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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ataque dos Cães


 Existe um curioso contraste de expectativas na filmografia de Jane Campion desde sua revelação em “Sweetie” (1989) e “Um Anjo Em Minha Mesa” (1990); presume-se que haverá toda uma sensibilidade de natureza feminina em suas realizações e o que encontramos, na maioria das vezes, são retratos áridos e intimistas da aspereza, da agressividade, ainda que a sutileza com que se dá tal execução seja, quase sempre, mérito dela ser mulher.

“Power Of The Dog” –ou “Ataque dos Cães” numa tradução insatisfatória e insuficiente do título original –exemplifica bem essa disfunção: Um faroeste quase contemporâneo (ambientado em 1927) onde não se dispara um único tiro a despeito dos níveis elevados de tensão que ele consegue atingir. Sua atenção está em facetas inerentes aos seus personagens e como tais aspectos são determinantes para seus desfechos. Com efeito, as frases que encerram e que terminam o filme (a primeira, mencionada por um dos personagens; a segunda um versículo bíblico que, inclusive, esclarece seu título) são fundamentais para a compreensão de seu propósito.

Os dois irmãos Burbank tocam seu rancho e sua criação de gado. São eles o irascível e insensível Phil (Benedict Cumberbatch, brilhante) e o comedido George (Jesse Plemons, de “Jungle Cruise”, numa atuação cheia de dignidade). Os irmãos têm personalidades tão opostas quanto complementares, e somente assim, a dinâmica entre eles parece funcionar: George tenta ignorar as truculências de Phil, enquanto Phil faz, na medida do possível, vista-grossa ao fato do irmão agir e ser diferente em tudo e por tudo dele. Caso de uma parada ocasional de sua comitiva numa humilde estalagem onde fazem a refeição –estabelecimento tocado pela viúva Rose (Kirsten Dunst, num corajoso registro dos efeitos da idade e da desilusão sobre sua outrora beleza) com a ajuda do solícito filho Peter (Kodi Smith-McPhee), um garoto retraído de hábitos peculiares. Lá, Phil de pronto implica com Peter, autor das flores de papel que decoram as mesas. A situação exaspera os ânimos da entristecida Rose e, numa tentativa de confortá-la, George se enamora dela.

Quando os dois decidem se casar, automaticamente transferem essa circunstância para o rancho da família: Uma vez lá, Rose –que padece de potenciais problemas de alcoolismo –encontra dificuldade em lidar com a ameaça que o ambiente excessivamente rigoso e masculino exerce sobre as fragilidades de seu filho, e, sobretudo, com a presença nada amistosa, cheia de rancor e crueldade de Phil.

Ele, contudo, esconde celeumas insondáveis: Fala o tempo todo de seu falecido mentor, um certo Bronco Henry –personagem que nunca aparece, mas é essencial à narrativa –e, embora recrimine Peter o tempo todo devido ao seu suposto comportamento afeminado, aos poucos, é o próprio Phil quem dá indícios de suas tendências homossexuais surgidas ainda jovem em sua relação com Bronco Henry. O foco deste trabalho de Jane Campion, diretora hábil na ênfase das arestas inóspitas do amor, é, portanto, a masculinidade tóxica, tornada ainda mas desprezível quando vem adornada pelos elementos da hipocrisia: O protagonista, tão acusatório, persecutório e supostamente másculo de Benedict Cumberbatch ofende, recrimina e agride as pessoas por aparentarem ser aquilo que, no fundo, ele é.

Tal condição, segundo rege a implacável cartilha dramática construída por Campion aqui, o torna alguém perigoso, um cão raivoso: É questão de tempo, percebe Peter, que Phil encontre pretextos para fazer mal à instável Rose, e quando acontecer, talvez seja tarde demais para o sensato George tomar alguma providência. Sendo assim, sem que sequer o expectador se dê conta, engrenagens se movimentam, ao longo da narrativa pausada, episódica e atenta aos mínimos pormenores, para consolidar um plano em movimento do qual só no momento certo (leia-se, nos quinze minutos finais!) teremos a devida consciência.

Intimista ao extremo, na contramão do cinema convencional e cada vez mais barulhento de hoje, “Ataque dos Cães” é uma obra de rara contenção na qual tem-se a impressão que muito pouca coisa, ou quase nenhuma, acontece durante sua nada modesta duração. Ledo engano: Se o registro, em princípio, parece ser o de uma rotina campestre pontuada por tensões humanas e subliminares, em suas profundezas, muitas motivações, informações e reflexões estão em trânsito a fim de construir um premissa carregada de um incomum e inestimável significado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Mundos Opostos


 Escrito e dirigido pelo argentino Juan Solanas, “Mundos Opostos” é uma fusão entre ficção científica altamente fantasiosa e romance melodramático e rasgado, amparado em conceitos visuais que ora funcionam, ora emolduram um certo vazio em sua caracterização.

No mundo fantástico em cujo contexto a trama está inserida, existem dois ‘planetas gêmeos’, por assim dizer, com todas as características urbanas do planeta Terra; eles têm superfícies que são tão próximas que um chega a encobrir o céu do outro.

Um deles se chama o Lado de Cima –rico, cheio de belíssimas construções e pleno de vida confortável –o outro se chama o Lado de Baixo –paupérrimo e sujo, quase uma espécie de subúrbio –e existem certas regras: Cada indivíduo é atraído pela gravidade de seu próprio mundo, e a permanência no mundo vizinho pode levar o intruso a incendiar-se (!) ficando lá por muito tempo.

Com essas barreiras existenciais e mirabolantes elaboradas, o filme se ocupa então de moldar sua já desafortunada história de amor: Adam (Jim Sturgess) é um órfão a viver no Lado de Baixo; Eden (Kirsten Dunst) é uma jovem a viver do Lado de Cima. Ainda muito jovens, eles se apaixonam ao se encontrarem por meio de duas montanhas em seus mundos que quase se tocam numa região remota.

Como a transição entre os mundos é proibida –sobretudo a ida de moradores de Baixo para o Lado de Cima –eles são perseguidos por soldados, e Eden cai da montanha. Sem que Adam fique sabendo, ela tem amnésia e o esquece pelos próximos dez anos.

