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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Círculo de Paixões

Este drama romântico juvenil lançado nos anos 1990 pouco consegue fazer para evitar a sensação de que sua premissa e toda sua produção se centralizam no casalzinho formado, inclusive na vida real, por Joaquim Phoenix e Liv Tyler, dois jovens astros proeminentes do período.
Ele, irmão do falecido poucos anos antes (e também muito promissor) River Phoenix, vindo de uma participação extremamente aclamada em “Um Sonho Sem Limites”, de Gus Van Sant.
Ela, uma badalada modelo, filha do vocalista do Aerosmith, Steve Tyler (havia até participado do videoclipe “Crazy” da banda do pai), em auspiciosa tentativa de emplacar como atriz.
Joaquim vive Doug Holt. Liv vive Pamela Abbott. E o romance entre os dois é tão óbvio quanto os obstáculos que também haverão de comparecer para impedir que seu amor se concretize, no melhor estilo “Romeu & Julieta” –obra que surge como a referência maior em meio à trama, situada na segunda metade da década de 1950.
No raso comentário social que o filme se presta, a cidadezinha de Haley tem seus aristocratas de praxe que inspiram admiração em uns e inveja em outros. Tais aristocratas são a Família Abbott composta do pai, Lloyd (Will Patton), da mãe, Joan (Barbara Williams) e das três irmãs, a abnegada Alice (Joanna Going), a intransigente Eleanor (a espetacular Jennifer Connelly) e a bem-comportada Pamela.
Certamente é esse misto de fascínio e amargura com o qual elas são vistas pelo jovem Jacey Holt (Billy Crudup) a ponto delas tornarem-se uma obsessão que o consumirá ao longo de todo o filme –até porque há uma nebulosa ligação entre os Abbott e sua família que será gradativamente elucidada ao longo do filme.
Contudo, não é pelos olhos de Jacey que acompanhamos a histórias, mas, sim pelos de Doug, seu irmão mais novo que, desde o início, luta para não alimentar o mesmo sentimento negativo que intoxica o irmão.
Se jacey, de início busca seduzir a mais rebelde as Irmãs Abbott, Eleanor, Doug até tenta evitar, mas não consegue desvencilhar-se dos percalços que sempre o aproximam de Pamela.
A despeito das intrigas familiares que os cercam –uma fofoca maldosa envolvendo sua mãe (Kathy Baker, de “Edward-Mãos deTesouras”) e o senhor Lloyd; os motivos mal-explicados que envolvem o acidente que matou o pai deles e as mentiras do próprio Jacey –Doug e Pamela parecem construir tímida e inocentemente um vínculo amoroso genuíno e puro.
Entretanto, como bem observa a direção algo padronizada de Pat O’ Connor (do estranho “O Calendário da Morte”), todos os demais personagens que rodeiam o casal protagonista parecem gravitar em uma ciranda de sordidez: Após um caso escandaloso com Eleanor (que a leva a ir embora de Haley), o obcecado Jacey volta suas atenções para Alice cujo casamento arranjado pelos pais atravessa uma fase ruim, perfeita para o aparecimento de sedutores ocasionais.
A narrativa, numa aparente falta do que fazer, justapõe os dois irmãos (vividos por bons atores, é preciso dizer) e suas personalidades incompatíveis –o rancoroso e, no fim, inescrupuloso Jacey, e o ingênuo e bem-intencionado Doug –para, no final das contas, empregar isso como uma mera lição de moral, sem maiores aprofundamentos.
O livro de Sue Miller, do qual se inspira, certamente trazia uma miríade narrativa muita mais rica para ser examinada diante de tantos personagens unidos numa mesma trama, mas a produção preguiçosamente não explorou nenhuma dessas possibilidades, focando única e exclusivamente no apelo do casal central junto ao público jovem daquela época.
No final, por uma ironia suprema, nem isso acabou sobressaindo: “Círculo de Paixões”, quando muito, é hoje mais lembrado por uma breve e transcendental cena de nudez de Jennifer Connelly do que por qualquer outra coisa!

