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sexta-feira, 27 de março de 2020

Trilogia dos Dólares

Por Um Punhado de Dólares
Durante os anos 1960, em busca de influências pertinentes que afastassem o sub-gênero então descoberto pelos italianos do ‘faroeste spaghetti’ de sua base principal de comparação, o faroeste norte-americano da Velha Hollywood, o diretor Sergio Leone, certamente um dos fundadores desse gênero, e provavelmente seu melhor realizador, voltou-se para o cinema estrangeiro, onde não tardou a descobrir a maestria inspiradora de Akira Kurosawa e seu magnífico “Yojimbo-O Guarda-Costas”.
Uma premissa simples, inteligível e poderosa que, como tantas outras premissas que irmanavam o ‘bang-bang’ aos filmes de samurai, servia perfeitamente aos propósitos do faroeste.
O samurai neutro, outrora vivido por Toshiro Mifune, que chega a uma aldeia polarizada entre dois clãs rivais, tornou-se assim o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood, com toda sua consciência do arquétipo caracterizado, que chega a um vilarejo dominado por dois bandos distintos e opressores.
O pistoleiro quer lucrar e, sem identificar-se particularmente com a posição de nenhum dos dois bandos, resolve assim ludibriar a ambos: Ele se alia a um, depois se alia ao outro, sabotando-os em suas disputas por riqueza e poder.
Os planos do pistoleiro, elaborados e intrincados num nível considerado bastante incomum para faroestes, só encontram um lapso quando ele deixa entrever suas boas intenções para salvar uma família: E no conceito de contundente ficção adotado por Leone e por tantos grandes realizadores, não há boa ação que não fique sem uma punição.
A teia de intrigas, traições e conchavos tecida por Leone caminha até o trecho final (uma cena imersa em uma névoa de poderoso apelo cinematográfico), o apoteótico confronto do herói contra os vilões prevalecentes, o bando do impiedoso Ramón (o fabuloso Gian Maria Volonté, de “A Moça Com A Valise”) cuja habilidade é desferir um tiro certeiro no coração de seus oponentes –essa cena é, por sinal, homenageada na sequência do duelo em “De Volta Para O Futuro 3”.
Poético na crueza com que descobre as próprias singularidades, “Por Um Punhado de Dólares” é um belo exemplo do lirismo que Leone impõe aos desdobramentos sangrentos presentes nas violentas relações entre homens que resolvem tudo na bala –um magnífico diferencial que logo o alçou à categoria de grandes realizadores do panorama mundial, patamar este que a crítica mundial, preconceituosa e elitista, relutava em incluir os estetas criativos e inquietos do “faroeste spaghetti”.

Por Uns Dólares A Mais
O segundo filme da “Trilogia dos Dólares”, continuação de “Por Um Punhado de Dólares” introduz na trajetória do Pistoleiro Sem Nome (Clint Eastwood) –que aqui, ironicamente, ganha um nome, Monco! –o antagonismo do personagem de Lee Van Cleef, dinâmica entre os dois que será fundamental na conclusão da trilogia, “O Bom, O Mau e O Feio”.
Este segundo filme é também uma oportunidade para o inquieto gênio criativo de Sergio Leone aprimorar os experimentalismos que já havia exercido no filme anterior e transformá-los, a medida que novos trabalhos eram realizados, em suas próprias definições de estilo.
O personagem de Van Cleef, aqui nomeado Coronel Douglas Mortimer, é um caçador de recompensas, mostrado de maneira eletrizante já na primeira cena do filme.
Ele logo descobre que há um concorrente no ramo: O tal Monco, um novo caçador de recompensas cuja habilidade, notável perto de seus pares, o torna um rival invejável –eles disputam cabeça a cabeça as recompensas por sucessivos foras-da-lei no Velho Oeste a fora.
Essa disputa se afunila –e curiosamente se converte em parceria pela força das circunstâncias –quando eles decidem obter a recompensa pela cabeça de um procurado especialmente perigoso: O notório bandido El Índio (Gian Maria Volonté, novamente, compondo um vilão mais imprevisível que o do filme anterior) cujo alvo atual é o cofre de um banco na cidadezinha de El Passo, local que dentro em breve seus capangas haverão de transformar num campo de batalha a fim de por as mãos nos tão almejados dólares.
Como no predecessor e no sucessor, este filme de Leone toma caminhos sinuosos (na forma de ramificações na trama básica que se desdobra em traições e reviravoltas de natureza inesperada) para chegar a um duelo que chega a agregar tintas apocalípticas tamanha é a capacidade de seu diretor em prolongar o suspense e a dilatação de tempo com o lirismo que ele dedica aos códigos do gênero.
O desfecho preserva uma aura de camaradagem a envolver os personagens de Eastwood e Van Cleef, uma dinâmica que eles não mantêm na vibrante conclusão que traz os dois de volta aliados a um Sergio Leone ainda mais evoluído como cineasta.