Entretanto, uma oportunidade de rever o amor perdido surge para Adam quando enxerga, certo dia, Eden na TV: Ela agora é funcionária da corporação Transmundo –que explora implacavelmente a mão de obra do Lado de Baixo para prover riqueza ao Lado de Cima, mas que representa o único meio de fato desses dois mundos se entrecruzarem.

Ao criar uma fórmula revolucionária –um creme facial que utiliza propriedades de ingredientes do mundo inverso para desafiar a gravidade –Adam obtém aval para então trabalhar no edifício da Transmundo, um complexo que une os dois mundos –e um achado em termos de direção de arte –no qual, em sua interseção, o chão de um andar, significa o teto do outro (!), com funcionários de Cima e de Baixo interagindo uns com os outros, ainda que regidos por rígidas normas.

O objetivo de Adam não é progredir profissionalmente, mas sim reencontrar-se com Eden, e retomar seu amor de onde ele foi interrompido; o que significa escapadas cuidadosamente planejadas para o outro lado, onde precisa compensar a gravidade que o puxa de volta para cima e o perigo de morrer queimado se lá ficar tempo demais.

Os propósitos que a concepção dessa trama muito particular atende parecem ser explicitamente visuais: Na ânsia de retratar o universo singular no qual se ambienta, o filme do diretor Solanas lança mão de exuberantes recursos na direção de fotografia, subterfúgios imaginativos no emprego de ângulos inusitados de câmera –sobretudo, plongées e contra-plongées –e emoldura a obra, de ponta a ponta, com imagens de extravagante elaboração visual, talvez para compensar seus rumos previsíveis.

Na analogia de simbolismo cristão que parece tentar fazer, o protagonista Adam (Adão), surge não em busca de uma contraparte feminina e romântica propriamente dita (Eva), mas em busca de uma utopia ainda mais virtualmente inatingível, Eden (o Paraíso), sempre acima, sempre além de suas perspectivas e possibilidades.

Se havia intenção reflexiva nessa metáfora sobre obstinação moral, então o roteiro e a direção cometeram pequenos deslizes, ao focar em elementos prosaicos, redundantes e pouquíssimo válidos na trajetória de altos e baixos do amor essencialmente pueril que registram; não há muita química entre o desengonçado inglês Sturgess e a bela, porém, inacessível Kirsten (detalhe complicado e comprometedor numa trama onde eles não se encontram em boa parte do tempo); e os pontos cruciais onde a história avança e evolui, essas etapas são construídas em cima de sequências de orientação clichê, presente em toda a qualquer produção rasteira sobre amor impossível que se preze.

Embora lance mão o tempo inteiro de cenas que enchem os olhos, “Mundos Opostos” apesar de belíssimo em sua concepção visual é vazio em sua caracterização artística do romance e do drama –um lindo portfólio em sua paleta de cores e em seus enquadramentos inquietos cuja mensagem se perde na banalidade de sua visão imatura sobre o amor.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Jumanji


O diretor Joe Johnston parece quase uma réplica de Steven Spielberg na forma como impõe um ritmo e estilo específicos no comando desta aventura para toda família (um estágio válido ele até tem já que antes de estrear como diretor, foi técnico de direção de arte de Spielberg em “Os Caçadores da Arca Perdida”, pelo qual, inclusive, levou o Oscar da categoria).
A presença de Robin Willians (repetindo em muitos aspectos o recorrente papel da criança num corpo de adulto) só vem a reforçar esta impressão.
Quando “Jumanji” começa, o prólogo nos introduz ao terror de montanha-russa que definirá o filme em uma cena onde garotos enterram, tomados de pavor, um caixa num terreno afastado.
Um século se passa e, na cidade de Bradford, o filme retoma sua trama –cuja primeira metade parece usar de ganchos narrativos como passagens de tempo para esticar a duração.
O protagonista Alan Parrish (vivido na primeira parte por Adam Hann-Byrd, de “Mentes Que Brilham” e “Tempestade de Gelo”) é um garotinho que encontra o tal jogo mágico em meio à uma escavação; a mesma caixa larga lá pelos jovens do começo.
Na aparência, “Jumanji” parece tratar-se de um daqueles jogos em que um lance de dados define o número de casas que cada jogador deve avançar. Entretanto, há algo de sinistro e sobrenatural que passa despercebido: Ele emite sons de tambores que somente as pessoas escolhidas para serem seus jogadores –em especial, crianças –são capazes de ouvir. Depois de iniciado, não há como interrompê-lo.
Ao iniciar distraidamente o jogo ao lado de uma amiga –Sarah vivida por Laura Bell Bundy na fase infantil e por Bonnie Hunt na fase adulta –Alan cai numa casa contendo uma armadilha, o jogo "Jumani" o leva assim a um mundo paralelo do qual só se liberta vinte e seis anos depois, já adulto (nas formas cômicas de Robin Williams), quando outras duas crianças, Peter e Judy (Bradley Pierce e uma novinha Kirsten Dunst) reiniciam o jogo novamente.
A cada jogada, perigos e acontecimentos dos mais insólitos se manifestam.
Para restaurar a ordem e encerrar todos os problemas acarretados pelo próprio jogo eles devem sobreviver e chegar a última casa.
Uma curiosa aventura de sessão da tarde que encontrou lá seus apreciadores nos anos 1990, “Jumanji” emprega funcionais observações à psicologia infantil –numa sacada que remonta o autor James Barrie, de “Peter Pan”, o caçador que persegue Alan ao longo do filme, e que representa o mais tangível vilão do filme, é interpretado por Jonathan Hyde que vive também o pai de Alan –enquanto se revela um veículo dos mais adequados em temática e tom para o estrelato de Robin Williams.
Não obstante a isso, seu maior apelo à época –os efeitos visuais empregados com ambiciosa abrangência –foram colhidos por uma enxurrada arrebatadora de inovações técnicas que dominaram essa área: A despeito do capricho, “Jumanji” já surgiu datado tendo sido lançado quase simultaneamente com os pra lá de inovadores “Twister” e “Independence Day”.

