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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Highlander - O Guerreiro Imortal

Trazido da Austrália, o diretor Russel Mulcahy emprestou à bela e peculiar aventura escrita por Gregory Widen um senso de fantasia mirabolante oriundo das histórias em quadrinhos e um frenesi inquieto extraído dos videoclips. Com efeito, quando foi lançado em 1986, “Highlander-O Guerreiro Imortal” revelou-se um verdadeiro achado.
Seu início já pega de surpresa o expectador: Numa câmera nervosa que se arrisca até num audaz travelling por cima de um estágio de luta livre lotado no Maddison Square Garden, encontramos, em meio à multidão o protagonista do filme, Connor MacLeod (Christopher Lambert, dando ao personagem um inesperado adendo de bom humor, diferente dos machões carrancudos e convencionais dos filmes de ação da época).
Num encontro dentro do estacionamento subterrâneo, uma luta entre MacLeod e  um adversário se segue envolvendo espadas (!) –e, no desfecho dela, MacLeod termina podando a cabeça de seu inimigo usando a arma antiga.
Começam então a sucessão de flashbacks que irão oscilar durante toda a narrativa os quais, no passado, irão esmiuçar com precisão a origem do protagonista e sua curiosa condição de imortal e, no presente (isto é, em 1986!), irão acompanhar a relação de MacLeod com a obstinada legista policial Brenda Wyatt (Roxanne Hart), com quem travará um romance, e seu iminente e derradeiro encontro com Kruger (Clancy Brown, de “Um Sonho de Liberdade”), seu inimigo mortal.
Nascido no Século XVI, membros dos tantos clãs guerreiros da Escócia, o jovem Connor MacLeod descobre durante um doloroso e potencialmente fatal ferimento em campo de batalha que é um imortal –condição fantástica a ocupar o cerne da mitologia do filme da qual o roteiro espertamente se recusa a fornecer explicações.
Ao sobreviver, Connor é considerado uma heresia –o milagre de sua sobrevivência, deduzem os aldeões e seus faniliares, só pode ser atribuído à demônios –e assim é brutalmente expulso de sua casa.
Com o passar dos anos, ele se refugia junto da bela camponesa Heather (Beatie Edney) numa isolada e idílica casinha  entre as montanhas, nas Highlands (terras altas) –daí o termo Highlander, que o acompanha.
Logo, porém, MacLeod é visitado pelo espadachim Juan Sanchez Villa-Lobos Ramirez (Sean Connery, numa participação pomposa e egocêntrica) que lhe abre os olhos para sua condição imortal e o treina para uma série de embates que virão nos séculos seguintes: Segundo Ramirez, todos os imortais do mundo são atraídos para algo denominado Assembléia, embates mortais travados com espadas (por meio das quais lançam mão da única maneira de morrerem, separando em definitivo o corpo da cabeça), cujo objetivo é que reste, dentre todos os imortais, apenas um.
O prêmio para o vitorioso: Ser, enfim, mortal.
Uma dentre tantas obras de irresistível apelo comercial e imaginativo que o cinema de fantasia entregou na década de 1980, “Highlander-O Guerreiro Imortal” conquistou seu merecido espaço na cultura pop por uma série de qualidades impossíveis de serem ignoradas, como a direção estilosa de Russel Mulcahy, cuja abordagem do universo singular e mitológico aqui esboçado primava por um misto quase inovador de verossimilhança factual (guardadas as devidas considerações do gênero fantástico a que pertence, claro) e visual acachapante, o roteiro inteligente e sensato na união equilibrada entre ação e pormenores de sua trama e seus personagens e, sobretudo, a junção desses elementos já admiráveis com a trilha sonora à cargo do grupo musical “Queen” que, na voz de Freddy Mercury, entregou entre outras a canção “Who Wants To Live Forever” que sozinha definiu a aura lendária e dramaticamente incomum que passou a cercar este filme aos olhos de toda uma geração de fãs e apreciadores.

