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sábado, 2 de março de 2019

Os Vencedores do Oscar 1942

Dentre os dez indicados ao Oscar principal daquele ano, certamente muitos apontavam para a vitória de Orson Welles e seu inovador “Cidadão Kane”.
Entretanto, o filme sofreu uma pesada campanha difamatória por parte do poderoso magnata Randolph Hearst (de quem “Cidadão Kane” era uma quase biografia mal disfarçada). A estratégia negativa de Hearst deu certo, e a obra-prima de Welles viu suas nove indicações converterem-se ao único prêmio de Melhor Roteiro Original –apontada até hoje como uma das mais notórias injustiças cometidas pelo Oscar.
Bom para John Ford e seu “Como Era Verde O Meu Vale” que com essas ‘intrigas de bastidores’ foi beneficiado pela vitória em cinco categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor (o terceiro dos quatro que o recordista John Ford conquistaria).
Entre os demais indicados, haviam as presenças ilustres de “Suspeita”, do mestre Hitchcock (que deu à Joan Fontaine o prêmio de Melhor Atriz); o ótimo “Sargento York” (Melhor Ator para Gary Cooper); “Que Espere O Céu” (Melhor História Original e Roteiro, sendo que, hoje, sua refilmagem “O Céu Não Pode Esperar” é muito mais conhecida); e o clássico absoluto do film noir “Relíquia Macabra”, de John Huston –que inacreditavelmente saiu sem prêmio algum.
Eram tempos áureos em que produções clássicas e primorosas do cinema disputavam premiações lado a lado.

MELHOR FILME
"Como Era Verde O Meu Vale"

MELHOR DIREÇÃO
"Como Era Verde O Meu Vale", John Ford

MELHOR ATRIZ
Joan Fontaine, "Suspeita"

MELHOR ATOR
Gary Cooper, "Sargento York"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mary Astor, "A Grande Mentira"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Donald Crisp, "Como Era Verde O Meu Vale"

MELHOR ROTEIRO
"Que Espere O Céu"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Cidadão Kane"

MELHOR HISTÓRIO ORIGINAL
"Que Espere O Céu"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Como Era Verde O Meu Vale"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Sangue e Areia"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES P&B
"Como Era Verde O Meu Vale"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES CORES
“Flores do Pó"

MELHOR SOM
"That Hamilton Woman"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
"Dumbo"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"O Homem Que Vendeu A Alma"

MELHOR CANÇÃO
"The Last Time I Saw Paris", de "Se Você Fosse Sincera"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Revoada de Águias"

MELHOR MONTAGEM
"Sargento York"

sábado, 15 de dezembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1953


O vencedor daquele ano, o circense e divertido “O Maior Espetáculo da Terra” deixava bem nítida a tendência ainda perene da Academia em premiar obras de apelo popular em detrimento de grandes trabalhos ideologicamente audazes –prova disso é que “Espetáculo...” levou duas únicas estatuetas.
Para muitos, o vencedor por mérito deveria ter sido o brilhante “Matar Ou Morrer”, de Fred Zinnemann, (que terminou com os prêmios de Melhor Montagem, Trilha Sonora, Canção Original e Ator para o grande Gary Cooper) cuja postura politicamente reflexiva rachou Hollywood em duas à época de seu lançamento, mesmo que sua excelência fosse (e continue sendo) inquestionável.
Mesmo sem essa obra-prima ainda havia o espetacular “Depois do Vendaval” que agraciou o grande John Ford com seu quarto Oscar de Melhor Diretor.
Embora marcasse presença no filme premiado da noite, Gloria Grahame conquistou o Oscar de Coadjuvante por “Assim Estava Escrito”, um dos filmes muito premiados da cerimônia.
O Oscar de Melhor Ator Coadjuvante marcou a ascensão do jovem Anthony Quinn rumo ao estrelato e o de Melhor Atriz colocou Shirley Booth a frente de nomes como Joan Crawford (“Precipícios D’Alma”), Bette Davis (“Lágrimas Amargas”) e Rita Hayward (“Meu Coração Canta”, vencedor do prêmio de Trilha Musical).

