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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O Massacre da Serra Elétrica

Daniel Pearl, diretor de fotografia do “Massacre da Serra Elétrica” original, tornou-se, a partir da década de 1980, um renomado fotógrafo de clipes musicais. Daí ser ele o nome mais reverenciado (mais até do que o diretor Tobe Hopper e o co-roteirista Kim Henkel, creditados como produtores executivos) atrás das câmeras desta refilmagem de 2003, dirigida por Marcus Nispel e produzida por Michael Bay –cuja produtora, Platinum Dunes, se especializou em refilmar filmes de terror.
Não apenas refilmá-los, mas anabolizá-los, como fica claro nesta produção que parte de um roteiro muito similar ao do filme original para à ele agregar novos perigos, novas ênfases em momentos de mais violência, e toda sorte de incrementos que a imaginação dos realizadores (não muito prodigiosa, é preciso dizer) pôde conceber.
Curioso notar, na trajetória experimentada por esta refilmagem que aquilo que era uma obra de pura transgressão nos anos 1970 converteu-se em entretenimento consumista para as massas nos anos 2000.
O enaltecimento ao material fonte se nota já no começo, quando o impactante prólogo original (também ele ao som da narração de John Larroquette) é recriado com elementos modernosos e edição de videoclip, embora tudo ainda se passe nos anos 1970.
Logo em seguida, os mesmos personagens obtusos de quase todo filme ‘slasher’ entram em cena: Os namoradinhos Erin (Jessica Biel, um pitel!) e Kemper (Eric Balfour, um tanto subaproveitado); além dos amigos Morgan (Jonathan Tucker, de “As Virgens Suicidas”), Andy (Mike Vogel, de “Cloverfield-Monstro”) e Pepper (Erica Leerhsen, de “Magia Ao Luar”).
Todos estão vindo de uma viagem ao México regada à maconha, passando pelas localidades longínquas e afastadas do Texas.
É por lá que encontram na estrada uma jovem transtornada –em substituição ao personagem singular do filme de Hooper –que lhes dá indícios de algo terrível ocorrido nas redondezas, e então se mata com um tiro de pistola (de onde ela tirou a arma durante a cena é um mistério vindo da cabeça abilolada dos roteiristas!).
O plot está, portanto, armado a partir do momento em que o grupo de protagonistas têm um cadáver dentro de seu carro e não sabem o que fazer com ele; levando-os a ficar sistematicamente atrelados às circunstâncias que os levarão aos seus apuros.
Discussões acerca do certo a se fazer até ocorrem –manifestadas por um roteiro que se pretende inteligente, mas se contenta em ser objetivo, sucinto e, no fim das contas, redundante.
Os personagens falam o que se espera que falem: Morgan, o mala-sem-alça do grupo manda às favas o politicamente correto e quer largar o cadáver ali mesmo; Erin, a mais moralmente centrada de todos (e, por isso mesmo, sublinhada como personagem principal) quer prestar contas à polícia e dar ao cadáver um desfecho digno (completamente ignorante das abundantes pistas do quão encrencados eles mesmos estão!).
Nesse imbróglio, eles esperam, e Kemper acaba indo parar numa casa da região atrás de telefone –o filme retrata as residências e ambientações texanas com um viés discutível de ‘degradação cosmetizada’.
É assim que Kemper se torna o primeiro personagem a cruzar com a sanha assassina do grande vilão da franquia, Leatherface, vivido aqui pelo grandalhão Andrew Bryniarski, referenciado pela narrativa como uma espécie de força da natureza ou algo assim...
O que se segue é previsível: Um a um, os personagens vão sendo eliminados, não sem antes serem submetidos à torturas sádicas e a momentos variados de tensão que fazem a diversão do bom e velho expectador de filmes de horror, até restar somente Erin, ironicamente, a responsável indireta por todos os seus amigos e namorado terem se enfiado naquela arapuca!
Se há um elemento que se sobressai à mesmice crônica que este “Massacre da Serra Elétrica” herda ao se meter a querer refilmar uma obra que definiu do panorama do cinema de terror contemporâneo, é o visual acachapante imposto pelo diretor Marcus Nispel ao material: A despeito de ser uma produção de baixo-orçamento (aspecto que a equipe técnica tenta disfarçar todo o tempo, de todas as maneiras), os filtros de câmeras, tratamentos de luz e efeitos de imagens proporcionados pela experiência de Nispel nessa área (e que dão uma estranha aura inapropriada ao conjunto) fazem desta uma realização sedutora na maior parte do tempo, contornando em grande medida a sua dramaturgia frouxa, os lapsos constantes de lógica e de sensatez ocasionados aos personagens e a impressão de que, se era para ser assim, porque não ficar com o formidável e audacioso filme original de Tobe Hopper?

