Mostrando postagens com marcador Phil Joanou. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Phil Joanou. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Desejos

Os astros Richard Gere e Kim Basinger já haviam feito um par no romance policial “Sem Perdão”, de 1986 –uma das muitas obras comerciais ameaçadas pelo esquecimento à medida que novas mídias perpetuam apenas alguns específicos títulos –e tornaram a fazê-lo, já em 1992, com este “Desejos”, onde o diretor Phil Joanou (de “Te Pego Lá Fora”) traveste-se até descaradamente de Alfred Hitchcock; e cujo oportunista título nacional certamente almejou capitalizar em cima de sua atriz principal, um dos maiores símbolos sexuais dos anos 1980 e 90.
“Desejos” começa em São Francisco com a rotina usual do psicanalista Dr. Isaac Barr (Richard Gere) que atua tanto privadamente (atendendo as neuroses de seus clientes) como publicamente (prestando avaliações psicológicas em casos julgados no tribunal), sobretudo, aqueles defendidos por seu melhor amigo, o advogado O’ Brien (Paul Guilfoyle, de “Spotligth-Segredos Revelados”).
Entre os clientes que o Dr. Barr atende está Diana (Uma Thurman) cujos transtornos parecem tão profundos que levam ele a consultar também a irmã mais velha dela, Heather (Kim Basinger).
Entretanto, Heather é extraordinariamente bela e sedutora, e não tarda a fazer do disponível Dr. Barr seu amante. Ela é casada com o gangster Jimmy Evans (Eric Roberts), e com isso, as engrenagens do suspense usual já começam a girar. No entanto, o diretor Joanou, em dado momento sai-se com uma guinada (que curiosamente não surpreende) quando Heather, num surto repentino, o mata.
“Desejos” converte-se então em um filme de julgamento (sub-categoria que proliferou nos anos 1990), onde está em jogo a inocência de Heather e seu romance com Isaac Barr.
Até então, o filme testa consideravelmente a paciência do expectador com uma condução enfadonha e lenta onde o diretor procura saborear os meandros minimalistas da narrativa enquanto planta indícios que se revelarão pertinentes mais tarde, o público, porém, alheio a isso tem dificuldade de se envolver com tais aspectos: Em grande parte, porque Joanou não se deu conta de que, enquanto emulava Hitchcock nessa primeira hora de filme, nada absolutamente acontecia.
Se há algo que assegura algum interesse são deveras as presenças de Gere (que aqui atua como produtor também) e, em especial, Kim Basinger, sempre uma atriz funcional em diversos aspectos, além do desbunde de mulher que é!
É irônico, portanto, que, ao adentrarmos a segunda metade (ou talvez até o terceiro terço tão arrastada é sua condução), quando o filme promove uma nova reviravolta, seja justamente a empatia da personagem de Kim com o público que a narrativa parece descartar, ao contextualizá-la como uma femme fatale –papel que cai muito bem na loiraça.
Porém (e essa lição parece ter sido esquecida por Joanou), uma boa antagonista requer um protagonista tão bom quanto, e esse papel, o personagem entediante e raso de Gere não é capaz de preencher.
Dessa forma, a trama até ganha em surpresas, mas perde em precisão: Hitchcock, ao contrário daqui, sempre foi hábil e austero no manejo de elementos e personagens que o público odeia amar e ama odiar.
O que sobra em “Desejos” são, portanto, as referências a serem identificadas: A ambiguidade na protagonista que remete à “Marnie-Confissões de Uma Ladra”; o assassinato súbito (a eliminar um personagem que aparentava ter importância junto a trama) dando novo rumo ao filme como em “Psicose”; as insistentes observações de ordem psicanalítica, como em “Quando Fala O Coração”; e (a mais gritante de todas) o desfecho retumbante e vertiginoso no alto de um farol que em tudo e por tudo faz lembrar “Um Corpo Que Cai”.
