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quinta-feira, 12 de março de 2020

Link Perdido

Houve uma certa surpresa quando esta agradável animação venceu o Globo de Ouro 2020 tendo por competidores obras bem superiores como “Toy Story 4”, “Frozen 2” e “O Rei Leão”. Esse gesto jogou luz sobre uma obra simpática embora também lhe tenha aumentado injustamente suas expectativas perante o público e aguçado ainda mais o olhar da crítica que apontou problemas como o fato de ser a terceira animação a abordar o mito do Sasquatch em cerca de um ano (as outras foram “Abominável” e “Pé Pequeno”), e o visual mais pueril e pouco elaborado para uma animação vencedora de prêmios.
Realizado em stop-motion –conhecido como ‘o filme de massinhas’ –“Link Perdido” é, ao lado de “A Fuga das Galinhas”, o cultuado “O Estranho Mundo de Jack” e outros, uma tentativa de aprimorar uma técnica artesanal de animação e trazê-la para o mundo tecnológico de hoje.
Não é a toa então que, por todos os seus ângulos e percepções, podemos observar nesta realização do diretor Chris Butler a união entre o classicismo e o arrojo, bem como a quebra das antigas e engessadas convenções.
O herói da história é um aventureiro e explorador inglês –daqueles que se encaixariam com perfeição numa narrativa do escritor Jules Verne –chamado Lionel Frost (voz de Hugh Jackman) que tem por hábito viajar o mundo, em plena Era Vitoriana, para colher provas da existência de criaturas monstruosas e lendárias: A cena que abre a animação, envolvendo o Monstro do Lago Ness, já estabelece o tom divertidamente descontraído que a aventura terá.
Na sua próxima empreitada, uma aposta que desafia a arrogância do Lorde Dunceby (voz de Stephen Fry), o providencial vilão da trama, Frost pretende ir até as fronteiras do Canadá, seguir os indícios de uma misteriosa carta enviada por algum morador de lá, a fim de provar a existência do monstro conhecido como Pé Grande.
Entretanto, para a surpresa de Frost, a criatura, que ele encontra com surpreendente facilidade e rapidez, não se mostra como o esperado: Chamado Link (em referência ao ‘elo perdido’, lugar que supostamente sua desconhecida espécie ocuparia na escala evolutiva do homem), e dublado com a voz cômica e nada gutural de Zack Galifianakis, a criatura é articulada, inteligente e polida (!). Sua intenção é –veja só! –pedir ajuda à Frost, de quem ele ouviu falar lendo os jornais trazidos por viajantes (!), e tentar encontrar outros membros de sua ‘família’ a fim de aplacar sua enorme solidão. Membros estes que Link acredita serem os Yetis, do Nebal, conhecidos por sua vez como os Abomináveis Homens das Neves.
Inicialmente relutante –mas, certamente, construindo com Link uma bela amizade ao longo de tal jornada –Frost resolve ajudá-lo, empreendendo a viagem até as montanhas nevadas do Nepal, ganhando a companhia de Adelina (voz de Zoe Saldana), outrora esposa de um grande colega aventureiro de Frost no passado, agora falecido, e tendo em seu encalço os comparsas de Dunceby instruídos para impedi-lo de concluir sua missão.
Em maior e menor grau, todos os personagens representam uma inadequação aos rótulos que os definem: Se Frost, o aristocrata inicialmente presunçoso que se mostra boa gente, é o menos aprofundado deles, Link, o monstro de bom coração e boa educação, e Adelina, a providencial donzela em perigo desejosa de romper todas as suas amarras com o sexo masculino e viver sua própria aventura, são notáveis em seu inconformismo.
Trabalhando com perspicácia e criatividade a técnica antiquada que abraça, a própria animação esboça também uma espécie de quebra de padrões: Deliberadamente traça uma narrativa calcada em visuais que primam por se afastarem de pretensões realistas, mas agrega elementos e trucagens digitais de última geração na construção de seu escopo que, a medida que os protagonistas se aproximam da paradisíaca Shangri-lá, na parte final, vai ganhando cada vez mais intervenções da modernidade.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sherlock Holmes, por Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes
Muitas foram as personificações do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle no cinema –atualmente, uma das minhas prediletas não vem nem da tela grande, mas da TV, na arrojada série “Sherlock”, estrelada por Benedict Cumberbath e Martin Freeman.
Pouco antes dela, logo após o enorme sucesso de “Homem de Ferro”, o então ator problemático Robert Downey Jr. dava passos largos para tirar de seus ombros a má reputação que lhe perseguia a mais de duas décadas para se tornar um dos grandes astros de Hollywood –e certamente os responsáveis por isso foram não somente os filmes de Tony Stark como também esta nova versão de Sherlock Holmes.
Pegando carona numa proposta de reinvenção um pouco parecida com a do clássico oitentista “O Enigma da Pirâmide” –que hoje, infelizmente, pouca gente lembra –o filme mostra o famoso detetive particular na Inglaterra do final do Século 19, morando no conhecido apartamento em Baker Street. Sherlock Holmes auxiliado por seu fiel (ainda que relutante) amigo James Watson (Jude Law, uma boa presença) investiga uma série de crimes que culminaram numa inexplicável ressurreição de um condenado à morte, Blackwood (Mark Strong, um vilão competente embora genérico). Seguindo uma trilha de pistas num estilo totalmente peculiar e ortodoxo, como lhe é de praxe, o excêntrico Holmes aproxima-se de descortinar um plano que visa ameaçar a própria ordem política vigente em Londres. No percurso dessa tumultuada investigação –que encontra indícios que flertam com invocações sobrenaturais –Holmes e Watson (que, coitado, está de casamento marcado) recebem a ambígua ajuda (ou seria intromissão?) da bela Irene Adler (a ótima Rachel McAdams), com quem Holmes tem um relacionamento, diga-mos... complicado!