quinta-feira, 1 de março de 2018

As Duas Faces de Janeiro

Emanando uma nítida vontade de se provar, como todo o diretor iniciante, e uma imensa disposição em emular os grandes trabalhos de Alfred Hitchcock –em especial o maravilhoso “O Homem Que Sabia Demais” –o diretor Hossein Amini (mais lembrado como o roteirista de “Drive”) imprime desde o início uma atmosfera de desconfiança que seus personagens mal conseguem disfarçar por trás de sua estampa de casual casal norte-americano em viagem na cidade de Atenas, Grécia, em 1962.
Isso mesmo antes do acontecimento que detona o ponto de partida da premissa tirada do livro de Patrícia Highsmith (autora de “O Talentoso Ripley” e “Carol”): Chester e Colette MacFarland (Viggo Mortensen e Kirsten Dunst) aparentam ser meros turistas, e com isso chamam a atenção de Rydal (Oscar Isaac), um guia turístico, norte-americano como eles. Não falta a Rydal malandragem e flexibilidade moral para sobreviver tão longe de casa, e com inúmeras segundas intenções em mente ele se aproxima do casal.
Quando menos espera, porém, ele se descobre envolvido inadvertidamente nas encrencas de Chester que o seguiram até ali; um detetive particular, contratado por investidores indignados nos EUA, o confronta com suas dívidas a saldar, e Chester reage com violência, terminando com um cadáver em mãos e obrigando, ele e Colette a fugir junto de Rydal, que por puro acaso tomou conhecimento de tudo.
Acompanhando lentamente essa tentativa gaiata de fuga, o diretor Amini vislumbra uma ciranda de suspeitas e meias verdades. Chester não revela por inteiro toda a verdade para Colette, e o processo de manter as aparências diante da aflitiva situação o extenua; Rydal usa de subterfúgios para ficar por perto do casal e lucrar, além de manifestar um crescente interesse na mulher; já Colette dá corda à atração de Rydal, a despeito da impaciência crescente do marido, pois essa é sua maneira de manter algum controle numa situação em que pouco a pouco tudo começa a se descontrolar.
Dos três é Chester que irá se ressentir das circunstâncias desfavoráveis e sucumbir por primeiro ao desespero –registrado com a eficácia habitual do talentoso Viggo Mortensen.
Da tensão resultante, o diretor extrai o suspense que define seu filme e reitera a tragédia corrosiva que se abate na jornada deles. Fica longe de igualar qualquer obra de Hitchcock, mesmo as menores, mas resulta num entretenimento válido e sólido que recria até que bem a sensação que se tem ao ler um enxuto e elaborado conto pulp.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Estranho Que Nós Amamos

Eu ainda não vi o filme clássico estrelado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel, o que considero um grave lapso de minha parte: Isso torna impossível estabelecer, por enquanto, uma comparação entre os dois trabalhos, que acredito, devem ser contrastantes.
Avaliando o filme de Sofia Coppola por si só, é uma obra que reflete muito da própria diretora, seja tematicamente, seja esteticamente.
Como sempre, Sofia pegou um material e dele fez algo seu.
A trama começa com a pequena Amy (Oona Laurence) caminhando despreocupada por um bosque a colher cogumelos. O registro lúdico, a escolha criteriosa dos enquadramentos, o ritmo controlado –tudo já remete ao estilo já conhecido de Sofia onde ela privilegia a contemplação.
Esse estilo persiste e permanece ao longo do filme, quando Amy encontra, ferido e fraco, o Cabo John McBurney (Colin Farrell, no que eu deduzo ser uma escolha deliberadamente destoante em relação à Clint Eastwood no filme original).
O soldado –ianque e, portanto, vindo do lado inimigo –pede ajuda à menina que o leva à mansão, uma escola sulista para meninas administrada pela enérgica Srta. Martha Fansworth (Nicole Kidman, sempre competente) que recebe o enfermo com relutância, e uma empolgação mais bem disfarçada do que as demais. Lá cercado por sete mulheres –além da Srta. Fansworth e Amy, a professora Edwina Morrow (Kirsten Dunst, que foi dirigida por Sofia em “As Virgens Suicidas” e “Maria Antonieta”), e as jovens Alicia (Elle Fanning, dirigida por Sofia em “Um Lugar Qualquer”), Jane (Angourie Rice, de “Dois Caras Legais”), Emily (Emma Howad) e Mary (Adisson Riecke) –McBurney desperta um sentimento de euforia contida em geral, e reações mais distintas e particulares em cada uma.
Não tarda ao soldado, desejoso de ali permanecer, valer-se de um estratagema para seduzir, por assim dizer, cada uma delas: À Srta. Fansworth, ele proporciona adulação e reconhecimento por suas responsabilidades; à Edwina, ele deixa implícito aquilo que ela anseia (e em sua expressão amargurada concluiu que jamais teria), amor; à Alicia, e seus olhares lascivos de provocação, ele dá sutil encorajamento; à Jane e as meninas mais novas, ele provém elogios à suas virtudes e uma presença masculina para apreciarem.
O trabalho de Sofia, e sua inerente atenção às sutilezas, dá ênfase ao ponto de vista feminino –segundo consta, oposto do que ocorre no filme de Don Siegel –e, por conseqüência, isso muda bastante o filme. Muda sua proposta. Muda sua intenção. E, no fim, muda sua reflexão.
Sofia administra uma guinada ao deixar claras as conseqüências para McBurney –até então, bem-sucedido em prevalecer na alta conta das mulheres –quando, em sua ciranda psicológica na tentativa de satisfazer e manipular a todas, ele erra o passo e paga muito caro por isso.
Ao contrário do que Don Siegel parece fazer em seu filme –onde dizem, ele enfatiza o sofrimento de McBurney e potencializa o poder castrador da mulher –aqui, Sofia Coppola vilaniza o próprio McBurney por meio da metamorfose que as circunstâncias operam na situação e, assim sendo, ela se aproxima da aflição de suas protagonistas na hesitante tentativa de pôr em prática seu plano final.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tudo Acontece Em Elizabethtown

