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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Indiana Jones e A Relíquia do Destino


 Há uma estranha tendência em voga a dominar o entretenimento. Nela, ícones considerados clássicos sofrem uma espécie de desconstrução em prol de certas agendas ideológicas e discursos politicamente corretos em atividade, sobretudo, nas redes sociais. Colhido num momento em que tal prática parece ter chegado ao seu ápice, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, o quinto filme da gloriosa franquia que remonta desde os anos 1980, seria uma retomada das aventuras do famoso arqueólogo; uma celebração da tenacidade quase absurda de seu intérprete, Harrison Ford (do alto de seus 81 anos) em permanecer num papel tão fisicamente exigente; e um resgate das aventuras à moda antiga que lotavam cinemas, numa época em que Hollywood e seus realizadores parecem ter perdido o jeito para fazer exatamente isso.

Entretanto, “A Relíquia do Destino” não é nenhuma dessas coisas: A troca de diretores (sai o veterano, mas ainda ativo, Steven Spielberg, realizador de todos os quatro longas anteriores; entra o jovem diretor James Mangold, de “Ford Vs Ferrari”), talvez na intenção de rejuvenescer aspectos narrativos da franquia, pouco ajudou no fato de que, ao afastar-se das características identificáveis que agregavam estilo à série –e que, ao longo dos anos, arregimentaram seus fãs –o novo filme se afasta não só dos elementos que sempre fizeram de Indiana Jones e seus filmes algo tão original, mas também afasta a possibilidade desta produção, com todo o vultuoso orçamento investido, ser um bom filme.

Em seu prólogo, “A Relíquia do Destino” até alimenta um pouco a esperança do público: Nos anos 1940 (época correspondente ao período de “Os Caçadores da Arca Perdida”), Indiana Jones (Harrison Ford, neste início, rejuvenescido por computador) escapa por um triz do jugo dos nazistas junto de seu amigo Basil Shaw (Toby Jones), numa intrépida cena de ação sobre um trem em movimento –neste trecho, está em cheque a posse do precioso Marcador de Tempo de Arquimedes, segundo o qual, seria possível torcer o fluxo temporal e modificar o passado.

Logo após esse prólogo, somos levados à 1969, na companhia de um Indiana Jones octogenário, amargurado, desiludido e aposentado. Na ânsia de afastar-se do mal-recebido “Indiana Jones e O Reino daCaveira de Cristal”, a produção descarta muitos dos elementos plantados por aquele filme, como o casamento com Marion Havenwood (Karen Allen), agora um iminente divórcio, e em especial, o filho de Indy, Mutt Williams (vivido naquele filme pelo irritante Shia LaBeouf), morto em combate, como não tardamos a descobrir.

A ação começa de fato quando entra no caminho de Indy uma misteriosa mulher que descobrimos ser sua afilhada, Helena (Phoebe Waller-Bridge, da série “Fleabag”), filha do já falecido Basil. Helena quer a ajuda de Indiana para encontrar as duas partes perdidas do Marcador de Arquimedes –uma das quais esteve nas mãos dele e de seu pai –contudo (e isso, os realizadores tratam como a maior das novidades), Helena não deseja o artefato para fins filantrópicos ou altruístas como colocá-lo em exposição num museu (motivação principal do grande protagonista da série e, até de muitos de seus antagonistas, também), Helena quer, na verdade, vender a relíquia num leilão clandestino e faturar dinheiro.

