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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

A Noite Que Mudou O Pop


 Na noite (e na madrugada adentro) do dia 22 de Janeiro de 1985, algo sem precedentes aconteceu no showbuziness: Uma reunião, até então tida como impraticável, de alguns dos mais fulgurantes nomes da música pop norte-americana. Todos eles foram reunidos num mesmo estúdio de gravação a fim de prepararem uma música destinada a simbolizar e a incentivar o mundo num gesto de solidariedade em prol das vítimas de fome severa na África. Essa música, caso você não tenha vivido no planeta Terra nas últimas décadas, veio a ser o single de avassalador sucesso “We Are The World”, e este documentário da Netflix, realizado por Bao Nguyen, vem a descortinar os percalços que anteciparam aquele evento, assim como expor ao mundo os bastidores preciosos do que aconteceu –em perspectiva, esse esforço serve também para avaliarmos, de nossa posição de público atual, o impacto que aquele gesto teve na conjuntura política de então, no mundo do entretenimento daquela década de 1980 assim retratada e na própria percepção dos artistas que dele participaram (e que comparecem prestando seus, muitas vezes, emocionados depoimentos).

Descobrimos, logo de início, que muito do que aconteceu se deve pelo empenho, em várias frentes, do cantor Lionel Ritchie. Então saído da banda The Commodores, Lionel almejava uma carreira solo, que começava a despontar naqueles idos de 1984 –ele havia até mesmo sido convidado a apresentar o American Music Awards, no início do ano seguinte. Foi quando o produtor musical Quincy Jones apareceu com uma proposta inusitada: Inspirado pelo ativismo sempre pertinente do ator, cantor e lenda Harry Belafonte, Quincy e alguns outros grandes produtores do mercado musical resolveram arregaçar as mangas e realizar um projeto que alertasse o público mundial acerca das gravíssimas celeumas enfrentadas pela população da África, que morriam às centenas de fome e desnutrição.

Era necessário que algo sem precedentes fosse realizado, para que sua repercussão conseguisse extrair o público em geral da apatia, e os produtores não conseguiam imaginar algo maior do que reunir os maiores artistas da música atual num único espaço a fim de gravarem juntos uma única canção.

Mas, qual canção seria essa?

Coube a Lionel Ritchie, entre outras coisas, compor tal canção ao lado do sempre excêntrico (mas, nunca menos que sensacional) Michael Jackson –ele relata, com muito bom humor, que Stevie Wonder também havia sido chamado para a tarefa, mas não manifestou-se naqueles dias por conta da apertada agenda.

Assim, enquanto Lionel e Michael tentavam encontrar a composição certa, os produtores arregimentavam todos os nomes que eram capazes de obter para gravar a tal música. Kenny Rogers? Aceitou na hora! Madonna? Os produtores a queriam muito, mas não pôde aceitar. Bob Dylan? Artista engajado que era, prontamente, disse sim. Bruce Springsteen? Ele estava em turnê nos EUA, mas, na medida do possível, faria de tudo para participar. Logo, um problema maiúsculo foi identificado: Era simplesmente impossível conciliar um dia e um horário específicos que se harmonizassem na agenda apertadíssima e disputada de tantas estrelas.

A saída (genial) que os produtores encontraram: O único momento em que todos se reuniriam na mesma cidade, de Los Angeles, seria na noite da premiação do American Music Awards –aquela na qual, vale lembrar, Lionel Ritchie seria apresentador –então, seria naquela noite, imediatamente após os prêmios, que todos seriam convocados nos estúdios da A.M. Records.

O documentário registra a tensão dos produtores e planejadores aumentando exponencialmente a medida que a data se aproxima e os complexos preparativos do evento vão sendo executados. Faltando inacreditáveis oito dias para a data marcada, Lionel e Michael ainda não tinham uma música pronta –isso, numa época em que não haviam tecnologias digitais nem facilitadoras como a internet para tornar a comunicação e o envio de gravações mais ágeis. Lionel credita a criação da música, ocorrida num momento súbito e inesperada, à Deus: Somente uma intervenção divina, ele afirma, teria permitido à ele e à Michael Jackson (grandes artistas, cada um, mas de estilos e sensibilidades diferentes) criarem absolutamente do nada uma canção de tal forma inspiradora, bela e imediatamente acessível e reconhecível, capaz de se adequar à personalidade de tantos artistas diferentes.

A aguardada noite de 22 de janeiro não tarda a chegar; esse, deveras, não é o clímax do filme, mas sim todo o trecho que ocupa sua segunda metade.

Após a cerimônia de premiação –na qual Lionel Ritchie aproveitou a situação dos bastidores para reforçar o convite e salientar a importância da presença dos artistas o maior número possível –os estúdios A.M. começam a receber, pouco a pouco, seus célebres participantes, numa organização que precisou de extrema habilidade a fim de que nenhuma informação a esse respeito vazasse para imprensa; o que teria transformado tudo em um circo caótico.