No filme que possibilitou ao ator Orlando Bloom um protagonismo que fosse além do celebrado Legolas de “O Senhor dos Anéis”, o diretor Cameron Crowe retoma temas caros à sua irregular (ora brilhante, ora claudicante) carreira: Estão aqui as lembranças dolorosas ainda que bem humoradas do passado ("Quase Famosos"), as cenas quase lisérgicas que representam o estado de espírito dos protagonistas ("Vanilla Sky"), a habilidade com a qual seu texto discorre realidade, romantismo e observação através dos relacionamentos (“Vida de Solteiro” e “Jerry Maguire-A Grande Virada”), e o emprego de emotiva função narrativa dado à música (“Digam O Quê Quiserem”).
Esses elementos enchem de estilo e de peculiaridade a história do jovem executivo (Orlando Bloom) que, após um negócio extremamente mal-sucedido, recebe um telefonema lhe avisando do falecimento do pai que há tempos não via. Ele desiste da tentativa de suicídio e resolve voltar para a insólita cidadezinha onde nasceu, Elizabethtown, a fim de participar de todas as cerimônias de despedida do pai falecido, e no processo, reencontrar lá uma coleção de figuras estranhas e diferentes que lhe resgatam uma certa nostalgia. Em algum momento de sua trajetória, ele conhecerá uma jovem aeromoça (Kirsten Dunst, de “Homem-Aranha”), que irá lhe abrir os olhos para outros e melhores aspectos da vida.
Depois de sua obra-prima, “Quase Famosos”, parece inerente ao cinema de Cameron Crowe a celebração de uma filosofia particular de vida onde os prazeres materiais da vida confortável, quando muito, são banalidades que tiram a atenção da real felicidade. Sob esse ponto de vista, ele moldou os roteiros de “Vanilla Sky” (que, apesar de baseado no filme “Abra Los Ojos”, de Alejandro Amenabar, ganhou de Crowe uma roupagem e uma abordagem toda própria) e do irregular “Compramos Um Zoológico”, onde se podia notar uma outra inclinação: Consagrado e com um Oscar de Melhor Roteiro Original debaixo do braço (conquistado por “Quase Famosos”), Crowe foi elevado à categoria de autor, e como tal, não tinha mais restrições em seus rompantes românticos –como aconteceu em “Quase Famosos” e “Jerry Maguire”, seus melhores trabalhos, talvez por conta desse equilíbrio.
Como é visível neste “Elizabethtown”, os delírios autorais de Crowe às vezes saem do controle para além da medida do que é suportável ao expectador, fazendo seu filme soar exagerado, açucarado e afetado –prova disso, o ponto baixo do filme, é o constrangedor discurso da mãe do protagonista (a bela Suzan Sarandon) durante o funeral do marido. Essas decisões tomadas sem uma rédea mais firme comprometem até mesmo a mais bonita seqüência do filme: Quando ao final, o personagem de Bloom faz uma espécie de tour, ao lado das cinzas do pai –um relacionamento que ele não soube fortalecer quando este era vivo –intercalada por uma infinidade de cenas que registram o íntimo informativo e emocional do personagem.
Teria sido um lindo filme se Crowe conseguisse conter um pouquinho mais a sua contagiante predisposição ao romantismo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Estrelas Além do Tempo

O grande problema deste filme genuinamente simpático é a expectativa que o fato de ter ele sido indicado ao Oscar de Melhor Filme pode gerar: O público tende a esperar dele uma excelência e acabamento artístico que ele não tem.
Não é tão bom quanto “Histórias Cruzadas”, por exemplo (com o qual guarda imensas semelhanças), e certamente está longe de qualquer comparação com o magnífico “Os Eleitos”, cujos eventos narrados a trama desta produção aborda constantemente.
A grande verdade é que “Estrelas Além do Tempo” teve seu lugar entre os oito indicados ao Oscar 2017 devido a uma questão de cota: Foi a resposta não muito válida da Academia para a polêmica do “OscarSoWhite” ocorrida um ano antes –dessa forma, este filme singelo e descompromissado, que poderia surpreender o público, acabou alçado à um nível que sua simplicidade é incapaz de igualar. E isso pode estragar a experiência de vê-lo.
E ver “Estrelas Além do Tempo” é um bocado necessário.
Ele conta a história pouco conhecida de três mulheres negras de inteligência prodigiosa, Katherine Goble (Taraji P. Henson, charmosíssima), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer, de “Histórias Cruzadas”) e Mary Jackson (Janelle Monáe), que tiveram o infortúnio de viver na segregada Flórida, nos EUA dos anos 1960. Hábeis com números, elas foram recrutadas para trabalhar na NASA, em meio ao auge da Corrida Espacial Norte-Americana contra os russos.
Cada um das três amigas viveu seus revezes separadamente: Katherine foi nomeada consultora do chefe de operações Al Harrison (Kevin Costner) e, embora fosse melhor e mais capaz que a maioria de sua equipe, era obrigada não só a tomar café separadamente, como também tinha que caminhar 800 metros até o banheiro para negros mais próximo toda vez que precisava usá-lo (!); Dorothy tentou uma vaga como supervisora por meses –função que ela já vinha ocupando, tendo a supervisora oficial adoecido –o que lhe era negado paulatinamente por sua superiora, a amargurada Srta. Michaels (Kirsten Dunst). Sua saída: Com a chegada dos imensos computadores da IBM, ela roubou um livro da biblioteca pública (!) e especializou-se por conta própria em linguagem Fortran, tornando-se imprescindível; já, Mary lutou para tornar-se engenheira-chefe no departamento de construção de protótipos –e precisou obter uma autorização na Justiça para conseguir assistir aulas avançadas cujos cursos segregados eram, segundo a lei da Virgínia, exclusivos aos brancos.
Debruçadas, como todos os funcionários da NASA, ao pioneiro Programa Mercury, elas são mostradas em sua fundamental colaboração para com o inédito vôo orbital do astronauta John Glenn ao redor da Terra, evento que ocupa a maior parte da narrativa.
Uma história tremendamente edificante –e desta maneira tratada pela direção de Theodore Melfi que por vezes se deixa descontrolar pelo momento: Ele exagera na caracterização dos brancos opressores, pesa o ritmo em cenas que precisavam ser enxutas e perde um tempo precioso com detalhes banais. Sua condução não é tão acertada quanto a de Tate Taylor no equilibradíssimo “Histórias Cruzadas”, cujo tema e a presença de Octavia Spencer levam imediatamente a uma comparação, mas o filme tem seus méritos: A trilha sonora assinada por Hans Zimmer e Pharrell Williams (também ele produtor) tem lá seus momentos e a reconstituição de época é caprichadíssima. No numeroso elenco, além das excelentes Taraji P. Henson e Octavia Spencer, brilha também o magnífico Mahershala Ali (ele já havia feito par romântico com Taraji em “O Curioso Caso de Benjamin Button”), Janelle Monáe é a mais fraca das três protagonistas e, verdade seja dita, sua personagem ganha o arco narrativo mais mal trabalhado; os demais membros do elenco oscilam de forma maniqueísta entre o francamente apático (Kirsten Dunst, Sarah Palson, Jim Parsons, de “Big Bang Theory”) e o meramente displicente (Kevin Costner), a única exceção é a breve participação de Glen Powell (de “Jovens, Loucos e MaisRebeldes”) como John Glenn.
A despeito de suas limitações artísticas, “Estrelas Além do Tempo” é ainda assim um filme pertinente e essencial ao cumprir com louvor a tarefa de enfim jogar um pouco de luz sobre essas três mulheres cuja contribuição para a história norte-americana foi inestimável apesar de todos os obstáculos e injustiças que vieram a enfrentar.

