Mostrando postagens com marcador Luis Tosar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Tosar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sem Notícias de Deus


 Há algo de angelical na beleza amadurecida e melancólica de Victoria April; em contrapartida, há algo de diabólico na sensualidade à flor da pele e na juventude vulcânica de Penelope Cruz, e esse acerto na escalação de duas atrizes em estado de graça, donas de carisma incomum no cenário cinematográfico mundial, para interpretar personagens assim antagônicas e a um só tempo complementares, é pois o elemento em torno do qual se constrói “Sem Notícias de Deus”, do diretor Augustín Diaz Yanes –a razão, por assim dizer, para que tal projeto exista. Não deixa de ser um procedimento um tanto batido que o cinema espanhol parece decalcar do cinema norte-americano: Reunir em cena dois grandes nomes de forte apelo junto ao público a fim de atrair expectadores para o filme.

Sua trama, num gesto de audácia autoral, cutuca diretamente preceitos religiosos para deles extrair uma certa graça –que nem sempre se revela ferina de fato –o Inferno (no qual seus membros condenados falam sempre em inglês!) envia para a Terra a intempestiva e sensual Carmem (Penelope Cruz), enquanto que o Céu (um ambiente preto & branco vintage onde a língua predominante é o francês!) envia a sensata e bem-intencionada Lola (Victoria April). A razão é o salvamento da alma do boxeador Manny (Demián Bichir): O Céu e o Inferno resolveram disputar a sua alma simbolicamente numa queda de braço onde decidirão se o Céu prossegue com sua carência cada vez maior e mais alarmante de almas benevolentes e o Inferno, com as condições precárias e impraticáveis para a superlotação que, nos últimos tempos, o assolou.

Encarnada na esposa de Manny, Lola tem considerável vantagem nessa disputa, mas Carmem pode apelar para as escapadelas e desvios morais que vez ou outra o suscetível Manny comete –e são inúmeros: Inclusive envolvendo o perigo da criminalidade, algo que, em dado momento, ameaça atingir as duas enviadas do além, obrigando-as a fazer algo que não queriam e nem imaginavam: Unir forças.

Longe de emular Pedro Almodóvar –a primeira referência que vem a mente ao vermos Victoria April e Penelope Cruz no filme –embora hajam traços do cinema latino, sobretudo, na abordagem algo debochada da religiosidade, o trabalho de Diaz Yanes, datado de 2001, é, do início ao fim, assombrado por Quentin Tarantino: A abertura é totalmente inspirada em “Pulp Fiction”, e a condução de seu enredo prima por uma manutenção de diálogos abastecidos de um sarcasmo mesclado à inusitado senso de observação, tudo isso, mais a ênfase já nem tanto original na criminalidade urbana remete muito ao diretor de “Cães de Aluguel”. Entretanto, não é somente Tarantino quem parece orientar as inspirações de Diaz Yanes; também o filme alemão “Corra Lola Corra”, dirigido por Tom Tykwer, de 1998, é talvez sua mais inescapável fonte, na repetição dos nomes dos protagonistas –Lola, a personagem feminina principal (lá interpretada por Franka Potente), e Manny (vivido naquele filme por Moritz Bleibtreu) o personagem masculino principal –e na premissa onde uma mulher (ou duas, como aqui) se propõe a toda uma jornada de exaspero físico e significado metafísico a fim de garantir a redenção de um homem.

Essas escolhas parecem afastar “Sem Notícias de Deus” de uma maior identificação dentro do cinema espanhol ao qual pertence, aproximando-o mais de elementos em voga no cinema hollywoodiano ao qual sua intriga central (o embate meio destrambelhado e ambíguo no fim das contas entre o Bem e o Mal) busca, pelo jeito, parodiar.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Conflito das Águas


 O filme dirigido por Iciar Bollain se pretende ambicioso: “Conflito das Águas” começa –e em sua totalidade, meio que assim permanece –como uma espécie de “8 ½ de Fellini” onde está em foco a realização de um filme, os lapsos sonhadores de seu diretor e os contratempos inevitáveis a serem enfrentados. Assim, esse aspecto do filme introduz seus dois protagonistas, Costa, o produtor (o ótimo Luis Tosar), e Sebástian, o diretor (Gael Garcia Benal), ambos incumbidos de filmagens emblemáticas de um filme sobre o agressivo processo de colonização espanhola na América do Sul.