Assumindo as rédeas deste projeto –e, assim como Downey Jr., necessitando de um sucesso para se provar perante a indústria –o diretor Guy Ritchie troca assim os habituais gângsteres urbanos e contemporâneos (que ele soube retratar com graça, som e fúria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamantes”) pelo submundo da Inglaterra vitoriana nesta reformulação do famoso personagem extraída por sua vez não dos livros de Arthur Conan Doyle, mas de uma série de história em quadrinhos neles baseada.
Essa roupagem pós-moderna garantida pela direção inquieta e em muitos momentos francamente vertiginosa de Ritchie acaba dando ao personagem fôlego novo justamente por preservar elementos de ação que estavam nos livros e fugir consideravelmente de estereótipos que engessavam o personagem em suas outras encarnações.
E verdade seja dita: Muito ajuda para isso a eufórica interpretação de Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes-O Jogo das Sombras
Tudo deu certo. A nova versão de Sherlock Holmes foi um sucesso, o público abraçou a forma dinâmica com que o diretor Guy Ritchie contou uma trama protagonizada por um personagem tão conhecido –e de características tão difundidas na cultura pop –dando a ele um sabor de algo novo. E Robert Downey Jr., embora o público o visse como intérprete definitivo do Homem de Ferro, conseguiu emplacar uma segunda franquia milionária em sua carreira, provando que os dias de escândalo e de bebedeiras tinha ficado no passado. Seu imenso talento e carisma agora estavam a serviço da arte de interpretar, como tinha que ser.
A continuação, como rege a cartilha do cinema comercial de modo geral, deveria ser mais, maior e melhor que o filme anterior –e tudo isso, posto em prática, resulta ocasionalmente exorbitante.
Se o primeiro “Sherlock Holmes” era uma mescla agitada e livre de amarras de diversos livros, contos e histórias de Sherlock produzidas nas mais diversas mídias –sendo o livro “Um Escândalo Na Boêmia” uma das fontes mais evidentes –desta vez, uma das inspirações certamente haveria de ser “A Queda de Reinchenbach”, devido à introdução daquele tido como o maior antagonista de Holmes, o maquiavélico Professor Moriarty, como bem foi sugerido ao fim do primeiro filme.
Quando esta nova produção começa, Guy Ritchie, à exemplo do ritmo incessante do trabalho anteiror, já arremessa o expectador no centro da ação, levando Holmes e Irene numa tentativa de impedir a detonação de uma bomba: Em pleno Século 19, ao que parece, o terrorismo enfim chegou a Inglaterra.
Ondas de pânico e desordem provocados por misteriosos atentados semelhantes ao da cena inicial intrigam a polícia, mas não o detetive Sherlock Holmes. Para ele, a autoria desses eventos é bem clara: todas as pistas levam ao ardiloso Professor Moriarty (Jared Harris, filho do grande Richard Harris, fabuloso no papel), tão astuto e inteligente quanto o próprio Holmes, mas infinitamente mais maldoso e perigoso.
O propósito pelo qual Moriarty elabora esse seu plano, entretanto ainda é um enigma. Para descobri-lo Holmes conta novamente com a imprescindível ajuda de seu amigo Watson (retirado à contra-gosto das festividades de seu casamento) e, desta vez, com a contribuição da cigana Simza (a sueca Noomi Rapace, exalando charme) e, em alguns momentos, de seu meticuloso irmão, Mycroft (Stephen Fry, em breve, porém, descontraída participação).
Esta continuação do sucesso de 2010 contava mais uma vez com a sensacional presença de Robert Downey Jr. e com o desigual tratamento conferido pelo diretor Guy Ritchie, embora muito disso soasse repetitivo em relação ao filme anterior: Seus grandes diferenciais eram mesmo as novas presenças do elenco; Noomi Rapace e, principalmente Jared Harris, cujo personagem, Prof. Moriarty, vinha atender uma espécie de ressalva feita em relação ao outro filme –a de que ele não teria um vilão à altura; os realizadores entenderam o recado, deixando Downey Jr. desta vez brilhantemente antagonizado por Jared Harris.
O final, diretamente extraído do desfecho antológico de “A Queda de Reinchenbach”, deixava ganchos óbvios para um terceiro filme que até este presente agosto de 2017 não foi sequer anunciado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

V de Vingança

Num futuro alternativo, a Inglaterra está mergulhada num governo totalitário de controle estatal do cidadão.
Todos são vigiados. Todos são controlados. Manifestações de excentricidade ou de diferença são severamente punidas. Nesse cenário opressor, surge V, um misterioso anarquista mascarado que desafia a mão-de-ferro do governo e promete aos cidadãos que dentro de um ano explodirá o prédio do parlamento inglês.
No período que se segue, a jovem Eve testemunha todos esses eventos ora estarrecida, ora indignada.
É o amadurecer dela, e sua descoberta de um novo mundo pleno de conhecimento e liberdade que na verdade se revela ser o centro de toda história.
Adaptado da cultuada ainda que difícil graphic novel escrita por Alan Moore, esta estréia na direção de James McTeige é uma feliz reunião de talentos: o roteiro equilibrado, inspirado e cheio de propriedade dos Irmãos Wachowski (realizadores de "Matrix"), a interpretação certeira de Natalie Portman, e a presença sensacional (de uma insuspeita compreensão do personagem) de Hugo Weaving, como V.