sábado, 6 de maio de 2017

Homem-Aranha, por Sam Raimi

Homem-Aranha
Tinha uma aura irresistível de sonho realizado quando foi anunciada, aproximadamente no fim da década de 1990, a primeira adaptação do herói das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha, para o cinema sob a direção de Sam Raimi, que anos antes tinha entregado uma obra tão satisfatória no quesito de “linguagem dos quadrinhos transposta para a tela de cinema”: O sensacional “Darkman-Vingança Sem Rosto”.
A visão de Raimi do herói primava pela aproximação carinhosa dos conceitos clássicos do personagem, aproveitando muito do material oriundo dos quinze primeiros anos de revistas publicadas, a fase considerada a melhor de todas pelos fãs, escrita pelo próprio criador Stan Lee. Apesar de algumas liberdades criativas bastante discutíveis (os lançadores de teia orgânicos eram, e ainda são, uma sacada difícil de engolir), público e crítica estavam tão extasiados em finalmente poder conferir um filme do Homem-Aranha –inclusive com um prodigioso trabalho de efeitos especiais onde eram concretizadas as então inacreditáveis cenas do herói se balançando em prédios –que todos os possíveis deslizes foram perdoados.
Partindo com prudência e propriedade do princípio básico da origem, o filme mostra o jovem e nerd Peter Parker (Tobey Maguire, na época uma escolha perfeita) que vai a um laboratório onde é mordido por uma aranha geneticamente modificada, ganhando assim poderes similares aos de um aracnídeo como a capacidade de escalar paredes, saltar cerca de 6 metros, força proporcional a de uma aranha, e um sensacional sentido contra o perigo.
Inicialmente, decidido a usar esses dons para conseguir dinheiro e impressionar seu amor não correspondido, a garota da casa ao lado Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), Peter assiste a uma sucessão de eventos resultarem no assassinato de seu tio Ben (Cliff Robertson), pelas mãos do mesmo bandido que ele deixara escapar minutos antes.
À sombra da morte de seu querido tio, Peter faz uma promessa (jamais permitir que criminoso algum escape) assumindo assim a identidade do herói mascarado Homem-Aranha.
A escolha desse caminho leva Peter assim a colidir com o mal-feitor mascarado Duende Verde, na verdade, a identidade inconseqüente, inescrupulosa e imprevisível de Norman Osborn (Willen Dafoe, magistral no personagem a despeito da infeliz escolha visual de sua armadura), pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
Preenchendo todas as lacunas possíveis da expectativa do público –o filme tinha ação, aventura, comédia, drama e romance –o primeiro “Homem-Aranha” arrastou multidões aos cinemas, mesmo em um período monopolizado por um fenômeno como “O Senhor dos Anéis”.

Homem-Aranha 2
Uma continuação era inevitável depois do grande sucesso do filme de 2002 e, para seguir a mesma trilha de sucesso, a equipe original foi mantida, com o diretor Sam Raimi comandando o mesmo elenco.
Ele aproveitou essa nova chance para aprofundar as questões envolvendo a dicotomia entre o desafortunado Peter Parker e as responsabilidades acarretadas por sua contra-parte, o Homem-Aranha, que o impedem de organizar os problemas de sua própria vida –uma dinâmica genial originada dos quadrinhos e que Raimi soube compreender com perícia tratar-se da grande razão para o sucesso do personagem.
Ele também foi beneficiado pela escolha de um antagonista muito mais carismático e interessante do que o Duende Verde, o Doutor Octopus, que encontrou no exuberante e sensível ator Alfred Molina, um intérprete ideal.
Identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Maguire, cujos problemas físicos durante as filmagens acabaram virando lenda) descobre as impossibilidades de conciliar sua vida de super-herói com a rotina de uma pessoa normal que inclui manter seu emprego como fotógrafo no Clarim Diário, cuidar de sua tia May (Rosemary Harris), já idosa, e resolver seus problemas amorosos com Mary Jane (Dunst, prejudicada pela irritabilidade de sua personagem), que acabou noivando com o filho de seu chefe.
Tamanha tensão resulta num súbito stress cujos sintomas são a perda de seus poderes (!), e a possibilidade do Homem-Aranha não mais existir. Entretanto, surge também um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina, escolhido após sua belíssima participação em “Frida”), que com seus planos megalomaníacos pode por em risco toda a cidade de Nova York. Uma tragédia que só o Homem-Aranha poderá impedir.
Tomando como base narrativa para esta continuação justamente alguns desdobramentos narrativos de “Superman 2” (o primeiro “Homem-Aranha” já se inspirava em muita coisa de “Superman-O Filme”), Sam Raimi tratou de fazer seu dever de casa aprimorando os efeitos especiais que, do filme anterior para este, sofrem uma espantosa evolução, e emoldurando todos esses detalhes com uma trama sólida, detalhada e inesperadamente humana –fruto do esforço conjunto de quatro competentes roteiristas: Alfred Gough, Miles Millar (ambos da antiga série “Smalville”), Michael Chabon (“Garotos Incríveis” e “Harry Potter”) –estes três creditados como argumentistas –e Alvin Sargent (ganhador do Oscar de Roteiro Adaptado por “Gente Como A Gente”).
Saldado como o melhor filme de super-heróis realizado até então (e o melhor filme do Homem-Aranha até hoje!), “Homem-Aranha 2” ainda se deu ao luxo de encerrar-se com ganchos contundentes para uma promissora e aguardada parte três.

