Mostrando postagens com marcador Yoji Yamada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Yoji Yamada. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Honra de Samurai

Na Trilogia Samurai engendrada pelo diretor Yoji Yamada –cujas primeira e segunda parte são “O Samurai do Entardecer” e “A Espada Oculta” –importa menos os embates físicos do que os dramas cotidianos enfrentados por seus heróis, sempre colocados diante de circunstâncias socialmente adversas.
Na terceira e última parte, “Honra de Samurai”, essa característica é considerada de tal forma radical que o trabalho de Yamada, mais até do que nos exemplares anteriores, quase deixa de ser um filme de samurai para consolidar-se como um drama de época; nenhuma espada sequer é brandida até o desfecho transcorrido em sua meia-hora final.
O jovem samurai Shinnojo (Takuya Kimura) confidencia com sua devotada esposa Kayo (Rei Dan) sua insatisfação com a função designada: Shinnojo é um provador de comida oficial do senhor feudal, ou seja, tudo que tem a fazer é experimentar a comida de seu senhor para assegurar-se que não está envenenada.
Não lhe restam assim oportunidades para demonstrar bravura.
Contudo, um infortúnio acomete Shinnojo quando ele experimenta, não uma comida envenenada, mas um fruto do mar preparado inadvertidamente; iguaria que, segundo o médico, cozinhada fora de época resulta tóxica.
Como seria seu dever, Shinnojo salva seu senhor da intoxicação, mas acaba severamente adoecido. Em casa, sua recuperação é lenta e dolorosa, e quando ocorre não vem desprovida de sequelas: Shinnojo fica cego, num efeito até bastante comum para aquele fruto do mar.
Assim, seus personagens principais, o casal Shinnojo e Kayo são confrontados com as carências que o diretor Yamada parece tão interessado em impor aos seus heróis: Além da angústia de perder sua utilidade como samurai, Shinnojo precisa testemunhar, impotente, o padrão de vida que oferecia à Kayo despencar.
Familiares se reúnem para tentar encontrar uma solução e a única que parece fazer sentido é insistir para que Kayo peça ajuda ao Conselheiro-Chefe Shimada (Mitsugoro Bando, de “Mishima-Uma Vida Em Quatro Tempos”), intervindo junto ao senhor feudal para considerar os serviços prestados por Shinnojo.
A decisão de manter o salário de Shinnojo até o fim da vida chega, mas, o alívio à casa de Shinnojo não vem com ela: Logo, boatos alcançam seus ouvidos dando conta de que Kayo, outrora virtuosa e incorruptível, fora vista frequentando uma mal-falada casa de chá.
O responsável por tudo é o próprio Conselheiro Shimada, vilão detestável, sórdido e dissimulado que, ao denegrir o casamento de Shinnojo, compromete também sua honra. E, no código sempre irrestrito dos samurais, a honra manchada não pode ser deixada de lado enquanto não for lavada com sangue.
A tensão que precede o duelo final –elemento que Yamada trabalha e evidencia com muito mais interesse do que o combate propriamente dito –é assim potencializada pelo fato do protagonista ser cego: “Honra de Samurai” no registro dos percalços físicos (e bastante plausíveis) da falta de visão, passa longe da ação mirabolante vista e aplaudida nas lendárias aventuras de “Zatoichi”; e é esse mesmo seu objetivo: Tão mais aflitivo é seu embate derradeiro justamente por sabermos que seu diretor não haverá de ceder facilmente ao improvável em função de um final feliz.
Assim, a chamada “Trilogia dos Samurais Pobres” se encerra num capítulo tão notável e intensamente dramático quanto aqueles que o antecederam,  servindo de testemunho à retidão moral e à tenacidade técnica e artística de seu realizador.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Espada Oculta

Segunda parte de uma trilogia que concebeu –e cujo filme inaugural é o prestigiado “Samurai do Entardecer” –este filme do diretor Yoji Yamada tem a particularidade de entregar uma trama que se desfralda aos poucos perante o expectador, assim como uma ênfase dramática de natureza mais íntima, o que paradoxalmente reforça as (poucas) cenas de lutas de espada quando estas ocorrem.
O início do filme acompanha dois grandes amigos que servem como samurais ao xogunato, um sistema que atravessava períodos de mudança.
Katagiri (Masatoshi Nagase) e seu amigo negociam o casamento dele com sua irmã, no entanto, este plot tem pouca importância à narrativa; percebemos que, por alguma razão ainda não revelada, a câmera de Yamada se concentra não nesses personagens (Katagiri, sua irmã e o amigo pretendente), mas em Kie (Takako Matsu), a bela empregada que procura manter-se discreta durante toda a cena. Não é à toa: Será ela, de fato, o cerne de uma das duas tramas paralelas que conduzem o filme.
Kie e Katagiri se amam, mas as diferenças de castas tornam sua união inapropriada, fato que a leva a desposar um comerciante com o qual acaba por sofrer maus-tratos. Katagiri confronta o protocolo e a aceitação social ao tirá-la da casa do esposo onde é deixada quase para morte de doença e a leva de volta para sua moradia.
Ainda que felizes juntos, essa é uma situação que nenhum deles será capaz de sustentar por muito tempo.
A segunda trama de “A Espada Oculta” –e que se entrelaça com a primeira somente na medida em que as duas sintonizam suas tensões –envolve um ex-samurai, antigo amigo de Katagiri, e que agora acabou preso por aliar-se à reformistas do governo.
A maior abertura do governo à negociações exteriores trouxe as novidades da artilharia bélica (as cenas onde tentam disparar um canhão ou operar com rifles e baionetas são divertidas), deixando os samurais, seu código de honra e seu estilo de combate à beira do obsoletismo. Diante disso, são naturais os esforços de alguns para deter as transformações em sua cultura, o quê faz de alguns samurais, como Katagiri, suspeitos de uma traição em potencial.
A chance para que ele prove sua lealdade vem em forma de uma imposição cruel: Quando seu antigo amigo escapa da prisão, Katagiri (com quem ele partilhou o mesmo árduo treinamento) recebe a incumbência de matá-lo e assim provar-se merecedor de confiança.
A saída para escapar com vida nesse duelo, para Katagiri, talvez esteja em extrair de seu antigo mestre uma lição que ele não havia lhe ensinado: o golpe da Espada Oculta.
Há toda uma elaborada conscientização temática a unir esses filmes sobre ‘samurais pobres’ concebidos por Yamada, e diz respeito ao fato, nem sempre observado em aventuras que reforçam a bravura, o vigor e a invencibilidade dos protagonistas, de que mesmos os mais intrépidos e implacáveis samurais (ou talvez, sobretudo, eles) partilhavam de um medo avassalador de morrer ante o fio de uma espada nos duelos que disputavam.
Em seus belíssimos trabalhos, Yamada tangencia e potencializa esse medo –grande responsável pela impecável tensão que domina o filme –através das tramas familiares, quase sempre a respeito de questões afetivas que cercam os guerreiros entre as quatro paredes de suas casas: Para o diretor, a idéia, por exemplo de morrer sem jamais tornar a rever a mulher amada ou de perder a oportunidade de declarar um amor não declarado é mais assustadora que a ferocidade de qualquer adversário.

terça-feira, 14 de março de 2017

O Samurai do Entardecer

Há um considerável risco do maravilhoso filme do diretor Yoji Yamada aborrecer aqueles expectadores que estiverem ávidos por um filme pontuado por lutas de espadas (aqui elas existem, porém, definidas e específicas, cada uma delas conta) e por uma narrativa que enalteça a bravura, a valentia, à exemplo dos filmes de faroeste.
O diretor faz uma escolha decisiva ao evidenciar a extraordinária bravura de seu protagonista através das minúcias mundanas de seu drama doméstico: Dedicado à suas duas filhas pequenas e à sua mãe cada vez mais senil desde que ficou viúvo, o samurai Seibei, por seu compromisso familiar rígido, recebeu o apelido dos companheiros de trabalho de “Seibei Entardecer” –quando o sol se põe, ele ruma direto para casa, ao contrário dos demais, que têm por destino a taverna local.
A presença de uma esposa faz falta na vida de Seibei (interpretado com primor por Hiroyuki Sanada no papel que o tornou um astro internacional): Suas roupas, tais como ele próprio, se encontram em situação de miséria, e as condições dentro de casa, sobretudo quando à limpeza a alimentação não estão muito melhores sem uma dona da casa que harmonize as tarefas. Essa atividade, somada ao trabalho junto ao clã, sobrecarrega Seibei.
Parece ser então providencial que a bela Tomoe (Rie Myiazawa, cativante), irmã de um grande amigo de Seibei, e grande amor deste na juventude, tenha se separado do marido após um matrimônio infernal e violento.
É providencial, mas a providência tem, também, algo de cruel: Pesa em Seibei a possibilidade de condenar Tomoe a uma vida sem luxos que ele, como humilde samurai, é incapaz de proporcionar.
Yoji Yamada faz uso de sua capacidade primorosa em ressaltar o drama em suas mais variadas sutilezas para entregar um dos mais aclamados filmes de samurai das últimas duas décadas (embora eu ainda prefira o magistral “A Última Espada”, de Yojiro Takita).
Não é para menos: Seu trabalho enfatiza os percalços humanos sobrepostos ao código milenar de honra samurai e às lutas inevitáveis de espadas que se seguem –ainda assim, devido à esse suporte dramático poderoso, tais lutas, quando surgem em cena, ganham em peso, importância e significado emocional junto ao público.
Brilhante.
É o primeiro filme de uma consagrada trilogia que Yoji Yamada entregou anos mais tarde, e que sempre abordava a trama e suas ramificações sentimentais a partir das privações experimentadas por samurais de segundo escalão, ausentes de glamour –pode ser chamada de “A Trilogia dos Samurais Pobres”.