Mostrando postagens com marcador Rosalind Russell. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rosalind Russell. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de março de 2020

Férias de Amor

“Picnic” foi uma peça teatral escrita por William Inge e estreada em meados de 1953. Imediatamente, sua mistura inteligente de intrigas amorosas, sensualidade e observação moral de comportamentos provincianos capturou o fascínio do público que transformou-o num sucesso dos palcos.
Dois anos depois, ele seguiu o caminho natural ao ser adaptado para cinema num filme que, em 1955, disputou o Oscar com o vencedor “Marty”.
Dirigido pelo mesmo realizador da montagem teatral, Joshua Logan (que mais tarde dirigiu “Nunca Fui Santa” e “Ao Sul do Pacífico”), “Férias de Amor” começava com a trajetória erradica de andarilho do não tão jovem Hal Carter (William Holden, usando e abusando de seu sex-appeal). Promissor quando jovem, Carter deixou que seu ímpeto o conduzisse por caminhos desregrados: É na qualidade de um desempregado sem eira nem beira que Carter chega, de carona num trem, a Independence, uma cidadezinha do Kansas, onde pretende localizar um ex-colega da faculdade, Alan Benson (Cliff Robertson), e obter algum emprego.
Na chegada, ao prestar auxílio a uma hospitaleira senhora cuidando de seu jardim em troca do café da manhã, Carter tem contado com suas vizinhas, as irmãs Owens, a mais nova e diletante Millie (Susan Strasberg) e a mais velha e assombrosamente linda Madge (Kim Novak, uma verdadeira aparição!).
Por meio de co-relações comuns em comunidades menores e por ironias típicas da ficção, Madge é namorada de Alan, e quando Carter enfim o encontra, muito do efeito causado pelo visitante já está em andamento: Viril e exuberante, Carter chama a atenção das duas irmãs e desperta impulsos desconfortáveis da hóspede da casa delas, a solteirona Rosemary (Rosalind Russell).
Estão em andamento as comemorações do Festival de Neewollah –o “Picnic” mencionado no título original, ampliado na versão cinematográfica para um grande evento –e eventualmente Carter é chamado para acompanhar Millie enquanto Alan planeja ostentar Madge (certamente, a mulher mais linda da cidade), a grande favorita ao posto de Rainha do Baile.
As dinâmicas se estabelecem com parcimônia e zelo: A mãe delas (Betty Field) almeja a todo custo um casamento de Madge com o endinheirado Alan; Millie se ressente pela superestima excessiva que Madge recebe de todos em função de sua grande beleza; Rosemary não deixa de perceber (e ser afetada pelo) charme másculo de Carter e, em sua perplexidade, derrama suas neuroses no único homem que a atura, o boa-praça Howard (Arthur O’Connell, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e único oriundo da montagem teatral); e Alan demonstra (inicialmente em olhares quase imperceptíveis, depois em comentários de descaso mais evidente) o profundo ressentimento que nutre pela capacidade natural que o carismático Carter tem de chamar as atenções para si.
Amparada nessas impressões, a narrativa segue ao longo do festival, entremeada de uma notável tensão que a direção deixou curiosamente nítida desde o princípio.
A partir mais ou menos de sua metade, quando as festividades ganham a noite, as músicas e danças se tornam mais íntimas, e aqueles que beberam se deixam exasperar pela embriaguez, o filme de Joshua Logan dá sua pequena e decisiva guinada, ao mostrar que Carter e Madge se deixaram levar pela atração experimentada desde o primeiro momento, e todos os personagens ao redor deles têm uma dramática reação à esse amor.
Alan responde com violência, Millie com tristeza e Rosemary com tal inveja injustificada que termina insultando Carter e acusando-o de todos os contratempos ocorridos na noite: Ela diz que ele levou o uísque com o qual Millie se embebedou (não foi, quem levou foi Howard).
É a deixa perfeita para Alan hostilizá-lo e, em última instância, tentar livrar-se dele.
Ainda que a direção de Joshua Logan não seja de todo perfeita –ele não tocava um projeto cinematográfica há pela menos 17 anos, desde “Tinha Que Ser Tua”, de 1938, e, com efeito, alguns atores (como o próprio Holden) interpretam no limiar do histrionismo –“Férias de Amor” é notável justamente por essa ciranda de dramas e amores que envolvem do início ao fim o expectador, e também pela excelência técnica que exibe (ele venceu os Oscar de Melhor Montagem e Melhor Direção de Arte em Cores).

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Jejum de Amor

A clássica peça de Ben Hecht e Charles MacArthur já havia rendido pelo menos um grande trabalho (“Última Hora”, de Lewis Milestone), e ainda renderia, anos mais tarde, o memorável “A Primeira Página”, de Billy Wilder, entretanto, dentre as diversas variações que a obra experimentou, “Jejum de Amor”, de Howard Hawks, ganha uma singular importância pela notável opção de mudar o sexo da personagem de Hildy Johnson (reza a lenda, que o diretor Hawks teve tal ideia quando pediu a uma mulher para ler com ele o texto da peça durante uma festa) –ao tornar um de seus protagonistas uma mulher, a trama irrequieta e cheia de peculiaridades envolvendo considerações profissionais bolada por Hecht e MacArthur ganha também o contexto de uma espécie de guerra dos sexos: Se antes, o interesse do personagem do editor-chefe era garantir seu melhor repórter para dar corpo à sua bombástica manchete (e fazê-lo compreender, como seu amigo, que o casamento não inibirá seu ímpeto investigativo), agora, o texto já carregado de mordacidade, adquire também tensão romântica, no fato de que aos elementos políticos, profissionais e jornalísticos em jogo, estão também os amorosos.
Katharine Hepburn, Jean Arthur, Margaret Sullivan, Irene Dunne e Claudette Colbert chegaram a ser convidadas, mas recuraram o papel que Rosalind Russell torna, aqui, antológico.
Ela é Hildy Johnson, intrépida repórter cujo casamento marcado com o ingênuo Bruce Baldwin (Ralph Bellamy, de "O Bebê de Rosemary" e "Uma Linda Mulher") transformará Walter Burns (Cary Grant), editor-chefe do “Morning Post” não apenas em seu ex-marido com também em seu ex-patrão: Ela afirma querer agora (sem muita convicção) uma vida tranquila numa cidade interiorana.
Tudo isso se dá durante uma verdadeira celeuma jornalística: A prisão e iminente enforcamento com fins políticos de um tal Earl Williams (John Qualen) por ter acidentalmente matado um policial negro, despertando a ira de sua comunidade; interessado nesses votos, capazes de reelege-lo, o prefeito de Nova York faz vista grossa aos indícios que poderiam inocentar Earl e livrá-lo da forca.
Contudo, Burns deseja usar os recursos do “Morning Post” para salvar a vida de Williams e o desempenho de Hildy em seu plano será fundamental –desde que ele consiga, com muita lábia e jogo de cintura, convencê-la a adiar a viagem de trem para Albany, onde pretende casar-se e se aposentar da vida de repórter.
Burns pretende encontrar uma forma de provar à Hildy não apenas que o ofício de repórter é indissociável dela, como também que ainda é o homem de sua vida.
Embora muito lembrado por diversos títulos imponentes realizados dentro do gênero faroeste, o diretor Howard Hawks sempre teve mais apreço pela fascinante mecânica teatral das encenações em ambientes fechados –a prova disso é que, aqui, ele guia um texto que se alterna em pouquíssimos cenários, amparado quase exclusivamente na intensidade desafiadora de seus diálogos (numa média de 240 palavras ditas por minuto) e na energia de seus atores em cena (em especial, Cary Grant e Rosalind Russell, que estão brilhantes); e o faz parecer frenético e agitado, nunca permitindo que o teor verborrágico torne o ritmo enfadonho ou arrastado.