Guiado por devaneios artísticos, Sebástian insiste em filmar as cenas em locação, rumando com equipe, elenco e o perplexo Costa para a cidade de Cochabamba, na Bolívia. E aí, no ponto em que as agruras da metalinguagem encontram as periclitantes condições da vida real –em especial, as árduas circunstâncias de subsistência do povo boliviano –o filme de Iciar Bollain começa a expor sua outra faceta: Paralelo ao ‘filme dentro do dentro’ (do qual flagramos, inclusive, cenas inteiras, a testemunhar Cristovão Colombo, vivido pelo ator Karra Elejalde, e a truculência injustificada com a qual os espanhóis abusaram do povo indígena) acompanhamos a seleção de elenco onde os realizadores insistem em colher indivíduos da população –e, portanto, autênticos –para personificar os índios.

Um desses indivíduos, Daniel (Juan Carlos Aduviri), mostra-se tão imbuído de paixão e motivação que Sebástian o escolhe para o importante papel de Hatuey, líder dos índios em sua malfadada rebelião contra o poderio espanhol de séculos atrás. Há um porém: Daniel é, também ele, um líder entre os moradores de Cochabamba que sofrem pelo domínio de água pelos governantes, deixando a população sedenta e à beira de uma revolta.

Se na maior parte do tempo, “Conflito das Águas” parece dividir-se entre esses dois pólos  mantidos deliberadamente distintos –a filmagem oscilante entre o cotidiano da equipe técnica, os objetivos sonhadores do diretor e o zelo prático do produtor; além da luta dos cidadãos de Cochabamba por condições de vida minimamente satisfatórias –a partir de seu último terço aproximadamente, essas duas linhas narrativas começam a se entrecruzar num único e aflitivo fio condutor: Daniel, líder dos protestos cada vez mais violentos que se seguem –e que ameaçam mergulhar e cidade num estado de sítio, perigoso à permanência da equipe cinematográfica ali –é capturado por policiais, comprometendo a execução de algumas cenas-chaves do filme.

Realmente é num crescendo formidável de suspense que a narrativa de Bollain vai trabalhando as dinâmicas entre esses três personagens, Costa, Daniel e Sebástian, enquanto estão em pauta questões como a consciência social, o engajamento artístico e a própria analogia histórica entre injustiças de ontem, de hoje e de sempre. O ápice desse trabalho se dá quando Belén (Milena Soliz), a filha de Daniel, se vê ferida e desamparada no centro da cidade levando o aturdido Costa a tentar  ultrapassar bloqueio após bloqueio para resgatá-la e levá-la até um hospital enquanto deixa em espera a equipe com Sebástian, todos mergulhados numa apavorante incerteza.

Se há méritos incontestes nessa tensa terceira parte, é verdade também que o filme desperdiça muito tempo até chegar lá e ficar bom de verdade, comprometendo-se sobretudo pelo fato de que não há um personagem afável o bastante para nele o expectador se agarrar –Costa, o mais próximo de algo assim, vai experimentando uma sutil metamorfose ao longo do  filme, no qual deixa o egoísmo e a apatia de lado para adquirir princípios, e por isso mesmo, leva tempo para o público gostar dele.

