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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Vila

Durante a realização de “A Vila”, o diretor e roteirista M. Night Shyamalan ainda estava em estado de graça devido aos êxitos de seus três últimos trabalhos, “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” (cuja audiência inicial pareceu frustrante, mas, com o tempo se tornou um sucesso cult) e “Sinais”.
Ironicamente, este foi seu último grande filme pouco antes dele iniciar, com “A Dama Na Água”, uma espécie de banalização com o estilo que ele próprio havia difundido e enfileirar vários projetos equivocados. Seria necessário quase uma década para Shyamalan reencontrar o sucesso com “Fragmentado”.
“A Vila” reúne maravilhosamente bem as características que definem o realizador que Shyamalan é. Características que, quando harmoniosas e hábeis, rendem um belo trabalho.
O início já flagra, como é quase sintomático em Shyamalan, um registro dramático que não poupa seus personagens da tragédia como forma de ressaltar certa seriedade: Um enterro de alguém muito jovem. Um pai (Brendan Gleeson) inconsolável.
Chama a atenção o lugar: Um vilarejo extremamente longínquo e isolado de algum período antigo, como nos sugerem as moradias, as vestimentas e os costumes que veremos ao longo da narrativa.
O lugar possui toda uma sociedade que se desenvolveu baseada em regras seguidas à risca. E o combustível que dá eficácia a essas regras é o medo: A grande floresta que os cerca é habitada por criaturas estranhas e assustadoras com as quais a população mantém uma trégua milenar: Uns jamais devem invadir as fronteiras dos outros; as criaturas não entram na vila, e os aldeões não invadem a floresta.
Dessa forma, as pessoas conservam roupas e utensílios da cor amarela (considerada a cor boa que afasta as criaturas), e eliminam da vila qualquer vestígio de vermelho (a cor ruim que as atrai).
É nesse ambiente brilhantemente texturizado pelo roteiro e pela direção que conhecemos Edward Walker, o personagem de William Hurt, líder da vila, cuja filha mais jovem, Ivy (a sensacional Bryce Dallas Howard), é cega de nascença. Além dela, há também Lucius Hunt (Joaquim Phoenix, presente também no filme anterior de Shyamalan, “Sinais”), a mãe dele (Sigourney Weaver) e seu melhor amigo, o mentalmente debilitado Noah (Adrien Brody).
A vida, ora pacata, ora ocasionada por temores, na vila é justaposta assim pelo modo como cada um desses personagens reage à circunstância mirabolante em que estão inseridos: Na valentia imprevista ostentada por Lucius, as criaturas são um meio de se provar digno para proteger seus entes queridos; nas constantes dissertações de Edward, elas são um mistério com o qual conviver e ao qual respeitar; em sua aparentemente inofensiva alienação, Noah é incapaz de enxergar nelas o pavor que outros enxergam; já, Ivy acolhe com serenidade a maneira com que o mundo permite essa co-existência.
Entretanto, logo começam a surgir indícios preocupantes de que a trégua mantida por tanto tempo com as criaturas está por terminar.
E Shyamalan esbanja habilidade ao elaborar cenas de minúcia apaixonante que estabelecem uma bela dinâmica de personagens, ao mesmo tempo em que moldam suas já conhecidas cenas de sobressalto e suspense, amparadas em referências diversas: “A Vila” guarda elementos de “Tubarão”, de Steven Spielberg, de “O Morro dos Ventos Uivantes” e da série de TV, “Além da Imaginação” (fonte à qual o cinema de Shyamalan deve muito).
A grande reviravolta próxima do desfecho –e, à exemplo dos trabalhos anteriores de Shyamalan, este filme tem uma –coloca esta obra como uma metáfora, das mais intrigantes, sobre o protecionismo paranóico difundido pelo governo Bush em particular (pós-11 de Setembro) e sobre o medo pontual que leva os seres humanos ao distanciamento em geral.