A reunião é inicialmente tímida, mas, aos poucos, os artistas vão se entrosando para a execução do tão icônico refrão. Personalidades como as de Michael Jackson (um dos mais dedicados, presente desde quando a premiação ainda seguia, horas antes) e do produtor Quincy Jones (agindo com profissionalismo e camaradagem, servindo de maestro e psicólogo das estrelas) se destacam. Então, chega o momento, após muitos erros e acertos, das gravações vocais individuais –ao contrário de canções que costumavam levar dias, até semanas para serem gravadas e mixadas, “We Are The World” até pela reunião improvável de tantas vozes festejadas da música, teve de ser toda ela gravada numa única ocasião.

Entre inseguranças genuínas da parte de alguns (como a humildade de Huey Lewis, reconhecendo o temor de cantar ao lado de ídolos seus),  o documentário destaca o desconforto honesto de Bob Dylan; o bom humor admirável de Ray Charles; a inspiração acolhedora de Stevie Wonder; e a comovente percepção de Diana Ross ao final de tudo, quando chorou e disse “Não quero que isso acabe!”.

São momentos mágicos registrados pelas câmeras e chega a ser quase inacreditável saber que houveram registros audio-visuais tão precisos e meticulosos disso tudo –o documentário praticamente não precisa se valer de expedientes como fotos de arquivos ou coisas assim.

É no trecho final, contudo, que o filme encanta por completo o expectador; quando, enfim, testemunhamos a divulgação pública de “We Are The World”  acompanhamos os efeitos poderosos de sua repercussão, traduzidos em auxílio imediato àqueles que mais precisavam, os despossuídos da África. Pela antológica reunião de celebridades que uniam tanto carisma e talento, e pelo retrato edificante de um raro momento em que o showbuziness realmente agiu a serviço de um bem maior, não há como não se emocionar com “A Noite Que Mudou O Pop”.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Trocando As Bolas


 Os trabalhos assinados pelo diretor John Landis se beneficiaram muito do terreno propício à comédia que certos valores culturais dos anos 1980 fomentaram; prova disso é que a qualidade de suas realizações decaiu quando chegaram os anos 1990, bem mais cínicos. “Trocando As Bolas” foi um grande sucesso –embora não tenha entrado no subconsciente da cultura pop como o cultIrmãos Cara-de-Pau” –e é indicativo do estilo minucioso (ainda que ligeiramente convencional) de Landis para construir humor; e em contrapartida, é também um exemplo do quão frutífera era sua capacidade para moldar cenas memoráveis.

Em sua premissa, “Trocando As Bolas” pode soar improvável, até mesmo simplista (características que definem diversos sucessos dos anos 1980), mas a soma de suas partes garante uma qualidade que vai além de sua estranha ingenuidade: O filme basicamente gira em torno de uma aposta, perpetrada por dois velhotes milionários, na qual acreditam que serão capazes de mudar a índole de duas pessoas completamente distintas desde que se mude também o ambiente em que vivem. Essas duas pessoas veem a ser Louis Winthorpe III (Dan Akroyd, que trabalhou com Landis em “Irmãos Cara-de-Pau”) e Billy Ray Valentine (Eddie Murphy, que trabalhou com Landis em “Um Príncipe Em Nova York”).

Winthorpe é ricaço, nascido em berço de ouro e, como tal, é esnobe, vaidosamente articulado, elitista e arrogante. Valentine é pobre, criado nas ruas e vive na base da própria malandragem –começa o filme, por exemplo, se fazendo passar por mendigo aleijado (!).

São a dupla de milionários Duque Randolph e Duque Mortimer (os veteranos Ralph Bellamy e Don Ameche) quem engendram a aposta que mudará drasticamente a vida dos dois: Eles arremessam Winthorpe na pobreza (sabotam sua credibilidade junto ao círculo social, congelam suas finanças, o incriminam de roubo, tiram suas posses, incluindo sua moradia, e o levam até a perder o noivado arranjado); e pegam Valentine (tirado diretamente da cadeia!), e o colocam em seu lugar. Uma vez limpo, bem vestido, posto para morar numa mansão de luxo (assessorada pelo mordomo vivido por Denhol Elliot, de “Caçadores da Arca Perdida”) e incluído no quadro de funcionários de classe alta da empresa de compra e venda de ações dos Duque, Valentine passa pela metamorfose que eles tanto mencionaram: Abandona o linguajar chulo, abre mão do comportamento que antes o definia e chega até a expulsar vários conhecidos da ralé de uma festa (regada à muita nudez!) em sua mansão. De sua parte, Winthorpe –que só não sucumbe totalmente graças ao auxílio da garota de programa interpretada pela maravilhosa Jamie Lee Curtis –adquire hábitos mais desesperados e questionáveis (enche os bolsos de comida em uma festa de grã-finos onde ele entra trajado de Papai Noel!).

Vale destacar que os dois atores principais estão ótimos, cada um à sua maneira: Eddie Murphy compõe sem qualquer histrionismo (do qual muitos críticos achavam que ele não era capaz de se desvencilhar) e com muita solidez e dignidade a conversão de Valentinde, de um homem mundano, suburbano e cheio de lábia em alguém refinado, sofisticado e adequado à classe alta; enquanto que a transformação de Dan Akroid é outra: Seu personagem vai de um cara mimado e blassé para alguém mais razoável e sofrido, por quem o público já consegue torcer.