MELHOR FILME
"O Maior Espetáculo da Terra"

MELHOR DIREÇÃO
"Depois do Vendaval", John Ford

MELHOR ATRIZ
Shirley Booth "A Cruz da Minha Vida"

MELHOR ATOR
Gary Cooper, "Matar Ou Morrer"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Gloria Grahame, "Assim Estava Escrito"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Anthony Quinn, "Viva Zapata!"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Assim Estava Escrito"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Depois do Vendaval"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Brinquedo Proibido" (França)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Veleiro da Aventura"

MELHOR FIGURINO P&B
"Assim Estava Escrito"

MELHOR FIGURINO CORES
"Moulin Rouge"

MELHOR SOM
"Quebrando A Barreira do Som"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Assim Estava Escrito"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"Moulin Rouge"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“Meu Coração Canta"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"Matar Ou Morrer"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Do Not Forsake Me, Oh My Darling", de "Matar Ou Morrer"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"O Maior Espetáculo da Terra"

MELHOR ROTEIRO
"Assim Estava Escrito"

MELHOR HISTÓRIA E ROTEIRO
"O Mistério da Torre"

MELHOR MONTAGEM
"Matar Ou Morrer"

sábado, 27 de maio de 2017

Matar Ou Morrer

“O certo e o errado parecem bem distintos. Mas, se está pedindo para mandar meu povo matar ou morrer... sinto muito! Não posso fazer isso, sinto muito!”
O conceito de uma aventura em tempo real era uma arrojada inovação em 1952, quando foi lançado este belíssimo faroeste de Fred Zinneman, atrevendo-se a ambientar os seus enxutíssimos oitenta e quatro minutos no exato tempo correspondente que passa na história.
No dia de seu casamento com a bela Amy Fowler (Grace Kelly, radiante em sua estréia no cinema), o xerife Will Kane (Cary Cooper, numa grande performance que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator) recebe uma péssima notícia: está para chegar à cidade, no trem do meio-dia, o temido fora-da-lei Frank Miller (Ian MacDonald), foragido da cadeia. Junto de seu bando ele promete matar o xerife –que, à propósito, é o responsável por seu encarceramento –e saquear a cidade.
Todos entram em pânico.
O homem da lei, conforme vão se passando os minutos em tempo real, até o meio-dia, vê sendo recusados os seus pedidos de ajuda para confrontar os bandidos.
Muito antes do recurso da narrativa em tempo real se tornar defasada com a série “24 Horas”, este clássico primoroso e certamente pioneiro no que tange a essas manobras narrativas no cinema já impressionava as platéias, salientando o suspense das cenas por meio da inventiva montagem (premiada com o Oscar) e de seqüências que insistem em mostrar, nos relógios, o tempo que se passa.
“Matar Ou Morrer” venceu também o Oscar de Melhor Canção para a lírica “Do Not Forsake Me, Oh, My Darling!” que, se for ouvida com a audição apurada, nota-se que sua percussão reproduz o som de um trem que se aproxima –um dos muitos lances geniais de ordem narrativa contidos nesta produção.
Mas, a obra de Zinneman vai além de takes de relógios e momentos de tensão: Seu filme lança uma discussão, surpreendentemente ainda atual, sobre o protecionismo coletivo e individual (uma questão que sempre pareceu perseguir o subconsciente norte-americano), e sobre as evasões de covardia que orientam as prioridades do ser humano em sociedade, em contraponto à uma espécie de coragem arcaica que parece perder-se com o processo de civilização.
E ambientar tal reflexão no Velho Oeste é, também ela, um ato de questionamento intrépido –trata-se de colocar um espelho perante o expectador e afirmar que ele não é tão parecido com seus heróis quanto poderia supor. Não à toa, talvez por essa mesma razão, este filme magistral encontrou fortes detratores em sua época (entre eles, o astro John Wayne e o diretor Howard Hawks), que apontavam posturas inconcebíveis nas atitudes muito humanas do protagonista. Para aqueles que nutriam uma mentalidade mais machista, então, o fato da personagem maravilhosa de Grace Kelly revelar-se, no trecho final, como o único apoio e auxílio real do personagem principal deve ter soado quase como uma ofensa!
Por isso mesmo, um dos clássicos mais admiráveis e pertinentes do cinema.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Alice No País das Maravilhas No Cinema

Existe algo de perene e universal no conto “Alice No País das Maravilhas” que o faz não somente continuar atual e pertinente na memória de sucessivas gerações de crianças, como também servir de forte referência para inúmeros outros trabalhos que a ele devem muito de sua premissa básica, como a animação japonesa “A Viagem de Chihiro”, de Haya Myazaki (um grande entusiasta da obra de Lewis Carroll) e o clássico “Labirinto-A Magia do Tempo”.
As influências e adaptações propriamente ditas remetem à obras de todas as gerações, realizadas desde os primórdios do cinema e que totalizam mais de cem títulos (!), aqui, uma modesta lista que inclui as mais emblemáticas delas:

