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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Controle Absoluto

Rendendo uma bem azeitada parceria em “Paranoia”, o jovem astro Shia LaBeouf e o diretor D.J. Caruso tornaram a reunir-se sob a asa do produtor Steven Spielberg neste projeto consideravelmente mais ambicioso.
Houve quem dissesse, na época, que se “Paranoia” era uma versão modernizada de “Janela Indiscreta”, então, “Controle Absoluto” era uma versão modernizada de “Intriga Internacional”.
Não é bem assim.
Co-produzido por Alex Kurtzman e Robert Orcci e roteirizado por Dan McDermott (autor da ideia original), John Gleen, Hilary Seitz e Travis Adam Wright, “Controle Absoluto” era uma trama de espionagem e aventura das mais mirabolantes a tentar unir, num único pacote, elementos da então festejada “Trilogia Bourne”, o reverberante temor americano pós-11 de setembro, tecnologia de ponta (com o vasto aparato de câmeras de segurança, redes de network e aparelhos celulares surgindo como ferramentas fundamentais no roteiro), ação ininterrupta, uma discussão algo rasa sobre a vigilância governamental e referências pós-modernas ao Grande Irmão de “1984 de Orwell”.
Uma das pontas soltas do emaranhado de fios narrativos que vai se construindo ao longo do filme, o personagem de Shia LaBeouf, Jerry Shaw, recebe a devastadora notícia da morte de seu irmão gêmeo.
Paralelamente, outras coisas acontecem, como o fato de Rachel, a mãe solteira vivida por Michelle Monaghan, deixar seu filho pequeno ir, de trem, a uma apresentação musical de sua escola, na cidade de Washington.
No mesmo dia, Jerry recebe em seu apartamento, uma misteriosa remessa de armas e apetrechos que o tornam um suspeito de terrorismo aos olhos da lei –uma das muitas manobras sem muita lógica do roteiro que parece mais interessado em justificar o corre-corre do que em estruturar uma trama sem furos. Na delegacia, Jerry recebe o telefonema de uma mulher desconhecida (na voz da atriz Julianne Moore, à propósito) que lhe instrui, de forma quase premonitória, à perpetrar uma fuga inacreditável: Um guindaste arromba a parede da sala onde ele se encontra, e a tal voz parece ser capaz de controlar o fluxo dos trens do metrô para faze-lo seguir o rumo que ela deseja.
O mistério acerca de quem ou o quê é a voz no telefone não se sustenta do modo como poderia se imaginar –ou porque, em sua empolgação, o diretor Caruso não demanda maior atenção a isso, ou porque lhe falta perspicácia para realizá-lo: A voz é, pois, de uma inteligência artificial operando de dentro do próprio Pentágono e, no plano nebuloso que ela parece desenvolver, estão incluídos não só os perplexos Jerry e Rachel (que, coagidos cada qual à sua maneira, logo se veem lado a lado), como também o Agente do FBI Thomas Morgan (Billy Bob Thornton), a Investigadora da Força-Aérea Zoe Pérez (Rosario Dawson), o Major Bowman (Anthony Mackie, antes de virar o Falcão em “Capitão América-Soldado Invernal”) e o Secretário de Defesa Callister (Michael Chiklis, da série “The Shield” e do filme “Parker”).
Acelerado, dotado de uma produção ostensiva à cargo de Spielberg, e orgulhoso das reviravoltas que entrega minuto e minuto num ritmo perigosamente enervante e quase inverossímil, “Controle Absoluto” é um filme de ação high-tech a demonstrar, acima de tudo, um comando bastante seguro e convicto de D.J. Caruso, que não perde a mão, nem mesmo quando o filme ameaça ruir diante das próprias pretensões narrativas na sua parte final.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Zumbilândia - Atire Duas Vezes

O primeiro “Zumbilândia” até por seu grau de acerto em tantos níveis de sua proposta de diversão pedia, há tempos, por uma continuação.
O problema é que essa continuação demorou um bocado para sair, como atestam os longos dez anos que separam este e o primeiro filme.
Durante esse período tentou-se emplacar uma mal-fadada (e hoje pouco lembrada) série de TV oriunda do filme, de resultado pífio, os zumbis se tornaram uma presença constante e sob ameaça de defasagem na cultura pop graças ao seriado “The Walking Dead” e o seu elenco, sobretudo Emma Stone e Jesse Eisenberg (ela, vencedora do Oscar por “La La Land-Cantando Estações”; ele, indicado ao Oscar por “A Rede Social”), adquiriu renome e reconhecimento a ponto de ser um pouco estranho vê-los de volta aos seus alucinados personagens de início de carreira.