É assim que, ao constatarem a armação amoral na qual ambos caíram, Winthorpe e Valentine, já no divertido terceiro terço do filme irão à forra, e tentarão voltar os planos sem qualquer empatia dos Duque contra eles mesmos. Nesse processo, o filme de Landis consegue encaixar uma série de momentos absolutamente icônicos dentro das emblemáticas obras da década de 1980. Cito dois deles, dentre os muitos: A cena inebriante e fenomenal de nudez da deliciosa Jamie Lee Curtis (a única em toda sua carreira, fazendo a loucura dos fanáticos por filmes de terror que ansiaram, sem sucesso, que ela fizesse uma cena assim em algum dos filmes que deram a ela a fama de “rainha do grito”), e a participação rápida, essencial para a trama e, no mínimo, inusitada de Jim Belushi, fantasiado de gorila (!).

No auto-centrado e rabugento cinema realizado atualmente, a premissa de “Trocando As Bolas” seria  insustentável até mesmo para uma animação, mas nos anos 1980, foi capaz de render um de seus mais hilariantes produtos comerciais.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Formiguinhaz


 Nos anos de transição da década de 1990 para 2000, o estúdio Dreamworks, fundado por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen, entrou numa série de projetos, disposto a fazer estardalhaço no cinema. Certamente, um desses projetos, “Formiguinhaz”, haveria de envolver animação, a grande especialidade do produtor Katzenberg –que esteve a frente da reformulação dos Estúdios Disney com “A Pequena Sereia” e “A Bela e A Fera”, dez anos antes. A ironia foi que “Formiguinhaz”, numa dessas coincidências inconvenientes que vez ou outra acontece em Hollywood, estreou na mesma temporada que outra animação, também ela tendo o mundo miniatura dos insetos como foco central, “Vida de Inseto”, da Pixar.

Na comparação com o divertido e descontraído trabalho da Pixar, “Formiguinhaz” é pleno de escolhas curiosas, indicativas do quanto os realizadores vão muito além de entregar uma obra para crianças, mas uma produção pontuada por detalhes que chamam a atenção dos adultos.

A começar pela escolha de Woody Allen para dar voz ao personagem principal, a formiga operária Z que, no início do filme, surge num divã, relatando suas neuroses num tom hesitante e tímido que Allen domina completamente. Com isso parece haver uma relação estabelecida pelos realizadores entre as formigas e o povo de Nova York –cosmopolitas, numerosos, incapazes de prestar atenção uns nos outros, colhidos numa série de ciclos viciosos e, como Z, sujeitos a ocasionais vazios existenciais.

Z se pergunta porque deve ser mais um dentre tantos. A mediocridade o incomoda quando parece não perturbar todos os outros, indiferentes e dóceis para com sua rotina.

Assim, Z propõe uma ligeira troca com seu melhor amigo, Weaver (voz de Sylvester Stallone): Ele, que é soldado, trocará de lugar com Z, e assim saberá como é o dia-a-dia de um operário –enquanto que Z poderá experimentar a emoção diferenciada de partir em batalha. Para o azar de Z, porém, o General Mandíbula (Gene Hackman) organiza uma ataque aos cupins, moradores de um formigueiro próximo –repare na cena em que Z encontra a cabeça decepada, mas ainda viva e falante, de um amigo no campo de batalha (!), exemplar do quanto a animação não ameniza em cenas até um tanto violentas.

Por suas dimensões reduzidas para um soldado, Z acaba sendo o único sobreviventes da batalha –o que coloca  certo imprevisto nos planos do General Mandíbula. Quando seu embuste é descoberto, contudo, resta a Z improvisar e, com isso, ele escapa para fora do formigueiro junto da Princesa Bala a quem tentou fazer, muito atrapalhadamente, de refém.

Paralelamente, a animação acompanha então a aventura de Z e da Princesa Bala às voltas com os perigos do agigantado mundo exterior –onde testemunhamos mais cenas intensamente violentas, como a cauterização de uma formiga com o raio solar de uma lupa; ou a morte de um inseto fêmea esmagada por meio de um mata-moscas –e a crescente fama de Z entre seus pares do formigueiro, em meio aos quais corre a história da audácia do operário em decidir ocupar o lugar de um soldado, e tornar-se herói de guerra com isso.

Vai ficando também claro o plano maligno do General Mandíbula, e nele, a mensagem de individualismo difundida nas peripécias de Z entre as demais formigas acaba sendo prejudicial.

Surpreendente devido ao seu sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, “Formiguinhaz” não aparenta obter uma conciliação na preferência de público; sua trama ostenta complexidades demais para crianças pequenas, seu senso estético (ainda que obedeça os padrões da animações em geral) constrói cenas um tanto quanto particulares em seu realismo, seu elenco inacreditável (onde, é bom lembrar, somente as vozes são de fato aproveitadas) sinalizam a vontade de impressionar a parte mais crescida da plateia, a flagrante humanização dos personagens insetos proporciona certa estranheza, mais comum em animações europeias, e sua mensagem final –na sofisticação de sua abordagem –parece inacessível ao seu suposto público-alvo.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Os Irmãos Cara-de-Pau


 Não é nada difícil de entender as razões que transformaram “The Blues Brothers”, de John Landis, em um cult-movie: Irrequieto e dançante do início ao fim, o filme consegue um raro equilíbrio entre o ritmo eletrizante, os sucessivos desdobramentos episódicos que acompanham os protagonistas (e que os emolduram com uma aura inspirada e inconsequente de desenho animado) e um humor fervilhante e irresistível, dos mais bem administrados dos anos 1980.

