Mostrando postagens com marcador Gregory Peck. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gregory Peck. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Quando Fala O Coração


A experiência de filmar –pela primeira vez nos EUA –sob a atenção severa e abrangente do produtor David O. Zelsnick (em “Rebecca-A Mulher Inesquecível”) não foi, para o diretor Alfred Hitchcock, tão ingrata quanto se poderia imaginar: Tendo realizado o enxuto, eficiente e singelo “À Sombra de Uma Dúvida”, com baixo orçamento e sem intervenções de estúdio ou produtores, e um projeto que fugia de suas experiências habituais, “Um Barco e Nove Destinos”, o mestre do suspense sentiu-se confortável para novamente comandar uma produção maior, com demandas (e ambições) mais exigentes –e, inclusive, mais uma vez sob a produção de O. Zelsnick.
“Quando Fala O Coração” inicia-se na clínica psiquiátrica Green Mannors, onde trabalha a Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman). O local recebe seu novo diretor, o Dr. Edwards (Gregory Peck) que revela-se muito mais jovem do que sua fama dava a entender.
Com o tempo, o Dr. Edwards busca se aclimatar ao local ao passo que consegue despertar o interesse afetivo da Dra. Petersen –e a tradução visual de Hitchcock para a ocupação dele, num lugar especial da afeição da doutora é, em si, notável e criativa: Um corredor onde sucessivas portas vão se abrindo.
Aos poucos, porém, a Dra. Petersen assim como os outros médicos do lugar vão percebendo indícios de que o Dr. Edwards esconde algo; suas flagrantes inaptidões em questões nas quais teoricamente deveria ser especialista, suas justificativas pouco convincentes e as reações perturbadas a objetos brancos não tardam a mostrar que ele, na verdade, sofre de amnésia –e, sequer é o Dr. Edwards que na realidade morreu!
Entretanto, se ele não é Edwards, quem ele é? Teria ele próprio matado Edwards?
Já tomada pela paixão (‘ouvindo o coração’ como incita o título nacional), a Dra. Petersen recusa-se a crer na possibilidade mais óbvia –de que o personagem de Gregory Peck seja, afinal, o assassino –e o acompanha numa fuga desesperada. Primeiro, para o Edifício Empire State, em Nova York; e depois, para a cidade de Rochester onde se refugiam na casa do Dr. Brulov (o carismático Michael Chekhov), antigo mentor dela, que numa intensa seção de psicanálise capta os relatos do sonho que o rapaz teve –cujos indícios subconscientes podem elucidar (e, de fato, elucidam) o que realmente ocorreu.
Nesse trecho, as sequências brilhantemente oníricas que se seguem (e que continuam impressionantes mesmo nos dias de hoje) são cortesia da criação artística de Salvador Dali, que dirigiu pessoalmente as cenas sob instrução de Hitchcock.
No fascínio que demonstra por essas suas primeiras incursões, temática e visualmente no campo da psicanálise –um tema que capturou o interesse de Hitchcock cada vez mais –o mestre do suspense acaba ligeiramente negligenciando certas facetas de sua realização, como o roteiro, a condução de algumas cenas e certas motivações em determinados personagens. Há, entretanto, aspectos que se mantêm magistrais: A cenografia, a trilha sonora (vencedora do Oscar), a fotografia e a atuação do elenco, sobretudo, o casal protagonista.
Sem falar que há ainda mais um detalhe brilhante em “Quando Fala O Coração”: Para quem acha que cenas em preto & branco com intervenção de cores no cinema são novidades trazidas por “A Lista de Schindler” ou “Sin City-A Cidade do Pecado”, a sequência-clímax, onde a câmera registra um disparo de arma em primeira pessoa, é um take extremamente breve (porém, perceptível) filmado em cores.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O Sol É Para Todos