sábado, 22 de julho de 2017

Ghost In The Shell - Vigilante do Amanhã

Já data de algum tempo a tentativa de realizar uma versão cinematográfica em live-action da espetacular animação “Ghost In TheShell”, de Mamoru Oshii. O artesão incumbido dessa tarefa veio a ser Rupert Sanders que, no comando do épico “Branca de Neve e O Caçador”, demonstrou identidade visual e notável fôlego narrativo, além de uma apropriada inclinação ao comercial –ele só não esteve envolvido com a continuação, “O Caçador e ARainha do Gelo” por causa do escândalo decorrido de seu envolvimento adúltero com a atriz Kristen Stewart.
“Vigilante do Amanhã” é uma nova oportunidade para demonstrar competência, além de uma chance para alçar vôos mais altos.
Se a obra de Mamoru Oshii era um objeto cult profundamente referencial –foi a declarada inspiração para, entre outras coisas, “Matrix” –o filme de Sanders é, ele próprio, pontuado por influências: Bebe da fonte do próprio “Matrix”, sobretudo na cinergia elegante de sua primeira cena de ação e, engloba inúmeras outras referências como “Blade Runner” (as estupendas seqüências em meio aos grandes arranha-céus onde se vêem imagens reproduzidas em hologramas são difíceis de se esquecer).
No papel da protagonista, Major Mira Killian, Scarlet Johansson é uma atriz sensacional, ela tira de letra a fisicalidade exigida nas cenas de ação, e mostra desenvoltura seja quando o trabalho requer humor ou drama. Sua versatilidade e solidez ao incorporar a personagem principal é a grande força de “Vigilante do Amanhã”, mais do que a condução ponderada de Sanders, ou o primor técnico de sua recriação do futuro.
Fruto de uma experiência radical onde os humanos têm parte de seus corpos substituídos por materiais cibernéticos, a Major é um caso (o primeiro) onde somente o cérebro restou. A cientista que concedeu seu inovador projeto, Dra. Ouelet (Juliette Binoche, uma luxuosa participação), lhe adverte acerca dos lapsos a que está sujeita devido a sua humanidade –e ela de fato tem lampejos enigmáticos de imagens que será, mais tarde, elucidadas pela narrativa.
Com seu corpo sintético e essas memórias fragmentadas, ela trabalha como operativa do departamento de segurança denominado Seção 9, ao lado do truculento Batou (o ótimo Pilou Asbaek), sob o comando do comandante Aramaki (outra luxuosa participação desta vez a de ‘Beat’ Takeshi Kitano).
Uma das investigações movidas pela Major contudo a levam até o misterioso Kuze (o ator Michael Pitt, de “Os Sonhadores” e da versão 2007 de “Violência Gratuita”, que aqui assina Michael Carmen Pitt) –um personagem que substitui o vilão Puppet Master da animação original com um pouco mais de ambigüidade moral, mas menos complexidade; nesta nova versão, há toda uma ligação ligeiramente forçada do antagonista com a heroína. Sanders também amplia os elementos investigativos da trama, aumentando o número das cenas (e, por conseqüência, a duração do filme), mas, não necessariamente lhe acrescentando algo.
Comparar este filme com a animação original soa um tanto injusto: “Ghost In The Shell” foi uma obra revolucionária e audaciosa, introduzindo elementos ao gênero de ficção científica que outros filmes só teriam desenvoltura para trabalhar muitos anos depois.
O filme de Sanders é, quando muito, uma tendência de mercado tardia –em seus termos, ele lembra uma série de filmes que já foram feitos, ao invés de sinalizar um cinema que ainda virá.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Violência Gratuita

Os seres humanos adoram ir ao cinema para ver os personagens que ama sofrer. É essa característica algo hipócrita e sádica que Michael Haneke escancara, de forma crua e sem concessões, em “Violência Gratuita”.
Tendo o diretor austríaco realizado dois filmes (o original e sua refilmagem, em 1997 e 2007), esse projeto se presta, também, a uma outra leitura: A necessidade banal com que versões faladas em inglês das mesmas histórias insistem em ser concebidas sobre o pretexto de expor o material a um público mais amplo –disposto a torcer essa regra, contradizê-la e, no processo, evidenciar sua futilidade, a versão de 2007 de Haneke para seu “Violência Gratuita” refaz o filme frame a frame, em minúcia, enquadramento e concepção, alterando praticamente apenas o elenco (agora hollywoodiano) e o idioma com o qual o roteiro é declamado.
Não obstante essa alfinetada promovida por Haneke ao sistema de cinema industrial, existem diferenças entre as duas versões que conseguem superar a esmagadora (e deliberada) similaridade de execução: São pequenos detalhes, impressões que as diferentes caras do elenco acabam proporcionando, sensações distintas –quase microscópicas –nesta ou naquela cena.
Levando isso em conta, fico com a versão de 1997, a original.

