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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Assim Nasce Um Homem

Dos muitos exemplares revisionistas que o faroeste ganhou nos anos 1960 e 70, este “Nasce Um Homem” tem como produtor associado um ainda jovem Jerry Bruckheimer, antes de tornar-se o poderoso (e explosivo) produtor hollywoodiano que todos conhecem.
Nele, a visão romântica da vida aventureira de vaqueiro que se observa nos clássicos antigos ganha uma desmistificação intimista nos moldes do que há algum tempo a literatura já o fazia.
O jovem Ben Mockridge (Gary Grimes, de “O Verão de 42”) é um morador de uma cidadezinha norte-americana que, como tantos rapazes, sonha em conhecer o mundo e provar a própria coragem e destemor vivendo como vaqueiro nas pradarias do Oeste.
Ele conquista tal oportunidade ao ser aceito no grupo de Frank Culpepper (Billy Green Bush), cujos vaqueiros devem conduzir uma boiada por quilômetros do deserto americano.
Ao longo da jornada, Ben –que arruma a ocupação de ajudante de cozinheiro a quem chamam de ‘Little Mary’ –irá perceber que as histórias romantizadas das aventuras de vaqueiros que ouvia com seus amigos não incluíam os relatos de exaustão, fome e privações extremas que experimentará; nem tampouco que os desafios de bravura envolvendo o manejo de pistolas e outras armas incluíam a injustiça paralisante, a traição constante, o medo real diante da morte e a violência inóspita e sanguinária.
Duas personalidades parecem ilustrar com perfeição, aos olhos do assombrado Ben, os extremos da vida no Oeste: O próprio Culpepper, numa atitude sempre distante, quase indiferente, assolado pelo fardo da liderança, e o intenso, selvagem e beligerante Russ Caldwell (Geoffrey Lewis, em ótima atuação), cuja presença exala uma mistura ameaçadora e perigosa de valentia inconsequente.
Entretanto, será Russ, e não Culpepper, quem definirá o clima e o ritmo na apoteótica cena final, quando, após inúmeras aventuras e desventuras, a comitiva se encontra com um grupo de despossuídos, ameaçados pelo mesmo dono de terras que lhes roubou algumas armas, pouco antes.
Ben, então rompe com a resignação de Culpepper (sempre disposto a colocar a importância da manada de bois e sua função a frente de tudo), e decide ficar para proteger as pessoas. Impelido mais por um desejo de revanche do que por justiça, Russ e seus amigos resolvem fazer o mesmo e assim, o jovem Ben testemunha, nessa sequência final, sangrenta e explosiva, todas as variações terríveis e imprevisíveis da vida no Oeste como ele jamais imaginava que seria.
Seu encontro pessoal com a própria coragem e com a própria ética, se dá no desfecho, quando os despossuídos, numa atitude algo indigna, já não querem mais aquela terra pela qual tantos morreram para lhes assegurar.
“Ela está maculada por sangue” alegam eles.
Não importa. O que está feito, está feito, e Ben, o menino agora transformado em homem, irá coagi-los a pelo menos prestar um enterro justo e respeitoso à Russ, o pistoleiro assassino e provocador que deu sua vida para que eles tivessem dignidade.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os Intocáveis

Diante do status indissolúvel de clássico moderno que esta obra de Brian De Palma adquiriu com o tempo fica um pouco difícil observa que ela era, primeiramente, uma adaptação cinematográfica de uma série de TV, nos moldes do que, anos depois foi feito em “Missão Impossível” (dirigido pelo próprio De Palma) e “As Panteras” –por mais díspare que seja essa comparação.
Ainda assim, a direção refinada de De Palma, o roteiro brilhante e intenso de David Mamet, a música antológica de Ennio Morricone e o espetacular elenco reunido fazem desta uma obra inteiramente cinematográfica.
O período da Lei Seca vigora em Chicago. É o auge do controle do poder gangster e, portanto, terreno fértil para que o mafioso Al Capone (Robert De Niro) possa prosperar a frente de um império.
Sem maiores recursos e sem muita chance de sucesso, o agente federal Elliot Ness (Kevin Costner), cerca-se de policiais incorruptíveis –o veterano e experiente guarda das ruas Malone (Sean Connery, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), o íntegro promotor Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e o jovem e habilidoso cadete George Stone (Andy Garcia) –para levar a cabo sua cruzada de finalmente por na cadeia esse chefão do crime organizado de Chicago.
Tão magistral é o trabalho de Brian De Palma (amparado nas estupendas atuações de todo o elenco, em especial o magnífico Sean Connerry e Robert De Niro, sensacional como Al Capone) que o resultado alcançado aqui se lança num patamar além das brilhantes obras referenciais que ele entregou no passado (e que tinham, também elas, um valor artístico próprio e insuspeito) incorporando uma sucessão de cenas fabulosas cujo impacto supera e mera homenagem, a melhor delas: Um tenso e brilhantemente montado tiroteio no qual um carrinho de bebê desce as escadarias em câmera lenta numa esplêndida referência à "Encouraçado Potenkin" –mas, realizada com um primor tal que, hoje, a própria cena em si é lembrada como uma das grandes seqüências do cinema.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um Local Muito Quente