quarta-feira, 4 de março de 2020

O Siciliano

Goste ou não, a obra de Michael Cimino pulsa cinema do mais alto nível pelos poros. Percebe-se seu requinte mesmo em trabalhos não tão aclamados como o caso de “O Siciliano”, que enseja uma adaptação cinematográfica da biografia do lendário bandido Salvatore Giuliano, escrita por Mario Puzo, mesmo autor de “O Poderoso Chefão” e, como na saga dos Corleone, carregada de um romantismo para com os códigos de honra entre mafiosos e um refinamento em relação à violência que deflagram.
Cimino encarou a realização de “O Siciliano” sete anos depois de “O Portal do Paraíso” e dois anos depois de “O Ano do Dragão”, seus projetos anteriores, e existem uma certa influência de ambos a determinar a personalidade de sua direção aqui: Como no primeiro, Cimino concebe tomadas sucessivas onde os personagens adentram recintos e ambientes em sincronia com a câmera –numa espécie de ênfase existencial da transição de uma fase para outra da história, e de seus personagens para os momentos divisores de suas trajetórias. Como no segundo, Cimino abraça um gênero com som e fúria, dando a ele as considerações de seu próprio estilo, ligeiramente constrangido pelo escopo da superprodução que comanda (reflexos do trauma de “O Portal do Paraíso”...), mas ainda assim, entregando belíssimas cenas.
O protagonista de “O Siciliano” é o então desconhecido Christopher Lambert que Cimino pareceu ter selecionado a dedo para o papel. Ele vive Salvatore Giuliano, camponês da cidade siciliana de Montelepre, cujo maior inconformismo é a desigualdade de seu povo, com os ricos usufruindo de fartura e os pobres perecendo na carência.
Numa tentativa de roubar trigo para os camponeses poderem fazer pão, Giuliano, ao lado do fiel amigo Aspanu Pisciotta (John Turturro) têm um violento embate a tiros com os policiais locais, do qual Giuliano sai alvejado. Desenganado de que morreria devido ao ferimento, Giuliano tem uma miraculosa recuperação –evento enxergado pelo roteiro como o ponto de virada de sua trajetória –e passa a partir daí, a almejar muito mais que apenas prover clandestinamente os necessitados: Libertando da cadeia os foras-da-lei Passatempo (Andreas Katsulas, de “O Fugitivo”) e Terranova (Derrick Branche), Giuliano passa a integrar, junto dos homens sob seu comando, um bando refugiado nas montanhas da região que se dedica a roubar dos ricos para dar aos pobres –ele tira-lhes o dinheiro para que comprem com ele seus próprios lotes de terra.
Seu comportamento à la Robin Hood o torna adorado em toda Sicília.
E também chama a atenção do poder de manobra das massas de sua imagem para os influentes poderosos locais como o hedonista Príncipe Borsa (Terence Stamp), a Duquesa Camila (Barbara Sukowa, de “Europa”), com quem Giuliano tem um breve affair, e em especial, o mafioso Dom Masino Croce (Joss Ackland, de “Máquina Mortífera 2”), um ameaçador misto de figura paterna e de rival implacável.
Eles almejam trazer para si o apoio de Giuliano contra os comunistas nas vindouras eleições, no entanto, Giuliano prefere se manter apolítico, e dedicado à sua cruzada de prover terra para cultivo ao povo, mesmo que por caminhos tortos e violentos. Pode desequilibrar a balança de poder o seu envolvimento com Giovana (Giulia Boschi), irmã do mais prolífico candidato de esquerda de Montelepre; e isso pode, por fim, levar os mafiosos mais poderosos não apenas da Sicília, mas de toda a Itália –materializados na figura de Trezza (Ray McAnally, de “A Missão”) –a armar uma verdadeira cilada contra Giuliano, onde estará em jogo o descrédito dele junto ao povo siciliano e a traição de um de seus mais leais arregimentados.
Nunca deixou de haver coragem no cinema praticado por Michael Cimino. Aqui, ela aparece na audácia em conceber sua visão pessoal desse lendário revolucionário tendo a memória tão recente da obra-prima, “O Bandido Giuliano”, assinado por Francesco Rossi, entretanto, a adaptação da obra de Mario Puzo subtraiu muitas de suas qualidades narrativas em função da manutenção do esqueleto principal da trama. Quem não teve acesso ao livro observa uma lamentável e predominante fragilidade nas motivações da maioria dos personagens em meio aos acontecimentos na meia hora final.
Ainda assim, um Michael Cimino menor está mais acima da média do que muita produção aclamada de hoje em dia.