A homenagem que o estiloso Phil Joanou presta a Alfred Hitchcock é sincera, faltou apenas fazer um grande filme (à altura daqueles do mestre do suspense) com ela.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Te Pego Lá Fora

Para alguns uma espécie de refilmagem de “Matar Ou Morrer”, este admirável trabalho do diretor Phil Joanou altera tanto as circunstâncias em torno das quais a premissa daquele brilhante faroeste se desenrola que essa colocação pode parecer até estapafúrdia.
Entretanto, não há dúvidas de que “Te Pego Lá Fora” empresta da obra de Fred Zinnemann o conceito de tempo real, bem como a sintomática opção de mostrar relógios a todo instante.
Tudo o mais é diferente –prova de que, se a ideia era mesmo refilmar “Matar Ou Morrer”, os anos 1980 tinham muito mais criatividade e audácia para oferecer do que os nada imaginativos realizadores de hoje.
Jerry Mitchell (Casey Siemaszko) é um estudante como outro qualquer; quase nerd, bom aluno, responsável pela papelaria da escola, ele está entre aqueles que não chamam a atenção de ninguém, mas também não são tidos como desajustados pelos colegas e professores.
Diferente de Buddi Revell (Richard Tyson, um dos diversos soldados de “Falcão Negro Em Perigo”); ele já chega em seu primeiro dia na escola com uma fileira de boatos atrás de si, a maioria deles dando conta de como é um brigão inveterado –e já nesse prenúncio, a direção estilizada e arrojada de Phil Joanou já entrega diversas sequências que deixam claro que este não é um filme adolescente convencional.
Incentivado pela função de editor-chefe do jornal da escola –uma das muitas que acumula –Jerry aborda Buddy quando os dois se encontram por acaso no banheiro. E uma atitude descuidada (ele dá um tapinha em Buddy que odeia ser tocado) o coloca em maus lençóis: Buddy quer agora brigar com ele, tal qual o faz em toda escola que vai parar. E isso se dará no horário da saída.
O palco está armado para a referência-mor do filme de Phil Joanou –como em “Matar Ou Morrer”, as horas progridem tão tensas quanto envolventes (e, neste caso, divertidas) enquanto o aflito protagonista busca um meio de escapar da enrascada em que se meteu.
No caso específico de Jerry, as tentativas de fugir da encrenca se ramificam em novas encrencas (um dos amigos tenta colocar um canivete no armário de Buddy para forçá-lo a ir para a detenção; ele contrata um dos fortões locais para dar cabo de Buddy; Jerry procura ele próprio ir parar na detenção [e consegue, no máximo, seduzir a bela professora!]; ele acaba até mesmo tentando roubar dinheiro do caixa da papelaria a fim de subornar seu desafeto) e nesse hábil domínio do infortúnio cômico o roteiro revela uma peculiar noção de ritmo e encadeamento.
Revela também a compreensão daquilo que “Matar Ou Morrer” também era, e de qual vinha a ser a finalidade principal embutida em sua premissa: Uma construção minimalista e circunspecta de personagem; é diante dos extremos que se descobre capaz para manter-se em sua zona de conforto que Jerry compreende encontrar seu maior inimigo, o medo, e não na ausência de coragem para enfrentar Buddy.
Ao fim daquele dia, tendo perdido quase tudo –e comprometido seriamente sua imagem de bom aluno em seus hesitantes esforços para fugir pela tangente –o protagonista reencontra aquela coragem de quem já não tem muito mais o que perder.
Nesse ponto, a comédia de Phil Joanou já deixou bem claro que passa longe de um registro realista –as situações criadas em sua absoluta idealização cinematográfica são precisas demais, simbólicas demais para pertencer ao mundo real –mas, caso isso não tivesse ficado claro, a sequência final, com a alardeada briga na escola, é também ela filmada com avidez espetacular e um senso incomum de estilo da parte de seu diretor.