Michael Mann. Curtis Hanson. Irmãos Coen. Lawrence Kasdan. Muitos foram os renomados cineastas contemporâneos que, ao seu modo, tentaram dar uma roupagem moderna ao film noir. À eles pode-se incluir o nome do astro e também diretor Dennis Hopper, com seu “The Hot Spot”.
O cinema de Dennis Hopper em geral caracterizava-se por excessos –a exceção é justamente o equilíbrio do filme que viabilizou sua carreira como diretor, o memorável e contracultural “Sem Destino” –refletidos quase sempre na violência e na tensão de seus trabalhos.
O noir, na perspectiva de Hopper ganha, com a modernidade, em lascívia e sordidez; elementos que ele até compartilha com outros de seus colegas que se aventuraram no gênero. Sob seu olhar, o gênero em si é convulsivo com suas próprias regras, agregando uma série de novas angústias a medida que a permissividade do tempo a que pertence determina o vislumbre das facetas brutais, desonestas e disfuncionais do seu universo.
E Hopper, neste filme, se esbalda em enumerá-las.
Ele lança mão de duas deslumbrantes atrizes que não parecem se intimidar com as cenas de nudez que o roteiro cobra delas: A morena jovem e estarrecedoramente linda Jennifer Connelly, e a loira tentadora e vulcânica Virginia Madsen.
Elas representam os dois extremos entre os quais pende o protagonista Don Johnson.
Seu personagem, Maddox, chega numa escaldante cidadezinha do sul dos EUA e logo impõe-se como bom vendedor de carros na loja do Sr. Harshaw (Jerry Hardin). Suas ambições, contudo, vão além: Ele elabora o que parece ser, em princípio, um crime perfeito; rouba o banco local durante um incêndio forjado –quando os funcionários se ausentam por serem bombeiros voluntários –e, logo depois, procura garantir que muitos o vejam salvando alguém em meio ao próprio incêndio.
Isso não o impede de tornar-se suspeito dos policiais –que são mostrados pelo roteiro com procedimentos sem nexo e descabidos –acusação da qual só consegue se livrar graças à intervenção de Dolly Harshaw (Virginia Madsen), que apesar de ser esposa de seu patrão torna-se sua amante.
A outra ponta do triângulo amoroso é Gloria Harper (Jennifer Connelly, num de seus primeiros papéis adultos e já com uma cena reveladora!), moça que o filme coloca como o perfeito oposto de Dolly –é inocente, aparentemente pura e de uma beleza quase angelical –embora ela também tenha lá seus segredos.
O diretor Hopper, assim, constrói uma teia de criminalidade, de mentiras e de segredos sórdidos a envolver seus personagens tão mais sufocante devido à ambientação abafada, ensolarada, e ao clima de luxúria que se impõe; na sua concepção, ele está levando o noir à um novo patamar, mas na realidade está apenas ousando nos aspectos gráficos que os realizadores de outrora não podiam. Seu filme carece de uma série de deficiências: A natureza de sua proposta nunca parece se harmonizar com sua moral torpe, nem tampouco com o final ambíguo e pretensamente sarcástico à que ela leva.
Consegue entreter, é verdade, mas os nomes citados no início deste texto criaram outras obras infinitamente mais relevantes do que esta.