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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Operação Valkiria

Quatro anos antes da superprodução hollywoodiana estrelada por Tom Cruise e dirigida por Bryan Singer em 2008, a Alemanha lançou sua própria versão de um dos mais distintos (e hoje louvados) personagens históricos relacionados à obscura mancha negra que foi sua participação na Segunda Guerra Mundial: O heróico Coronel Clause Von Stauffenberg que encabeçou a tentativa de matar e depor Hitler (das muitas que foram perpetradas) que mais perto chegou de ser bem-sucedida. E que,  nos livros de história é conhecida como “Operação Valkiria” –por alguma razão, o título do filme de Cruise e Singer tem uma escrita diferente com ‘qu’ no lugar do ‘k’: “Operação Valquíria”.
Dirigido por Jo Baier, o filme de 2004 parece se debruçar mais sobre as motivações internas que levaram Stauffenberg (muito bem interpretado pelo astro alemão Sebastian Koch) a uma contundente mudança de opinião, agravada pela perda do olho esquerdo e da mão direita durante um ataque na Tunísia: De um dedicado oficial a serviço do Fuhrer ele se torna uma indignada testemunha da insensatez genocida de Hitler (que surge numa única cena, interpretado com olhar de frieza psicótica por Udo Schenk). Suas convicções se transformam até Stauffenberg constatar que é um opositor plantado num local estratégico da alta cúpula nazista, de onde pode realizar um golpe audacioso.
Unido à outros oficiais, também eles desejosos de dar outro rumo à guerra e ao destino da Alemanha, Stauffenberg elabora –em reuniões sorrateiras na calada da noite e no coração de Berlim –um plano para plantar uma bomba próxima o bastante do ditador para matá-lo, dando início, logo na sequência, ao processo de tomada política de poder da Alemanha.
Curiosamente, é nessa opção inicial –em fazer de seu protagonista o centro da narrativa (o biografado, por assim dizer) e não a missão a que ele se dedica –que o filme de Jo Baier adquire mais ritmo, visitando circunstâncias diferenciadas do suspense de Bryan Singer.
A segunda parte do filme, no entanto, quando o plano colocado em prática é mostrado em seus desdobramentos minuciosos, perde consideravelmente em agilidade e interesse; porque a produção não consegue ocultar as limitações de recursos inerentes à sua realização (com panorâmicas de câmeras substituindo tomadas que exigiam construção mais criteriosa); porque a atenção aos detalhes parece priorizar o escorregadio pano de fundo político, em detrimento à observações que poderiam soar mais astutas; e porque tudo isso acarreta uma atmosfera que faz o resultado parecer uma minissérie compilada feita para a TV (o que ela é de fato!), e não um longa-metragem de cinema.
Ainda assim, a obra de Jo Baier consegue entregar elementos que se sobressaem em relação à versão ostensivamente cinematográfica de Bryan Singer.

sábado, 2 de setembro de 2017

A Espiã

Um dos clássicos do início dos anos 1970 e começo dos 1980 que fizeram a fama do diretor Paul Verhoeven, ainda em sua Holanda natal, foi “O Soldado de Laranja”, que acompanhava as peripécias de um oficial holandês inescrupuloso vivido por Rutger Hauer.
É um tema bastante similar que Verhoeven revisita aqui (um personagem às voltas com o lado mais obscuro e lascivo da guerra), em seu melhor filme nas últimas décadas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Rachel Stein (Carice Van Houten, dona de uma beleza clássica adequada ao tom e à ambientação da produção), uma ex-cantora judia cuja família foi toda dizimada numa tentativa de escapar ao jugo nazista da Holanda ocupada, une-se à resistência para combater os alemães, assumindo a identidade de Ellis De Vrie.
Uma vez transformada em espiã, a missão de Rachel/Ellis passa a ser infiltrar-se como prostituta de luxo num QG alemão e valer-se de seu indisfarçável sex-appeal para seduzir o diretor de Inteligência Alemã na Holanda, Muntze (Sebastian Koch, de “A Vida dos Outros”), e obter informações.
Para Ellis, sua incumbência tem dupla importância pessoal: Ela deseja fazer justiça ao perverso oficial alemão Franken (Waldemar Kobus) que assassinou sua família; e, no processo, resguardar o relacionamento genuíno que construiu com Muntze.
Entretanto, as coisas serão muito mais complicadas do que parecem. Em meio à uma audaciosa tentativa de libertar prisioneiros quase prestes a serem executados, dá-se uma reviravolta tão dramaticamente radical que poderia pertencer a uma obra de ficção (o filme é baseado em fatos reais): Eis que por meio de uma escuta que ela mesma plantou, Ellis é descoberta por Franken, que se vale da circunstância para fazer os aliados dela (que podiam apenas ouvi-lo) acreditarem que ela é uma traidora.
Pouco depois, as Forças Aiadas invadem a Holanda, subjugando os alemães.
contudo, a situação de Ellis é delicada: Perseguida pelos nazistas por seu envolvimento na Resistência, ela agora é também perseguida por seus antigos companheiros que acreditam ser ela uma traidora.
sua única alternativa é Muntze, ao lado de quem ela tentará descobrir a verdadeira (e surpreendente) identidade do traidor de fato, neste formidável suspense de guerra repleto de agentes duplos, aliados que se tornam inimigos e inimigos que se tornam aliados.
Mais conhecida por seu papel como a Sacerdotisa Vermelha na série “Game Of Thrones”, a atriz Carice Van Houten é uma grata revelação neste belo trabalho de Verhoeven que teria todos os trejeitos e características de um thriller à moda antiga, não fosse a presença audaz de generosas cenas de nudez e sexo, além de outros costumeiros excessos de seu ousado realizador –e que, vez ou outra, desabilitam a harmonia do todo. Entretanto, o próprio Verhoeven é quem, deveras, consegue brilhar como diretor: Além de uma condução tão coerente e serena que inspira até tranqüilidade, ele pontua sua trama com pequenos e inteligentes detalhes que somados conseguem a um só tempo homenagear e questionar os filmes antigos de guerra; sendo um de seus elementos mais notáveis a introdução do ambíguo personagem nazista de Sebastian Koch que desafia o público e a protagonista a gostarem dele.

