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domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

domingo, 22 de março de 2020

Chernobyl

Magnífica minissérie da HBO que reconstitui o conhecido e terrível episódio real (que há tempos merecia uma boa reconstituição cinematográfica) do vazamento radioativo da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia Soviética.
Dirigida com vigor insuspeito pelo jovem Johan Renck, a minissérie é sucinta e objetiva: Vai direto ao ponto mostrando, já em seus primeiros minutos, o acidente fatídico deflagrado na madrugada de 27 de abril de 1986, quando em meio a um teste de segurança, o reator nuclear apresenta instabilidade alarmante em seus índices de pressão e, ao ser realizado o protocolo de desativação emergencial, explode contra todas probabilidades.
Tão improvável era esse fato que as autoridades maiores presentes na usina na ocasião –imbuídas, além de tudo, da irredutível mentalidade soviética de então –relutam em aceitar a catástrofe como ela é: Chamam os bombeiros para conter o que acreditam ser um mero incêndio, alertam a população de que foi um incidente menor já devidamente controlado, e censuram com veemência ameaçadora aqueles que percebem de imediato o perigo real que se anuncia.
As fatalidades começam a se somar ao longo da noite. Mesmo diante de afirmações de operários –alguns em estado já quase moribundo pela exposição à radiação –os diretores se recusam a crer que o reator tenha explodido.
Quando o presidente Mikhail Gorbachev em pessoa (interpretado por David Dencik) cria um comitê para avaliar, com alguma indiferença, os detalhes do acidente, é o vice-diretor do Instituto Kurchatov, Dr. Valery Legazov (Jared Harris, sensacional), quem alerta para pequenos detalhes do relatório: Como as descrições de pedaços de minérios na cobertura do prédio como sendo destroços de grafite (material que só existia no interior do reator) e as leituras de radiação consideradas baixas simplesmente porque registravam o número máximo marcado nos dosímetros comuns.
Quando Legazov é despachado para Chernobyl ao lado do responsável por controlar a crise Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard), a precipitação radioativa já se espalhou até a cidade mais próxima, Pripyat, contaminando toda a população, o solo, os animais, as árvores, as plantas e toda sorte de objetos pelo caminho.
E a grande cratera ainda estava aberta e em chamas, despejando material nocivo na atmosfera a cada hora que se passava.
O trabalho esplêndido do diretor Johan Renck vale-se magistralmente do formato minissérie justamente para abranger todo o escopo detalhado e inacreditável da extensão científica, logística, física e humana do acidente, construindo com esse empenho cenas poderosas que dificilmente abandonarão a memória do expectador.
É um daqueles casos em que a grandiosidade necessária da história justifica seu formato: “Chernobyl” dá corpo assombroso e envolvente aos desdobramentos do acidente trágico, mas eles emolduram um trama na qual seu conteúdo vem repleto de informações pertinentes, como a presença de Ulana Khomyuk (a ótima Emily Watson), física nuclear que se une a Legazov quando um novo problema aparece no horizonte.
Com o incêndio do reator contido à duras penas, o aquecimento fora do comum (acarretado por material radioativo) leva os tanques de água, normalmente instalados em usinas desse porte a um superaquecimento súbito. E o vapor resultante da contenção pode levar a uma explosão tão incomensurável que afetaria outras usinas nucleares levando todo o leste europeu a um inverno radioativo.
Assim, são requisitados voluntários com o objetivo de entrar na área de contaminação mais perigosa da usina já em frangalhos para uma missão suicida onde devem dar a volta nas instalações submersas em água altamente contaminada e abrir as comportas para o corpo de bombeiros –e desnecessário dizer que novamente a produção entrega uma cena tão memorável quanto asfixiante!
A própria Khomyuk é designada, logo depois, para a tarefa de colher depoimentos entre os operadores da sala de comando presentes do momento fatídico –aqueles que ainda tinham condições de falar, pelo menos –para tentar descobrir o que levou à explosão fatal, encontrar e determinar o erro para que ele nunca ocorra novamente.