Dirigido por Robert Mulligan (de “O Verão de 42”), este filme conquistou três prêmios Oscar em 1963, embora seja essencialmente lembrado pelo de Melhor Ator conferido a um altivo e magistral Gregory Peck no emblemático papel do advogado Atticus Finch.
Todavia, ao vermos o filme podemos constatar que são as crianças, a menina Scout e o garotinho Jem (Mary Badham e Philip Alford, a menina, inclusive, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante foi a mais jovem atriz indicada ao prêmio de sua época), os personagens principais do filme de fato: É pelo ponto de vista deles que tudo se desenrola, inclusive, sendo mostrado Atticus, seu pai, numa idealização de serenidade adulta e retidão moral de tal maneira impecável que só poderia mesmo corresponder à visão inocente de uma criança.
Adaptação do premiado livro de Harper Lee, o filme se passa no ano de 1932, no estado do Alabama. Se os EUA ainda experimentavam as severas consequências da Grande Depressão, no sul do país, essas atribulações ainda tinham o agravante da segregação racial que, nas décadas que precederam a luta pelos direitos civis, se mostrava mais forte do que nunca.
É lá onde Atticus, um advogado viúvo e pai de dois filhos, luta para manter a integridade e a honestidade mesmo diante das mais atrozes circunstâncias a fim de prover à Scout e a Jem um exemplo familiar sólido e perene.
As coisas começam a se complicar para a família quando Atticus é indicado pelo Juiz da cidade como advogado de defesa de Tom Robinson (Brock Peters), um homem negro julgado pela acusação de estupro de uma jovem branca.
Para a segregada comunidade e sua mentalidade racista, o julgamento é uma formalidade desnecessária e o veredicto, uma certeza: Todos creem que Robinson é culpado e, por ter assumido, por lei e por dever, a defesa dele, hostilizam Atticus e seus filhos.
As percepções distintas do que é o mal, a responsabilidade e a verdadeira firmeza de caráter são as bases em torno do qual este notável conto moral de desenvolve –e muitas de suas ramificações se encontram também na participação do personagem de Robert Duvall (em seu primeiro papel no cinema), breve, porém, significativo, para com a construção da compreensão verdadeira das crianças acerca do certo e do errado.
Um grande trabalho, inclusive pela esmerada e brilhante construção climática de muitas cenas, “O Sol É Para Todos” pode ter envelhecido em alguns aspectos, ainda que se possa afirmar que é, nesse anacronismo assumido que sua mensagem final encontra uma de suas maiores forças –contudo, ele entra mesmo na seleta lista das grandes obras do cinema por trazer não somente um personagem tão humanista quando espetacular como Atticus Finch, como também por proporcionar ao fenomenal ator que o interpreta, o grande Gregory Peck, a chance de entregar uma das mais preciosas e emocionantes atuações de sua carreira.

sábado, 22 de setembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1963


O ano do reconhecimento ao grandiloqüente cinema épico de David Lean –reconhecimento este que ele já havia experimentado cinco anos antes com “A Ponte do Rio Kwai” –de fato, não havia como negar a consagração a uma obra como “Lawrence da Arábia”, mesmo que diante de concorrentes tão valorosos como “O Sol É Para Todos” e a segunda versão de “O Grande Motim” (aquele com Marlon Brando).
É claro que esse enaltecimento ao clássico já começava a apresentar certo anacronismo, com a presença do hoje datado “O Mais Longo dos Dias”, entre os indicados.
Pelo menos, na categoria de Melhor Ator, “O Sol...” pôde agraciar Gregory Peck com um merecido Oscar –ainda que fosse triste ver Peter O’ Toole perder o prêmio (muitos bons filmes na competição dão nisso!).
Anne Bancroft arrebatou o Oscar de Melhor Atriz pelo emocionante “O Milagre de Anne Sullivan” que deu também o prêmio de Atriz Coadjuvante à Patty Duke, enquanto Ed Begley levou o de coadjuvante por uma produção que virou ‘clássico da sessão da tarde’.