Alice No País das Maravilhas (1932)
A terceira adaptação cinematográfica do conto (sendo a segunda em versão falada) foi executada pela Paramount Pictures, uma produção de grande orçamento à época tirou proveito da comemoração do centenário de Lewis Carroll, celebrado naquele mesmo ano.
Dirigido por Norman McLeod, é um trabalho que envelheceu muito mal (embora hajam relatos de que mesmo naquela época tenha sido mal recebido), e suas escolhas estéticas (os figurinos portentosos e a maquiagem cartunesca escondem os célebres rostos do elenco que contam com grandes astros do período como Gary Cooper e Cary Grant) aliadas ao ritmo lento prejudicam muito a apreciação do material que, de fato, dispõe de grandes valores de produção. A direção parece contentar-se com um registro numa linguagem de teatro filmado que engessa a encenação e remove qualquer elemento na história que pudesse cativar o público –haveriam ainda muitos anos de experiência para o cinema comercial dos estúdios assimilar uma capacidade técnica e artística aprazível para conquistar as platéias.

Alice No País das Maravilhas (1949)
Houve também, pouco antes da versão da Disney –para muitos a versão definitiva –um filme francês que aproveitou o conto clássico e dele concebeu uma obra musical (característica compartilhada por muitas adaptações que vieram depois), talvez, como forma de ilustrar cenicamente os lapsos de insanidade propostos no livro e atribuídos a seus personagens.
A direção de Dallas Bower confere uma relativa solenidade teatral à encenação das peripécias de Alice (a bela Carol Marsh), numa engessada postura estética que seria virada de pernas para o ar dois anos depois, quando fosse lançada a animação da Disney.

Alice No País das Maravilhas (1951)
Embora mal-sucedido, é inegável que muitos elementos visuais e referenciais do filme de Norman McLeod foram utilizados por Walt Disney neste seu longa-metragem animado, a mais famosa provavelmente dentre todas as adaptações já feitas da obra de Carroll.
Criança educada nos modorrentos ambientes de uma Inglaterra vitoriana, a pequena Alice, durante um bucólico passeio no parque, resolve seguir um coelho branco, de comportamento intrigante. A criatura, sempre atrasada para alguma coisa, a conduz por um mundo esquisito e diferente, onde ela cruza-se com um chapeleiro maluco, a tomar chá de forma anárquica junto de uma lebre igualmente aloprada; uma lagarta bonachona e fumante que parece se mover e se expressar em slow motion; uma psicótica rainha de copas, obcecada em tirar a cabeça daqueles que lhe desagradam; e muitos outros.
E é aqui, onde surge uma das cenas mais terrivelmente inesquecíveis da minha memória afetiva cinéfila particular: É impossível não ficar chocado com os desdobramentos traumáticos da seqüência conhecida por “A Morsa e O Carpinteiro”, inclusive por que, em se tratando de uma obra de Walt Disney, não é esperado que a animação faça jus ao fatalismo inesperado desse segmento. E ele o faz –esse é, para mim, um dos momentos mais verdadeiramente horripilantes desse desenho!
Muitos vêem nesse filme uma analogia aos delírios lisérgicos de alucinógenos dos anos 1960 de então, não obstante a essa proposital ou não referência à contracultura (e ela faz um enorme sentido!), os Estúdios Disney realmente entregam aqui seu mais psicodélico trabalho.

Alice In Wonderland (1966)
Uma obra britânica (como também o era a primeira adaptação, uma curta-metragem em live-action, ainda na época do cinema mudo, em 1933), este “Alice...” foi dirigido por Jonathan Miller, contava com um elenco bastante conhecido (John Gielgud como Mock Turtle, Peter Sellers como Rei de Copas e por aí vai) e fazia parte de uma série inglesa que explorava contos clássicos –se for levar em conta todas as produções também televisivas sobre Alice, esta lista ficaria grande demais, por isso colocarei apenas esta como uma espécie de “representante” das obras feitas para TV, e porque esta versão tem uma característica bastante interessante.
Aqui, a Alice, interpretada pela jovem Anne-Marie Mallik, difere das outras em face do ressaltado tom sombrio com o qual reage aos acontecimentos; tanto que chega quase a oprimir alguns dos coadjuvantes! É uma Alice mais selvagem, mais difícil, o quê contribui para a visão pouco ortodoxa do diretor: Em vários momentos, Miller quer transformar sua obra num filme de terror (auxiliado pela extremamente lúgubre fotografia em preto e branco), inclusive mantendo a humanidade de muitos personagens –não há maquiagem ou figurino que transforma o elenco em criaturas surreais, por exemplo, o quê lhe confere amedrontadora discrição –porém, as ocasionais inserções de absurdo –inerentes ao conto de Carroll –transformam este trabalho quase num precursor dos filmes estranhos, enigmáticos e assustadoramente oníricos de David Lynch.