O filme narra a epopéia caótica, musical e hilária dos Irmãos Blues, o rechonchudo Jake (o irreverente John Belushi),recém-saído da cadeia onde esteve por cinco anos, e o magrelo Elwood (Dan Akroyd, ligeiramente abobado). Crescidos num orfanato, os dois, outrora músicos que viviam e respiravam jazz, têm o estiloso hábito de usar ternos pretos e óculos escuros em todas (e até nas mais inadequadas!) ocasiões; maneirismo emprestado de seu grande ídolo, o zelador Curtis (Cab Calloway, a primeira de inúmeras participações especialíssimas que virão). Jake e Elwood tomam para si o objetivo de quitar os impostos pendentes do orfanato em que cresceram impedindo sua demolição. A inspiração vem num culto regido pelo reverendo personificado por James Brown: Reunir sua antiga banda e juntar dinheiro honesto o suficiente –uma vez que a freira que os criou (vivida com singular aura messiânica por Kathleen Freeman) os proibiu de obter dinheiro ilicitamente. Dessa maneira, os Irmãos Blues procuram, um a um, os integrantes de seu famoso conjunto, o ‘Blues Brothers’ –incluindo seu trompetista (Tom Malone), agora um maitrê num restaurante chique onde eles aprontam poucas e boas; e seu guitarrista (Matt Murphy), agora cozinheiro numa lanchonete a serviço da esposa (Aretha Franklyn, num dos grandes momentos do filme). Ah, e eles também param numa loja de instrumentos musicais, gerenciada por ninguém mais, ninguém menos do que Ray Charles!

Nesse percurso, Jake e Elwood são perseguidos pela misteriosa ex-noiva de Jake (Carrie Fisher, num papel extremamente cartunesco e que demora a se esclarecer) que munida de bazucas (!), lança-chamas (!!), metralhadoras (!!!) e outros utensílios, tenta matá-los a toda hora –aquela aura de desenho animado de que falei...

Conforme os planos começam a dar errado (eles não conseguem agentes e, com isso, têm de se apresentar em inferninhos pouco rentáveis), os Irmãos Blues apelam para uma apresentação definitiva num grande anfiteatro, alugado com o ‘auxílio’ de um gangster (Steve Lawrence); todavia, até chegar nesse ponto, a trilha de destruição que os apalermados Blues Brothers vão deixando já colocou em seu encalço toda polícia de Illinois, bem como um grupo de ensandecidos e ridículos neo-nazistas!

Brilhantemente dirigido por John Landis, que jamais deixa que o filme se acomode num estilo simplório ou numa circunstância que reduza a marcha insana de seu roteiro, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é quase um tour-de-force, um exemplo virtuosístico de narrativa conduzida num crescendo que leva à seqüência final, uma das perseguições de carro mais destrutivas da história do cinema, quando a afiadíssima dupla central tem poucas horas para chegar à Tesouraria do município de Chicago e saudar todas as dívidas do orfanato –numa missão que eles passam o filme todo dizendo ser de providência divina! –trazendo, ao fim, uma de suas mais sensacionais aparições especiais: Steven Spielberg!

Há pouco nexo no desenvolvimento de seu enredo, ele é povoado de piadas e gags que, no contexto errado, seriam infames e até sem graça (e parece um milagre que todas funcionem brilhantemente até os dias de hoje), e certamente sua realização prescinde de qualquer mensagem subliminar, entretanto, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é o raro tipo de obra que resulta muito mais que apenas a soma de suas partes: É um trabalho incomparável, funcional e envolvente (a pífia e tardia continuação, lançada no ano 2000, é um exemplo do quão impossível é repetir sua mágica), encantador em sua primazia cinematográfica, tão assombroso quanto insuperável nas cenas antológicas, divertidas e vertiginosas que enfileira, e um convite eterno e constante ao riso frouxo.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Além da Eternidade


 Alguns anos antes do sucesso maciço de “Ghost-Do Outro Lado da Vida”, o diretor Steven Spielberg teve a ideia de fazer seu próprio romance com elementos sobrenaturais. Isso, claro, acabava sendo consequência do fato de “Além da Eternidade” ser uma refilmagem do clássico “Dois No Céu”, de Victor Fleming, lançado em 1943, que ele descobriu ser uma paixão em comum com o ator Richard Dreyfuss, com quem trabalhou em “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” –daí, ser Dreyfuss o simpático protagonista desta produção.

Transpondo a ação da Segunda Guerra Mundial para os anos 1980 de então, a trama se ambienta entre os pilotos de grandes aviões destinados a apagar incêndios florestais descarregando grandes reservatórios de água sobre as chamas.

Um desses pilotos é Pete Sandich (Dreyfuss), apaixonado, por sua vez, por Dorinda Durston (Holly Hunter), a controladora de voo –e o casal formado por Dreyfuss e Hunter tem tanto carisma, exala tanta química, que eles tornaram a fazer par romântico, desta vez no estranho “Meu Querido Intruso”, do sueco Lasse Halstrom.

