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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Os Pássaros

Que diretor em estado de graça foi esse Alfred Hitchcock, senhoras e senhores! Logo após uma sucessão de trabalhos onde fez o grandioso “Intriga Internacional” e subversivo e ousado “Psicose”, eis que ele entrega “Os Pássaros”, um marco técnico e temático do suspense recheado de incríveis singularidades.
Não há trilha sonora em “Os Pássaros” –o comentário de cenas perpetrado pelo compositor Bernard Hermann se dá por um arranjo minucioso do ruído dos pássaros quase sempre em fúria que, sintetizados numa vibração alarmante e repetidos sistematicamente na ocasião certa, vão produzindo um efeito asfixiante no expectador.
Isso acarreta ao filme, desde seu princípio, um clima ambíguo que, num paradoxo, ao mesmo tempo neutraliza a ênfase dos momentos tensos e os potencializa ao longo de todo o filme: Se nada é preocupante, então tudo é preocupante.
Essa não é deveras a única audácia de Hitchcock, num filme cujo roteiro desafia os princípios básicos de narrativa do gênero: A premissa de “Os Pássaros” se recusa trabalhar a construção dos catalizadores de toda a crise que ele irá retratar, não oferece explicações (ao menos, não definitivas) para os desenlaces que ocupam sua importância central (o ataque dos pássaros), e portanto, não aborda nada referente ao seu próprio tema durante todo seu primeiro terço –e, contra todas as previsões, essas escolhas em princípio contra-producentes, não resultam num prejuízo da narrativa.
A começar sua trama, a mocinha socialite de São Francisco, Melanie Daniels (Tippi Hedren) está, olhe só, numa loja de pássaros. Ali inicia-se um flerte entre ela e o elegante transeunte Mitch Brenner (Rod Taylor); detalhes absolutamente irrelevantes, mas que estranhamente ocupam todo o centro do plot no lugar dos usuais ganchos narrativos que o roteiro adotaria.
Interessada em chamar a atenção de Mitch, Melanie vai até a casa da família dele, na cidadezinha litorânea de Bodega Bay e dá um jeito de ser convidada para a festa de aniversário da irmãzinha dele, Cathy (Veronica Cartwright, de “Os Eleitos” e “As Bruxas de Eastwick” ainda bem novinha), a despeito da ligeira insatisfação da mãe, Lydia (Jessica Tandy).
Esse início traz uma curiosa análise das vicissitudes dos relacionamentos modernos, na qual, alguns críticos enxergam os propósitos para os quais o ataque de pássaros será uma espécie de alegoria.
Tudo o que Hitchcock faz, na primeira meia hora de filme é justapor os indícios do que virá à condução aparentemente corriqueira de sua trama então descentralizada (um prenúncio de romance entre Melanie e Mitch, a possível rivalidade dela com a professora Annie; a reação inicialmente hostil de Lydia à pretendente do filho): Galinhas que se recusam a comer a ração servida pelos donos; revoadas gigantescas ocupando o céu, qual um exército se agrupando para a batalha; fileiras de pássaros abarrotando ameaçadoramente os fios de postes de luz; incidentes súbitos como a gaivota que ataca a cabeça de Melanie em um barco e outra que se choca propositadamente contra a porta de uma casa.
Durante a dita festa de aniversário, o primeiro ataque mais expressivo dos pássaros acontece –crianças são alvejadas por gaivotas ensandecidas –logo seguido de outro –a casa de Mitch é repentinamente invadida por um turbilhão de pequenos pássaros que entram por sua chaminé (!).
E o filme de Hitchcock sobre a fúria da natureza voltada contra o homem vai então num crescendo que confronta os personagens com o improvável tornado provável: Lydia encontra um vizinho morto à bicadas por gaivotas, num dos momentos mais tétricos do filme, e Melanie, ao tentar resgatar Cathy da escola escapa, junto das crianças, de um ataque brutal de um bando de corvos, apenas para testemunhar, logo depois, de dentro de um restaurante na cidadezinha, a destruição provocada pela fúria dos animais voadores.
Amparando sua obra num trabalho técnico voltado ao minimalismo dos efeitos especiais como nunca antes em sua carreira, Hitchcock molda um filme pontuado de ineditismos enquanto realizador: Não à toa, ele declarou à imprensa que este tratava-se de seu trabalho menos autoral e característico.
O sufocante terço final mostra Melanie, junto de Mitch e sua família, a tentar suportar as ondas contínuas de ataque dos pássaros dentro da segurança cada vez mais frágil de sua casa, convertida num refúgio apocalíptico. Os pássaros, pois, se cansaram dos mal tratos do ser humano e contra ele se revoltaram –é a teoria mais imediatamente viável suscitada no filme.
Entretanto, outras também emergem aqui e ali: Um bêbado na cena do restaurante cita um versículo da Bíblia (seria então, um castigo divino?); outro marujo menciona uma onda de ar frio que teria direcionada os animais para aquela cidade (fenômeno real ocorrido em 1961 que teria inspirado Hitchcock neste filme de 1963).
Contudo, a possibilidade que realmente encanta os críticos tem explicação psicanalítica: “Os Pássaros” seria, como muitos outros trabalhos de Hitchcock (“Um Corpo Que Cai”, “Janela Indiscreta”, “Marnie”), um tratado metafórico sobre dinâmicas amorosas e familiares. Nele, Melanie é o agente externo propagador de inseguranças e alterações (em Mitch, cujo interesse desperta, em Lydia, que inicialmente quer rejeitá-la), não à toa, uma mulher no restaurante aponta o fato dos pássaros terem iniciado seus ataques exatamente quando ela chegou à Bodega Bay.
Nessa visão de Hitchcock, o núcleo familiar reagiria então na tentativa de rejeitar ou acomodar esse novo membro. E na aflitiva cena final, quando quase é morta, Melanie é também destituída de suas vestes urbanas inabaláveis pelos pássaros (que finalmente rasgam o enervante modelito verde que trajou o filme todo), eis que, dos ferimentos selvagens que sofreu, a mocinha se transfigura (renasce) então não mais como uma dondoca frívola, mas pronta para ser incluída nessa família: Ela agora pode ser uma filha para Lydia (e pode encontrar nela a mãe que não teve) e ser uma boa esposa para Mitch.
Os pássaros, no final das contas, tiveram papel intermediário e canalizador nesse processo –e prova de que não há rancor é que os perequitos de Cathy são levados junto com eles no carro em direção à cidade.
O próprio Hitchcock se irritava com essas leituras demasiadamente simbólicas para suas obras, mas, não há dúvidas de que, em “Os Pássaros”, ele deixou ampla margem para infindáveis interpretações.

sábado, 10 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1990

A despeito do imenso culto de indicados como “Sociedade dos Poetas Mortos” ou “Campo dos Sonhos”, o prêmio de Melhor Filme em 1990 foi para o sensível “Conduzindo Miss Daisy” –mas, não o de Melhor Diretor; este foi para Oliver Stone por “Nascido em 4 de Julho” numa espécie de dobradinha com sua premiação por “Platoon”, em 1987 –falarei disso nas próximas semanas.
Por falar em “Nascido em 4 de Julho”, o astro desse filme, Tom Cruise perdeu o Oscar para Daniel Day-Lewis que ganhou, por sua atuação como deficiente físico em “Meu Pé Esquerdo”, o primeiro dos três Oscar que viria a receber; o mesmo ocorreu com sua colega de elenco no mesmo filme, Brenda Fricker, na categoria de coadjuvante.
O prêmio de Melhor Atriz também representou uma surpresa: A ganhadora foi Jessica Tandy, de “Miss Daisy” –o quê fez dela uma das mais velhas interpretes a receber o Oscar até hoje! –no lugar da premiada, aclamada e sensual atuação de Michelle Pfeifer em “Susie e Os Baker Boys”, tida até então como favorita.
Não houve tanta surpresa no prêmio de Melhor Ator Coadjuvante que foi para um ainda jovem Denzel Washington, uma das três estatuetas conquistadas pelo belíssimo “Tempo de Glória”.

MELHOR FILME
"Conduzindo Miss Daisy"

MELHOR DIREÇÃO
"Nascido em 4 de Julho", Oliver Stone

MELHOR ATRIZ
Jessica Tandy, "Conduzindo Miss Daisy"

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, "Meu Pé Esquerdo"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Brenda Fricker, "Meu Pé Esquerdo"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Denzel Washington, "Tempo de Glória"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Tempo de Glória"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Cinema Paradiso" (Itália)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"Conduzindo Miss Daisy"

MELHOR FIGURINO
"Henrique V"

MELHOR SOM
"Tempo de Glória"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“A Pequena Sereia"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Under The Sea", de "A Pequena Sereia"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Sociedade dos Poetas Mortos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Conduzindo Miss Daisy"

MELHOR MONTAGEM
"Nascido em 4 de Julho"

quarta-feira, 7 de março de 2018

Conduzindo Miss Daisy

Vindo de ótimas realizações em sua Austrália natal –entre as quais o brilhante drama de guerra “Breaker Morant” –o diretor Bruce Beresford estreou no cinema norte-americano com o árido drama “A Força do Carinho”, com Robert Duvall (para alguns seu melhor trabalho), entretanto, obteve aclamação de fato por seu projeto seguinte: A combinação primorosa de comédia agridoce e drama outonal chamada “Conduzindo Miss Daisy”.
Década de 1950. Após um incidente doméstico onde colidiu com o carro na cerca da casa, a sexagenária Miss Daisy, uma senhora viúva da Louisiana (Jessica Tandy) é obrigada a aceitar os serviços de um chofer contratado pelo filho (o comediante Dan Akroyd, saindo-se maravilhosamente bem num papel sério e dramático).
Chamado Hoke, o motorista (Morgan Freeman) é negro, e ela, como era de se esperar, mostra-se arredia a ele no início, recusando-se a andar de carro e valer-se de seus serviços –enxergando nele as razões que a invalidam para atividades que antes podia fazer naturalmente como dirigir.
Entretanto, o tempo permite a derrubada gradual de barreiras de implicância, o que leva Hoke e Miss Daisy a criarem uma relação de amizade que se estenderá por mais de vinte anos, e atravessará as muitas transformações sociais vividas pelos EUA.
Beneficiando-se da concepção regida por um cineasta fora dos Estados Unidos (e, por isso mesmo, despido de propensões condicionadas ao sentimentalismo redundante), este belo e sensível panorama da América é menos um filme sobre o racismo (embora também o seja) e mais um filme sobre os efeitos irremediáveis do tempo sobre todos nós.
Jessica Tandy, encantadora aos seus 89 anos, recebeu um merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz, mas ela está magnificamente acompanhada de Morgan Freeman (que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator).