabou surpreendendo nas bilheterias, ao contrário da versão mais inclinada para a comédia, dos estúdios Disney, "Espelho, Espelho Meu", com Julia Roberts.
Problema número 1: Durante o período de divulgação do filme, Kristen Stewart e o diretor Sanders (que, à propósito, era casado) foram flagrados em um momento íntimo, trazendo exposição negativa ao filme.
Problema número 2: A melhor personagem do filme, Ravenna (a despeito da boa presença do herói, Chris Hemsworth, como o Caçador) morria no final.
Problema númera 3: Continuar uma trama com começo, meio e fim bem definidos, e que -já que era o caso -não contaria nem com seu diretor e nem com a sua atriz principal, ambos afastados.
Para esses problemas, a Universal Studios até encontrou uma saída bastante desenvolta, chamando o diretor de segunda unidade do filme anterior, Cedric Nicolas-Troyan, o que preservou a mesma identidade visual ao filme, ainda que sua inexperiência conferisse ocasionais lapsos de ritmo.
A trama, contornou engenhosamente os fatos que precisavam ser contornados, como não utilizar a atriz Kristen Stewart, mesmo que a personagem fosse de certa forma essencial à uma sequencia (neste caso, ela é constantemente citada e mencionada ao longo, mas nunca aparece, salvo por uma breve cena na qual há uma dublê de costas...), e a intenção de utilizar uma personagem que todos queriam de volta, por mais que ela estivesse, bem... morta! Assim, o filme inicia-se antes da história contada no filme anterior, para revelar que Ravenna tinha, sim, uma irmã, bruxa como ela, detentora no caso, do poder sobre o gelo (e a referência ao sucesso Disney "Frozen" tem sido amplamente comentado pela imprensa). Curiosamente, o personagem de Sam Spruell -que no outro filme é, sim, irmão da personagem de Charlize -não é sequer lembrado na narrativa. O novo filme revela que Freya (Emily Blunt, também ela excelente), a irmã de Ravenna, estava diretamente relacionada com a história do Caçador, esboçada por alto no primeiro filme, onde ele perdeu a mulher que ama.
Essa mulher, Sarah (a sempre sensacional Jessica Chastain), treinada como caçadora, tal qual ele, foi dada como morta quando ele deixou o reino de Freya.
Logo, a narrativa avança sete anos no tempo, e coloca-se cuidadosamente após os eventos do outro filme, permitindo que o Caçador parta em outra missão, em nome de Branca de Neve, mas, quem faz todas as negociações em nome dela é o príncipe Willian (Sam Claffin). Assim, acompanhado de dois anões, ele reencontra sua amada Sarah que, ao contrário do que foi mencionado no filme anterior, não morreu e, mais tarde, Freya, que vai usar de alguns poderes para trazer de volta a irmã diabólica, Ravenna, permitindo que Charlize Theron agracie o filme com sua estupenda e regozijada interpretação, como fez com o original, ainda que neste daqui, sua presença não some mais do que usn vinte minutos.
Não tem o menor problema.
Se há um elemento que coloca este novo filme num patamar mais alto e digno do que o filme anterior, é o fato de que a sofrível Kristen foi substituída aqui por duas atrizes plenamente capazes e talentosas, Jessica Chastain e Emily Blunt. O saldo acaba sendo pra lá de positivo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sicario - Terra de Ninguém

Desde os primeiros takes já é possível perceber a força narrativa de Denis Villeneuve, o seu comprometimento singular com cada enquadramento, cada elemento que surgirá em cena, e o modo único como isso tudo fortalece seu registro cinematográfico à exemplo do que ele já fez nos poderosos “Incêndios” e “Os Suspeitos” (embora o “Homem Duplicado” também tenh alguns elementos admiráveis). 
Esse vigor é uma das muitas características notáveis que se percebe neste, e em todos os seus filmes. Aqui, acompanhamos uma jovem policial do departamento de narcóticos (Emily Blunt, maravilhosa no papel e no registro contido e sisudo que a personagem exige) tentando fazer a lei num território inóspito: as áreas fronteiriças dos EUA com o México. Logo na primeira cena a descoberta estarrecedora que ela faz não só determina os rumos da história, mas impõe o próprio tom do filme: Denso, cru, pesado e sem concessões. 
Na sequencia, a personagem de Emily é incluída em uma força-tarefa liderada por um oficial de objetivos e intenções ambíguas (Josh Brolin, administrando o tom exato de loquacidade e casualidade para ocultar suas facetas realmente perigosas). Mas o personagem verdadeiramente intrigante vem logo depois: Alejandro, interpretado com brilhantismo tétrico e sucintos tons de cinza por Benicio Del Toro. Misterioso, ele é quem catalisa as atenções da trama e do próprio expectador durante boa parte do filme. 

Para resumir, pode-se dizer que “Sicario” é um mergulho nas trevas sufocantes e escaldantes de um território sem lei e sem esperança, onde a violência surge como uma forma de expressão. O filme só empalidece nos momentos em que fica clara, às vezes explícita, a intenção de referenciar e até superar o que Steven Sodenbergh fez em “Traffic” não só em termos temáticos (e partindo disso, percebemos então o quanto é significativa a presença de Benicio Del Toro), mas também no tratamento de cena a cena, sobretudo o momento final que, tal como na obra de Sodenbergh, volta sua atenção para um jogo aleatória entre meninos. Não fosse esse fantasma a assombrar o filme de Villeneuve, ele teria feito um trabalho tão grande quanto os anteriores já citados.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Meu Amor de Verão

 “My Summer Of Love” é um conto niilista sobre as ilusões da fé. Dentro de sua estrutura naturalista (tão comum a diretores estrangeiros que lançam um olhar sobre uma cidade ou um país) temos o contraste entre Mona (Natalie Press) e seu irmão (Paddy Considine). Este ausente em grande parte do filme, talvez, pelo fato fugidio de negar sua natureza durante grande parte da história. 
Na realidade, pensando melhor, o verdadeiro tema do filme pode ser justamente isso: o modo com as pessoas negam aquilo que são, seja por meio de ilusões que criam para si mesmas, ou que criam para os outros. 
Se a ingênua Mona deposita em Tamsin (Emily Blunt) suas esperanças de romper uma rotina que a sufoca, o irmão de Mona parece ter depositado na crença em Deus a redenção que ele tanto parece buscar. Mas em ambos os casos, eles serão abandonados. Mona ao fim verá a mentira por trás de toda aquela vida idealizada com Tamsin, e a fugacidade disso, assim como suas mentiras, levará Mona a encontrar a si própria; assim como seu irmão verá, por meio da própria Tamsin, o quão frágil era a fé que ele julgava ter, e que na falta desta, ele é afinal o ser humano violento e rude que vinha desde então negando para si. 
Tamsin (personagem que é, portanto, o catalisador dessas transformações) é interpretada pela bela e instigante Emily Blunt, inglesa linda, de um olhar desafiador e desconcertante, que nos arrasta com ela.