E é exatamente isso, estranhamento, que mais emana desta sequência: Em parte também pelo humor nem sempre funcional que contamina alguns momentos, tornando evidente uma já esperada incapacidade em recuperar a química precisa do filme original.
No mundo pós-apocalíptico conhecido por Zumbilândia, segundo a narração de Columbus (Jesse Eisenberg, envelhecendo rápido), reencontramos ele, sua namorada Wichita (a maravilhosa Emma Stone), a irmã dela, Little Rock (Abigail Breslin, longe da menininha vista no primeiro filme) e o impagável Tallahassee (Woody Harrelson, sempre fabuloso) ocupando a própria Casa Branca dos EUA, e por lá se estabelecendo como num lar.
Contudo, passado algum tempo, a rotina incomoda as mulheres: Little Rock sente-se sufocada pelo cuidado demasiado de Tallahassee, que ainda a vê como criança, enquanto que Wichita reluta em aceitar o pedido de casamento de Columbus.
Diante dessa inadequação, as duas partem para a estrada, deixando os dois em circunstâncias muito parecidas com as quais começaram o primeiro filme. Columbus, porém, não demora a achar algum consolo; e se envolve com a alienada patricinha Maddison (Zoey Deutch, de “O Artista do Desastre”, entregando uma atuação espantosa) cuja falta de noção soa ocasionalmente irreal no contexto de sobrevivência do filme.
Entretanto, a própria Wichita foi abandonada por Little Rock –que resolveu fugir junto de um hippie pacifista (!) –e agora, precisa do auxílio de Columbus e Tallahassee para seguir sua pista até Graceland (onde cruzam com os personagens de Rosario Dawson, Luke Wilson e Thomas Middleditch) e de lá para a comunidade denominada Babilônia –um lugar criado por uma nova e inacreditável geração de hippies que aboliram os uso de armas de fogo; mesmo que cercados de zumbis (!).
O grupo dos protagonistas chega lá a tempo de salvá-los de uma grande encrenca: Às três categorias conhecidas de zumbis, os Homers (os burros e lerdos), os Hawkings (dotados de inesperada inteligência) e os Ninjas (os silenciosos e ágeis que atacam furtivamente), soma-se uma nova, os T-800s (tal e qual o antagonista de “O Exterminador do Futuro”, mais fortes, mais resistentes e mais robustos, os quais dois tiros usuais na cabeça –como no título! –não são meramente capazes de pará-los!), e é justamente uma horda ensandecida deles que busca invadir a pacífica Babilônia.
Nota-se os esforços contínuos dos roteiristas Rhet Reese, Paul Winnick (ambos do primeiro filme) e Dave Callaham, além de seu elenco, para tornar este segundo filme tão divertido e engraçado quanto o primeiro. As soluções encontradas pelo roteiro podem até envolver e garantir alguma graça durante o tempo de duração do filme, mas ele nunca consegue igualar a inspiração flagrante do original –em parte, porque comédia é algo que se faz com espontaneidade, item escasso na maior parte do filme, substituído por uma histeria que o diretor Ruben Fleischer parece confundir com comicidade.
Não é de todo o ruim: Há alguns momentos realmente engraçados, a sintonia entre os protagonistas (salvo, talvez, o deslocamento de Abigail Breslin) continua afinada e carismática, e um ou outro acréscimo no elenco contribui com novas risadas, porém, há algo de muito errado no filme quando percebemos que sua melhor cena, anos-luz a frente de todas as outras, é a sequência surpresa nos créditos finais com a sensacional participação de Bill Murray.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Kids


Larry Clark despontou, em meados dos anos 1990, como uma força do cinema independente usando muito da possibilidade de transgressão dessa liberdade criativa como forma de promover o próprio nome. O grande título ao qual ele é relacionado –e o mais marcante filme até então já feito por ele –é “Kids”.
Todas as suas realizações que se seguiram ao longo dos anos não passaram de reedições, revisões e reaproveitamentos do material que ele trabalha nesta obra.
Co-roteirizado por Clark em parceria com Harmony Korine, “Kids” já começa deixando bem clara sua intenção de chocar: A câmera (prerrogativamente na mão) mostra um casal adolescente dentro de um quarto trocando um beijo que, no registro com que é realizado, consegue enojar o expectador.