Durante uma operação emergencial de contenção de incêndio, Pete se sacrifica para salvar outro piloto, seu grande amigo Al Yackey (John Goodman, fantástico), e seu avião explode.

Pete morre, mas, de alguma forma, sua alma não terminou seus assuntos pendentes na terra –ou, pelo menos, é o que dá a entender uma espécie de anjo que lhe aparece, apropriadamente interpretado por Audrey Hepburn.

O fantasma de Pete retorna para junto de seus entes queridos ainda vivos, contudo, com uma missão: Deve ajudar sua amada Dorinda a superar o luto, e permitir que ela encontre o caminho até um outro amor, que no caso seria o piloto substituto Ted Baker (Brad Johnson, de “Projeto Filadélfia 2“). Pete vem com alguns ‘poderes’: É capaz de sugerir ideais e ações às pessoas vivas ao sussurrar para elas.

Diferente da convicção empolgante que Spielberg sempre ostentou em tantos outros projetos, aqui ele parece ligeiramente acanhado ao falar de amor; esse é claramente um tema que, em sua aura pueril, ele mostra-se desconfortável ao abordar.

Ainda assim, “Além da Eternidade” preserva os aspecto usuais de ser realizado por um grande diretor: Seu ritmo é impecável, fluente e funcional, o elenco é dirigido com primazia e, acima de tudo, suas boas intenções afloram na tela tornando-o, se não emocionante, ao menos emotivo. Contudo, este talvez seja o primeiro caso na carreira de Spielberg no qual o nível tão elevado de suas outras realizações depõe contra a qualidade singela desta daqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Dragnet - Desafiando O Perigo

Pouco interessa aos expectadores de hoje (e mesmo aos do período em que foi lançado, 1987) o fato de que “Dragnet” foi uma ideia dos roteiristas Dan Akroyd (também astro), Alan Zweibel e Tom Mankiewicz (também diretor) de prestar uma homenagem ao gênero noir dos anos 1950 e 60 –em inúmeros momentos, na verdade, essa intenção de seus realizadores se transfigura pela empolgação: “Dragnet”, ao inspirar-se diretamente numa antiga série televisiva homônima (e que ganhou por sua vez um longa-metragem em 1954, intitulado “Malhas da Lei” aqui no Brasil), também é uma paródia.
Conduzido pela narração em off quase onipresente do sisudo policial Joe Friday (Dan Akroyd, carregando em maneirismos que deveriam soar mais engraçados naqueles anos 1980), o filme acompanha em princípio, uma investigação rocambolesca entremeada por detalhes da amizade policial entre os dois protagonistas (certamente, um dos mais fortes clichês do gênero, além de uma tentativa de Akroyd em emplacar mais um ‘filme de dupla’ junto ao público após o cult-movie “Irmãos Cara-de-Pau”), culminando numa trama algo mirabolante onde o vilão da vez se apresenta tão megalomaníaco e translúcido quanto um antagonista de James Bond!
Vários delitos simultâneos intrigam o detetive Friday, orgulhoso agente de polícia de Los Angeles: Um roubo de carregamentos de certa revista masculina; um atentado inusitado num zoológico; o desaparecimento de vários compostos da fórmula de um fertilizante.
Somente depois que recebe a ajuda de seu novo parceiro, o detetive Pep Streebek (Tom Hanks, cujo carisma contribui e muito para o filme funcionar em contraponto ao ocasionalmente inadequado Akroyd), Friday descobre que todos os crimes têm algo em comum: Neles foram deixados cartões de uma seita misteriosa denominada P.A.G.A.N.
Na busca pela verdade –e na contramão de suas diferenças irreconciliáveis –Friday e Streebek descobrem um plano engendrado pelo manipulador Reverendo Whirley (o grande Christopher Plummer) que visa o controle absoluto de toda Los Angeles, e ainda salvam a vida da pudica Connie Swain (Alexandra Paul, de “Christine-O Carro Assassino” e “Competição de Destinos”), o providencial interesse amoroso do herói Friday –e tão virgem quanto ele (!).
Embora não deixe entrever durante a maior parte do tempo, graças ao seu humor boboca, “Dragnet” é um trabalho que tem lá suas alfinetadas de cunho político: O herói Friday, da forma como o filme o apresenta e como Akroyd o interpreta, é uma caricatura das mais estereotipadas das posturas e discursos da direita, com o relaxado Tom Hanks servindo de contra-argumento dos liberais.
E essa auto-consciência está bem inserida no plano vilanesco final: Patrono da moral e dos bons costumes aos olhos da mídia, o Reverendo Whirley, ao lado da corrupta Comissária Kirkpatrick (Elizabeth Ashley, de “Oito Mulheres e Um Segredo”), planeja aliar-se aos seus inimigos políticos, como o magnata da pornografia Jerry Caesar (Dabney Coleman, ator prolífico nos anos 1980, fazendo uma visível imitação de Hugh Hefner) para encenar uma batalha perante o público; e assim fazê-lo de massa de manobra.
É fácil esses elementos passarem despercebidos do público –à mim, pelo menos, passaram na primeira vez que assisti o filme ainda garoto –quando eles vêem atrelados a um filme esforçadamente caricato, ora satírico para com o gênero que aborda, ora pretensioso para com a ação que tenta evocar (o desfecho se divide em dois momentos de clímax, sendo que o segundo é injustificado e desnecessário) e cujas piadas, em sua maioria, funcionavam muito melhor no contexto de sua época do que nos dias de hoje.
Se a intenção era fazer comédia, pode-se até afirmar que “Dragnet” conseguiu, mas o fez passando de raspão no fracasso.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gasparzinho - O Fantasminha Camarada

