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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Amizade Desfeita

O found footage é um estilo que já está aí a algum tempo se considerarmos que as obras inaugurais de sua técnica sejam os clássicos obscuros “A Tortura do Medo”, de 1960, e “Holocausto Canibal”, de 1980, embora tenha sido com “A Bruxa de Blair”, de 1999, que ele tenha surgido com as características que de fato foram assimiladas pela indústria.
O advento das ferramentas digitais e das mídias sociais trouxe novas formas de se empregar o conceito do found footage, e alguns poucos filmes de terror e suspense tentaram criar narrativas a partir daí, como é o caso do consideravelmente surpreendente “Perseguição Virtual”, de Nacho Vigalondo, e deste “Amizade Desfeita”.
Dirigido pelo jovem Leo Gabriadze e produzido por Timur Bekmambetov, o filme tem o princípio básico e subjetivo do found footage: Tudo o que vemos é tão somente de um único ponto de vista, a tela do computador da personagem principal.
Tal personagem é Blaire Lilly, interpretada por Shelley Hennig –e é interessante notar que os exemplares contemporâneos do found footage contornaram (ou tiveram de contornar) a tentativa de  enganar o público se passando por pura realidade, apelo intrigante que representou muito do atrativo comercial de “A Bruxa de Blair” e até mesmo de “Holocausto Canibal”.
Neste novo filme –de 2014 –a questão de ser ou não ficção é deixada de lado; até porque, com a internet, qualquer pessoa descobre a veracidade sobre um filme com um clique. Em vez disso, os realizadores se contentam em usar do formato tão somente como um meio para intensificar ainda mais o desespero e a aflição de seus personagens.
“Amizade Desfeita” começa mostrando um video do youtube onde uma jovem tira a própria vida. Logo, estamos então testemunhando a intimidade de Blaire –que descobrimos ter sido grande amiga de Laura Barns (Heather Sossaman), a garota que se suicidou –ao lado do namorado Mitch (Moses Storm). Entretanto, a sala de bate-papo dos dois –que progredia para joguinhos sensuais –logo é invadida por seus amigos, a patricinha Jess (Renee Olstead), o descolado Adam (William Peltz), o hacker Ken (Jacob Wysocki) e a intransigente Val (Courtney Halverson).
É o dia em que completa um ano do suicídio de Laura, e esses colegas, em princípio alheios ao fato, se incomodam quando alguém não identificado –apenas com o codinome ‘Billie 227’ –entra em sua sala de bate-papo. Aqui e ali, pequenas coisas vão acontecendo –o que demonstra o inteligente apego aos detalhes da direção e do roteiro –onde podemos perceber a evolução da narrativa, indo do trivial para o aflitivo: Eles descobrem que ‘Billie” é uma conta inativa de Laura Barns e, inicialmente, julgando que ela foi hackeada, tentam denunciar quem quer que seja à polícia.
‘Billie’ –ou, quem sabe, o fantasma de Laura! –não permite: Aparentemente, ela tem um controle sobre as ferramentas digitais ainda maior que o conhecimento técnico de Ken que, a propósito, é uma de suas primeiras vítimas; sim, pois, tal entidade (se é que dá para chamá-la assim) parece ser capaz de despertar instintos suicidas.
Entretanto, há mais por trás disso, e ‘Billie’ manifestou-se via internet para todos aqueles jovens porque deseja revelar os segredos vulgares e as mentiras detestáveis uns para os outros antes da noite se acabar, dando-lhes assim o devido castigo –e assim o filme de Leo Gabriadze lança mão de artifícios sobrenaturais para construir sua estrutura de terror pós-moderno. Há certamente nisso também uma referência ao terror japonês que aflorou, com sucesso de público, inclusive, nos anos 1990, onde as tecnologias que surgiram ao alcance das pessoas eram quase sempre empregadas como invólucros de entidades malignas e perturbadoras em obras como “Kairo”, “O Chamado” e tantas outras.
Deliberadamente, “Amizade Desfeita” se despe da sutileza e da salutar carga alegórica que elevava alguns títulos daquela vertente de cinema a um patamar maior –em sua tensão escapista, sua trama de intriga adolescente e seu moralismo volúvel e banal em torno do bullying virtual, o filme de Gabriadze não quer ser mais que um filme apavorante e divertido. Objetivo que em um ou dois momentos de sua meia hora final ele quase chega a atingir.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