domingo, 30 de abril de 2017

Subway

Nem todas as obras de Luc Besson eram exemplos irrepreensíveis de primor cinematográfico: Algumas eram mais como bem-vindos sopros de ar fresco, e audácia estética, num mar de modorrento simplismo que era o circuito comercial, mesmo o europeu, ainda que fossem ocasionalmente, obras bastante inconseqüentes, indicativas da juventude e ingenuidade de seu realizador.
Na verdade, esse era o caso da maioria de suas obras.
É um pouco dessa juventude, ávida por inconseqüência, de que fala “Subway”.
Jovem fugitivo (Christopher Lambert, algo desleixado em sua atuação), apaixonado por garota rica francesa (Isabele Adjani, linda e inusitada), busca refúgio da polícia e dos capangas do pai dela, após uma brusca perseguição de carros, nos subterrâneos labirínticos do metrô de Paris, onde ele descobre toda uma comunidade de seres estranhos que vivem numa sociedade própria ali, sem nunca visitar a superfície. O estilo rocambolesco de ação estilizada que é próprio de Luc Besson mais uma vez serve para emoldurar uma história sobre personagens excêntricos e particulares, como é bem ao seu gosto, e no qual ele encontra uma linguagem das mais charmosas –e que não tardou a interferir em filmes também norte-americanos.
Neste filme um tanto estranho de se generalizar onde destaca-se a beleza acachapante de Isabelle Adjani, a condução de Besson parece se mostrar propositadamente frouxa dando um acabamento de humor a muitas das soluções de roteiro, o quê conduz inevitavelmente ao tipo de final, algo aberto e desconcertante, com os quais Besson costumava encerrar seus filmes.

domingo, 5 de junho de 2016

Greystoke - A Lenda de Tarzan

Muitos foram os filmes que trataram das aventuras do homem-macaco. Tal qual Drácula e Sherlock Holmes, Tarzan é um herói tão icônico e arraigado na cultura pop que se tornou uma referência para tudo o quê, por ventura, lhe tenta se aproximar.
Filmes de Tarzan surgem desde os tempos do cinema preto e branco (a gloriosa fase dos filmes de Johnny Westmuller), chegando a existir até mesmo uma animação da Disney (de 1999, e uma das mais saborosas versões do personagem!).
Um novo filme está prestes a sair, com Alexander Skarsgard, como Tarzan, e a celestial Margot Robie, como Jane.
Mas, uma das versão mais inusitadas e curiosas do personagem surgiu, para variar, na década de 1980.
É chamada “Greystoke-A Lenda de Tarzan” (em referência ao Lorde de Greystoke, o título que Tarzan descobre pertencer à sua família quando tenta regressar à civilização), e trazia um campeão de natação no papel (como o fora Johnny Westmuller), em estréia no cinema, um certo Christopher Lambert, que depois ganharia fama com outro clássico oitentista, o divertido “Highlander-O Guerreiro Imortal”. Jane, por sua vez, era interpretada pela doce Andie MacDowell, num registro bem diferente da personagem visto em outras versões.
A trama, à rigor, é a mesma de sempre: Criado por macacos, após o desaparecimento e morte de seus pais em meio à selva africana, Tarzan é levado à Londres, onde conhece seu avô (Ralph Richardson) e passa a tomar conhecimento da origem aristocrática que lhe pertence.
Mas a civilização não tem um lugar para Tarzan, e ele nem mesmo deseja fazer parte dela.
Dessa forma, este filme intrigante se posiciona como uma releitura diferente, talvez, a mais desigual já realizada.
Pode-se dividi-lo em duas partes: A primeira, onde vemos a selva e a origem de Tarzan propriamente ganha forma, para logo conhecermos os outros personagens humanos.
Há um tom quase gore em muitas sequências que abusam da sanguinolência, o que vem a ser indicativo da direção escorregadia do inglês Hugh Hudson.
Com um prestígio meteórico adquirido pela consagração do drama esportivo “Carruagens de Fogo” junto ao Oscar 1981, Hudson foi escolhido pelo mesmo produtor daquele filme, David Puttman, para conduzir esta reformulação do personagem de Edgar Rice Burroughs. Mas, o próprio resultado final visto aqui demonstra que a aclamação ao diretor pode ter sido tão presunçosa quanto precipitada.
A segunda parte, quando Tarzan cede às instruções dos homens que o identificaram e vai para Londres agrega elementos mais dramáticos, com os quais o diretor Hudson se vê mais à vontade. É nessa parte (a despeito de cenas plasticamente admiráveis vistas no trecho da selva) que o foco da narrativa se evidencia ao observar o choque cultural do personagem e o esmero com que a caracterização de Christopher Lambert constrói um Tarzan mais visceral, e mais despojado, próximo de realidade animal.
O final surpreende na maneira com que ele encerra, num travo amargo a triste, o romance entre Tarzan e Jane, tão idealizado e feliz nas outras versões.

Dessa maneira, a despeito de suas inúmeras falhas, há em “Greystoke” uma série de elementos curiosos que diferenciam este trabalho do que pode ser considerado convencional. Eis aí um belo candidato à Cult.