Ainda durante os anos 1990, quando o emprego da computação gráfica no cinema permanecia visto como um ato constante de experimentação, o diretor Brad Silberling –com a luxuosa produção de Steven Spielberg –saiu na frente com a primeira produção a trazer um protagonista digital (até então, filmes como “Jurassic Park” e outros, contentavam-se em ostentar criaturas coadjuvantes ou aparições ocasionais como presenças exclusivamente geradas por computador).
O que sobrou em audácia nesta decisão, contudo, compensou o anacronismo quase nostálgico que predomina no restante de todo o filme –algo que a direção perspicaz de Silberling trata de virar a seu favor, visto que “Gasparzinho” (ou “Casper”, no original) é a adaptação cinematográfica de um personagem de desenho animado tão antiquado que poucas crianças haveriam de lembrar com exatidão dos detalhes de sua fonte original.
Assim, temos o personagem principal, o fantasma Gasparzinho (na voz do jovem Malachi Pearson) –recriado com minúcia e inteligência pelos efeitos visuais –que, tendo falecido muito jovem, conserva um maravilhamento infantil diante de tudo, assim como um desejo de ter amigos. Vontade dificíl de ser realizada, uma vez que sua moradia, a Mansão Whipstaff, é a famigerada casa mal-assombrada da cidade, graças às travessuras de seus três tios, também fantasmas, que compõem o Trio Assombroso.
(Há, inclusive, uma sensacional referência a “Os Caça-Fantasmas” na cena em que Dan Akroyd, devidamente trajando o figurino daquele filme, desiste de tentar conter aquelas assombrações!)
Usando porém da desenvoltura típica dos personagens de animação, Gasparzinho consegue trazer para sua mansão a única visita que lhe parece importar: A jovem Kat Harvey (Christina Ricci, crescendo de forma encantadora depois de seu papel de Wednesday em “A Família Addams”), filha do atrapalhado pesquisador paranormal Dr. Harvey (Bill Pullman), viúvo cujos objetivos buscam, lá no fundo, contactar do além, de alguma forma, a esposa falecida.
O choque com os fantasmas é inevitavelmente entrelaçado pela inocência e pela comicidade caricata típica das animações antigas, mas não deixa de ser divertido (e tome outras referências, sobretudo, nas participações inacreditáveis de Clint Eastwood, Mel Gibson e Rodney Dangerfield).
Contudo, assustar não é o objetivo de Gasparzinho: Ele quer um amigo, oportunidade que ele enxerga em Kat (ou, talvez, até algo mais!).
Assim, o filme de Silberling, tal e qual seu protagonista, cheio de doçura e boas intenções (características potencializadas pela ótima trilha sonora de James Horner) se torna um exemplo louvável de transposição competente de um personagem animado para o live-action e uma agradabilíssima fábula infanto-juvenil com direito até a um romance adolescente –quando Gasparzinho, no trecho final, expõe seus sentimentos a Kat, em um desfecho meio hesitante mas ainda assim enternecedor.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Os Caça - Fantasmas

