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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Rio Vermelho

Cerca de oito anos antes do anti-herói de “Rastros de Ódio”, John Wayne interpretou (e muito bem) outro personagem de características obscuras, quase um vilão, neste admirável trabalho do diretor Howard Hawks.
Se não chegava a ser um gênio com o brilho e o primor de John Ford, ao menos, Hawks tinha também ele uma visão bastante intrínseca das bifurcações morais surgidas nas circunstâncias áridas do Velho Oeste, e tal visão é colocada com intenso escrutínio nesta envolvente fábula sobre a resistência ética em contraponto à truculência da ordem. Embora a trama preserve nítidos elementos romantizados, Hawks a ambienta num episódio muito real: A maior e mais longa travessia de boiada registrada na história americana.
Seu enredo, no entanto, tem início bem antes disso, quando o vaqueiro Tom Dunson (John Wayne) decide abandonar uma caravana em direção à Costa Leste para arriscar-se como criador de gado tendo ao seu lado o fiel e velho companheiro Groot (Walter Brennan). O temperamento difícil e irredutível de Dunson já fica aí evidente: A jovem que ele ama (Coleen Gray) praticamente implora para que ele a leve. Ele insiste que ela fique, argumentando que mais tarde mandará buscá-la.
É uma escolha insistente da qual ele se arrependerá amargamente: Poucas horas depois, a caravana é atacada por índios comanches e, entre outros, ela é assassinada.
O único sobrevivente é uma criança, o jovem Matt Garth, de cuja criação Dunson e Groot passam a se incumbir.
Ao chegar nas pradarias do Texas, Dunson inicia sua criação de gado que prospera ao longo dos quinze anos seguintes, vindo então a enfrentar a queda do preço da carne de boi acarretada pela Guerra Civil Norte-Americana. Diante dessa nova adversidade, Dunson, junto de Groot e Garth (agora interpretado pelo ótimo Montgomery Clift, em sua estréia no cinema), toma a decisão de levar suas milhares de cabeças de boi (algumas tiradas com arrogância de outros incautos criadores) para a cidade de Abilene, no Kansas, onde poderão ser negociadas por um valor razoável. Entretanto, a longa viagem por meio da penosa Trilha Chisholm é extremamente árdua, tão mais pelo fato de Dunson não se mostrar um chefe de fácil convivência: Ele submete seus subordinados a jornadas de trabalho intoleráveis, e os desertores acabam sendo julgados de maneira implacável, não raro, com a morte.
A medida que a exaustão e a tensão acirram os já acirrados ânimos de Dunson, Garth se vê no ingrato papel de único indivíduo capaz de proteger os perplexos empregados de sua severidade intolerante.
E tudo parece caminhar para um embate entre o veterano e o rapaz.
Como costumava ser habitual em seus argumentos, aqui o gênero faroeste se mostra um terreno fértil para a reflexão da perene premissa na qual a conciliatória mentalidade dos novos tempos precisa sobrepor os hábitos intransigentes do conservadorismo –e o astro John Wayne incorpora essa segunda linha de pensamento como ninguém.
Por meio dessa rara compreensão das motivações humanas, o diretor Hawks exercita sua perspicácia narrativa (com a introdução enriquecedora de diálogos sobrepostos, uma inovação que acrescenta suspense e autenticidade a muitas cenas) emoldurando o duelo mais psicológico e moral do que literal e conotativo entre os dois grandes personagens (Dunson e Garth) que ele se incumbe de construir com a ajuda de seus dois astros espetaculares.
Ao final, é a presença feminina de Milley (Joanne Dru) –embora as mulheres tenham se mantido bastante ausentes no desenvolvimento da narrativa até então –que introduz um elemento de necessária sensatez à rixa desmedida que vinha progredindo ao longo do filme.
Um pensamento avançado para mentes que se supunha de raciocínios bastante antiquados.

sábado, 6 de abril de 2019

Os Vencedores do Oscar 1937

O grande avanço registrado na cerimônia de 1937 veio a ser a histórica implantação das categorias de Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes –até então só existiam as categorias principais –o que contribuiu para atrair a atenção para a premiação o setor de membros da Academia formado de intérpretes.
Os primeiros vitoriosos nessas duas áreas foram o grande Walter Brennan, por “Meu Filho É Meu Rival” (ele viria a ganhar três Oscar de Coadjuvante!), e Gale Sondergaard, por “Adversidade”, (curiosamente, ela concorria com Alice Brady, por “Irene, A Teimosa”, que viria a faturar o prêmio no ano seguinte).
Suntuosa produção da MGM, o musical de três horas de duração, “Ziegfeld-O Criador de Estrelas” foi o grande vencedor da noite com três prêmios dentre sete indicações, ainda que esteja longe de ser uma unanimidade de crítica.
Ele também concedeu o prêmio de Melhor Atriz à Luise Reiner, enquanto que o de Melhor Ator foi para Paul Muni, por “A Vida de Louis Pasteur”.
“Ziegfeld” não levou o Oscar de Melhor Diretor, sendo conquistado por “O Galante Mr. Deeds” (para muitos, o filme que deveria ter sido realmente premiado), cujo realizador, Frank Capra, era à época, presidente da Academia.