O Bom, O Mau e O Feio
A terceira parte não deixa de girar em torno dos mesmos elementos que Leone trabalhou com brilhantismo ao longo de todos os filmes –perícia esta que, depois de algum tempo, passou a assombrá-lo.
Como nos dois filmes anteriores, os protagonistas vão e veem num cenário árido de faroeste enganando uns aos outros com subterfúgios até bastante intrincados para as premissas tão básicas de seu gênero. Numa parcimônia minuciosa e narrativa herdada dos filmes de samurai desde “Por Um Punhado de Dólares”, Leone introduz um a um os “Três Homens Em Conflito” da trama –título este que passou a ser tão ou mais conhecido entre o público do que “O Bom, O Mau e O Feio”: O Pistoleiro de Clint Eastwood, o bom, cujas alcunhas tão imprecisas quanto nos filmes anteriores pouca ideia dão de quem ele é (e de fato os personagens concebidos por Leone são mais caracterizações brilhantes do que personas necessariamente humanizadas); o Caçador de Recompensas vivido por Lee Van Cleef, o mau, que pode ou não ser o mesmo personagem do filme anterior. A atuação de Van Cleef ao interpretá-lo, porém, é bastante distinta deixando claro, já na cena inicial (uma sequência estilizada que serviu de ampla referência à Quentin Tarantino em “Bastardos Inglórios”) que este trata-se de um antagonista declarado, um vilão de perversidade inconteste, diferente da camaradagem ambígua que tempera a disputa entre os dois no filme anterior –sugerindo assim que este pode ser um outro personagem; há também o Feio de Eli Wallach, estranhamente o personagem mais humano, que ganha a vida de golpe em golpe, equilibrado entre a pouco confiável parceira com o ‘bom’ e cautelosa distância do traiçoeiro ‘mau’.
Depois de um longo preâmbulo onde cada um é introduzido e suas relações tão complicadas quanto divertidas são esmiuçadas, Leone revela a existência de um tesouro, um carregamento em ouro escondido numa sepultura de um determinado cemitério.
Incapazes de confiar um no outro, Clint Eastwood e Eli Wallach se tornam parceiros forçados: O primeiro sabe o nome da sepultura, o outro, o nome do cemitério. Ambos podem encontrar e dividir o tesouro cruzando o tumultuado cenário da Guerra Civil Norte-Americana. Separados não são capazes de achá-lo.
Além de tudo, o ‘mau’, ardiloso que só ele, os persegue, devidamente trajado de oficial confederado.
Na ambientação preocupada em analogias históricas, no elemento intrínseco de suas muitas maquinações, e na atmosfera desigual que empresta à narrativa se identifica aqui a vontade já crescente em Sergia Leone de despedir-se do faroeste spaghetti, sub-gênero que ele de certa forma criou, mas que, ao longo da “Trilogia dos Dólares”, o fez sentir aprisionado, rotulado. Não demorou para que Leone começasse a almejar novas experiências em sua carreira.
Todavia, todos queriam dele novos “spaghettis”: Ele fez o fenomenal “Era Uma Vez No Oeste” logo depois, onde se evidencia seu olhar sobre um mundo amargamente deixado para trás, e depois, com “Quando Explode A Vingança”, tratou de transfigurar o gênero agregando a ele toda a diferenciação e a relevância que ele buscava; caminho que o levou a conturbada produção de sua obra-prima “Era Uma Vez Na América” –mas, isso... isso é uma outra história.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando Explode A Vingança

O diretor Sergio Leone, então, famoso pela reformulação do gênero faroeste com o western spaghetti (em especial, a sua “Trilogia dos Dólares”), começava, aos poucos, a deixar o gênero com o qual críticos e fãs pareciam querer atrelá-lo, primeiro com seu magnífico e revisionista "Era Uma Vez No Oeste", e depois com este belo e curioso trabalho, visívelmente pertencente a um gênero indefinido, e que meio que compõe uma trilogia sobre os EUA, e que levaria ao magistral "Era Uma Vez Na América".
Aliados pelas circunstâncias, um ex-militante irlandês especialista em explosivos (James Coburn) e um bandoleiro da fronteira entre o México e os EUA (Rod Steiger) transitam pelos prados ora mexicanos, ora americanos, pouco a pouco envolvendo-se cada vez mais profundamente na sanguinolenta revolução que dominou aquela região, na primeira metade do século XX.
Se o irlandês (chamado “fogueteiro” pelo companheiro), em face de um estóico idealismo, nutre certa lealdade pelos conceitos da revolução, o bandoleiro, embora diretamente relacionado às transformações políticas em sua volta, enxerga as coisas com mais pragmatismo. São dois personagens bem interpretados e relativamente bem construídos, cuja dinâmica é bastante divertida de ser assistida na tela (a exemplo também do que ocorria com o trio de antagonistas no emblemático e delicioso “Três Homens em Conflito”), a despeito de todo o cunho social que o diretor Sergio Leone tenta impor, sobretudo, na sombria segunda metade do filme.
Amparado em todos os elementos que fizeram sua fama merecida, esta produção incomum ostenta uma narrativa hipnótica, operística e embevecida de clima, bem ao gosto de Leone que conduz tudo sem resvalar em convenções de gênero, e sem preocupar-se com a ambigüidade moral de seus notáveis protagonistas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Três Homens Em Conflito

Em meio a Guerra de Secessão, três pistoleiros errantes e absolutamente a margem da lei, tentam passar a perna um no outro para conseguir para si uma fortuna em moedas de ouro escondida numa caixa e enterrada num cemitério cuja localização eles sabem apenas em parte. Assim pode ser resumido este que é mais um exemplo do estilo magnífico com o qual o mestre Sergio Leone molda cenas de duelo e tensão.
Fã assumido de Akira Kurosawa e de John Ford (como o próprio Kurosawa também o era), sua visão do faroeste é uma reformulação do que os americanos fizeram com o gênero por décadas tornando-o clássico.
E dessa visão, todo um novo sub-gênero nasceu, prolífico, pulsante e vibrante durante todas as décadas de 1960 e 70: O faroeste-spaghetti.
Leone cria universos de tempo dilatado e faces calejadas e suadas onde os closes nos olhos levam a revelações por vezes significativas nos desdobramentos das cenas, de tiroteio inclusive, e de quem seus personagens são: No caso, o Bom (ou Loirinho!) é um pistoleiro sem nome, relativamente confiável e bom no gatilho, cuja figura encontra em Clint Eastwood uma personificação que lhe beira a perfeição, seu eventual parceiro é o Feio (ou Tuco) larápio enganador e fugitivo, vivido por Eli Wallach, cuja a gorda recompensa, a dupla muitas vezes retira, de cidade em cidade, fazendo-se passar por perseguidor e cativo, para em seguida fugir com o dinheiro. Por sua vez, o Mau (ou Olhos de Anjo) é um pistoleiro mais inescrupuloso, age como assassino profissional na fronteira, executando indivíduos aleatoriamente para quem lhe pagar mais, e de vez em quando, disfarçando-se de Oficial Confederado. E é interpretado com toda a fleuma e presença pelo calejado especialista em bandidos durões, Lee Van Cleef. Em meio aos contratempos da Guerra Civil Norte-Americana, essas três figuras enganam-se e aliam-se sucessivamente para tentar botar a mão na tal caixa cheia de dinheiro enterrada no tal cemitério. Um plot que poderia perfeitamente soar banal, mas que é tratado por Leone como aquilo que realmente é: Um pretexto, elaborado com equilíbrio entre o humor e a seriedade, para que por meio dele sejam executadas cenas brilhantemente pensadas e cinematograficamente soberbas, assimetricamente calibradas em sua linguagem visual e climatizadas com singularidade pela inesquecível trilha sonora de Ennio Morricone.
Este filme é um exemplo do trabalho de um mestre ao exercer sua arte.