Durante a década de 1980, o diretor Ivan Reitman e o roteirista (e também ator) Harold Ramis, comediantes da segunda geração do grupo “National Lampoon’s” –lembrando que a primeira geração contava com o impagável John Belushi –tiveram a ideia de conceber um filme que reeditasse grandes uniões cômicas do passado, como “O Gordo e O Magro” e “Os Três Patetas”. Aproveitaram para agregar à premissa um senso de aventura que predominava nos grandes sucessos do período e eis que surgiu a ideia de uma equipe de improváveis defensores do mundo contra ameaças sobrenaturais, revestido de certo cinismo que os fazia, na maior parte do tempo, encarar aquele como um trabalho regular, e ainda pontuado por um viés machista que, nos anos que se seguiram, foi ficando até mais evidente para as novas gerações de expectadores.
Dessa forma, encontramos assim o malandro e melindroso Peter Venkman (Bill Murray), o inventor intelectual Egon Spengler (Harold Ramis) e o teórico e inseguro Ray Stantz (Dan Akroyd), desacreditados professores de uma universidade (isso porquê insistiam numas pouco plausíveis teorias a respeito de aparições espectrais e sobrenaturais) que, ao serem demitidos e perderem financiamento para suas pesquisas, adotam uma forma inovadora e prática de ganhar dinheiro: Passam a compor um quarteto (finalizado pela presença do assalariado Winston Zedmore, interpretado por Ernie Hudson) e a oferecer seus serviços como caça-fantasmas, já que as almas de outro mundo não param de incomodar os nova-iorquinos, e não há ninguém disponível para fazer o serviço.
No entanto, as aparições fantasmagóricas têm um propósito –esclarecimento que virá durante a averiguação de um caso específico, o da aflita Dana Barrett, vivida pela bela e elegante Sigourney Weaver –e isso pode acabar levando os caça-fantasmas a terem de salvar o mundo todo.
Não obstante o clássico comercial que o filme se tornou a partir dos anos 1980, não restam dúvidas da inclinação insidiosamente machista nas entrelinhas do filme (que hoje respondem pelas maiores ressalvas feitas a este divertido filme): A personagem de Sigourney Weaver é tratada com interessado desprezo pelo protagonista, e tudo só piora quando é possuída pela entidade do mal na segunda metade do filme, virando um pastiche inverossímil de ninfomaníaca; isso sem falar na personagem rasa e ofensivamente caricata da secretária Janine (Annie Potts, de “Crimes de Paixão”); uma das cenas iniciais, com Peter Venkman tentando um acanalhada e discutível tentativa de sedução de uma estudante em meio a um projeto universitário; e, principalmente, uma cena injustificável (sobretudo, para um filme comercial supostamente indicado para toda a família) onde, durante o sonho do personagem Ray, vemos ele receber sexo oral de uma fantasma (!): Foram justificativas mais que suficientes para a viabilização de uma refilmagem, em 2016, que por sua vez trazia um time só de mulheres.
Se desconsiderarmos aquelas nítidas expressões de mau gosto –uma característica que sempre interferiu no trabalho de Ivan Reitman –sobra em “Os Caça-fantasmas” uma empolgante aventura cômica e sobrenatural, com enlaces de criatividade que nem sua malfadada continuação, nem sua refilmagem foram capazes de equiparar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

1941 - Uma Guerra Muito Louca


Antes de tornar-se o Midas de Hollywood, Spielberg era um diretor extraordinariamente promissor. Mais do que isso: Era quase um gênio em formação, uma vez que ele já havia entregue obras de qualidade sem igual como “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.
Como o esperado, Spielberg aproveitou as portas que se abriram para experimentar outros gêneros, como a comédia.
E muitos são os cineastas que podem afirmar ser esse um dos mais difíceis gêneros de se trabalhar: Humor é algo muito mais particular do que, por exemplo, o medo –sentimento trabalhado de modo sempre recorrente no terror –o humor funciona de maneira distinta em cada pessoa, e com isso as circunstâncias e o contexto de um filme de comédia se tornam muito relativos. Isso talvez explique porque “1941” não funcionou na época de seu lançamento e hoje seja uma comédia até bastante satisfatória; além do fato de que a qualidade das comédias de hoje se vulgarizou a ponto de olharmos com outros olhos os bons e incompreendidos exemplares do passado.
Há quem diga (não sem uma certa razão) que um dos erros de Spielberg foi fazer uma comédia ambientada num episódio da Segunda Guerra Mundial ainda visto com alguma amargura pelo subconsciente norte-americano: O ataque à base de Pearl Harbor.
Por conseqüência, crítica e público enxergaram no filme um deboche inapropriado. Não é bem assim: O humor de Spielberg é bem mais ingênuo, inofensivo, e seu filme guarda elementos que o aproximam das comédias físicas de Buster Keaton e Charles Chaplin, ou mesmo das peripécias de inevitável apelo visual dos desenhos animados.
Após a base aérea de Pearl Harbor tornar-se palco de um ataque difundido aos quatro ventos pelos EUA, a Costa da Califórnia se vê tomada de uma preocupação generalizada –pode, afinal, lá ser um dos próximos alvos dos imprevisíveis inimigos.
Dessa forma, diversas situações são flagradas com galhofa e leveza, bem como personagens cheios de ingenuidade que dividem-se entre os desastrados (John Belushi e Dan Aykroyd, os mesmo de “Irmãos Cara-de-Pau”, vivendo respectivamente um piloto e o sargento de um tanque, que nunca se encontram em cena), os apaixonados, os divertidos e os quase inofensivos vilões (como o personagem de Treat Williams, cuja petulância lembra quase o Brutus de “O Marinheiro Popeye”).
Nesse cenário –e com uma cena de abertura que Spielberg usa para parodiar de forma hilária o seu “Tubarão” –surge um submarino japonês, capitaneado por um oficial nipônico e outro alemão (Toshiro Mifune e Christopher Lee, participações especialíssimas) que ronda as águas de região e não tardará a causar grandes confusões.
Deliberadamente desprovido da contundência de “M.A.S.H.”, Spielberg optou nesta primeira comédia de sua carreira (um gênero que mesmo anos depois permanece raro em sua filmografia) por uma abordagem amena, essencialmente divertida e sem segundas intenções.
Para público e crítica de então, talvez, tenha sido esse seu erro.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Chaplin