E está aí, na postura de relativo desdém para com o passado e seus significados, aquela que parece ser a opinião não só da coadjuvante que busca, o tempo todo, roubar o filme de seu idoso protagonista, como também a dos realizadores. Enquanto “Indiana Jones” possuía Spielberg na direção –mesmo que nos filmes nem tão superlativos da saga como o demasiado sombrio “O Templo da Perdição”, ou mesmo o insatisfatório “O Reino da Caveira de Cristal” –havia um diretor atento aos elementos icônicos do personagem, aos impulsos morais que faziam seus códigos de honra serem infalíveis, e à uma postura cinematográfica e artística que tornava tudo salutar, supino e translúcido (“Indiana Jones” é bom lembrar, sempre teve profunda influência de “007”); agora com o esforçado James Mangold na direção (o roteiro ficou a cargo dele, de Jezz Butterworth e de John-Henry Butterworth), muito disso se perde: Mangold dirige com plena consciência dos tópicos a serem preservados como símbolos distinguíveis da série (como a trilha de John Williams, as cenas de ação impregnadas de uma melindrosidade do cinema mudo de Buster Keaton e Harold Loyd, os enigmas a serem desvendados em cenários ancestrais, inacessíveis e inesperados), mas se esquece que seu herói precisa SER Indiana Jones, e não a desengonçada moça que, neste enredo, o acompanha. Enaltecida de forma bastante desmedida para ser uma mera coadjuvante, mas pouco memorável para ombrear o personagem principal, Helena é uma personagem que atende demandas dos tempos atuais: É empoderada (ou assim julgam os roteiristas que a fazem uma anti-heroína ambígua durante boa parte do filme), questionadora (já que ela justifica roubar a relíquia de todo mundo como uma prática que espelha o próprio capitalismo!) e nem um pouco sexualizada (na verdade, é quase masculinizada!), Helena é uma personagem concebida, pelo roteiro e pela atriz que a interpreta com tanta sanha em corresponder aos tópicos liberais da atualidade (que condenam muito da imagem das protagonistas femininas dos filmes do passado) que não tiveram tempo de fazer dela alguém com quem o público vá se importar.

Resultado: A coadjuvante, que em diversos momentos parece suplantar o verdadeiro herói ao longo do filme (até porque, a avançada idade de Harrison Ford o impede de atuar com verossimilhança como Indiana Jones em muitos momentos cruciais e essencialmente físicos da trama) é chata, sem empatia e sem motivação, não oferecendo absolutamente nenhuma característica positiva que a faça, por exemplo, mais digna da torcida do público que os próprios vilões de plantão, vividos, à propósito, por Mads Mikkelsen e Boyd Holbrook (de “Logan”).

Há um lamento que persiste e perpassa todo “A Relíquia do Destino”, uma sensação de que Indiana Jones já foi melhor aceito (e melhor realizado) em outros tempos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Ford Vs Ferrari

