Mostrando postagens com marcador Robert Vaughn. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robert Vaughn. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Superman 3

É sabido que “Superman 1 e 2” fora, em si, uma verdadeira epopéia: Diferenças criativas entre os irmãos produtores Alexander e Ilya Salkind e o diretor Richar Donner durante a realização do fantástico primeiro filme acarretaram uma indisposição que durante a segunda produção levou Donner a um afastamento quando muito do material já havia sido filmado –o diretor substituto, Richard Lester, incumbiu-se de finalizar o trabalho obedecendo à orientação dos produtores.
Por fim, em “Superman 3”, lançado em 1983, Lester teve sua lealdade recompensada podendo assumir integralmente a direção da terceira aventura do herói imortalizado por Christopher Reeve.
Uma pena que, como antes, as opções um tanto discutíveis dos produtores tornaram a pesar –e, diferente da visão intransigente, porém, cinematograficamente austera de Donner, Lester cedeu a todas as imposições, fazendo desta uma obra insossa, impessoal, irrelevante para com seu heróico protagonista, e dando descabida importância à participação de Richard Pryor (um alívio cômico que adquire ares de estrela na premissa bobalhona) em detrimento à presença sempre imponente de Reeve.
Promovendo uma mudança de ares no ambiente e no elenco de apoio que predominavam nos dois primeiros filmes, o repórter Clark Kent (Reeve, num personagem do qual ele já era indissociável) sai de Metrópolis para ir a uma reunião de sua antiga classe colegial na cidadezinha de Smallville, e lá reencontra sua paixão da adolescência Lana Lang (a belíssima Annette O’Toole, de “A Marca da Pantera” que, para efeitos de referência, interpretou a mãe de Clark Kent na série “Smallville”).
Sai de cena então Lois Lane –que só aparece no início e no final como forma de punir a atriz Margot Kidder devido a uma série de críticas em relação ao tratamento dado pelos produtores ao diretor Donner –cuja relação com Clark/Superman estava meio desfasada aos olhos do público após dois filmes, e entra um novo interesse romântico cheio de frescor, ainda que bastante inocente e nada aprofundado –do staff do Planeta Diário, somente o fotógrafo Jimmy Olsen (Marc McClure) se mantém presente do filme.
Assim, “Superman 3” já incorpora algumas mudanças que procuram afastar as comparações com as obras anteriores e conferem alguma leveza ao novo filme. O vilão da vez é Ross Webster, interpretado por Robert Vaughn com pouquíssima disposição em disfarçar o fato de que, no roteiro, ele seria novamente Lex Luthor (pelas mesmas razões de Margot Kidder, Gene Hackman se recusou a voltar ao papel), sem falar que suas motivações não poderiam ser mais rasas: Indignado com as intervenções indiretas do Superman em suas maracutaias, Webster contrata o gênio em computadores Gus Gorman (o próprio Richard Pryor, incontrolável feito uma criança) para dar um jeito no herói criando uma pedra de kryptonita artificialmente.
Contudo, o resultado é um tanto inesperado: Ao invés da enfraquecer e retirar os poderes do herói, a kryptonita não produz nenhum efeito imediato, entretanto, ao longo dos dias uma nova personalidade passa a aflorar em Superman –ele começa a aparentar desleixo em relação aos seus salvamentos, e gradativamente se torna cada vez mais hostil e desprezível, até culminar numa cena (de longe, a melhor de todo o filme), em que dois ‘supermen’ se separam e lutam entre si, um sendo esse novo Superman amargo e vilanesco, o outro sendo Clark Kent, a versão real e íntegra do herói (e ambos belamente interpretados por Christopher Reeve, um bom ator que teve poucas oportunidades no cinema para brilhar de verdade).
No clímax, Superman assim resolve pôr um fim aos estratagemas de Webster invadindo sua fortaleza onde enfrentará os recursos aparentemente vastos do supercomputador que ele e Gus projetaram: Máquina do mal esta que, no roteiro originalmente concebido por Ilya Salkind, seria Brainiac, um dos grandes vilões do Superman dos quadrinhos, além de trazer outros elementos como o Mr. Mxyzptlk e a Supergirl. Todavia, isso tudo foi alterado para uma mera máquina maligna e descontrolada, graças à inépcia dos executivos da Warner Bros. que não davam a mínima para elementos oriundos dos quadrinhos, preferindo colocar no filme o que lhes dava na cabeça...
Descentralizado em sua premissa –o antagonismo de Webster surge muito tarde na trama, e nunca parece devidamente justificado ou enfatizado –“Superman 3” não chega a ser uma catásfrote completa, embora seu envolvimento com o público e suas qualidades em grande medida se concentrem mais na presença irretocável de Reeve do que na habilidade dos realizadores, perdendo muito de seu tempo acompanhando a relação pueril e absolutamente platônica entre Clark Kent e Lana Lang, e dando espaço interminável às cenas cômicas envolvendo Richard Pryor que nada acrescentam à trama e quase nunca parecem ter maiores ligações com ela.
O resultado acaba sendo uma aventura um pouco estranha, banal em seu registro quase rotineiro de uma espécie de dia-a-dia do Superman, e certamente, bastante inferior à energia contagiante dos dois primeiros filmes.
Richard Donner fez falta, e muita.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Bullitt