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conan - O Bárbaro

Parecia absurdo (e realmente era) que um filme memorável e bem-sucedido como “Conan-O Bárbaro”, de 1982, tivesse se restringido apenas a uma pífia continuação (“Conan-O Destruidor”, de 1984, além de “Guerreiro de Fogo”, um derivado muito do sem-vergonha...).
A indústria até tentou compensar esse lapso (tardiamente, é bem verdade) fazendo uma espécie de refilmagem em 2011. Melhor dizendo: Fazendo uma nova versão do personagem, extraído de uma série de quadrinhos da Marvel dos anos 1970, por sua vez, inspirados nos contos escritos na década de 1930, pelo autor Robert E. Howard.
De fato, o personagem Conan, o Bárbaro, é tão rico, marcante e antológico que é de se admirar a pouca atenção dada a ele na cultura pop recente.
Parecia que, em 2011, isso estava prestes a ser compensado. A produção tinha no comando o diretor especialista em videoclips, Marcus Nispel que, se havia feito um trabalho entre o medíocre e o constrangedor no reboot de “Sexta-Feira 13” e no épico “Desbravadores”, ao menos havia entregado algo minimamente interessante na nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica”.
No papel principal outra boa notícia: Fora escalado o samoano Jason Momoa (que então havia se destacado num papel menor na série “Game Of Thrones”) e, embora Conan fosse um personagem intrinsecamente relacionado à Arnold Schwarzenegger, as reações à escalação de Momoa foram bastante positivas pela adequação de sua fisionomia ao personagem, sobretudo, às suas caracterizações nos quadrinhos.
A expectativa, porém, é sempre uma faca de dois gumes, e o filme que Nispel entregou naquele ano não equiparava o que alguns fãs dele esperavam; compará-lo com a ótima realização de John Millis, de 1982, então, era uma covardia.
Numa variação até razoável do que está nas HQs, no filme original e do que é esboçado nos livros, a origem do personagem –que ocupa os primeiros vinte minutos –se dá pelo massacre de seu povo, os cimérios, perpetrado pelas tropas do maníaco Khalar Zym (o normalmente competente Stephen Lang, aqui afetado), grande vilão da trama que praticamente substitui, sem o mesmo peso dramático, o Thulsa Doom, de James Earl Jones, no filme de 82.
Conan, então um menino na ocasião, que inclusive teve o pai (Ron Perlman) assassinado –numa sequência feita para ser original, mas que resulta ridícula –passa o resto da vida em busca de vingança.
Anos depois (e já então personificado pela presença bastante impressionante de Jason Momoa), Conan finalmente encontra uma pista de Khalar Zym e parte em seu encalço; descobre assim que o vilão passou as últimas décadas dedicado a encontrar um artefato místico, algo que pode arremessar toda a Era Hiborana (o mundo imaginado por Robert E. Howard onde as aventuras de Conan se passam) num reino de trevas.
Para cada boa decisão tomada pelo filme, há um lapso que o compromete. Exemplo: Se foi bastante positivo manter-se mais fiel às características originais do personagem do que no filme de 82 –um bárbaro selvagem, porém, astuto e articulado na comparação ao guerreiro taciturno de Schwarzenegger –o filme de Nispel ao mesmo tempo comete equívocos grotescos e ginasianos ao coloca-lo em situações risíveis como o forçado enlace amoroso com a jovem indefesa Tamara (Rachel Nichols, interpretando sem um pingo de boa vontade).
Outro: Se por um lado a direção de Nispel capricha no quesito visual (uma de suas especialidades, vide seu currículo), incluindo o aproveitamento da tecnologia 3D (o sucesso “Avatar”, com o próprio Stephen Lang no elenco, havia pegado o mundo de assalto há apenas dois anos), por outro, seu roteiro é incapaz de conceber sequências tão extraordinariamente memoráveis como aquelas que o filme de 82 entrega simultaneamente –todas extraídas das HQs do personagem –o diálogo sobre o Enigma do Aço; a sequência da Grande Roda da Dor; a cena da crucificação e outras.
Além disso, na ânsia por sagrar-se um sucesso de bilheteria –e ser assim acessível a uma plateia de faixa etária o mais ampla possível –o filme padece de uma auto-censura que o despe de todas as singularidades do filme original, como sua audaciosa inclinação para a nudez, para uma sexualidade e uma sanguinolência que soavam (e ainda soam) incomuns nos filmes comerciais de aventura. Algumas cenas até embrincam nessa direção desvanecendo em clichês muito antes de algum resultado válido aparecer na tela.
O filme de 2011, tão promissor que era na oportunidade de recolocar nos cinemas um personagem que merecia e merece a evidência da qual desfrutam hoje ícones como James Bond ou Indiana Jones, padeceu perante um diretor que não soube manter a solidez narrativa de seu filme, e principalmente um roteiro que revelou incompetência absurda ao desperdiçar os conceitos e elementos riquíssimos que tinha a sua disposição.