É isso que leva ao notável episódio final (dentre os cinco que esta minissérie espetacular tem), onde a narrativa ganha ares tensos de um filme de tribunal: Com a maior parte da calamidade contida depois de mais de um ano, Legazov, Shcherbina e Khomyuk participam do julgamento dos responsáveis pela usina presentes naquela noite, o gerente de Chernobyl, Viktor Bryukhanov (Con O’Neill), seu engenheiro-chefe Nikolai Fomin (Adrian Rawlins, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”) e o engenheiro-chefe assistente Anatoly Dyatlov (Paul Ritter, de “A Legião Perdida”), e nesse ensejo, esbarram em uma verdade técnica desconcertante que foi encobrida anos antes pela própria KGB, e que pode ter relação direta com o acidente, e com outros ainda prováveis de acontecer se a prevenção não for executada e se a verdade nua e crua não vier a público.
O trabalho do diretor Renck prima assim pelo manuseio magistral de todas essas facetas, de todos os gêneros que se alternam simultaneamente (do drama íntimo ao filme catástrofe), dos mais variados núcleos dramáticos e dos exigentes aspectos técnicos, conseguindo mesmo assim manter um admirável equilíbrio e coesão que transformam “Chernobyl” num espetáculo informativo, urgente e impactante.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Ronin

O caráter desmistificador deste filme de John Frankenheimer já aparece no prólogo, quando um letreiro esclarece o significado da palavra ‘ronin’ e descobrimos, ao contrário da romantização ocasionada, sobretudo, pelo cinema, que esta é a designação dos samurais desprovidos de mestre e, portanto, de honra e de respeito. São párias, foragidos e renegados.
Numa analogia que certamente remete a “O Samurai”, de Jean-Pierre Melville, é no fim das contas um grupo com tais características, o dos indivíduos misteriosos que se reúnem num bar em Paris na cena que de fato abre o filme.
Entre eles, está Sam que, na versatilidade que o fez célebre, Robert De Niro molda com maneirismos peculiares de um truculento herói de ação temperado de um fino senso de humor.
É o primeiro indício de algo realmente desigual que “Ronin” se propõe a entregar ao público: Para começo, este não é um filme de ação onde os intérpretes são escolhidos com base em seu físico musculoso, e suas aptidões para cenas de luta e de movimentação. Frankenheimer coloca para viver seus personagens atores bons de verdade: Natascha McElhone (de “O Show deTruman”, “Solaris” e a série “Californication”) como Deirdre; o francês Jean Reno como Vincent; Stellan Skarsgard como Gregor; Skipp Sudduth como Larry; e Sean Bean, numa rápida participação, como um dos efetivos contratados cujo evidente amadorismo logo tolhe sua presença no plano.
O nebuloso intuito é o de obter uma maleta lacrada de um conteúdo que ninguém conhece, mas todos almejam.
O filme de Frankenheimer se ambienta assim num mundo muito particular, povoado de espiões, missões secretas, regras e códigos muito próprios que se desdobram ocultos em meio à vida normal européia, e como acontece em “John Wick”, embora nos sejam fornecidas poucas informações acerca desse mundo, o diretor instiga nosso fascínio permitindo o vislumbre de pequenas partes dele.
Com esse expediente ele conduz a trama servindo suas prometidas cenas de ação aos poucos, sem arroubos súbitos –Frankenheimer não tem pressa. Tudo acontece quando ele julga essencial à narrativa acontecer.
Tal como a até esperada traição de um dos aliados quando o plano inicial é posto em prática; o que oferece a senha para uma perseguição espetacular que se sucede pela Europa central.
Agora, cientes do jogo duplo do ex-KGB Gregor, os ainda aliados Sam, Vincent e Deirdre precisam reestruturar-se para cumprir sua missão e não permitir que o conteúdo da maleta caia nas mãos dos russos –embora a própria Deirdre, tão sedutora (e por isso mesmo enganosamente confiável) represente interesses do ardiloso Seamus (Jonathan Pryce), um dissidente irlandês do IRA.