MELHOR FILME
"Lawrence da Arábia"

MELHOR DIREÇÃO
"Lawrence da Arábia", David Lean

MELHOR ATRIZ
Anne Bancroft, "O Milagre de Anne Sullivan"

MELHOR ATOR
Gregory Peck, "O Sol É Para Todos"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patty Duke, "O Milagre de Anne Sullivan"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ed Begley, "O Doce Pássaro da Juventude"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"O Mais Longo dos Dias"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Lawrence da Arábia"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Sempre Aos Domingos" (França)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Mais Longo dos Dias"

MELHOR FIGURINO P&B
"O Quê Terá Acontecido Com Baby Jane?"

MELHOR FIGURINO CORES
"O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm"

MELHOR SOM
"Lawrence da Arábia"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"O Sol É Para Todos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"Lawrence da Arábia"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Lawrence da Arábia"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"O Vendedor de Ilusões"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Days Of Wine And Roses", de "Vício Maldito"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Divórcio À Italiana"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Sol É Para Todos"

MELHOR MONTAGEM
"Lawrence da Arábia"

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Princesa e O Plebeu

Trabalho magnífico do hercúleo artesão William Wyller –que nos deu o clássico “Ben-Hur” –esta inebriante comédia romântica é uma das mais felizes reuniões de talentos que o cinema já testemunhou: Uma Audrey Hepburn primorosa (e revelada neste filme!) dá, aqui, a personificação perfeita, vibrante e cativante da encantadora realeza; fazendo par com ela, o sempre competente Gregory Peck, dá sua contribuição à excelência da produção impondo sua presença de respeito à toda prova, ainda que isso não fique no caminho do descontraído e contagiante bom humor do filme; além deles, há o roteiro, assinado pelo inteligente e politizado Dalton Trumbo, que de fato torna este filme genial, começando a história como um conto de fadas inverso.
A princesa Ann (Hepburn, numa atuação inigualável, plenamente merecedora do Oscar de Melhor Atriz que conquistou), em uma breve visita a Roma, se ressente por sua condição de princesa; os deveres e imposições protocolares a impedem de aproveitar os prazeres mais corriqueiros da cidade. Para tanto, ela deixa o palácio em que está hospedada a fim de dar um passeio, mas termina cruzando o caminho de Joe Bradley (Peck, carismático, viril, e no tom absolutamente certo), um correspondente norte-americano na Itália.
Astuto e sagaz, Bradley sabe quem ela é, mas a princesa pensa ser capaz de convencê-lo de que se trata de uma simples moça. Mantendo uma farsa mútua, os dois então resolvem fazer um tour juntos por Roma, levando o fotógrafo Irving Radovich à tiracolo (Eddie Albert, outra presença fantástica) –e vem bem a calhar, para Bradley, que ele tenha uma câmera fotográfica sempre por perto para registrar as peripécias da princesa!
Uma sucessão prazerosa e enternecedora de cenas sensacionais se segue: Bradley e a princesa andando num monociclo; a mão que desaparece na bocarra de uma fonte; a visita à lanchonete que termina em bagunça; tudo conduzido com uma leveza que não exclui a excelência cinematográfica à toda prova.
Tal e qual é inevitável à tramas dessa natureza, Bradley e a princesa percebem surgir entre si uma paixão que invariavelmente não poderá ser duradoura –mas, até lá, a condução dinâmica de Wyller e seu terno olhar para com a inescapável química do par central transformará a platéia em torcida para esse amor.
É em sua seqüência final, contudo, que o genial roteiro de Trumbo dá o grande xeque-mate no expectador ao subverter a expectativa por um final feliz (ou, ao menos, um final em que presume-se que o casal central terminará junto) entregando uma cena onde ele ao mesmo tempo coloca brilhantemente todas as repercussões realistas inerentes a uma situação assim, amarra magnificamente todas as pontas soltas da narrativa e ainda mantém o filme leve e agradável o suficiente para que consigamos terminá-lo com uma sensação agridoce, acompanhada da certeza de termos visto uma das melhores (senão a melhor) comédia romântica do cinema.