Alice’s Adventures In Wonderland (1972)
Outra obra inglesa, desta vez um musical cuja narrativa parece estabelecer um vínculo artístico entre este filme e o clássico de 1939, “O Mágico de Oz”, são muitas as similaridades, sobretudo na tentativa de atribuir pequenas narrativas e motivações aos personagens coadjuvantes que orbitam Alice, no prólogo que estabelece uma situação mais distinta (e que vale-se de um ator vivendo o próprio Lewis Carroll), num aproveitamento algo irregular do segundo livro (“Alice Através do Espelho”) e ,sobretudo, na inserção de seqüências cantaroladas pelos intérpretes –embora esse recurso apareça, aqui, com certa timidez.
Este filme ganhou o prêmio BAFTA de Melhor Figurino e Melhor Direção de Fotografia.
Curiosidade: Peter Sellers, que no filme de 1966 fez o Rei de Copas, neste daqui interpreta a Lebre de Março!

Alice No País das Maravilhas Eróticas (1976)
Uma hora teria de acontecer: Eis que uma versão pornográfica (e musical!) foi realizada do conto de Lewis Carroll –é claro que, sendo assim, não há como avaliar este filme da mesma forma que é feito com obras convencionais de cinema.
Há nele uma atmosfera de libertinagem e psicodelismo muito típica da década de 1970 –fazendo-o remeter em muitos momentos o clássico “Garganta Profunda” –no papel de Alice, a atriz Kristine DeBell se mostra desinibida em cenas que reinterpretam as segundas intenções presentes na obra –são inúmeras, por exemplo, as cenas de lesbianismo deste filme. Vale lembrar que Lewis Carroll, e seu conto clássico, sempre foram vistos por um prisma reprovador: Ele alimentou por muito tempo um desejo ardente pela menina chamada Alice (menor de idade, diga-se) que veio a desposar e teria o inspirado a criar a personagem e suas histórias, fato que atribui uma natureza de pedofilia na forma com que muitos vêem o livro.
Todavia, as atrizes deste filme (e protagonistas de muitas cenas de nudez e sexo explícito), são todas perfeitamente maiores de idade.
É claro que houveram muitas outras versões eróticas de “Alice...” –incluindo uma estrelada por Sasha Grey –mas, vamos nos ater somente à esta...

Alice Ou A Última Fuga (1977)
Vem da França uma das mais interessantes e diversificadas versões do clássico.
O diretor Claude Chabrol deposita aqui muitas de suas inquietações existenciais de nível íntimo (muito parecido com o que certamente Lewis Carroll um dia fez com seu livro), ao transpor a trama para um contexto de tal forma radical que muitos não enxergam nele uma adaptação –nem tampouco uma relação com o material.
Mas, atentemos aos pequenos detalhes: A curvilínea e excitante Sylvia Kristel (em alta com o sucesso de “Emmanuelle”, mas justamente por isso tentando projetos insólitos como este a fim de escapar da enorme sombra daquele personagem) interpreta uma personagem chamada Alice Carroll (!).
Quando o filme se inicia ela abandona o marido (seria ele o próprio Lewis Carroll, e essa protagonista, na visão idiossincrática de Chabrol, a Alice original que inspirou o conto, a atuar numa versão alternativa?), e abandona também a vida matrimonial burguesa que tinha fugindo de carro por uma estrada afora. Isso a leva até um estranho hotel a beira de estrada onde ela se vê obriga a pernoitar quando seu carro enguiça –na verdade, apenas estraga o limpador de pára-brisa.
Os personagens e situações surreais, com os quais ela irá se cruzar, agregam uma relação ocasionalmente sutil com o livro de Lewis Carroll, embora o estranhamento da premissa e, em especial, do clima suscitado (que lembra uma síntese irregular entre Buñuel e Hitchcock) tenha diretamente a ver com “Alice No País das Maravilhas”.
Ah, sim: Os fãs não precisam ficar decepcionados, o filme tem, de fato, uma belíssima cena de nudez de Sylvia Kristel!