Homem-Aranha 3
Todavia, as coisas mudaram no terceiro filme (e não foram para melhor...).
Apaixonado pelas HQs clássicas do personagem, e desejoso de manter essa orientação ao nomear como antagonista da vez o Homem-Areia (Thomas Alden Church, de “Sideways-Entre Umas e Outras”), vilão conhecido dos fãs antigos, mas pouco popular entre os fãs mais novos, Sam Raimi recebeu uma espécie de incumbência do estúdio da Sony: Atender à demanda dos fãs mais jovens e incluir em seu filme um vilão mais recente, surgido ainda na década de 1990, o truculento Venon.
Raimi, que assumiu o roteiro junto de seu irmão, Ivan Raimi, teve de ordenar uma narrativa que exigia três necessidades: A primeira, dar o devido tempo, atenção e importância dramática ao seu vilão escolhido, Homem-Areia; a segunda, dar igualmente atenção e importância dramática ao vilão que lhe foi imposto, o Venom (e é desagradavelmente perceptível na narrativa o desprezo que Raimi nutre por ele); e a terceira, dar o devido respaldo e conclusão a uma série de pontas soltas de narrativa deixadas como mote no fim do segundo filme.
O resultado foi um roteiro equivocado, enfadonho, excessivamente longo e pouco interessante onde os personagens (inclusive seu protagonista) eram apresentados com motivações mesquinhas, prejudicando a identificação do público.
Quando tudo começa, Peter Parker (Maguire, aqui num registro mais desleixado que do outros dois filmes) sente-se nas nuvens finalmente junto de Mary Jane, seu grande amor (Kirsten Dunst, também ela aparentemente afetada), mas nem tudo é festa na vida do Homem-Aranha; seu outrora melhor amigo Harry Osborn (James Franco, o pior de todos), sabendo do segredo de sua identidade secreta torna-se o novo Duende e parte para a vingança; além dele surge o poderoso Homem-Areia (Alden Church, fazendo o possível num personagem completamente perdido na trama), então um dos suspeitos da morte do tio Ben ocorrida no primeiro filme; e a bela loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, belíssima, porém sub-aproveitada numa personagem icônica dos quadrinhos, mas empregada aqui de maneira tola) aparece para introduzir ciúme e desconfiança em seu relacionamento com Mary Jane.
Quando os problemas parecem se acumular surge um uniforme negro, que lhe amplifica a força e parece ser de origem alienígena. Mal sabe Peter que ele será a semente do que talvez venha a ser o mais perigoso inimigo do Homem-Aranha: o maquiavélico Venon.
“Homem-Aranha 3” foi o ponto final em uma festejada trilogia de um personagem bastante aguardado no cinema, que começou muito bem, mas terminou revelando as conseqüências bastante prejudiciais do desgaste criativo de seu realizador.

domingo, 16 de abril de 2017

As Virgens Suicidas

Existe algo de muito abstrato que Sofia Coppola almeja capturar na narrativa que ela elaborou para este trabalho, quase como se houvesse um outro filme por trás dos elementos nebulosos, oblíquos e enigmáticos que nos são apresentados.
Filhote oriundo do cinema norte-americano independente, e como ele, composto de todos os elementos que o definem como a encenação e atmosfera de natureza alternativa, a ambientação da classe média norte-americana por meio da qual sondagens de nível íntimo se fazem possíveis, e a sensação de angústia perene e onipresente, esta produção marcou os primeiros passos de Sofia como a autora que vislumbrava ser, a cada projeto cada vez mais longe da sombra do pai, Francis Ford, cujas narrativas épicas e vigorosas, em escala de ópera italiana, contrastavam com o estilo minimalista, introspectivo e reflexivo que Sofia sempre buscou.
“As Virgens Suicidas” pede um tempo próprio ao expectador, uma percepção própria.
A condução de Sofia, em momento algum, concede às suas protagonistas o direito à narrativa em primeira pessoa –por conseqüência, elas nos parecem tão misteriosas e inatingíveis quanto o são para o grupo de garotos que, de fato, contam a história de todas elas.
As irmãs Lisbon são belas, etéreas e encantadoras. Preenchem, para aqueles jovens, o posto que todas as primeiras paixões ocupam: O de musas inalcançáveis, ainda que, a rigor, elas morassem do outro lado da rua.
É no espaço intermediário entre os adoradores e as musas de adoração (e no fato lúdico de que esse limite nunca é, nem deve ser extrapolado) que Sofia encontra e observa uma certa beleza.
Ainda que sua condução caminhe para uma tragédia anunciada, a direção de Sofia imprime uma aura de contos de fada que desestabiliza as convenções de gênero sem, no entanto, agregar uma inapropriada leveza –são escolhas que revelam uma clara e surpreendente inclinação para a linguagem cinematográfica, embora, no cômputo geral “As Virgens Suicidas” passe longe de ser um filme perfeito: É demasiado presunçoso em relação à atmosfera que levanta (tão enfatizada que depõe contra narrativa), tem um problema paulatino em encontrar um protagonista que conduza de modo satisfatório a trama (não é o jovem e apático Josh Hartnett, nem o ainda desconhecido Hayden Christensen, e tampouco nenhum dos outros garotos –quem mais chega perto disso é a ótima Kirsten Dunst cuja personagem, porém, é empregada de maneira muito elíptica), e não escapa, também ele, a uma série de concessões de ordem dramática que parecem estabelecer uma fórmula para filmes americanos independentes a partir dos anos 1990.