Um especialista em produções de ação de caráter sério e realista, John Frankenheimer sedimentou, com “Ronin”, o seu nome como um dos grandes artesãos cinematográficos dos anos 1990. Sua perícia inconteste nas cenas de tiroteio e de perseguição automobilística, bem como sua melindrosa e envolvente narrativa de espionagem cheia de subterfúgios e desdobramentos detalhados serviram de forte inspiração, na década seguinte à festejada “Trilogia Bourne”, e permaneceram, por algum tempo, como insuperáveis no gênero.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Amistad


Neste filme denso e extenso, Steven Spielberg seguiu à risca as manobras formais que o consagraram quatro anos antes com "A Lista de Schindler": Se anteriormente, ele havia entregue o eminente sucesso “Jurassic Park” para daí se fechar na composição de um exemplar mais sério de seu estilo, aqui ele assumiu as produções assim que terminou “O Mundo Perdido” –justamente a continuação de “Jurassic Park”. Tão simultâneas foram as filmagens dos dois trabalhos que ele trouxe de volta o diretor de fotografia de “A Lista de Schindler”, Januz Kaminski (que passou a fotografar todos os seus filmes desde então) e os atores Pete Postlethwaite e Arliss Howard (oriundos do elenco de “Mundo Perdido”), novamente se prestando a narrar uma obscura história real, de pertinente valor histórico e humano.
Liderados pelo destemido Cinque (Djimon Housson, uma força da natureza), vários escravos terminam se amotinando em um navio negreiro espanhol, o Amistad, em pleno oceano. Humildes trabalhadores africanos capturados por escravagistas em sua terra natal, eles tentam coagir seus captores a conduzir seu barco de volta à África. Mas, essa inusitada tentativa de voltar para casa acaba os levando aos portos norte-americanos do século XIX. Aprisionados pelas autoridades norte-americanas –que enxergavam a escravidão com indiferença –eles tornam-se réus num julgamento que decidirá se são de propriedade do reino da Espanha (sob alegação da precoce rainha Isabella, vivida por Anna Paquin), da república dos EUA (representada por fileiras de advogados tacanhos), dos escravagistas, ou se são, afinal, homens livres (argumento este defendido por idealistas como o advogado Roger Sherman Baldwin, interpretado por Matthew McConaughey).
O julgamento é conduzido a instâncias cada vez mais elevadas da esfera judicial –num excesso de loquacidade e termos legislativos com os quais nem sempre a narrativa de Spielberg parece obter ritmo –até chegar num ponto em que os ex-escravos dependerão da representação do ex-presidente John Quincy Adams (numa inspiradíssima atuação de Anthony Hopkins) junto a Suprema Corte, se quiserem, de fato, voltar para seu lar.
Por mais que perdure a máxima de que o cinema se sustenta, em grande medida, em cima de fórmulas, é patente, em trabalhos como este, que as fórmulas são facilmente identificáveis pelo público; e, portanto, facilmente repudiadas, também.
Spielberg até buscou repetir os mesmos passos de sua formidável consagração em 1993, e nesse esforço empregou uma técnica a qual se pode dar os mais bem escolhidos e elogiosos adjetivos, no entanto, faltou a “Amistad”, o vigor narrativo que fazia de "Schindler" uma obra memorável de cinema.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Gênio Indomável

Após uma primeira fase em sua carreira na qual revelou-se um dos meninos prodígios do cinema independente norte-americano, o diretor Gus Van Sant enveredou por um cinema mais comercial –ainda que este “Good Will Hunting” ainda seja, por definição um filme independente –e foi devidamente abraçado por Hollywood, como era de se esperar.