O garoto é Telly (Leo Fitzpatrick, o asqueroso vilãozinho do filme) e a garota é uma de suas conquistas: Com algumas palavras ensaiadas –e que ele repetirá a outras garotas –ele a convence a transar com ele pela primeira vez, ainda que logo fique bem claro que, para ele, ela não significa coisa alguma.
O que Telly quer não é exatamente fazer sexo com virgens: Ele quer poder se gabar aos amigos daquilo que conseguiu fazer. Quer enumerar virgens uma após a outra, e em conversas subsequentes, reafirmar sua indiferença por elas.
Porque Telly, assim como Casper (Justin Charles Pierce) seu melhor amigo, não tem absolutamente nada o que fazer a não ser isso; e ao sair da casa de sua última conquista, já vocifera as bravatas de como irá atrás da próxima, que vem a ser Ruby (Rosario Dwason, em sua estreia no cinema).
Mas, Telly tem AIDS –ou ele não sabe, ou não se importa com isso –e Jennie (Chloe Sevigny, uma jovem atriz bem corajosa), com quem ele fez sexo dias antes, descobriu que contraiu dele, e por isso, passará o resto do dia tentando encontrá-lo, para lhe alertar, e impedir que ele contamine outras garotas.
Não que isso importe: Não há qualquer traço de julgamento moral no comportamento dele e de seus amigos, como veremos ao longo do filme, cujo enredo é tão somente o registro da banalidade do dia a dia, a absoluta falta de perspectiva de uma juventude, acarretada pela pouca exigência de responsabilidades ou de necessidades, amplificada ainda mais pelo fulgor natural dessa etapa, pelas descobertas sexuais inconsequentes, e pela ausência de valores que leva ao mau-caratismo: Os adultos, quase inexistentes da narrativa, são quando muito flagrados com ares nostálgicos e nada realistas –caso do motorista de táxi.
Para enfatizar essa postura, Clark filma momentos desconcertantes onde esses jovens, além da fazer sexo, se embriagam e consomem drogas.
Há, contudo, uma intenção tão evidente e forçada em escandalizar que, logo, se percebe o tom pedante de “Kids” –em sua inexperiência, Clark exagera no pretenso aspecto documental e transforma seu filme num circo de horrores que se mantém contundente até o final: A busca de Jennie por tentar remediar o mal propagado por Telly não resulta em nada, e ainda propicia ainda mais mal; ela desmaia na festa onde tentou procurá-lo. Casper então a encontra e decide fazer sexo com ela (assim, sem consentimento, sem preâmbulos ou explicações!) e começa a penetrá-la de fato (a cena explícita se justifica porque os atores Justin Pierce e Chloe Sevigny eram, na época namorados na vida real!).
Não há qualquer razão para o expectador adentrar o mundo torpe de “Kids” sem preparar o espírito para um filme incômodo que caiu como um abalo sísmico nas discussões  sobre valores artísticos e relevância durante os anos 1990; o tempo mostrou que este nem é tampouco um filme bem dirigido ou bem realizado, o quê continua fazendo dele uma experiência genuína é seu registro absolutamente sem pudor da falta de freios morais.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lego - Batman, O Filme

Deveriam dar a direção do filme da Liga da Justiça aos realizadores desta animação já que eles conseguiram fazer deste um dos melhores filmes do Batman: “Lego-Batman” respeita e considera o legado do personagem em todas as versões já concebidas; inclusive aí a normalmente constrangedora série de TV dos anos 1960 estrelada por Adam West (deixada de fora da maioria das personificações do herói, mas lembrada com muita espirituosidade por este roteiro).
Empregado como um coadjuvante na divertidíssima animação “Uma Aventura Lego”, o personagem do Batman, da forma como foi tratado, roubava muitas cenas: a conseqüência disso foi dar a ele o seu próprio longa-metragem animado.
A cidade de Gothan City, a despeito de ser declaradamente a cidade de maior índice de criminalidade do mundo (!), é protegida pelo vigilante conhecido como Batman (na voz hilária de Will Arnett). Ao contrário de suas torturadas versões para cinema –e não só interpretadas por atores reais, mas, também comprometidas com certa seriedade –este Batman é satisfeito com sua rotina frenética de super-herói em Gothan e orgulhoso com a persona sombria, viril e vistosa que criou, tanto que isso o permite usufruir da adoração das massas, enquanto brinca solitariamente com suas bugigangas na ostensiva Bat-caverna.