As 24 Horas de Le Mans representam a corrida mais desgastante, difícil e exigente do mundo. É como uma grande montanha: Nada é tão desafiador ou intransponível.
Uma disputa de motores, ânimos e estratégias que se inicia num dia para só se encerrar no dia seguinte, com suas equipes competidoras trituradas pelo cansaço, pelo stress, pela pressão psicológica e, não raro, pelos acidentes atrozes decorridos nas pistas.
Quando o todo poderoso magnata do automobilismo Henry Ford II teve sua proposta de aliança de negócios recusada pelo também poderoso Enzo Ferrari, ele compreendeu que a recém-descoberta rivalidade entre os dois só podia ser de fato resolvida nas pistas de Le Mans –onde a Ferrari havia vencido as quatro últimas disputas!
A Ferrari tinha uma tradição automobilística por meio da qual seu carro era visto como um oponente impossível de ser batido.
Ford enxergava nessa oportunidade um meio de mostrar que, em sua área, não estava para brincadeiras. Todos, entretanto, concordavam que a Ferrari, ao menos nas pistas de Le Mans, não era um adversário que deveria ser desafiado.
É em torno dos meandros por vezes espetaculares dessa richa que se debruça o filme magnífico dirigido por James Mangold.
Engana-se, contudo, quem julgar que torna central a sua trama os chefões Henry Ford II e Enzo Ferrari: Seus protagonistas de fato são o ex-piloto e líder de escuderia Carroll Shelby (vivido por Matt Damon) e o indomável piloto e mecánico Ken ‘Bulldogue’ Miles (vivido por Christian Bale).
Dessa forma, o trabalho de Mangold desvia-se o foco dos nomes lendários envolvidos na trama, e o concentra no esforço heróico de homens comuns, no primeiro de seus inúmeros acertos.
Outrora um vencedor habilidoso de Le Mans, Shelby é procurado por um executivo de Ford, Lee Iacocca (Jon Berthal) que o recruta para capitanear a empreitada de tentar superar a Ferrari.
Shelby compreende que para disputar Le Mans não apenas deve construir o melhor e mais rápido carro –tarefa esta que, ainda assim, se mostrava cheia de percalços inacreditáveis –mas, também deve conseguir o melhor piloto; alguém que compreenda a máquina num nível tão intuitivo que seja capaz, num improviso, de arrancar dela o máximo.
Essa pessoa, ele sabe, é Ken Miles.
E aí começam alguns problemas: De difícil temperamento, Ken não é habituado a seguir ordens e, embora obtenha resultados assombrosos nas pistas de corrida, ele também obtém a antipatia do executivo-sênior de Ford, o arrogante Beebe (Josh Lucas, de "Uma Mente Brilhante" e "Hulk", especializado nesses papéis).
Tanto Ken, quanto principalmente Shelby sofrem, portanto, pressão vindas de duas extremidades distintas: De um lado, são pressionados para que consigam o rendimento que garanta à Ford a improvável supremacia nas 24 Horas de Le Mans (e nisso, têm como obstáculos as próprias leis da Física!); de outro, são sabotados por seus próprios dirigentes –algo antecipado pelo próprio Ken Miles –que ignoram as habilidades e o conhecimento de sua equipe para impor suas próprias restrições na execução e confecção do carro, na escolha dos pilotos (onde prevalecia Ken, contra a vontade de Beebe) e nos procedimentos da equipe.
Munido de muito jogo de cintura, Shelby tem de fazer política para garantir em sua equipe o único talento que sabia ser essencial para a vitória: Ken Miles.
Semelhante em muitos aspectos ao brilhante “Rush-No Limite da Emoção”, o filme de Mangold vale-se do mesmo inteligente princípio narrativo, onde sua trama dá prioridade aos pormenores extraordinários que faziam desta uma história frequentemente inacreditável. Matt Damon está ótimo como Carroll Shelby, em cujo comportamento austero se deposita o ponto de equilíbrio do filme, mas quem rouba mesmo as cenas é Christian Bale, como Ken Miles, cuja interpretação une maneirismos de seu personagem no excelente “O Vencedor” com algumas nuances minimalistas de seu papel em “A Grande Aposta”.
Um filme envolvente no registro minucioso e orgânico que faz dos bastidores tumultuados das grandes corridas, e arrebatador na recriação raivosa e eletrizante da alta voltagem obtida pelos pilotos dentro das pistas.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Logan

Já de começo se pode perceber algo de diferente em “Logan”. Diferente até mesmo de “Deadpool” cujo imenso sucesso propiciou a alta censura da qual este filme também se beneficiou: Os fãs podem, enfim, ver Wolverine no auge de sua selvageria, estraçalhando os inimigos e extraindo litros de sangue que suas garras afiadas não tiveram a chance de fazer em nenhum dos filmes anteriores.
Entretanto,”Logan” é também adulto em sua proposta, em seu intimismo, na decisão convicta do diretor James Mangold e do astro Hugh Jackman em finalmente construir um filme que fizesse jus à ambigüidade moral e à angústia que o personagem principal apresenta de maneira tão exuberante nos quadrinhos.
Uma pena que, ao buscar inspiração na graphic-novel “O Velho Logan” (ambientada num futuro algo pós-apocalípitico onde o herói se vê em uma fase crepuscular da vida e muitos dos personagens conhecidos já morreram), a premissa afasta a possibilidade de ter os demais X-Men a participar desse projeto (o único remanescente deles é um envelhecido e decadente Prof. Charles Xavier, aqui sofrendo de uma doença degenerativa mental): O ano é 2029. Já contam décadas que não nascem novos mutantes no mundo (e tal detalhe já aproxima bastante o filme de Mangold, também da memorável ficção “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón). Logan, outrora conhecido como Wolverine (Jackman, fazendo valer cada instante desta sua despedida do papel), agora trabalha quase anônimo como motorista particular. Junto com ele moram o mutante Caliban (Stephen Merchant, substituindo o ator que fazia uma versão mais agressiva deste mesmo personagem em “X-Men Apocalypse”) e seu antigo mentor, o agora senil Xavier (Patrick Stewart, entregando uma inspirada atuação).
Os poderes de Logan já não são mais os mesmos, e sua perspectiva de vida envolve a possibilidade de um suicídio –ele trás consigo uma única bala de adamantium na eventual chance de usá-la em si mesmo –porém, ainda assim, ele guarda algum dinheiro para comprar um barco e partir para o mar.
Neste cenário inóspito, surge uma garotinha, Laura (a surpreendente Dafne Keen), com poderes similares até demais aos de Wolverine –e ele logo descobrirá qual a espantosa origem dela –e perseguida pelo caçador de recompensas cibernético Donald Pierce (Boyd Holbrook) a mando de uma corporação tão suspeita quanto perigosa.
Logan deve conduzi-la a um refúgio em algum lugar da Dakota do Norte e até lá, certamente, se exasperar com seus perseguidores naquele que pode ser último ato de heroísmo.
O entardecer do herói é, assim, emoldurado por uma produção que se distancia muito dos elementos que definiram a série “X-Men” –e que ainda estavam presentes nas incursões solo do personagem –“Logan” guarda elementos de um road-movie, de um épico pós-apocalíptico que lembra “Mad Max”, de drama e de faroeste: Sua referência mais explícita por sinal é o épico de George Stevens, “Os Brutos Também Amam” que aparece literalmente na cena em que Xavier e a garotinha assistem ao próprio filme num quarto de hotel, pontualmente na própria dinâmica dos personagens (a relação entre Logan e Laura guarda diversos paralelos entre a do pistoleiro Shane e o garotinho, no clássico), e explicitamente na menção magistral feita durante o prólogo poderosamente emocionante e corajoso.