Em seu formato e estrutura, “Gênio Indomável” segue uma cartilha irresistível à Academia de Artes Cinematográficas (e, com efeito, ela acabou premiando-o com dois Oscars): É tocante e bem realizado, cheio de boas escolhas e boas intenções, e seu retrato do subúrbio e da marginalidade jamais se torna ofensivo.
O roteiro do filme –um de seus maiores trunfos, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original –foi escrito pelos próprios atores, os ainda jovens e iniciantes amigos Matt Damon e Ben Affleck que, indignados pela escassez de bom material com o qual pudessem mostrar seus talentos, resolveram eles mesmos escrever um filme para atuar.
Matt Damon ficou assim com o papel principal, o do jovem Will Hunting, dono de uma mente prodigiosa em cálculos matemáticos, porém um delinqüente problemático de temperamento instável que mal consegue manter um emprego. Ben Affleck, por sua vez, ficou com o papel de melhor amigo de Will, um dos vários companheiros de infância, com os quais ele ainda sai, bebe e arruma confusões. Will não seria diferente de nenhum deles. Mas, Will é um gênio. E essa genialidade não passa despercebida a um professor de universidade (Stelan Skarsgaard) que o apadrinha e resolve colocá-lo nos trilhos para que possa seguir uma carreira e tornar-se alguém. Para domar alguém como Will, é chamado um psiquiatra de métodos pouco convencionais (Robin Williams, no papel que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), tão desajustado quanto o próprio Will Hunting.
Não há qualquer proposta de inovação formal ou temática em “Gênio Indomável” –nem tampouco técnica –há, em vez disso, uma clara intenção e capacidade para realizar um filme bem feito, profundo e articulado na história e nos personagens que se deixa observar e interpretado com excelência por um elenco à época cheio de caras novas e promissoras (além de Damon e Affleck, havia também o irmão mais novo deste, Casey Affleck e a jovem Minnie Driver, como a mulher que Will ama).
E isso certamente já basta para estar acima da média.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Dogville

As casas e os muros que compõem a cidadezinha chamada Dogville não são mais que riscos de giz traçados no chão e, no entanto, apesar dessa brutal e árida (e proposital) encenação os personagens, quando encontram uma porta, batem nela como se lá estivesse (o expectador ouve apenas o som oco da batida).
Esse cenário de divisões invisíveis para o público, mas perfeitamente presente para os personagens é a forma mais incisiva e desconcertante que o diretor Lars VonTrier encontrou para expor em seus filmes os níveis alarmantes a que podem chegar a crueldade e a hipocrisia humanas. É para Dogville, afinal, que vem a foragida Grace (Nicole Kidman, num trabalho primoroso) tentando despistar o pai (James Caan) um gangster, em plena Depressão Americana dos anos 1930.
Grace encontra refúgio em Dogville e, aparentemente, bons amigos: Todos mostram-se solícitos a ela, e lhe providenciam acomodação, alimento e, se for o caso, até ocupação –fascinada pela hospitalidade, Grace retribui sendo o mais prestativa possível.
Porém, quando a estadia de Grace por lá extrapola a curta validade das boas maneiras, os moradores, tão provincianos e sorridentes, começam a mostrar suas garras: Eles impõem normas abusivas e expressam desdém com freqüência cada vez maior, a ponto de Grace se converter, de uma visitante bem recebida a uma presença paulatinamente explorada e inferiorizada.
É apenas o começo: A partir de um determinado ponto, a dignidade humana de Grace passará a valer tão pouco para os cidadão de Dogville que ela será acorrentada como um cão e sucessivamente estuprada por todos aqueles que se dispuserem a fazê-lo.
Quando a situação de Grace tiver atingido níveis insuportáveis –e o filme suas quase três horas de duração –os cidadãos, num ato final de covardia e traição, terão entregue Grace, cativa, ao seu pai mafioso. Completamente ignorantes da retribuição que os espera.