9 - A Salvação


Indicado ao Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem de Animação, o jovem diretor Shane Acker ganhou inesperados entusiastas de sua obra –os diretores Timur Bekmanbetov (de “Guardiões da Noite”) e Tim Burton –que se apresentaram a ele, como produtores dispostos a viabilizar uma expansão de seu trabalho em forma de um longa-metragem de animação.
Assim surgiu este curioso e notável “9-A Salvação”, lançado em 2009.
Corajosamente contrariando a proposta do curta –cuja trama se desenvolve se diálogos baseada em gesto e pantomina –o longa agrega vozes de atores famosos aos seus personagens o quê atribui a cada um deles as características humanas e particulares de seus dubladores.
O protagonista 9 (voz de Elijah Wood) é, como todos os outros, uma mescla de boneco de brinquedo com andróide. Sua lembrança é de acordar num laboratório em meio a um mundo devastado.
E a recriação desse mundo –uma espécie de universo cyberpunk pós-apocalíptico retrô –sinaliza mais à percepção dos adultos que à das crianças: A narrativa de Shane Acker não esconde o fatalismo e as consequências contundentes da guerra.
No contexto em que o curioso robozinho está inserido, o mundo –numa cronologia situada provavelmente nos anos 1940 –sucumbiu por completo à guerra. Os homens projetaram armas (inclusive biológicas) com tanto afinco para combater uns aos outros que, em algum momento, esses maquinários adquiriam autonomia e se voltaram contra os humanos.
O mundo no qual o pequenino 9 acorda já não tem mais seres humanos –quando muito, são cadáveres que surgem corajosamente em meio aos escombros sem fim.
Logo, 9 descobre outros andróides como ele: O primeiro a encontrar é o sábio 2 (voz de Matin Landau), em seguida, ele conhece toda uma comunidade controlada pelo paranóico e irritadiço 1 (voz de Christopher Plummer) sob o jugo truculento de seu braço-direito 8 (Fred Tatasciore) e os delírios inexplicáveis de 6 (voz de Crispin Glover).
Quando 2 é capturado por uma das tenebrosas máquinas de destruição que patrulham a terra, 9 parte ao lado de 5 (voz de John C. Reilly) para salvá-lo. Acaba descobrindo os renegados restantes de sua espécie: A corajosa e intrépida 7 (voz de Jennifer Connelly) e os inteligentes ainda que ininteligíveis 3 e 4.
Junto as informações que cada um tem –e buscando sempre escapar do encalço mortal da grande máquina que os persegue –os pequenos andróides tentam elucidar o grande mistério de sua origem e de como isso pode representar a última esperança para a Terra num plano elaborado pelo cientista que os criou.
Uma alternativa bastante interessante às animações genéricas, festivas e pueris, carregada de um estilo incomum e bem administrado.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ben - Hur

Comparar o novo filme, que aborta aos cinemas, dirigido pelo russo Timur Bekmanbetov ao grandioso épico do período áureo de Hollywood realizado por William Wyler (e não à toa agraciado com o número recorde de 11 Oscars, feito igualado somente uns quarenta anos depois por "Titanic" em 1997, e por "Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei" em 2003) é tão inevitável quanto incauto: Não somente pelo quanto isso é imensamente desfavorável ao novo filme (e, por conseqüência, à experiência de assisti-lo), mas porque na gramática usada por Bekmanbetov em seu novo trabalho, essas comparações se tornam infundadas, tamanha é a diferença de estilo, proposta e observação imposta aos dois filmes.
Esse é, talvez, o grande mérito deste novo filme: A sensatez de estabelecer, a partir de percepções de roteiro e caracterização, uma cautelosa distinção em relação ao clássico inigualável que tenta refilmar.
Ainda que, no fim das contas, esse gesto se revele inútil: Esta é, afinal, uma nova versão de “Ben-Hur”, sujeita a toda sorte de justaposições com a qualidade hiperlativa daquela obra.
Vale lembrar que o próprio “Ben-Hur” de 1959 já era uma refilmagem de um filme mudo em preto & branco de 1925.
Irmãos adotivos e grandes amigos de infância, o judeu de família nobre da Palestina, Judah Ben Hur (Jack Huston), e o romano Messala Severus (Toby Kebbell), na mesma época de Jesus Cristo (o brasileiro Rodrigo Santoro), crescem sob as diferenças que os separam; o primeiro é o herdeiro que representa a esperança de seu povo; o segundo, o aprendiz no qual Roma deposita a obrigação de manter suas colônias em rédeas curtas.
O filme de Bekmanbetov aprofunda as relações entre os antagonistas em contrapartida ao fato óbvio (e de certa maneira assumido pela produção) de que não podem equiparar os valores de produção da obra clássica. No filme de Wyler, aliás, Ben-Hur e Messala são apenas grandes amigos e não irmãos de criação (mudança quê não é adequadamente explicada neste filme).
O Judah Ben-Hur de Jack Huston não chega nem perto da magnífica (e oscarizada) presença de cena estupenda que Charlton Heston possuía, e Toby Kebbell, com sua expressão apática, é ainda pior, desvalorizando por completo um personagem cuja metamorfose moral sugerida na trama poderia render muito mais.
A falta de empatia de Huston poderia até beneficiar o vilão e fazer a platéia torcer por ele, mas seu interprete também provoca indiferença no público: Erro crasso num filme cuja trama se sustenta nesse tipo de conflito.
Adultos, os dois se afastam, em grande parte pela fidelidade à Roma desenvolvida por Messala, que se choca com os ideais protecionistas de Judah. Quando um incidente os coloca um contra o outro, Ben Hur é condenado às galés como escravo, onde sobrevive depois de cinco anos à um ataque em alto-mar, para em seguida ser adotado por um fidalgo africano (Morgan Freeman, que colaborou com o diretor em "O Procurado"), e obter a chance de voltar para vingar-se de seu agora inimigo Messala.
As escolhas narrativas levam, todas, ao embate final, envolvendo a corrida de bigas, gerando relativa expectativa entre aqueles que cultivam uma esperança de que, em algum momento, o filme vá ficar melhor.