O Estranho Mundo de Alice (1982)
A década de 1980 foi prolífica em trabalhos que buscaram capturar a característica ímpar de dramaticidade macabra da obra de Lewis Carroll. Lá surgiram obras como este inusitado musical, quase um média-metragem (apenas oitenta e dois minutos de duração), que já era raro na época das fitas de VHS.
Nele, Alice é uma jovem que desmaia num parque ao ver um homem prestes a ser baleado. Ao despertar, ela é acudida pelo mesmo homem. À medida que o filme avança, ele revela-se uma figura estranha que, ao longo dos dias cruza-se com ela de forma aparentemente casual, não deixando, contudo, de assediá-la.
Falho em relação à sua coreografia (e a outros quesitos no que tange ao gênero musical) esta modernização do conto, transposta para um ambiente urbano, possui elementos ora curiosos e originais (Susannah York como a Rainha de Copas e Jean-Pierre Cassel como o Coelho Branco), ora tolos e equivocados (um tom entre o sombrio e o fatalista, e a descontração do musical que nunca se harmoniza de fato).

Alice (1988)
Uma realização tcheca, dirigida por Jan Svankmajer, esta é uma das obras mais desiguais à abordar o conto de Carroll –especializado em animação, Svankmajer cerca sua protagonista, a pequena Kristyna Kohoutová, por efeitos práticos animados em stop-motion, que dão uma atmosfera de surreal estranhamento e opressão, extremamente apropriada à natureza distorcida que o trabalho de Carroll sempre demonstrou em relação aos outros contos de fadas clássicos. Para tornar a experiência ainda mais intrigante e desconcertante, o diretor Svankmajer quebra a linguagem narrativa (difícil dizer se é deliberado ou se é fruto de uma certa inexperiência) com inserções inusitadas e inesperadas que desestabilizam o sossego do expectador. Inevitavelmente, um cult-movie com todas as letras!

Alice No País das Maravilhas (1999)
A década de 1990 se encerrou dando sua própria contribuição ao roll de adaptações de Lewis Carroll com esta obra de Nick Willing que tem lá seus méritos: Ele quebra algumas das convenções que surgiram referentes à adaptações a partir da animação da Disney, como por exemplo, a Alice predominantemente loira –a intérprete aqui é a menina de cabelos escuros, Tina Majorino, uma das estrelas-mirins do período, mas que marcou presença em produções problemáticas como “Waterworld-O Segredo das Águas”.
O elenco, por sinal, é um espetáculo à parte: Whoopi Goldberg como o Gato Sorrdente, Ben Kingsley como a Lagarta, Gene Wilder como Mock Turtle, Christopher Loyd como o Cavaleiro Branco, Martin Short como o Chapeleiro Maluco, Miranda Richardson como a Rainha de Copas, Peter Ustinov como a Morsa e Peter Postlethwaite como o carpinteiro (!).
A seu favor, este filme tem um ritmo dinâmico imposto pela direção e uma considerável fidelidade ao livro que o distingue entre as adaptações, contra ele o fato de ser disperso e exceder as duas horas de duração.