Uma das obras responsáveis pela pecha de ‘persona non grata’ atribuída à Lars Von Trier (e que só cresceu com o passar dos anos e com o lançamento de novos e ainda mais perturbadores filmes), “Dogville” é um exercício de estilo indigesto, contundente e ultrajante –e certamente feito com o total propósito de ser assim –não só irmanando-se às outras realizações de Von Trier, como às obras também chocantes do famigerado Píer Paolo Passolini.

Em seu despudor, Von Trier investiga o potencial para a perversidade exploratória e para o descaso intolerável que há em todos nós –inclusive, nos tornando cúmplices da catártica, porém terrível chacina com a qual seu filme se encerra.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Ondas do Destino

Pode-se estabelecer uma comparação, no que diz respeito a processos criativos, a realizadores que praticamente não têm coisa alguma em comum. Isso fica perceptível quando observo um dos primeiros filmes de maior expressão do famigerado Lars Von Trier, “Ondas do Destino”, lançado em 1995.
Não existe qualquer identificação entre ele e o diretor-roteirista Cameron Crowe (do maravilhoso “Quase Famosos”), mas entre eles existe uma quase similaridade: Assim como Crowe, Lars Von Trier saiu muito melhor nos filmes em que sua auto-censura o inibiu a fim de moldar um trabalho mais austero.
E nesse sentido, “Ondas do Destino” é, seguramente, seu melhor trabalho.
Foi também o filme que estabeleceu o cinema que Von Trier faria dali por diante: Se obras anteriores como “Europa”, “Elemento do Crime” e “O Reino” lançavam mão de subterfúgios fantasiosos e até sobrenaturais, a partir deste filme, Von Trier –com raras exceções –passou a se debruçar sobre a realidade nua e crua e, em especial, a um tema que foi se tornando cada vez mais caro à sua filmografia, o sexo.
Dividido por capítulos (anunciados em irônicos intertítulos), como é do agrado de seu diretor, “Ondas do Destino” acompanha a história de Bess (Emily Watson, absolutamente brilhante) que vive numa intransigente comunidade religiosa nas ilhas Hébridas Exteriores. Para a perplexidade de seus familiares, que temem por sua segurança já que Bess sofre de alguns distúrbios psicológicos, ela se apaixona por Jan (Stellan Skarsgaard), um rapaz sueco que trabalha em uma plataforma petrolífera no Mar do Norte.
Eles se casam, e iniciam um relacionamento feliz, perturbado apenas pelos ocasionais períodos em que Jan tem de afastar-se de Bess para trabalhar, quando ela é assolada por uma irreprimível tristeza.
Na falta que sente dele, Bess tanto reza para o seu retorno que acaba sentindo-se culpada quando um acidente grave ocorre à Jan: Ela acredita que foi Deus quem provocou o acidente a fim da atender seu pedido de que ele voltasse para casa.
Tal acidente deixa Jan paraplégico, incapaz de corresponder ao amor de Bess. E essa impossibilidade o leva a sugerir que ela procure outros homens, entre as pessoas do vilarejo.
O rito de transar com eles, e depois lhe relatar o acontecimento em detalhes é, para Jan, uma forma de ainda manter uma espécie de vida sexual com Bess.
Todavia, essa atitude logo irá deteriorar a vida da própria Bess, em parte pela insanidade intensa que dará lugar à sua instabilidade emocional, em parte pelo modo pouco tolerante que os moradores do lugar passarão a enxergar seu comportamento, mas, sobretudo, pelo perigo a que ela vai se expor cada vez mais, quando procurar por parceiros mais e mais improváveis –o quê levará Bess a um fatídico encontro num cargueiro.
Depois deste primoroso trabalho, Von Trier envolveu-se no movimento do cinema dinamarquês chamado Dogma 95, realizando a partir de suas diretrizes o árido “Os Idiotas”. E chegar a ser curioso, por isso mesmo, que “Ondas do Destino” seja justamente um filme sobre o caminho destrutivo a que paradigmas e diretrizes seguidos cegamente podem levar o ser humano. Essa premissa –a de uma mulher bondosa cuja boa vontade a leva a se esvair, física e emocionalmente, num mundo dominado pela crueldade –passou a definir todo o seu trabalho cinematográfico desde então.