Ainda assim, para um filme de estréia, está bom demais.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Melancolia

Os filmes de Lars Von Trier impelem o público à uma indignação. Herdeiro quase direto de Píer Paolo Passolini e seu ‘cinema do choque’, o realizador dinamarquês encontra em “Melancolia” um de seus mais afáveis trabalhos, talvez porque aqui ele se despe de audácias visuais buscando a contundência de sua trama por meio de uma sutileza maior.
Mas, ainda assim, “Melancolia” é, como suas outras obras, uma jornada à qual ele conduz o expectador à uma região de ar rarefeito, onde nos confronta com um espelho que, por vezes, reflete o pior da raça humana.
Dividido em duas partes. Na primeira (Justine) acompanhamos uma catastrófica cerimônia de casamento abalada, sobretudo pela complicada relação entre a noiva (uma convincente Kirsten Dunst), acometida de uma pungente depressão, e seus familiares. Na segunda parte (Claire), a jovem noiva, agora desquitada de seu marido, enfrenta a aterradora notícia de uma catástrofe desta vez literal: até então oculto atrás do sol, o planeta Melancholia se encontra em rota de colisão com a Terra. Nesse entrecho, a sua irmã (Charlotte Gainsburg), metódica e sempre preocupada com tudo, deseja encontrar um meio –por definição, impraticável –de administrar a chegada do fim entre seus entes queridos. As personalidades de ambas as irmãs ganham ramificações e proporções simbólicas neste incomum filme-catástrofe do mesmo diretor impiedoso e contundente que nos entregou a devastadora experiência chamada "Dogville".
Já foi dito que, a medida que vai envelhecendo, as influências de Von Trier vão ficando mais perceptíveis. “Melancolia” é um exemplo bastante claro disso. Qualquer olhar mais superficial pode notar a imensa inspiração que Andrei Tarkovski e seu “O Sacrifício” exercem sobre esta obra: Basicamente, Von Trier –como numa referência que até outro dia era habitual só de Brian De Palma –toma emprestado todo o seu conceito (um grupo de pessoas num cenário isolado às voltas com a descoberta existencial do fim do mundo), que lhe domina o plot em sua segunda parte, e serve para Von Trier –assim como também serviu à Tarkovski –exercitar sua abordagem aguda sempre despida de qualquer traço de piedade, pudor ou indulgência.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Entrevista Com O Vampiro

“Morte piedosa. Como ama sua preciosa culpa!”
Das tantas adaptações literárias que enfrentaram o crivo ferrenho dos fãs para encontrar um caminho adequado que as levasse para a tela grande, uma das que mais sofreu repercussões certamente foi a versão cinematográfica da primeira parte das “Crônicas do Vampiro”, de Anne Rice que na época (primeira metade da década de 1990) era uma das obras literárias mais populares e aclamadas de então.
Não importava se a direção ficaria a cargo do talentoso e conceituado Neil Jordan (diretor irlandês cuja presença já antevia uma aura desigual ao projeto), não importava se o personagem Lestat seria interpretado pelo normalmente dedicado Tom Cruise (um astro que, apesar de tudo, sempre demonstrou afinco nos filmes que recebiam sua atenção). Para os fãs e para a autora em pessoa, o projeto de “Entrevista Com O Vampiro” já nascia com uma névoa de frustração a cercá-lo, pelo simples fato de seu veredicto antecipado: O de ser o filme inferior ao livro.
Razões para o pessimismo nunca faltaram: O cinema dificilmente conseguiu igualar, em intensidade e detalhismo, as transposições de grandes e elogiados textos para a telona. Por que com uma das mais agraciadas revisões literárias do mito do vampiro isso seria diferente?
Mas, por incrível que possa parecer, o filme prova, paulatinamente, cena a cena, que isso não é uma verdade absoluta.
Do início ao fim, “Entrevista Com O Vampiro” pulsa de um preciosismo e de um esplendor visual que emolduram com indiscutível beleza a trama intrigante, apaixonada e reflexiva sobre as criaturas que atravessam a eternidade a lidar com os percalços de sua própria natureza imortal.
Tudo começa num quarto de hotel em São Francisco, no tempo presente –ou seja, 1994 –quando Louis (um adequado Brad Pitt) recebe um jovem repórter (Christian Slater, substituindo o ator River Phoenix, que veio a falecer) para a ele fazer uma revelação um tanto quanto estarrecedora: Ele é um vampiro cuja existência já se estende há longínquos 200 anos de idade!
Além disso, Louis também lhe conta toda a sua longa história, desde quando fora transformado pelo sanguinário Lestat (Tom Cruise, realmente sensacional no papel), passando pela dolorosa aceitação de sua condição de imortal criatura da noite, ao encontro com uma menina-vampira (Kirsten Dunst, estreando bem novinha no cinema, com uma personagem de sutilezas e complexidades bastante estremas para uma criança), culminando na sua estóica busca por outros de sua espécie e por respostas a suas tantas perguntas, terminando enfim no decorrer de dois séculos e no modo como aprendeu a assimilar uma nova época.
Um trabalho de inúmeras ramificações filosóficas, adaptado de maneira bela e esplendorosa, renovando o mito dos vampiros em seu registro cinematográfico da mesma forma que o best-seller de Anne Rice o fez décadas antes na literatura: Hoje, pode até constar, com justiça, em uma lista dos melhores filmes de vampiros do cinema.
A grande ironia é que a gritaria dos fãs e da autora soa ainda mais desmedida, injusta e desnecessária quando ficamos sabendo que uma continuação ‘bastarda’ deste filme foi realizada anos depois, sem Tom Cruise, sem Neil Jordan, e sem talento: Foi “A Rainha dos Condenados”, que trazia o apático Stuart Townsend no papel de Lestat, sequer estabelecendo maiores conexões com a trama pulsante deste filme.