Durante muito tempo o cinema flertou com uma possibilidade inevitável: Um filme sobre a vida do intrépido Charles Chaplin –realizador que pode ser considerado uma das poucas figuras históricas que ilustra o próprio cinema.
Veio a ser o diretor Richard Attenborough (de "Gandhi"), amigo pessoal da família Chaplin, quem assumiu esse acalentado projeto, esforçando-se em concentrar, num riquíssimo filme de cento e quarenta e oito minutos, os aspectos de uma vida desigual que renderia fácil uma dezena de filmes –para tanto, ele inspirou-se em “My Life”, a autobiografia de Charles Chaplin (há cenas nas quais o personagem fictício, interpretado por Anthony Hopkins, rememora a trajetória dele para a realização da obra) e na biografia “Chaplin, His Life And Art”, escrita pelo pesquisador David Robinson.
A estrutura narrativa do filme assim dá ênfase ao fato de que o caminho trilhado por Chaplin é paralelo ao do próprio cinema no século XX, pontuada, no entanto, pelas influências –sejam elas inspiradoras ou destrutivas –das mulheres que passaram pela vida do protagonista.
Dessa forma, Attenborough inicia seu filme ainda na infância pobre repleta de correrias e privações em Londres, em meio à qual os realizadores acreditam estar a gênese para as motivações e o comportamento que Charles apresentou ao longo da vida; em especial, o caráter lúdico que deu a seus filmes.
Quando o filme avança para mostrar Charles em sua juventude –em meio às apresentações nos palcos de valdeville londrinos –é quando somos introduzidos ao ator extraordinário que dá vida à Charles Chaplin: Robert Downey Jr. (hoje, unanimemente conhecido como intérprete do “Homem de Ferro”) que foi merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator por este trabalho.
O talento irrestrito de Charles não tarda a levá-lo a migrar para a América, onde é contratado como figurante pelo produtor Mack Sennett (Dan Aykroyd), entretanto, a criatividade pulsante e independente de Charles o leva a trilhar um caminho próprio como realizador (bem como à criação de seu mais célebre e simbólico personagem, Carlitos, o vagabundo) culminando em sua consagração como gênio do cinema na América, onde criou filmes que alegraram e emocionaram milhões.
O terço final do filme mostra a textura inusitadamente política apontada nas atitudes de Charles como quando se recusou a aderir ao cinema falado, e a celeuma levantada até mesmo à revelia dele quando lançou o maravilhoso “O Grande Ditador”. Fatos que estranhamente lhe renderam amigos e inimigos –sendo os mais insidiosos e marcantes o promotor Joseph Scott (James Woods) e o chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Kevin Dunn), que o investigaram, caluniaram e perseguiram até obter sua extradição dos EUA, em 1952.
Para só voltar vinte anos depois, quando recebeu um Oscar honorário na breve e emocionante seqüência que encerra o filme.
Como mencionado acima, as companheiras de Charles definem muito de quem ele se torna e dos rumos que sua vida toma: O primeiro (e relativamente trágico) amor, a bailarina Hetty Kelly vivida por Moira Kelly; a primeira mulher Mildred Harris (Milla Jovovich, não somente antes da franquia “Resident Evil” como antes até mesmo de “O Quinto Elemento”); a atriz Paulette Goddard (Diane Lane) que também se envolveu com ele; a problemática Joan Barry (Nancy Travis); e a última esposa Oona (novamente interpretada por Moira Kelly, num recurso que proporciona à trama uma espécie de circularidade afetiva).
Se a direção de Attenborough, ainda que cheia de propriedade, não escapa de um tom solene e deslumbrado, o seu filme é emoldurado numa brilhante atuação de Robert Downey Jr, que confere humanidade, solidez e ares genuinamente comoventes à um personagem desafiador e intimidante para qualquer ator.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Conduzindo Miss Daisy

Vindo de ótimas realizações em sua Austrália natal –entre as quais o brilhante drama de guerra “Breaker Morant” –o diretor Bruce Beresford estreou no cinema norte-americano com o árido drama “A Força do Carinho”, com Robert Duvall (para alguns seu melhor trabalho), entretanto, obteve aclamação de fato por seu projeto seguinte: A combinação primorosa de comédia agridoce e drama outonal chamada “Conduzindo Miss Daisy”.
Década de 1950. Após um incidente doméstico onde colidiu com o carro na cerca da casa, a sexagenária Miss Daisy, uma senhora viúva da Louisiana (Jessica Tandy) é obrigada a aceitar os serviços de um chofer contratado pelo filho (o comediante Dan Akroyd, saindo-se maravilhosamente bem num papel sério e dramático).
Chamado Hoke, o motorista (Morgan Freeman) é negro, e ela, como era de se esperar, mostra-se arredia a ele no início, recusando-se a andar de carro e valer-se de seus serviços –enxergando nele as razões que a invalidam para atividades que antes podia fazer naturalmente como dirigir.
Entretanto, o tempo permite a derrubada gradual de barreiras de implicância, o que leva Hoke e Miss Daisy a criarem uma relação de amizade que se estenderá por mais de vinte anos, e atravessará as muitas transformações sociais vividas pelos EUA.
Beneficiando-se da concepção regida por um cineasta fora dos Estados Unidos (e, por isso mesmo, despido de propensões condicionadas ao sentimentalismo redundante), este belo e sensível panorama da América é menos um filme sobre o racismo (embora também o seja) e mais um filme sobre os efeitos irremediáveis do tempo sobre todos nós.
Jessica Tandy, encantadora aos seus 89 anos, recebeu um merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz, mas ela está magnificamente acompanhada de Morgan Freeman (que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator).