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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A Bela e A Fera


 Eram inúmeras as obras passíveis que comparação quando o diretor Christoph Gans (do ainda não superado “Pacto dos Lobos”) arriscou-se a realizar este projeto: Além da fabulosa animação da Disney, houve depois também seu live-action, perpetrado pela própria Disney em 2017, e o clássico surrealista francês de Jean Cocteau, de 1946.

Sendo também este um filme francês (procedência também do famoso conto de fadas que inspirou a todos esses projetos), Christoph Gans foi habilidoso nas referências que adotou: Ele foca, acima de tudo, no filme de Cocteau, temática e visualmente, a fim de imprimir uma presumida originalidade ao seu material (partindo do princípio, infelizmente correto, de que provavelmente poucos expectadores têm hoje conhecimento do clássico tão antigo), sem, no entanto, deixar de lado similaridades deliberadas com a produção da Disney, usando dessa semelhança como apelo de público –com efeito, é exatamente esse detalhe que equilibra “A Fera e A Fera” numa corda bamba entre o contundentemente artístico (tendência para a qual ele parece o tempo todo querer ceder) e o abertamente comercial.

Seguindo uma vibração mais aproximada com a do conto original, o pai de Bela, Maurice (André Dussollier, de “Vidocq-O Mito” e “MicMacs-Um Plano Complicado”) acaba perdendo-se numa floresta e, mais tarde, num estranho e surreal palácio onde, ao tentar tomar uma rosa para sua filha, termina prisioneiro do monstro conhecido como Fera (vivido por Vincent Cassel). Maurice até regressa para seu lar, apenas para dar a terrível notícia: Caso ele não volte para seu cativeiro junto de Fera, o monstro matará um a um todos os seus filhos (valentões e desonestos) e filhas (fúteis e imaturas, exceto a protagonista) –e nesta versão, como se pode ver, eles são numerosos! Sentindo-se culpada (a rosa era um presente para ela), a filha mais nova, Bela (vivida por Lea Seydoux, uma escolha óbvia já que ela havia sido revelada naqueles tempos no aclamado “Azul É A Cor Mais Quente”) foge com o cavalo e toma o lugar do pai como prisioneira de Fera, num castelo mágico o qual, em princípio, ninguém é capaz de encontrar.

Como no conto original –bem como em alguns filmes  anteriores à animação dos anos 1990, tal qual a produção estrelada por Rebecca De Mornay e John Savage em 1987 –o filme francês apresenta a sucessão de jantares em que Bela e Fera ficam frente a frente um do outro, no mesmo local e no mesmo horário, dia após dia; e a relação, que se inicia apreensiva, cheia de rancores e desconfianças, progride para um curioso descobrimento um do outro; e no processo, a narrativa não deixa de revelar esperteza, introduzindo flashbacks onde a trama envolvendo Fera –um príncipe amaldiçoado por questões e elementos conspiratórios mais intrincados aqui do que em qualquer outra versão anterior –antecipa várias características ao expectador (inclusive a aparência do príncipe tornado monstro que, até mesmo na animação da Disney, falha em conquistar o público mais que o próprio monstro sensível), além de tornar um pouco mais verossímil e razoável a gradual aceitação de Bela ao seu amor.

Ao longo dessa narrativa –que, claro, inclui outros elementos mais que incrementam a trama com inusitado rebuscamento ao gosto do cinema francês –o diretor Gans exercita sua perspicácia visual criando um espetáculo de imagens inacreditáveis que ratificam inúmeros valores de produção –o figurino esplendoroso e colorido; a direção de arte inquieta, suntuosa e rica; e, sem sombra de dúvidas, os requintados efeitos visuais, que materializam um sem-fim de cenas espantosas, criaturas de fantasia e assombros inesperados.

Prestando uma contínua homenagem à Cocteau –até mesmo a Fera, em termos estéticos, remete ao protagonista personificado por Jean Marais naquele filme –Christoph Gans cria aqui um conceito onde a magia obedece a uma série de regras específicas e pouco elucidativas, numa postura que agrega densidade à obra, afastando-a de comparações com outras realizações norte-americanas.

“A Bela e A Fera” tem portentosas cenas que exacerbam seu emprego imodesto de computação gráfica para tornar seu visual algo único, e sua dramaticidade enfatizada e construída com propriedade o afasta muito de obras mais convencionais do circuito comercial –o que o torna um trabalho menos palatável para plateias que cresceram enxergando o conto com o referencial da Disney –mas numa coisa, ao menos, ele põe a maioria das outras versões no chinelo:  Belíssima e competente, Lea Seydoux vive uma Bela sensacional, irrepreensível e apaixonante, anos-luz a frente de presença questionável da não muito adequada Emma Watson no live-action da Disney.

sábado, 21 de maio de 2016

O Pacto dos Lobos

O grande Cult movie francês da década de 2000, a despeito de muitas obras realmente sensacionais que surgiram por lá naquela época, foi mesmo “O Pacto dos Lobos”.
Até então, mais conhecido como realizador de filmes de terror (inclusive em experiências nos EUA, onde fez um episódio da coletânea de terror B “Necronomicon”, adaptado de H.P. Lovecraft) e de filmes de ação, cujo o mais expressivo foi “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” com Mark Dacascos, o diretor Christophe Gans deu uma bela surtada ao encarar um projeto extremamente desigual que misturava um sem número de ecléticas influências (artes marciais, ambientação vitoriana; montagem de videoclip; monstros ;e a colossal nudez da italiana Monica Bellucci), para contar uma história baseada, até certo ponto, em relatos tidos como verdadeiros, mas intrinsecamente lendários.
1764. A França do Século retrasado é assolada pelas lendas que correm a respeito de um animal monstruoso que ataca os camponeses de Gevaudan, um vilarejo ao Norte, despertando as superstições do povo e gerando um preocupante clamor popular que chega a incomodar a coroa.
Preocupado com todo o folclore alarmista que a história vai ganhando, o Rei envia um pesquisador aventureiro (Samuel Le Bihan) e seu companheiro índio (Mark Dacascos, em mais uma colaboração com Gans) para a região incumbidos de solucionar a situação. Mas a dupla esbarra em mistérios que remontam a natureza maldosa de sociedades secretas criadas na região e que se estendem até a política e o poder religioso, e que estão diretamente ligados à origem do monstro.
Entre muitos dos personagens que lá eles encontram estão a jovem e angelical aristocrata Mariane (Emilie Dequenne), o pé no saco François (Vincent Cassel) e a prostituta Sylvia (Monica Bellucci, uma das coisas mais memoráveis do filme).
Talvez, a premissa de “Pacto dos Lobos” até lembrasse, um pouco, muitos filmes hollywoodianos produzidos em solo americano, mas o tratamento e o modo com que o diretor Gans enxergava a história era totalmente incomum. Ele conseguiu que o produtor Samuel Hadida (associado à Richard Granpierre) bancassem a produção, viabilizando todos os seus delírios que, num estúdio americano, jamais encontrariam sinal verde.
Contudo, o que distingue “Pacto...” de tantos filmes sobre monstros, sobre artes marciais, ou sobre qualquer coisa com a qual o filme se pareça, é realmente a forma com que Gans aborda tudo. Suas referências são ainda mais audaciosas do que no já promissor “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” (no qual ele parecia incorporar um John Woo ainda mais lírico e operístico), e vão desde “Tubarão” de Steven Spielberg (usado, sobretudo, na cena do primeiro ataque do monstro), passando por “Matrix” (as coreografias em câmera lenta), e até mesmo “O Nome da Rosa” (a natureza incomum do filme e de sua investigação).
O resultado é tão singular que chega a despertar uma certa estranheza no expectador, mas Gans conduz seu filme como um trabalho comercial, num ritmo frenético que deve ter deixado Luc Besson orgulhoso. É verdade que sua narrativa padece pelo excesso; a trama não somente contem ramificações excessivas e, em dado momento, intrincadas, como também o filme abusa de sua extensa duração. Mas existe tanta paixão na execução de “Pacto dos Lobos” que seus erros acabam sendo parte daquilo que o torna único. Seus defeitos são tão fundamentais às características que o definem quanto suas virtudes.

E parece ser apropriado que essa miscelânea de influências audazes renda um filme francês.