MELHOR FILME
"Ziegfeld-O Criador de Estrelas"

MELHOR DIREÇÃO
"O Galante Mr. Deeds", Frank Capra

MELHOR ATRIZ
Luise Reiner, "Ziegfeld-O Criador de Estrelas"

MELHOR ATOR
Paul Muni, "A Vida de Louis Pasteur"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Gale Sondergaard, "Adversidade"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Walter Brennan, "Meu Filho É Meu Rival"

MELHOR ROTEIRO
"A Vida de Louis Pasteur"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"A Vida de Louis Pasteur"

MELHOR DIRETOR ASSISTENTE
"A Carga da Brigada Ligeira"

MELHOR DIREÇÃO DE DANÇA
"Ziegfeld-O Criador de Estrelas"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Adversidade"

MELHOR SOM

MELHOR TRILHA SONORA
“Adversidade"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Way You Look Tonight", de "Ritmo Louco"

MELHOR MONTAGEM
"Adversidade"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES
"Fogo de Outono"

sábado, 23 de março de 2019

Os Vencedores do Oscar 1939

Desde sempre compreendeu-se que a sisudez dos membros da Academia de Artes Cinematográficas evitava premiar filmes de comédia em detrimento aos dramas densos, ou até mesmo melodramas, considerados mais apropriados para a elegância almejada pela premiação. No entanto, não havia como negar a pertinência e a importância das comédias executadas por Frank Capra naquele período (os anos pós-Depressão) que serviram de alento a uma sociedade desiludida e sem muita razão para sorrir.
Tanto é que são dele as duas primeiras obras de comédia premiadas na categoria principal: No caso, “Aconteceu Naquela Noite”, em 1935 (já chegamos lá), e “Do Mundo Nada Se Leva”, o grande vencedor da cerimônia de 1939.
Muitos foram, entretanto, aqueles que apostaram suas fichas na vitória de “Jezebel”, de William Wyler, a trazer em seu elenco Henry Fonda, Bette Davis e Fay Bainter (estas duas últimas, premiadas com os Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente); ou no clássico de Jean Renoir, “A Grande Ilusão”. No total, haviam dez indicados muito expressivos, e todos eles dignos de uma premiação –além dos já citados, havia “As Aventuras de Robin Hood”, com Errol Flynn (vencedor de três prêmios técnicos), “A Epopéia do Jazz”, “Quatro Filhas”, “A Cidadela”, “Piloto de Provas”, “Pigmalião” e “Com Os Braços Abertos”.
Falando nele, 1939 também marca a segunda vitória consecutiva de Spencer Tracy, por “Com Os Braços Abertos”, na categoria de Melhor Ator –feito semelhante só se repetiria com Tom Hanks, cerca de seis décadas depois!
Na foto acima está Walt Disney recebendo um Oscar Honorário para lá de especial: Um reconhecimento ao revolucionário trabalho prestado em animação com "Branca de Neve e Os Sete Anões"; pode-se notar que é um Oscar de tamanho normal acompanhado de sete miniaturas (!).

MELHOR FILME
"Do Mundo Nada Se Leva"

MELHOR DIREÇÃO
"Do Mundo Nada Se Leva", Frank Capra

MELHOR ATRIZ
Bette Davis, "Jezebel"

MELHOR ATOR
Spencer Tracy, "Com Os Braços Abertos"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Fay Bainter, "Jezebel"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Walter Brenan, "Com Os Braços Abertos"

MELHOR ROTEIRO
"Pigmalião"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"Com Os Braços Abertos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"A Grande Valsa"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES
"As Aventuras de Robin Hood"

MELHOR SOM
"The Cowboy And The Lady"

MELHOR TRILHA SONORA
"A Epopéia do Jazz"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“As Aventuras de Robin Hood"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Thanks For The Memory", de "Folia A Bordo"

MELHOR MONTAGEM
"As Aventuras de Robin Hood"

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Onde Começa O Inferno

Pode parecer absurdo diante da obra fenomenal que é “Matar Ou Morrer”, de Fred Zinnemann, mas na época de seu lançamento houve quem repudiasse a postura adotada pelo protagonista espetacularmente vivido por Gary Cooper, assim como a ideologia pacifista por trás da premissa.
Para o diretor Howard Hawks e o astro John Wayne –profundamente engajados com a política de extrema direita norte-americana –a idéia de um xerife pedir por ajuda entre a população era algo inadmissível, e juntos eles fizeram “Onde Começa O Inferno” como uma resposta à essa produção que julgavam incorreta.
A despeito das motivações de ordem política e ideológica dos realizadores, “Onde Começa O Inferno” é, assim como “Matar Ou Morrer”, um dos grandes clássicos inquestionáveis do gênero.
O delegado John Chance (John Wayne) desafia o temor absoluto que o grupo dos irmãos foras-da-lei Nathan e Joe Burdette exercem na região, ao prender Joe (Claude Akins) depois que este mata um homem no bar local.
Agora, com Joe cativo na cadeia, Chance precisa conter os avanços de Nathan (John Russell) e de outras dezenas de pistoleiros profissionais contratados. Em seu orgulho, ele reitera que os moradores não devem se envolver em assuntos da lei –visto hoje, sem o conhecimento de todo o alarde que resultou na criação do projeto, esse detalhe quase passa despercebido –e conta com o auxílio, até a chegada de reforços vindos de cidades maiores, apenas de seus três ajudantes: O incorrigível bêbado Dude (Dean Martin, impagável), o ancião aleijado Stumpy (o grande Walter Brennan) e o jovem entusiasmado Colorado Ryan (Ricky Nelson).
A dinâmica entre esses três personagens –sobretudo, Chance e Dude –é deliciosa de se acompanhar em seus pormenores humorados e tensos, e ainda resta espaço para um romance tímido com a bela corista Feathers (Angie Dickinson, um par romântico consideravelmente mais jovem do que Wayne), sem falar na trama principal, que envolve os bandidões e que movimenta a envolvente narrativa deste filmaço até o fim.