domingo, 25 de setembro de 2016

Maria Antonieta

A carreira cinematográfica de Sofia Coppola recebeu grande ajuda e incentivo de seu pai, o ilustre Francis Ford. Mesmo antes quando (ainda bem jovem) Sofia experimentou alçar vôos como atriz, seu pai a ajudou –ele deu a ela um papel fundamental em “O Poderoso Chefão Parte 3”, com resultados insatisfatórios.
Depois que ela decidiu tornar-se diretora, ele produziu todos os seus filmes, de “As Virgens Suicidas” até o mais recente “Bling Ring-A Gangue de Hollywood”, deixando bem claro, para o pai e para o mundo, o estilo que ela adotaria para contar histórias.
Em algum momento dessa filmografia notável que Sofia construiu, Coppola, o pai, tentou colocá-la num projeto que tivesse mais a sua cara.
Leia-se: Um trabalho suntuoso, com tinturas épicas. Mais clássico do que alternativo.
O resultado foi “Maria Antonieta” que, polarizado entre os estilos bastante díspares do pai (produtor) e da filha (diretora) transfigurou-se não em uma cinebiografia da célebre rainha da França, mas em um esforço de tentar entender sua personalidade, estranhamente localizado numa área nebulosa entre o intimista e o espalhafatoso.
Com uma carreira que já a gabaritava como veterana no cinema, a relativamente jovem atriz Kirsten Dunst (que ganhou muita fama como Mary Jane nos filmes do “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, e já havia trabalhado com Sofia em “As Virgens Suicidas”) entregou uma interpretação engajada e rica em minúcias, bem ao gosto de sua diretora, para a princesa austríaca, Maria Antonieta, que num casamento arranjado, aos 14 anos, é arrancada do seu ambiente familiar e arremessada na corte francesa, como esposa do reticente e infantil rei Louis XVI (Jason Schwartzman) –que, à propósito, ela mal conhecia!
A narrativa de Sofia Coppola, assim, a acompanhará dos 14 aos 27 anos, mostrando muito do período em que ela teve de aprender a lidar com as complicadas exigências sociais e políticas de um posto de monarca, dando à trajetória de Maria Antonieta uma ótica que a aproxima das meninas sem perspectiva de “As Virgens Suicidas” e da deslocação e do vazio existencial experimentado pelos personagens de “Encontros e Desencontros”.
Uma visão que, é bom lembrar, atribui certa simpatia à ela, o quê contraria bastante a idéia que a França, em geral, faz dela, sempre lembrando-a com aversão.
Nesse ensejo, Sofia também cria um painel de afresco da própria realeza do período ao qual essa jovem rainha pertenceu, retratando-a como um grupo de pessoas sem muito que fazer a não ser mergulhar no hedonismo e na futilidade, algo possível só pela riqueza e ostentação da classe em que se encontravam. Elementos da narrativa que Sofia parece sublimar no que diz respeito à superficialidade, mas que revelam-se cruciais para os rumos que a trama toma –inclusive em termos históricos.
De quebra, ainda tirou, do cotado como favorito "Diabo Veste Prada", o Oscar de Melhor Figurino em 2007.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Joel sofre copiosamente. A razão é uma só: Clementine, sua ex-namorada não só terminou com ele, como também fez uma lavagem cerebral que apagou Joel de sua memória e, por conseguinte, todo o relacionamento que tiveram juntos. Quando se encontram ela nem mesmo o reconhece. 
Inconformado, Joel decide se submeter à mesma experiência e apagar Clementine da sua mente. Entretanto, no meio do processo ele encontra lembranças de Clementine, e da relação que teve com ela, das quais ele não quer se desfazer. Joel então se arrepende e inicia uma fuga desesperada dentro de sua própria mente na vã tentativa de manter uma mínima recordação de Clementine. 
Um roteiro primoroso norteia este filme emocionante, mas que nunca se torna refém das emoções que consegue provocar: Sem a menor sombra de dúvida, o melhor trabalho do diretor Michel Gondri, no qual até mesmo suas duvidosas escolhas cênicas, que muitas vezes remetem a orientação circense de Terry Gillian, surgem significativas para os efeitos propostos pelas cenas lindas de recordação que materializam-se na tela. 
A memória surge como um catalizador das próprias definições humanas. 
Há que se louvar, com insistência, o mérito do roteiro. Escrito pelo quase sempre transgressor Charlie Kaufman, a trama tem toda sua falta de conformismo, toda sua ânsia de não se prender às convenções de narrativa cinematográfica que engessam, em particular, o gênero no qual ele parece pairar: o romance. Todavia, “Brilho Eterno...” é também uma ficção científica, e de uma certa maneira uma comédia, e muitas vezes um drama. É, no fim das contas, um daqueles trabalhos incategorizáveis tal a fluidez com que vai de um gênero à outro, e com a qual se vale, justamente disso, para contar sua história. 
Á frente do elenco, Jim Carrey é surpreendente, mostrando-se muito mais que o primoroso comediante que é: Ele expões suas dores de amor, em cenas de insuspeita sensibilidade, ainda mais arrojadas em termos de interpretação, do que o trabalho magistral que entregou em “O Show de Truman”. 
Kate Winslet, por sua vez, faz uma personagem espalhafatosa, petulante. carregada de histrionismos e talvez, por isso mesmo, cativante. Ela não só interpreta essa personagem, se você reparar, mas também o conceito de idealização dessa personagem, nas memórias do ex-namorado, e por isso mesmo, um registro distinto do que é feito nas cenas que se passam na realidade. É necessário uma intérprete de brilhantismo irrestrito para um trabalho assim. 
Minha cena predileta (embora apontá-la seja de uma grande injustiça para com a maravilhosas outra cenas que se apresentam) é a última lembrança na casa da praia, uma espécie de despedida, onde o filme suscita sentimentos muitos universais acerca do receio e das dúvidas que o sentimento desperta em todos nós. E dos inúmeros motivos porque as lembranças que mantemos são (e devem sempre ser) indeletáveis. 
As repercussões e consequências desse gesto contrário e do amor que Joel por Clementine estão entre as muitas surpresas desta história.