Alguns limites do que se supunha possíveis em filmes de ação –um gênero que ainda se encontrava precário pelas truncadas filmagens da época –foram rompidos nos anos 1960 pelo arrojo revigorante de “Bullit”, do diretor Peter Yates.
O astro Steve McQueen, vindo de obras como “Fugindo do Inferno” e “Papillon”, empresta sua expressão a um só tempo calejada e displicentemente astuta, para o destemido tenente Frank Bullitt da polícia de São Francisco.
Sua integridade e eficiência fez de Bullitt um nome murmurado com admiração pela cidade, e disposto a se aproveitar disso, o ambicioso e arrogante promotor Chalmers (Robert Vaughn) o requisita quando precisa do melhor policial para vigiar uma testemunha crucial: O ex-mafioso Ross cujo depoimento irá entregar alguns figurões do crime organizado de Chicago.
Na calada da noite, contudo, Ross é alvejado em seu esconderijo, assim como o jovem policial que tomava conta dele.
Agora, a desenvoltura de Bullitt deve caminhar por um tênue equilíbrio: De um lado, deve encontrar e prender os envolvidos no crime; de outro, precisa se esquivar das tentativas insistentes do promotor Chalmers em transformá-lo num bode expiatório, já prevendo um fracasso iminente.
Mas, Bullitt comece as malandragens necessárias para transitar no submundo de corrupção. Sabe os fios certos aos quais puxar, e compreende as chances que tem de virar o jogo –bem como o momento oportuno para delas tirar proveito.
É um personagem, uma premissa e um conceito que têm muito a ver com aquele final da década de 1960 (e ainda mais com a década de 1970), e que certamente se encaixa como uma luva num ator de atitude serenamente casca-grossa como McQueen: O homem da lei cujo entendimento das ruas e de seus códigos o leva a ter um papel singular na odisséia de crime que se desenrola.
Não à toa, “Bullitt” foi influência para toda uma gama de produções que se seguiram depois, as mais presunçosas achando que podiam igualar até mesmo seu grande momento –a cena trepidante, eletrizante e inacreditável onde o carro do policial persegue pelas ruas de São Francisco, e depois pelas auto-estradas além, o auto-móvel dos bandidos.
Não podiam: Tão única e antológica é essa cena que, na autenticidade de seus efeitos práticos e na habilidade real ostentada pelos dublês a frente das câmeras, ela continua, cinquenta anos depois, inimitável.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os Sete Samurais / Sete Homens e Um Destino

 Nos extras do DVD de “O Poderoso Chefão”, Francis Ford Coppola afirma, em um dado momento, que Akira Kurosawa é o “pai da violência no cinema moderno”. 
Há que se admirar alguém que tem fãs como ele. Inúmeros de seus trabalhos são provas fervilhantes e monumentais de que Coppola está certo. Cada filme que Kurosawa concebeu é um tratado cinematográfico em si, onde a postura da narrativa reitera aquilo que o cinema era, é e ainda pode vir a ser. 
Falemos de “Os Sete Samurais” e, por conseguinte, da sua refilmagem norte-americana, “Sete Homens e Um Destino”. 
Um assolado Japão feudal é palco do suplício de uma aldeia de humildes agricultores que, colheita após colheita, não têm outra opção senão resignar seus ganhos a inescrupulosos bandidos que aparecem todo ano. Desta vez, contudo, será diferente: Alguns deles viajam até as cidades maiores a fim de recrutar um número satisfatório de samurais que se oponham aos samurais e protejam a aldeia. 
O grupo reunido, aos trancos e barrancos, aqui e ali, é uma seleção desigual de sete renegados samurais que se prestam a ajudá-los. 
O filme é de um primor que somente um mestre como Akira Kurosawa é capaz de materializar na tela: A batalha final, debaixo de uma chuva torrencial, é uma aula sobre o uso de elementos dramáticos no cinema. E o seu material é tão genuíno e rico que se prestou a uma das mais dignas refilmagens já feitas até hoje.
Em “Sete Homens e Um Destino”, a mesma premissa é transposta para o Velho Oeste, e termina a ele encaixando-se como uma luva: Camponeses indefesos, cansados de serem explorados pela mesma quadrilha de bandoleiros, ano após ano, saem à procura de pistoleiros de aluguel para que aplaquem, de uma vez por todas, os seus algozes. 
Ao compará-los, é inevitável que a obra japonesa acabe prevalecendo, mas o filme norte-americano tem qualidades inquestionáveis: Seu elenco, recheado de grandes astros, é um espetáculo (Yul Brinner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach, James Coburn, Robert Vaughn), a direção de John Sturgees se inspira na objetividade de Kurosawa, e entrega um trabalho fluido e envolvente, e a trilha sonora de Elmer Bernstein é, sem sombra de dúvidas, um clássico do cinema. 
Por sinal, o faoreste vai ganhar uma refilmagem (ironia das ironias!) em 2016, dirigido por Antoine Fuqua. Kurosawa, na realidade, foi perspicaz ao perceber essa dicotomia entre os gêneros de samurai e faroeste. Não à toa, muitos de seus trabalhos tinham influência do diretor John Ford. Por essa razão, o faroeste (mas não somente ele) acomodava muito bem a dramaturgia de seus filmes: Além de “Os Sete Samurais” foram também refilmados em versão faroeste, “Rashomon” (em “Quatro Confissões” de Martin Ritt) e “Yojimbo-O Guarda Costas” (em “Por Um Punhado de Dólares” de Sergio Leone). Sem falar de “A Fortaleza Escondida” que serviu da base para George Lucas conceber um certo “Star Wars”. 
Vale lembrar que o inverso também já aconteceu, a trama do clássico de Clint Eastwood, “Os Imperdoáveis”, foi adaptada para o Japão feudal no filme de samurais “Yurusarezaru Mono”, infelizmente inédito no Brasil.