terça-feira, 22 de março de 2016

Ponte dos Espiões

No que diz respeito ao terreno político, a divisão é o aspecto que mais incomoda Spielberg. A divisão que segrega os homens e os fazem hostilizar uns aos outros. Mago de filmes infanto-juvenis que encantam gerações desde meados da década de 1970 e 80, Steven Spielberg consagrou-se como um mestre inigualável de filmes de fantasia, mas nunca deixou de flertar insistentemente com o cinema sério.
A experiência tornou ainda mais habilidoso do que antes já era com seu monumental talento, e com o tempo, obras preciosas aportaram na tela do cinema, sendo “Ponte dos Espiões” o exemplar mais recente.
Tal e qual o diretor de fantasia que é, Spielberg acredita no potencial para o bem da humanidade (e nenhum ator vivo personifica melhor essa crença do que Tom Hanks), e deixa esse otimismo ingênuo transparecer na história do advogado (Hanks) que em plena Guerra Fria recebe a incumbência de defender como réu um espião russo (Mark Rylance, uma presença interessantíssima), e mais tarde, acaba envolvido na complicada troca, desse mesmo espião por dois desafortunados americanos, prisioneiros na União Soviética.
Fosse outro diretor, este seria um filme sobre as áreas lúgubres da situação entre EUA e URSS de então; teria lampejos de suspense, certamente não resistindo à tentação de demonizar os russos e santificar os americanos (o quê Spielberg quase acaba fazendo...); e provavelmente mergulharia no viés político, expondo os minimalismos da situação do período como forma de mostrar muito das conseqüências daquela época no panorama de hoje.
Há um pouco disso tudo em “Ponte dos Espiões”, mas ele vem com uma observação distinta que só um artesão muito singular com Spielberg é capaz de levar. Ele crê no valor cabal de cada pessoa viva. E isso é um mote que ele leva para praticamente todos os filmes de ‘cinema sério’ que ele fez até hoje. Dentro dessa consideração de fé, entrando todos os homens de bem, e não importa qual seja a sua nacionalidade.
“Ponte dos Espiões” vem temperado por um cinismo quase conciliatório que o experiente Spielberg adquiriu com o passar de tantos anos, mas a mensagem que ele quer levar é de uma pureza e um pertinência que não merece ser ignorada.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa

Tom Hooper é o mesmo diretor de “O Discurso do Rei” e do musical “Os Miseráveis”. Aqui ele entrega um trabalho melhor do que ambos. O maior problema de “O Discurso do Rei”, na verdade, é que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme num ano em que não merecia, derrotando o arrojado “A Rede Social” e mais uma porção de outros concorrentes melhores. Isso atraiu uma espécie de antipatia ao filme, embora no fundo fosse um trabalho redondo e bem-intencionado, ainda que excessivamente acadêmico e conservador. 
Essas características se repetem em “A Garota Dinamarquesa”, ironicamente, uma obra com um tema dos mais audaciosos: A história de Einar Wegener, o primeiro transexual da história a submeter-se à uma cirurgia de mudança de sexo. 
Tudo começa quando Gelda (a maravilhosa e inebriante Alicia Vikander), pintora assim como Einar, seu então marido, o convence a vestir uma meia feminina a fim de terminar um quadro diante da ausência da modela inicialmente contratada. Isso desperta algo em Einar, que pouco a pouco, começa a encontrar sua verdadeira identidade ao vestir-se de mulher (e auto-intitular-se Lily). O quê começa como uma brincadeira do casal de artistas vai se tornando algo realmente sério, que ameaça seu casamento, especialmente quando Einar conclui que Lily é quem ele verdadeiramente é, e decide assim submeter-se à uma operação jamais tentada. 
Este filme não teria a dimensão que ostenta se não fosse por Eddie Redmayne, o jovem inglês entrega um trabalho assombroso, superior a sua caracterização como Stephen Hawkings, que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator no ano passado. Na minúcia da interpretação que ele oferece no filme, desvendamos as engrenagens que definem uma pessoa, e que o fazem além, muito além, daquilo que ele deseja: Einar não quer partir o coração de Gelda, a esposa que ele de fato ama, mas ele paradoxalmente não quer mais ser Einar, e em última instância, o marido dela. Ele quer ser uma mulher, quer ser Lily, o ser humano no qual ele descobriu-se por inteiro. E os momentos registrados pelas câmeras de Tom Hooper, nos quais essa descoberta se opera estão entre os mais preciosos do filme. O diretor Hooper almejava em "O Discurso do Rei" atingir um grau de requinte, sutileza e sensibilidade que somente aqui ele consegue fazê-lo. Foi necessário, não resta dúvida o auxílio de dois intérpretes superlativos para isso: Alicia Vikander e, sobretudo, Eddie Redmayne.