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Segredo do Bosque dos Sonhos


O título original, “Non Si Sevizia Un Paperino”, na lógica algo lisérgica que o ‘giallo’ mantinha, diz respeito ao personagem do Pato Donald (?), que surge como um dado fundamental no desenlace.
Sua protagonista, a deslumbrante Barbara Bouchet –cuja primeira aparição se dá sem roupas a provocar a libido precoce de um garotinho de uns 12 anos (!) –vive uma dessas personagens investigadoras casuais, uma aura de empenho e ingenuidade a lembrar os personagens do desenho “Scooby-Doo” (!). Este é, contudo, o único vestígio de ingenuidade no filme de Lucio Fulci, tão pontuado de malícia e vulgaridade, como parecia ser regra entre os exemplares daquele sub-gênero.
O que destaca “O Segredo do Bosque dos Sonhos”, no entanto, é a inventividade de Fulci na condução do enredo, sua capacidade de desviar a atenção do expectador para o cerne devido de sua narrativa, e sua desenvoltura natural para com cenas de incontornável apelo macabro.
A produção é sensacionalista e rudimentar, como é inerente ao ‘giallo’, entretanto, a experiência de Fulci encontra meios de contornar essas facetas: Ele especula as muitas variações provincianas da região de Centura, saboreando com calma e satisfação os elementos da trama de suspense que constrói.
Leva um certo tempo até para que o primeiro assassinato ocorra.
E a descoberta disso, e da existência de um serial-killer naquele lugarejo é pontuada por redundância típicas de autoridades e habitantes de lugares pequenos cuja mentalidade fechada –e eventuais trapalhadas –interferem na investigação, ajudando o assassino.
Há o garoto sequestrado cujo suposto sequestrador, preso logo depois, se revela de uma inaptidão lamentável –não poderia ser ele autor da terrível morte que se constatou na sequência: O menino é encontrado morto.
A partir daí, em meio às investigações de praxe –pontuadas mais por bravatas dos investigadores do que por avanços de fato –Fulci parece interessado em plantar pistas falsas, como os suspeitos na forma da pretensa feiticeira interpretada por Florinda Bolkan, ou até mesmo a personagem cosmopolita e ex-viciada de Barbara Bouchet –que somente a partir de um determinado ponto será mostrada como a protagonista de fato.
Demanda um tempo considerável para Fulci ceder à convenção e reconhecer o astuto jornalista de Tomas Milian (o “Tepepa” em pessoa) como um dos personagens principais.
Uma analogia estranhamente comum entre o processo macabro da elucidação de uma série de crimes hediondos e o gradual êxtase provocativo e libidinoso.
Não à toa, as cenas de gore (até contidas para os padrões de Fulci) são trabalhadas com a mesma lascívia que as cenas de nudez de Barbara.
É o ‘giallo’ assimilando algumas lições implícitas do mestre Hitchcock, e colocando-as em prática com uma percepção muito mais exacerbada (proporcionada pela volatilidade artística dos anos 1970) com a qual o próprio mestre jamais sonhou.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Os Passos


Agraciado com a belíssima fotografia do mestre Vitorio Storaro (de “Apocalypse Now” e muitas das produções de Bernardo Bertolucci), este incomum suspense italiano estrelado pela brasileira Florinda Bolkan agrega elementos inusitados em sua premissa como a inicialmente intrigante cena de abertura, na qual vemos uma nave que pousa na Lua, onde um astronauta é abandonado.
A cena (mesmo contando com a ilustre ponta de Klaus Kinski) aparentemente não tem nada a ver com o filme que se inicia depois dela: Alice (Florinda) acorda de um sonho. Ela é uma portuguesa que leciona na Itália, e trabalha ocasionalmente como intérprete em reuniões diplomáticas.
Ele identifica algo intrigante quando percebe que houve um lapso de três dias em sua vida: Sem que ela percebesse, a memória desses últimos dias se perdeu completamente, e seus amigos e conhecidos não tiveram qualquer notícia dela.
Abalada com esse fato, ela persegue pistas do que pode ter se passado nesses dias que esqueceu (como um misterioso cartão-postal rasgado em seu apartamento) e termina indo parar num hotel em Carma, onde é reconhecida por vários transeuntes (sem que possa deles se lembrar) que a chamam pelo nome de Nicole (!).
Com sua busca cada vez mais engolfada por um clima de pesadelo proporcionado pela direção de Luigi Bazzoni, ela começa a duvidar da própria sanidade a medida que caminha em direção à verdades perturbadoras.
Em algum momento desse autêntico delírio, essa emulação algo desleixada, mas não isenta de mérito de Hitchcock irá retomar a intrigante situação inicial do astronauta, que desde então vinha intercalando a trama sem, no entanto, apresentar qualquer ligação plausível com ela.
Falta a Luigi Bazzoni a capacidade para urgir os diferentes elementos desse plot num só arremate harmonioso –elemento essencial para um diretor conduzir com habilidade um suspense –mas, ele compensa esse lapso com uma noção admirável de ritmo e diversas sequências de caprichado enquadramento visual.