É um trabalho bastante competente o da diretora Iciar Bollain (que atuou como atriz em “Terra e Liberdade”, de Ken Loach), entretanto o tempo gasto para dizer a que veio e os desvios de caminho onde explora, sem modéstia, os desdobramentos um tanto pretensiosos de sua proposta comprometem o todo, fazendo grande parte dele soar como enrolação.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Miami Vice


Um ícone televisivo dos anos 1980, “Miami vice” ganhou enfim as telas de cinema do único jeito aceitável: Urgido pelo mesmo realizador responsável pela alta qualidade da série, Michael Mann, que a partir dos anos 1990, efetuou, ele próprio, uma migração da tela da TV para as telas de cinema.
Também a versão cinematográfica de “Miami Vice” exigiu sua própria transposição: Ao invés do obedecer à caracterização predominantemente oitentista (e, portanto, fora da moda) da série, Mann optou por estilismo à toda prova, revestindo os personagens e o submundo criminal que os cerca de elegância, e com isso, foi assim ao cerne da proposta original de “Miami Vice”; uma trama policial vistosa, arrojada e plenamente atraente, um noir vibrante e pós-moderno –nada como um realizador que compreende por inteiro o material só pra variar.
Nos papéis de Sonny Crocket e Ricardo Tubbs tornados antológicos pelas interpretações de Don Johnson e Phillip Michael Thomas, estão agora Colin Farrel e Jamie Foxx que dão suas próprias e inestimáveis contribuições a eles.
Policias infiltrados e grandes amigos, eles têm a missão de desbaratar o esquema de tráfico de drogas que se alastra por toda Miami.
Dessa forma, assumem papéis de traficantes oportunistas para galgar a hierarquia do crime organizado valendo-se de um trunfo vantajoso –um meio de atravessar os carregamentos de droga pela fronteira dos EUA com dois aviões colados um ao outro; e portanto, capturados no radar da polícia como um só –e assim chegar ao chefão.
Como era sintomático na série, Sonny, o personagem de Farrel, tem a habilidade de envolver-se com a mulher errada e por tudo a perder –essa mulher, aqui, no caso é a sino-americana Isabella, que nas formas esculturais e estonteantes da chinesa Gong Li justifica plenamente o fascínio que o protagonista desenvolve por ela.
A intercalar essa trama –consideravelmente destituída de surpresas, sobretudo, para os fãs conhecedores do seriado –estão cenas de perseguição, tiroteio e ação que constituem a definição do próprio gênero policial e às quais o diretor Michael Mann concede seu refinamento áspero, truculento e eletrizante.
Uma pena que, pela fidelidade admirável despendida ao próprio conceito, pela apropriada ausência de humor, e pela pouca compreensão dos expectadores mais jovens a essas opções, este filme, certamente um dos melhores policiais de 2006, ficou muito aquém de suas expectativas de bilheteria, o quê comprometeu a sobrevida de “Miami Vice” como uma série desta vez cinematográfica.
Se as continuações não vieram, entretanto, resta como consolo este espetacular filmaço de ação para o usufruto.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Enquanto Você Dorme


Aliando uma bem compreendida lição do mestre Alfred Hitchcock com um senso de observação tão doentio quanto perspicaz sobre a dicotomia dos relacionamentos –ou do que cada indivíduo presume ser um relacionamento –este notável, enxuto e objetivo conto de suspense consegue ser um entretenimento perturbador e intrigante na forma corajosa com que dispõe os elementos típicos de seu roteiro.
Porteiro de um prédio residencial argentino, César (Luis Tosar, um autêntico ‘Norman Bates latino’) mantém uma fachada inofensiva enquanto esconde uma terrível psicose: Sua obsessão pela bela moradora do apartamento 5° B (Marta Etura), o leva, toda noite, a drogá-la para que possa dormir com ela sem que a própria perceba (!).
Seu sinistro arranjo dá certo, até a hora em que pequenos detalhes começam a denunciá-lo: O novo namorado dela (mais desconfiado do que seria o normal); uma improvável testemunha ocular infantil (e dotada de toda a petulância ácida de algumas crianças); e até mesmo o relaxamento gradual do próprio César.
Neste suspense argentino com a habitual qualidade de execução e texto que o cinema de lá costuma oferecer, o grande mérito de sua magistral narrativa é o desenvolvimento de uma atmosfera capaz de absorver todo o interesse do expectador em meio à todo o seu confinado espaço e durante o enxutíssimo tempo de sua duração –o quê configura, nos minutos alarmantes em que a história transcorre, uma insuspeita aula de cinema.
Tal feito se deve à técnica adequadamente hitchcockiana do diretor Jaume Balagueró (incluindo aí uma sintomática simpatia pelo psicopata manifestada em diversas cenas magistrais), e ao bom desempenho do casal central, Luis Tosar e Marta Etura –cuja química deixa transparecer o relacionamento verdadeiro que eles têm na vida real.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Ma Ma

