Sem firulas, o trabalho do diretor Nicholas Ray
–sólido, objetivo e firme como convém a um faroeste dos bons –já inicia-se com
um assalto de diligência que dá o pontapé à trama.
Quando o violeiro Johnny Guitar (Sterling
Hayden) chega à localidade do Arizona que abriga a taverna de Vienna (Joan
Crawford, espetacular), os homens do xerife (Ward Bond) já estão a procurar os
responsáveis que no ensejo mataram o irmão de Emma (a brilhante Mercedes
McCambridge), a terrível vilã do filme.
Para Emma, ensandecida pelo rancor, o culpado
tem de ser o objeto de seu desejo frustrado Dancing Kid (Scott Brady) que tem
em Vienna uma espécie de amiga –o quê faz de Vienna o alvo também do ódio
incontido de Emma.
Logo fica claro que os homens do xerife, e ele
próprio, são suscetíveis às imposições coléricas de Emma. Ela rejeita por
completo a ideia de algo interferindo no que ela supõe ser a a harmonia daquele
fim de mundo. Para ela, a chegada iminente do progresso trazido pela ferrovia
que se aproxima é um mau presságio –e, sob muitos aspectos, Vienna representa
esse progresso, sobretudo, na fé que ela deposita na prosperidade que isso
trará.
Já, Dancing Kid –que, junto de Vienna e Johnny
Guitar, integrará o triângulo amoroso que conduzirá a trama –não esconde uma
certa indiferença para com a lei: Seu bando, constituído por Corey (Royal
Dano), o jovem Turkey (Ben Cooper) e o impulsivo Bart (Ernest Borgnine),
procura arduamente por prata em uma mina nas redondezas da qual a localização
somente eles e Vienna conhecem; todavia, a falta de dinheiro, assim como a
inevitável implicância local, os fará ceder às tentações do crime.
Mais tarde, quando todas essas dinâmicas
estiverem estabelecidas, descobriremos que Johnny Guitar é, na verdade, Johnny
Logan, um hábil e temido pistoleiro e um antigo amor de Vienna. Ele voltou para
reconquistá-la e, se possível, levá-la embora de lá.
Os planos de Vienna são de ficar, mas quando
Dancing Kid finalmente cede às insistências de Bart para assaltar o banco do
lugar, Emma encontra uma forma de estender a culpa desse crime também para a
inocente Vienna.
Ela dependerá da sagacidade e da desenvoltura
de Johnny para sobreviver à perseguição de tantos inimigos e desvencilhar-se da
complicada teia de alianças, culpa e responsabilidade que se formou em torno
dela.
Notável por sua realização, e ainda mais pelo
gesto pioneiro de fornecer um protagonismo inédito à uma personagem feminina
que não se submete às caracterizações estereotipadas (e ainda impõe uma certa
liderança), “Johnny Guitar”, mesmo que indo de encontro à alguns reflexos
condicionados do sexismo da época, é uma pérola incomum em meio à tantos
grandes clássicos do faroeste que sobreviveram incólume ao tempo.
Seu clímax é um indicativo pleno de suas
intenções: Ao fim, quando todo o palco é preparado para o apoteótico tiroteio
final, com os personagens renegados e um lado e os empostados homens da lei do
outro, todos os personagens chegam à conclusão que esta é a consequência de uma
briga entre duas mulheres de gênio e temperamento tão forte que sobrepujaram
toda uma comunidade de homens, levando-os ao combate por isso; e, portanto,
deixam que sejam elas (e somente elas) quem decidam em seu derradeiro duelo, o
destino que tal desfecho terá.
Não à toa, muitos apontaram o dedo para as
intenções possivelmente femininas e até subversivas do enredo; alguns até
enxergaram ali, naqueles anos 1950 de então, uma alegoria contra o Senador
Jospeh McCarthy e sua perseguição ideológica em Hollywood (vale lembrar que o
próprio astro Sterling Hayden esteve entre delatores que entregaram conhecidos
no Comitê Anti-Comunismo).
Independente dessas conclusões, fruto do
período em que foi lançado e avaliado, “Johnny Guitar” continua sendo uma obra
fenomenal que goza do prestígio de ter sido influência direta para outros dos
maiores faroestes de todos os tempos, “Era Uma Vez No Oeste”, de Sergio Leone,
no qual também estava em foco a transfiguração do progresso e o essencial papel
da mulher em pleno Velho Oeste.
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