Em “Ondas do Destino” fica perceptível o quanto essa postura deve, em inspiração artística e motivação reflexiva, ao clássico “A Paixão de Joana D’ Arc”, de Carl T. Dreyer –a santidade, na visão sem ressalvas nem concessões de Von Trier, pode se expressar no mundo cão em que vivemos, desde que tenhamos estômago forte para acompanhar esses percalços.
Se os filmes subseqüentes foram ficando cada vez mais conceituais e inclinados a uma vontade desnecessária de chocar, ao menos este daqui supera essas características já presentes para se firmar como uma das melhores obras dos anos 1990.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ninfomaníaca

Ninfomaníaca-Volume 1
Lars Von Trier sempre foi um diretor incomum.
Suas narrativas nunca fizeram questão de se mostrar aprazíveis ao expectador, e seus temas imbricavam por celeumas desconcertantes revelando um autor quase obcecado por pulsões de ordem sexual que revelavam a disfunção em comportamentos originados da opressão.
Sob essa condição, ele concebeu obras que, uma a uma, chocaram e desestabilizaram o público, que passou a saber exatamente o quê esperar dele: “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dogville”, “Melancolia”, Manderlay”, “O Anti-Cristo”.
Ao mesmo tempo em que seus trabalhos faziam referências a grandes artistas transgressores do passado (como Píer Paolo Passolini e Andrei Tarkovski), Von Trier demonstrava certos fascínios específicos.
Nessa evolução, percebia-se, era questão de tempo até que um de seus filmes flertasse abertamente com o sexo explícito –deixando de lado alguns rumores que afirmam que isso já ocorria nas cenas de “O Anti-Cristo”.
“Ninfomaníaca” era, portanto, o auge de muitos temas perseguidos por Von Trier ao longo de seus trabalhos.
Nele, testemunhamos um solteirão solitário (Stelan Skarsgaard) encontrando, certo dia, uma mulher (Charlotte Gainsbourg, ambos presenças freqüentes nas obras de Von Trier) agredida e estirada num beco próximo ao seu apartamento.
Ele lhe oferece ajuda e um ouvido confidente para escutar a história que ela tem a relatar: a de como, ainda muito jovem (agora interpretada de maneira corajosa pela jovem Stacy Martin), descobriu-se ninfomaníaca, e ao longo de toda sua juventude e vida adulta, buscou suprir essa compulsão, pouco importando-se com as vidas que eventualmente destruía no processo.
Esta primeira parte (que responde por cerca de cento e dezessete minutos de um projeto que totaliza pouco mais de três horas, mas inicialmente previsto para uma duração de cinco horas!!!) enfoca a juventude da protagonista, em especial, os encontros e desencontros vividos com o homem que ela pensava amar, o reticente Jerome (interpretado pelo polêmico Shia LaBeouf).
O final é um gancho provocativo, melancólico e –em se tratando de Lars Von Trier –bastante, condizente para o segundo volume.

Ninfomaníaca-Volume 2
Dando continuidade ao relato de sua tumultuada vida sexual para o casto e interessado Seligman (Skarsgaard), a vitimizada Joe (Gainsbourg) chega ao ponto de sua narrativa em que junto de Jerome (LaBeouf), seu amor da juventude, tem um filho. É também quando ela estranhamente perde a sensibilidade de sua vagina, o quê a levará a passar quase o restante da vida tentando recuperar sua capacidade de sentir prazer.
Lars Von Trier prossegue com sua saga sexual convertida em dois volumes, na qual inclusive, logrou a concepção de “um novo gênero cinematográfico” segundo suas próprias palavras.
De acordo com o diretor, tal gênero, o “digresismo” seria um filme que corresponde à experiência sensorial de se ler um livro.
De fato, há toda uma empolgação da parte de Von Trier (talvez, mais perceptível na primeira parte) em detalhar as mais distintas impressões da narrativa, ainda que nesse sentido –e na escolha escandalosa de seu tema –essas opções aparecem em segundo plano. Há inclusive uma seqüência de auto-referência (ela remete à mais memorável cena de “O Anti-Cristo”) que pode soar pedante para alguns, genial para outros.
Esta segunda parte trás finalmente a introdução de Charlotte Gainsbourg (atriz predileta do diretor) como a protagonista Joe em sua fase adulta, e intensifica os percalços e dilemas sexuais, levando a um desfecho impiedoso que pode incomodar muitos expectadores, bem ao gosto de seu realizador.
Por isso, uma vez mais, Von Trier vale-se de seu talento, minúcia e erudição para chocar o expectador através de um tema que parece perseguí-lo: o sexo e seus desdobramentos mais cruéis visto por uma ótica feminina.
Impressionam (mas, estranhamente não excitam) as cenas de sexo explícito realizadas pelo elenco famoso.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Thor - O Mundo Sombrio

Dentre os filmes da Marvel Studios, aqueles que mais encontraram certa dificuldade para se impor como entretenimento de qualidade e ao mesmo tempo obra notável de cinema, foram os protagonizados pelo Deus do Trovão, Thor.
Não havia nada de errado com o ator (Chris Hemsworth, com freqüência perfeito no papel), mas provavelmente com o tom: Oriundo de sua mitologia própria –fortemente inspirada nas lendas escandinavas –Thor pedia uma abordagem criteriosa, minuciosa para com suas extensões narrativas que envolviam não apenas seus inúmeros personagens secundários, e suas ambientações de natureza cósmica, mas que também se conectariam com outras linhas narrativas (a do Homem de Ferro, a do Capitão América...) que tinham por eixo uma orientação mais realista/científica.
O primeiro “Thor”, dirigido por Kenneth Brannagh, como filme de origem, saiu-se relativamente bem preparando o terreno para aquilo que o público de fato queria ver: O filme dos Vingadores.
Passado esse vendaval, contudo, a Marvel Studios sabia qual seria seu desafio: Voltar aos filmes-solo (e às narrativas individuais) de cada um de seus personagens, porém, desta vez com a pressão de que, agora, havia um alto patamar qualitativo pelo qual seriam comparados –“Os Vingadores”, de Joss Whedom.
E, se “Homem de Ferro 3”, escrito e dirigido por Shane Black –o primeiro filme lançado depois da reunião da equipe –havia passado pelo crivo de público e crítica dividindo opiniões, a Marvel não desejava que o mesmo (ou algo ainda pior!) ocorresse com Thor, uma vez que seu primeiro filme não era nenhuma unanimidade.
A fim de garantir o tom épico que eles almejavam desde o começo, a Marvel chamou inicialmente a diretora Patty Jenkins (de “Monster-Desejo Assassino” e que, atualmente, dedica-se ao filme da “Mulher Maravilha”), e diante de uma recusa, optou por um diretor dos mais apropriados: Alan Taylor, que assinou vários episódios da cultuada série de fantasia medieval “Game Of Thrones”.
O resultado, ligeiramente mais satisfatório como entretenimento do que o filme anterior de “Thor”, ainda o nivela por baixo, se comparado à outros trabalhos do Marvel Studios.
Após os eventos espetaculares de "Os Vingadores", Thor, o filho de Odin, leva Loki (Tom Hiddleston, ocasional ladrão de cenas dos filmes) seu irmão traidor para seu julgado em Asgard por seu pai (Anthony Hopkins, em solene piloto automático), mas a tranqüilidade dura pouco tempo.
Seres de uma maldade ancestral, os elfos negros e seu senhor, Malekith (Christopher Eccleston, de “Jude”, um vilão padrão), são despertados com a aproximação de um fenômeno cósmico conhecido por "convergência". Isso obriga Thor a voltar para a terra, onde reencontra a jovem astrônoma Jane Foster (Natalie Portman, cujo cacife de estrela a faz adquirir desnecessária relevância neste filme) que, devido a uma série de contratempos, torna-se fundamental para a solução dessa crise.