A questão é que, dentre tantas cenas momentosas, a corrida de bigas do “Ben-Hur” de 1959 é uma sequência exemplar de grandeza e refinamento cinematográfico: Tudo é mostrado com uma clareza magnífica e acachapante, todas as cenas são bem enquadradas, bem filmadas, e em nenhum instante a ação faz com que o expectador se perca. É, em resumo, uma aula de cinema sobre como realizar uma cena como essa.
Mas, no novo filme, parece que Bekmanbetov e sua equipe faltaram a essa aula: A câmera tremida dificulta discernir muito do que vemos em cena, e tenta emular, talvez, o estado caótico e subjetivo do personagem, mas esse recurso aparece presente na maioria das cenas de ação da atualidade (vide os filmes de Michael Bay), e deveras não funciona. Quando o enquadramento parece querer se normalizar, a montagem corta para outro take, e mais outro, aceleradamente, não dando tempo sequer de visualizar se há algum mérito nas demais questões estéticas.
Por fim, o novo “Ben-Hur” é exatamente aquilo que se imagina dele (o que nos ocorre instintivamente ao ouvir falar de uma refilmagem como essa): Uma tentativa equivocada (ineficaz até mesmo nos quesitos em que, por ventura, poderiam ter funcionado) em refazer um filme que, em sua excelência, era irretocável.

Espero que, no futuro, eles aprendam a deixar filmes como “E O Vento Levou”, “Lawrence da Arábia”, “Doutor Jivago” ou “O Poderoso Chefão” em paz!

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Procurado

É a um cinema comercial de ação desenfreada a que “O Procurado” se presta. Mas é também um novo prisma sobre esse mesmo cinema que o diretor Timur Bekmanbetov almeja levar à tela. 
Há inúmeras camadas a serem refletidas e removidas em “O Procurado”, o que já o eleva como um filme muito mais significativo que aparenta ser. 
Temos o protagonista que desperta de uma vida de inércia para uma nova existência (“Matrix”), o questionamento existencial que impulsiona a inquietação, e a insatisfação de toda uma geração (“Clube da Luta”), o aprimoramento físico e intelectual a níveis sobrehumanos como forma de exteriorizar a transformação da própria personalidade (“O Ultimato Bourne”). 
Havia algo de claudicante nos filmes realizados por Timur Bekmanbetov na Rússia, “Guardiões do Dia” e “Guardiões da Noite”, mas parece que a identidade visual de Bekmanbetov caiu como uma luva em “O Procurado”. 
Adaptação de uma série de histórias em quadrinhos independentes escritas por Mark Millar, é um projeto que mostra em boa luz as qualidades de Bekmanbetov como diretor: sua criatividade e sua habilidade na composição de cenas (sobretudo, de ação) que primam pelo equilíbrio de situações inacreditáveis. Uma bela demonstração de espirituosidade, na mescla apurada de humor e inteligência com que conta a história do jovem alienado que descobre ser filho do maior assassino de todos os tempos. Essa abordagem inspirada, em muito se deve à esperta escolha do ótimo James MacAvoy como protagonista. Ator inglês, de filmes mais densos e cadenciados, sua presença desigual rima com a escalação de Keanu Reeves como Neo em “Matrix”, assim como seus recursos dramáticos são bem empregados ao mostrar a evolução de seu personagem. À apoiá-lo temos uma vibrante Angelina Jolie e a voz firme de Morgan Freeman.