Alice No País das Maravilhas (2010)
Se o “Alice...” de Walt Disney é considerada a versão mais famosa do conto, para os expectadores jovens, isso não chega a ser verdade: A maioria deles reconhece com muito mais facilidade esta nova versão, dirigida por Tim Burton, com seu astro-fetiche, Johnny Depp (no papel de um esquizofrênico Chapeleiro Maluco), que pegou carona na onda de filmes em 3D, inaugurada por “Avatar” no ano anterior, e cuja boa bilheteria praticamente deu o estopim às versões live-action dos clássicos animados da Disney, o quê levou à realização de “Malévola”, “Cinderella”, “Mogli-O Menino Lobo” e outros.
Ao contrário dessas produções que o sucederam este filme é, de uma certa forma, uma espécie de continuação do clássico animado Disney, onde Burton abandona a animação para conceber uma encenação real povoada por efeitos visuais de última geração –e francamente capazes de encher os olhos! Seu pecado, contudo, é (para o espanto de quem esperava um filme de Tim Burton nos moldes de seus trabalhos sombrios da primeira fase de sua carreira) a suavização dos elementos sombrios que conferiam personalidade ao conto, e a conseqüente distorção de muitos conceitos embutidos nos personagens (que foram muito mais respeitados por obras anteriores que não tinham o mesmo requinte desta daqui), o quê aproxima este novo “Alice...” do convencionalismo de outros contos de fadas já adaptados para o cinema.
Dessa forma, encontramos Alice crescida (interpretada com alguma ênfase por Mia Wasikowska), quase uma mulher, quando está prestes a responder a um pedido de casamento de um pretendente desajeitado que mal conhece. Durante a constrangedora cerimônia em que seria anunciado o seu noivado, a moça persegue, intrigada, um coelho branco pelo jardim, e acaba por atravessar um portal que a leva ao inusitado País das Maravilhas, povoado por criaturas nunca menos que estranhas como o Chapeleiro Maluco, o Gato Sorridente, e outros. Todos seres que ela julgava ter visto em sonhos que a assombravam desde pequena, quando na verdade, ela já havia estado lá a muito tempo atrás. A chegada de Alice é recebida como um sinal de que a insurreição desses personagens contra a tirânica Rainha Vermelha (obcecada em arrancar a cabeça de todos os seus desafetos) pode estar próxima do fim.
Na frustrante reinterpretação de Burton (muito mais desanimadora do que de fato parece), a loucura atribuída aos personagens desmiolados de Carroll nada mais é do que um ímpeto revolucionário contra o sistema vigente –e o diretor coroa sua descaracterização dos conceitos de Lewis Carroll encerrando seu filme com uma batalha campal no pior estilo “Crônicas de Nárnia”.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Homem do Oeste

Intuitivamente, é difícil dizer com precisão o que se passava pela mente de um autor quando ele concebeu sua obra, quais mensagens (subliminares ou não) ele queria passar, quando elas não ficam absolutamente claras em seu filme. Críticos em geral tentam, e descobrem observações, simbologias e significados onde muita gente não encontra coisa alguma (lembro até hoje de uma entrevista de Steven Spielberg onde ele comenta perplexo, quando do lançamento de seu primeiro filme, “Encurralado”, o fato da crítica ter encontrado ali uma metáfora sobre a luta de classes, quando na verdade ele não tinha intenção alguma de falar sobre isso).
Certamente a crítica da época encontrou muito o quê perceber em “O Homem do Oeste”, sendo ele a obra extremamente rica que é, entretanto, a despeito dessas questões escorregadias, o quê fica patente (e que, de fato, importa ao expectador médio) é o grande filme de ação que o diretor Anthony Mann conseguiu realizar. Todavia, como é comum à muitos dos grandes filmes de antigamente, a ação é com frequência mais psicológica do que física, como atestam os tensos embates entre Link Jones, o personagem de Gary Cooper, e os fora-da-lei do grupo ao qual um dia ele pertenceu.
É em meio à uma viagem de trem que tudo começa.
Atacados e deixados casualmente para trás quando a locomotiva foge dos bandidos, Link se vê na tarefa de proteger uma bela dançarina (Julie London) e um almofadinha do bando de criminosos que eles encontram mais à frente. O bando é liderado por Dock Torbin (Lee J. Cobb), que no passado, foi o mentor de Link que testemunhou, com amargura, seu pupilo partir.
A fim de proteger a si mesmo e aos outros dois, Link então diz a Dock o quê ele quer ouvir: Que ele voltou para junto de seu grupo e que o ajudará num golpe a muito acalentado, assaltando o banco de uma cidadezinha distante.
Salta aos olhos o primor e a objetividade para fins de tensão e de precisão narrativa com os quais os enquadramentos da câmera de  Mann, minuciosamente bem escolhidos, estipulam de pronto as condições dos personagens, o local ocupado por cada um em cena e o quanto essa informação é crucial para o desenrolar da trama.
Um trabalho magistral de unir a imagem ao propósito narrativo, com inúmeras opções que subvertem até mesmo as expectativas do público.
Por exemplo, é um atenuante para a brutalidade do que virá depois que Julie London NÃO SEJA o interesse romântico de Gary Cooper, embora essa impressão se mantenha do início ao fim pelo fato de que ela, entre outras coisas, é a única personagem feminina em cena.
Abrilhantado por um final bastante emblemático (e pertinente à reinvenção do gênero que ele promove), “O Homem do Oeste” é, acima de tudo, uma vigorosa expressão de cinema através da qual um grande autor da estirpe de Anthony Mann ilustra suas ideias e opiniões acerca do mundo, da sociedade e da própria linguagem cinematográfica.