sábado, 19 de novembro de 2016

Era Uma Vez No Oeste

É, por vezes, complicado apontar o melhor filme de um determinado gênero. Por exemplo: Qual seria o melhor filme já feito de ficção científica? Para uns, certamente “2001-Uma Odisséia No Espaço”, outros diriam “Blade Runner-O Caçador de Andróides”, ou até “Metrópolis”, de Fritz Lang. Há até aqueles que poderiam insistir em “Matrix” ou “Avatar”.
Com relação aos filmes de drama é ainda mais complicado; são tantos sub-gêneros que fica difícil escolher um só entre obras que vão desde “Casablanca” e “E O Vento Levou”, até trabalhos como “Cidadão Kane”, “O Sétimo Selo” ou “Os Incompreendidos”.
Mas, no que diz respeito ao faroeste essa é uma pergunta bem mais fácil de ser respondida: É provavelmente “Era Uma Vez No Oeste”, de Sergio Leone, a grande obra-prima do gênero.
Toda e qualquer afirmação radical encontra uma voz discordante, mas a verdade é que este grande filme de Leone, além de sua excelência inquestionável, reune elementos que convergem de todas as facetas que o gênero já teve: Trás uma série empolgante de grandes referências aos faroestes da Antiga Hollywood –sendo as mais explícitas, as imagens do Monument Valley, tantas vezes usado por John Ford, e a presença poderosa de um grande ator daquele período, o grande Henry Fonda, no único (e espetacular) papel de vilão em toda a sua carreira –além de apreender, em sua complexa trama, todo o significado implícito do gênero, e trazer a herança dos faroestes spaghetti; o italiano Leone, afinal, veio desse sub-gênero, no qual criou a famosa “Trilogia dos Dólares”.
Acompanhamos o desenrolar de sua trama quando um homem misterioso (Charles Bronson, no papel que é sua grande contribuição ao faroeste) surge numa estação de trem no meio do nada. Pistoleiro hábil, ele elimina de pronto os carrancudos homens deixados ali para cuidar dele. Seu objetivo parece ser matar o fora da lei Frank (Henry Fonda), notório mau-caráter que assassinou uma família inteira –numa cena tão brilhante quanto estarrecedora –com o objetivo de se apossar do terreno.
Frank não contava contudo com o aparecimento da jovem viúva (uma assombrosamente linda Claudia Cardinale), esposa do proprietário, e herdeira de tudo o que ele possui, incluindo o terreno cobiçado por Frank e por seu sócio o quase inválido, mas poderoso homem de negócios, Morton (Gabriele Ferzetti).
Frank e o pistoleiro misterioso serão uma espécie de ponto de desequilíbrio na história.
Logo, esses dois homens tão opostos e tão equivalentes se darão conta que são uma raça em extinção, e que o Velho Oeste já não mais existe e em seu lugar começa a surgir uma América industrializada, política e organizada que lhes é inóspita.
Esse é o legado do Velho Oeste que Leone soube tão bem colocar aqui: A de um tempo de transição, rumo à uma América que todos nós, expectadores, conhecemos tão bem. Um tempo que moldou homens sobre os quais contam histórias de bravura, até crueldade, não raro, imbuídas de romantismo, mas sempre impregnadas pelo cheiro forte da pólvora e da morte.
E os duelos, meu Deus! Alguém um dia conseguiu filmar duelos melhor do que Sergio Leone?
Do início ao fim, todos eles são cenas arrepiantes e perfeitas que se sucedem, de maneira espantosa. O destaque, sem dúvidas, fica com o duelo final, quando o personagem de Bronson enfim fica frente a frente com o personagem de Fonda, e descobriremos qual é o grande segredo do primeiro, e que vem a selar então o destino do segundo, num dos grandes momentos da história do cinema.
Leone está para os faroestes como Akira Kurosawa está para os filmes de samurais: Um mestre a ser reverenciado, e nada mais.

domingo, 26 de julho de 2015

Era Uma Vez Na América

Quando começa "Era Uma Vez Na América", o que vemos é uma série de cenas que não fazem o menor sentido: Uma desconhecida é assassinada por pistoleiros mafiosos mal-encarados. O personagem de Robert De Niro surta convulsivamente enquanto fuma ópio (e tais cenas podem interferir, ou não, na narrativa). Um incêndio. Um telefonema. Um corte que salta pelo menos uns vinte anos.
Durante a primeira hora de filme a impressão é de que pegamos a história pela metade -ou, como foi o meu caso quando assisti em VHS, parece que foi colocada a segunda fita no aparelho, ao invés da primeira!
Mas, não: Tudo faz parte de um plano minucioso, acalentado (por anos, inclusive) pelo diretor italiano Sergio Leone que durante boa parte de sua carreira sonhou em conceber este filme (e teve, portanto, tempo de sobra para elaborá-lo em sua mente, num nível de detalhamento e meticulosidade que atingem patamares raros na história do cinema).
Assim sendo, após vários personagens e situações estranhas desfilarem pela tela, lá pelo começo do segundo terço do filme é que o diretor Sergio Leone irá regredir a história a algumas décadas no passado, por meio de um flash-back genial, levando-nos, junto de seus personagens, àquele que é, de fato, o início da história: A Nova York do início do século XX, quando Noodless (personagem que virá a ser de De Niro) e sua turma, ainda crianças iniciam uma progressiva ascensão na hierarquia da ainda emergente máfia judaica no chamado East Side. A partir daí, as pontas soltas da narrativa irão lentamente se juntar e mesmo as cenas mais complicadas passarão a fazer sentido.
Muito tempo depois de "Era Uma Vez Na América" acabar, você vai se descobrir refletindo os detalhes desta história, que não é apenas sobre gangsteres, mas sobre pessoas que, apesar do "sonho americano", tiveram que trair e lutar pela sobrevivência, por uma vida melhor.
Como em qualquer parte do mundo.