Entretanto, a rigor, a trama de ambos é exatamente a mesma: Numa casa de lago, uma família de classe média alta (Suzanne Lothar e Ulrich Muhe na versão 1997; Naomi Watts e Tim Roth, na 2007) é visitada por dois jovens de aparência vistosa e jeito polido de falar (Arno Frisch e Frank Giering, 1997; Michael Pitt e Brady Corbet, 2007).
A mulher os recebe quando pedem educadamente por alguns ovos, mas a partir do momento que entram porta adentro, eles fazem todos de reféns e submetem essa família a uma tortura física e psicológica das mais insuportáveis.
Haneke, assim como no também perturbador e inquisitivo "Caché", demonstra interesse em expor em seus filmes a falsa noção de segurança que acomete as classes privilegiadas. Mas sua reflexão mais pungente, operada por meio deste filme atroz, visa criticar a forma como o expectador médio se regozija com a violência enquanto entretenimento, e quebra cada uma das regras hollywoodianas com as quais o público se tornou confortável, ao longo dos anos, em consumir esse tipo de passatempo: Aqui, os cães podem morrer; as crianças podem se ferir, e as vítimas não têm uma oportunidade de retribuir seu flagelo.
Não que, para isso, Haneke imponha realismo à obra –ele mostra-se irônico e atrevido o suficiente para provocar o expectador com um breve instante, em meio à terrível tensão psicológica, no qual a protagonista consegue alvejar um dos bandidos. Na seqüência, contudo, para a frustração do público, Haneke abandona a verossimilhança em favor dos vilões ao permitir que um deles ‘rebobine o filme’ e consiga salvar o companheiro (!).
No cinema de Haneke, a arte do choque proporcionada pela mais pungente das atmosferas não se presta a entreter o expectador com narrativas óbvias e previsíveis. Ela serve, antes de mais nada, a um questionamento profundo e necessário acerca do juízo que fazemos de males que muitas vezes apreciamos com a indiferença de quem não parou para pensar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Os Sonhadores

Já vão longe os tempos em que Bernardo Bertolucci gozava de um prestígio que o colocava entre os grandes diretores do cinema.
“Os Sonhadores” é um trabalho pequeno, longe dos recursos ou da aclamação de obras visionárias e audazes como o escandaloso e brilhante “O Último Tango Em Paris”, ou o oscarizado “O Último Imperador”, mas guarda todos os elementos autorais e a competência artística que fizeram o nome de Bertolucci.
É necessário pouco tempo de filme para perceber que é só por meio de projetos pequenos como este (baixo orçamento, encenação improvisada, liberdade autoral e pleno domínio criativo do material) que Bertolucci pode discorrer sobre cinema da forma como gosta: Fosse este um trabalho de estúdio, e ele teria de moldar muito de sua visão à um esquema mais restrito, politicamente correto e desprovido da sexualidade que ele por vezes usa para expressar as pulsões de muitos de seus personagens.
No papel que a revelou para o mundo, a francesa Eva Green passa boa parte do filme nua em pêlo –e este é só um dos elementos que certamente seriam alterados se o diretor fizesse o filme nos EUA.
Interessante o fato de que, por mais que a polêmica ainda discutida e controversa em torno de “O Último Tango Em Paris” (onde Bertolucci e Marlon Brando teriam submetido a jovem Maria Schneider à uma experiência abusiva durante a famigerada cena da manteiga) não tenha sido esquecida, Bertolucci continua sendo um diretor que atrai intérpretes interessados e, sobretudo, suas atrizes –como Eva Green, neste caso –de dispõem a encarar as audaciosas cenas de nudez e sexo que ele elabora para elas, quando certamente iriam recusar fazê-las com outros diretores.
Eva interpreta Isabelle uma estudante envolvida no tumultuado protesto movido por alunos na França, em maio de 1968. Ao lado dela, Louis Garrel faz seu irmão, Theo, com quem mantém um relacionamento às raias do incestuoso, espécie de conseqüência da postura contestadora que assumem. Mas, eis que vem dos EUA o americano Matthew (Michael Pitt) que ao compor a última ponta desse triângulo amoroso, possibilita ao casal de irmãos uma certa consumação de sua ideologia emocional e física –os três acabam se confinando deliberadamente num apartamento, onde ignoram os acontecimentos exteriores (e tais acontecimentos passam a ser ignorados pela narrativa também que assume ares mais íntimos e menos engajados), e passam a explorar os limites de sua convivência, com direto à referências apaixonadas de cinema da parte de seu diretor, que incluem os clássicos “Band A Part”, de Jean Luc Godard, e “Monstros”, de Todd Browning.
Lançando um olhar sobre a juventude de um momento já crepuscular de sua vida, Bertolucci não escapa ao inevitável de se deixar fascinar pelo corpo nu de Eva Green –ela é, em grande medida, a justificativa de inúmeras cenas, e o pivô romântico que dá respaldo ao filme –e deixa evidente a falta de fôlego que lhe acomete para fazer um filme de mais amplitude (este seria um trabalho completamente diferente se tivesse sido realizado pelo jovem Bertolucci dos anos 1960 e 70, quando entregou obras complexas e comprometidas como “O Conformista” e “1900”) tal como ele chegou a sugerir no seu início; os protestos estudantis, a militâncias, e tantas outras questões já se acham tão distante na memória que só restou a Bertolucci tocá-los sutilmente, como pano de fundo de uma história ainda mais prosaica onde involuntariamente o diretor italiano enfatiza aquilo que ele, por um longo tempo, renegou: A alienação.