De certa forma, dando continuidade a todo o universo cinematográfico da Marvel –seus desdobramentos se referem não só ao filme anterior de Thor com ao dos Vingadores, e vários outros –este “Mundo Sombrio” promove um aumento de escopo, não há dúvidas (as ações de Thor têm imbricações quase galácticas!), mas o diretor Taylor padece de um mal óbvio: Sua direção não exibe uma personalidade própria, mas, hesitante, parece querer emular o estilo de Joss Whedon em “Vingadores”, mais perceptível em sua nem sempre adequada propensão para o humor –piadinhas que já não combinaram com Thor no outro filme –transformando o núcleo de personagens humanos (Natalie Portman, a charmosa Kat Dennings, o amalucado Stellan Skarsgaard) num alívio cômico quase indigesto.
O resultado ainda é divertido, embora irregular, deixando possível perceber, dessa forma, as tentativas de evolução que a Marvel Studios perscrutava –e que seriam sensivelmente mais bem sucedidas nos excelentes exemplares posteriores, “Capitão América-O Soldado Invernal” e “Guardiões da Galáxia”.
A Marvel ainda está tentando. O próximo filme do personagem, “Thor-Ragnarok”, trás a mais audaciosa e empolgante escolha de diretor já feita pelo estúdio: Taika Waititi, realizador do genial “O Quê Fazemos Nas Sombras”.
Que ele finalmente ganhe a produção épica que merece!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Thor

A Marvel Studios foi só cuidados quando moldou as versões cinematográficas de seus personagens; um dos mais complicados era certamente Thor, uma vez que ele representava também a introdução de todo um contexto mitológico e fantástico em contraponto à tecnologia que definia a essência do Homem de Ferro, o único personagem até então a ganhar, não um, mas dois filmes.
Foi com muita perspicácia que a Marvel agradou fãs e críticos fazendo a inusitada escolha do ator Kenneth Brannagh para dirigir este filme.
Famoso pela opulência e suntuosidade de suas adaptações de Shakespeare para as telas de cinema (como “Henrique V” e “Hamlet”), Brannagh adotou uma postura um pouco similar em sua abordagem para o mundo fantasioso de Asgard: Havia necessidade de uma percepção teatral, imprescindivelmente artística, para fazer com que um mundo novo (e os personagens que nele habitavam) não soasse fora de contexto.
Filho do todo poderoso Odin (Anthony Hopkins), senhor de Asgard, Thor (Chris Hemsworth, uma ótima escolha), o deus do trovão não se contenta em herdar o trono de seu pai. Ele quer também provar seu valor como guerreiro, no que é encorajado por seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston, sensacional no papel), o deus da trapaça. Suas artimanhas levam Thor a desobedecer Odin e, no atrito entre pai e filho, Thor é exilado no planeta Terra, sem poderes, sem seu martelo, Mjolnir, e sem permissão para retornar a Asgard. Aqui na Terra, entretanto, Thor aprenderá a humildade, o valor da vida, e outras lições (incluindo o amor por uma terráquea, a astrônoma Jane Foster, vivida por Natalie Portman, recém-saída de “Cisne Negro”) que uma vez mais o tornarão digno de seu vasto poder.
É uma adaptação requintada e descontraída de um personagem da Marvel que termina por representar outras facetas do Universo Marvel que, vale lembrar, ainda estava criando corpo naquela época (meados de 2011). Na cronologia de histórias do estúdio, este filme é antecedido por “Homem de Ferro 2” (com o qual a trama se interliga graças à sua cena pós-crédito e ao personagem do Agente Coulson) e sucedido pelo primeiro filme solo do Capitão América –ambos já traziam pistas bastante significativas a respeito da trama do ainda vindouro filme que viria a reunir os Vingadores.