Reunião de uma das maiores estrelas espanholas com um dos mais cultuados diretores da Espanha, “Ma Ma” (com as sílabas separadas, talvez, para que não fosse confundido com “Mama”, o terror protagonizado por Jessica Chastain) terminou sendo uma obra bastante interessante, plenamente capaz de corresponder à esses dois talentos, ainda que seja assumida e deslavadamente um melodrama,o quê talvez afaste cinéfilos mais exigentes e seletivos.
Pura implicância. Tal e qual seus outros belos trabalhos, Julio Medem constrói uma obra cheia de sentimento, e o sentimento em questão é vontade de viver. Ela pulsa, absoluta, em cada cena, na interpretação sólida, afetuosa e preciosa de Penelope Cruz, também ela produtora, e visivelmente comovida, emocionada e identificada com o tema e a personagem.
Ela é Magda. Uma jovem professora em processo de divórcio que descobre ter câncer de mama no mesmo dia em que conhece por acaso um olheiro, Arturo (o ótimo Luis Tosar, do suspense argentino “Enquanto Você Dorme”), num jogo de futebol do filho.
Arturo tem, também ele, uma situação trágica: A filha morreu atropelada e a esposa, devido ao mesmo acidente, está em coma.
Magda toma a estóica decisão de atravessar a dolorosa fase da quimioterapia sozinha e sem alarde, e é durante esse processo que se dá a evolução de seu relacionamento com Arturo –que fica viúvo.
Medem, então, mais uma vez faz o que costuma fazer melhor, cria uma atmosfera dramática, impregnada de elementos incondicionalmente cinematográficos, através da qual ele basicamente narra uma trama onde a necessidade emotiva dos personagens termina encontrando seu obstáculo maior na realidade e no mundo.
Assim foi no imprescindível “Os Amantes do Círculo Polar”, onde o casal de enamorados passa a vida inteira tentando contornar os fatores que os separam, no subestimado “Um Quarto Em Roma”, onde a paixão entre duas mulheres tenta vencer, em vão, a barreira de segurança das quatro paredes, para se deixar florescer no mundo lá fora.
E assim é aqui, com sua protagonista Magda, uma personagem tão cheia de vida, interpretada de maneira arrepiante, mas cujas chances de ver o filho crescer, de fazer duradouro o amor recém-descoberto ao lado do novo parceiro e, especialmente, de conhecer e ver crescer a criança que trás em seu ventre, são interrompidas pela perspectiva cruel e implacável de uma vida curta, tolhida por uma doença inesperada.
Medem trabalha a dicotomia entre realidade, imaginação e as ocasionais tentativas de conciliar esses fatores às vezes tão inconciliáveis com uma interminável sucessão de cenas poéticas de tocar o coração, existe, por isso mesmo, alguma idealização na forma com que ele expõe a rotina doméstica, mas seu filme nunca deixa de ser comovente.
É, afinal, a grande questão que críticos debatem em torno do gênero do melodrama desde a aurora do cinema: A sua capacidade plena (e seu mérito real por conta disso) de revelar-se uma forma maniqueísta de manipular o expectador, em contraponto às emoções, não raro genuínas, que ele consegue suscitar.
Aqui, opina-se em seu favor, uma vez que não há como ficar indiferente ao nó na garganta que ele deixa ao final do filme.