Hugh Jackman não é mais o Wolverine, e será certamente um desafio para o estúdio encontrar um intérprete à sua altura para o personagem que ele interpretou de modo tão perfeito nos últimos dezessete anos. Como consolo, nos resta este filme desigual, lúgubre, dramático e formidável que, em sua despedida, ele fez questão de nos entregar.

domingo, 15 de maio de 2016

Wolverine - Imortal

Ainda em processo de recuperação dos eventos transcorridos em "X-Men O Confronto Final" Logan se refugia nas florestas do Canadá, quando é procurado por uma jovem japonesa que lhe resgata um episódio de seu passado: Quando salvou, durante a II Guerra Mundial, a vida de um jovem soldado japonês, no exato momento em que a bomba atômica foi detonada nos céus de Nagazaki. O soldado, agora um milionário, a beira da morte deseja compensar Logan por tê-lo salvo, dando-lhe a única coisa que depois de tanto tempo ele almeja: a chance de morrer.
Mesmo após os resultados pra lá de frustrantes do filme solo do Wolverine, os estúdios da Fox, felizmente, ainda não tinham desistido do personagem. Foi assim que, dessa forma, chamaram novamente o ator Hugh Jackman (sempre sensacional em sua caracterização), contrataram o diretor James Mangold (realizador do ótimo faroeste “Os Indomáveis”) e o colocaram na missão de adaptar a cultuada graphic-novel "Eu, Wolverine", uma notável história de tom mais realista que colocava Logan no Japão, conseguindo assim restabelecer Wolverine como o grande personagem que é após aquele filme frustrante. 
O resultado unia elementos de filmes de samurai (indo além de sua ambientação), com aspectos que remetiam a filmes clássicos de gêneros norte-americanos, como "Os Implacáveis", muito do agrado do diretor Mangold, tudo isso, mesclado a uma trama de histórias em quadrinhos que terminou funcionando bem na tela de cinema.
Embora possuísse suas fragilidades, o novo filme trazia pelo menos uma cena digna de nota: A bem elaborada e memorável cena de luta sobre um trem-bala em movimento.
Está certo que o filme poderia ter sido ainda mais fiel à saga dos quadrinhos e que aquele trecho final envolvendo o Samurai de Prata é esquisito e desnecessário, sem falar que a cena pós-créditos que faz a ligação com o filme seguinte (“Dias de Um Futuro Esquecido”) é melhor que o longa inteiro mas... bem, isso é uma outra história.