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sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Expresso da Meia-Noite


Embora seja Alan Parker o diretor do filme –e ele cumpre essa função com o brilhantismo que se espera dele –nota-se hoje que “O Expresso da Meia-Noite” já vinha envolto em estilo e temática que se aproximavam muito mais de seu roteirista, o sempre inquieto e incontornavelmente polêmico Oliver Stone (que conquistou o Oscar de Melhor Roteiro por este trabalho).
Stone constrói a estrutura do filme com a denúncia corrosiva, a consciência ultrajante das mazelas morais e a opção documental de expor a sordidez ao público que definiu sua carreira quando ele resolveu, a partir da década de 1980, assumir a função de diretor.
No filme, o tal ‘expresso da meia-noite’ é um termo coloquial, quase uma gíria empregada pelos detentos quase indigentes da inclemente prisão turca onde o jovem protagonista vai parar; ‘expresso da meia-noite’ significa a fuga, a (tentativa de) escapatória do lugar, algo tão improvável quanto o apelido que recebe.
Flagrado com uma quantia de haxixe, em Amsterdã, no aeroporto de Stambul quando tentava embarcar de volta para os EUA, Billy Hayes (Brad Davis, no papel mais marcante de sua carreira), de um simples turista norte-americano se torna, com a acusação inafiançável, um prisioneiro condenado a viver o intolerável inferno que é o sistema penitenciário turco de então.
Lá, as torturas atrozes e o tratamento sub-humano desafiam a sanidade de seus encarcerados.
Os quatro anos de cativeiro experimentados por Billy (bem como a degradação física e psicológica que tais revezes lhe impuseram) são relatados com realismo e crueldade pela direção de Parker e pelo roteiro de Stone com inquestionável vigor neste filme que marcou época por sua crueza.

sábado, 24 de junho de 2017

Mississipi Em Chamas

Pense nas melhores atuações da carreira de Gene Hackman. Pense no mais tenso filme policial. No mais brutal retrato do racismo. Agora coloque tudo em um só filme. Foi isso que o diretor Alan Parker basicamente fez neste antológico “Mississipi Em Chamas”.
Durante os anos 1960, nas rigidamente segregadas comunidades sulistas do Mississipi, três jovens estudantes idealistas (dois brancos e um negro) são assassinados. Para solucionar o caso que esbarra diretamente no predominante racismo local são designados dois agentes do FBI, um jovem e comprometido com as leis, as autoridades e a ética (Willen Dafoe, num trabalho admirável), e outro veterano, acostumado aos meandros nem sempre corretos, necessários para resolver um crime (Gene Hackman, estupendo).
Os dois batem de frente com a corrupção vigente no sistema local (e que, em função da natureza dos homicídios, revela-se um obstáculo ainda maior para o cumprimento da lei), com a complexidade da elucidação do que exatamente ocorreu e com a forte segregação sulista que não raro desemboca em ocorrências violentas.
Concebido nos anos 1980 –época provavelmente do auge criativo do diretor –e amparado numa alarmante história real (a partir da qual a produção elaborou um trabalho com poderosas inclinações de um cinema à moda antiga), este filme policial mostra-se brilhante nos mais diversos aspectos, a começar pelo fenomenal contraponto entre a interpretação de Gene Hackman e a caracterização bastante dedicada de um ainda jovem Willem Dafoe.
Em meio às imagens vigorosas captadas pela fotografia magistral (ganhadora do Oscar), o diretor Parker registra então uma série de embates: O novo contra o antiquado (e, em sua orientação de propósito, ele parece beneficiar a eficácia dos veteranos), a segregação contra a conciliação, a violência contra a racionalidade, enfim, a lei contra o crime.
Podem argumentar que existe uma série de opções de ordem demagógica que norteiam sua realização (sobretudo, no que diz respeito ao desfecho bem-sucedido das investigações oposto ao que aconteceu na realidade), mas não há como questionar a excelência cinematográfica que é atingida aqui.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Coração Satânico

A lista dos filmes genuinamente assustadores do gênero terror é limitada. Quando perguntamos a alguém quais os mais assustadores filmes de todos os tempos, os títulos tendem a ser os mesmos: “O Exorcista”, “O Iluminado”, talvez “O Bebê de Rosemary” se a pessoa tiver boa memória, talvez “A Profecia”, conforme o gosto pessoal.
Alguns de paladar mais específicos irão lembrar de filmes mais cults e obscuros, como “Evil Dead” ou “Hellraiser”. É curioso que, dentre todos esses filmes, seja pouco lembrado sensacional e francamente amedrontador “Coração Satânico”.
Uma prova de que o diretor Alan Parker foi capaz de passear por inúmeros gêneros, e dentro deles, urgir obras sempre pertinentes –ainda que, hoje em dia, ele não entregue nada relevante a algum tempo.
O filme acompanha a via-crusis de um detetive, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, então no auge do sucesso que seu talento e boa pinta lhe proporcionou nos anos 1980. Ele recebe um caso no qual tem de encontrar o paradeiro de um certo Johnny Favorite, um ex-combatente da guerra que simplesmente evaporou.
Seu cliente é alguém ardiloso e cheio de segundas intenções, Louis Cypher (personificado com prontidão maligna por Robert De Niro) por meio de quem, dependendo da atenção do expectador, é até possível antecipar a grande revelação-surpresa da trama.
Mas, não o seu impacto.
Isso porque a investigação levada por Angel, e conduzida pela narrativa poderosa, esmagadoramente expressionista e inquietante de Alan Parker, tem até alguns elementos do film noir, mas se ampara quase que totalmente nas características do mais alarmante dos filmes de terror: A medida que vai descobrindo os passos do homem desaparecido, o detetive adentra um mundo perturbador de rituais macabros, seres sinistros e sombras preocupantes, enquanto novos crimes começam a se suceder, e ele é confrontado com visões enigmáticas que aos poucos vão revelando uma verdade horripilante.
Tudo culmina no terrível instante final do filme, quando as inúmeras pontas soltas do roteiro (e que aparentavam ser apenas isso, pontas soltas!) convergem numa solução das mais corajosas para um filme produzido pelo cinema norte-americano e o diretor Parker nos deixa com um último e memorável take, tão aterrorizante que dificilmente tal imagem sairá de nossa memória.