Mas, a nova comissária de polícia da cidade, substituta do aposentado Jim Gordon, e que vem a ser justamente a sua filha, Bárbara Gordon (voz de Rosário Dawson), deseja mudar as coisas.
Logo na seqüência da nomeação dela, porém, o Coringa (voz de Zach Galifianakis) e todos os outros vilões da cidade se entregam para a polícia, num plano mirabolante para tirar a credibilidade do Batman –afinal, o quê é um herói sem vilões para combater?
Seguindo a mesma premissa de “Uma Aventura Lego”, de execução engraçada e inusitadamente original, esta animação parece recriar, em seus pequenos detalhes narrativos, a sensação de uma brincadeira de criança, com os personagens nitidamente representados por pequeninos brinquedinhos (o som dos disparos das armas de fogo são onomatopéias pronunciadas pelos dubladores com a boca!), ainda que a exuberância da ambientação seja impraticável: “Lego-Batman” é, do início ao fim, uma sucessão inapreensível à primeira vista de informações visuais que encanta e impressiona os olhos.
Um exemplo? Ainda disposto a pôr um fim nos planos do Coringa, o Batman, com a ajuda do novo assistente Robin (voz de Michael Cera) –ou seria filho adotivo mesmo? –resolve ir à Fortaleza da Solidão e roubar o projetor de Zona Fantasma do próprio Superman (!) –a cena em que ele chega à tal Fortaleza e descobre que toda a Liga da Justiça está fazendo uma festa lá e não o convidaram é de rachar o bico!
Pois bem, Batman consegue arremessar o Coringa para dentro da Zona Fantasma; o quê só dá continuidade aos planos do vilão: Ele arregimenta todos os vilões que encontra lá dentro e retorna para instalar o caos em Gothan City. E como a Warner Bros. é detentora dos direitos de diversos personagens além dos super-heróis da DC Comics, a galhofa do filme permite a versão Lego de diversos vilões vindos de outras produções do estúdio como Sauron (de “O Senhor dos Anéis”), Voldemort (de “Harry Potter”), a Bruxa do Oeste e os macacos com asas (de “O Mágico de Oz”), King Kong, os Gremlins e muitos outros.
Uma grande brincadeira que, exatamente por isso, é muito eficiente em divertir o expectador.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sin City - A Cidade do Pecado

Por incrível que possa parecer, em 2005, ainda não se tinha aquela proliferação de adaptações de histórias em quadrinhos que vemos no circuito comercial de cinema atual –claro, haviam os filme do Batman (no caso, “Batman Begins”, primeiro filme da aclamada trilogia de Christopher Nolan, foi lançado naquele ano), haviam os filmes do Homem-Aranha (a primeira trilogia, de Sam Raimi, estava no segundo exemplar) e haviam os filmes dos X-Men (o terceiro, ainda com o elenco original e antes da reformulação em “Primeira Classe”, sairia só no ano seguinte), além de uma ou outra adaptação.
Ou seja, em 2005, além de não terem se consolidado como uma tendência do mercado, as adaptações de HQ, ainda tateavam em busca da linguagem ideal por meio da qual as narrativas da nona arte seriam transpostas para a sétima.
Êxito já tinha sido obtido, certamente, mas muita coisa ainda estaria por vir –a Marvel Studios só lançaria “Homem de Ferro” e iniciaria a construção de sua supremacia em 2008.
Nesse sentido –no de explorar possibilidades oferecidas nos quadrinhos que ampliassem a experiência cinematográfica em si –uma das mais notáveis produções a surgir em 2005 foi, sem sombra de dúvidas, “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues e Frank Miller.
E não foi para menos...
A idéia no projeto de Rodrigues era adaptar três histórias extraídas da graphic-novel em preto e branco escrita e ilustrada por Frank Miller, uma coletânea de histórias de crime ao estilo pulp e noir, e que a despeito de serem quadrinhos, ignoravam os super-heróis.
Rodrigues foi ambicioso: Sua intenção era moldar uma adaptação absolutamente fiel em termos visuais e narrativos, capturando a opção estética das páginas (cujos desenhos apresentam um emprego ímpar do “chiaroscuro”). Era uma intenção de tal maneira definitiva que sequer há créditos, no filme, de montagem e direção de fotografia –em lugar disso, aparece nos créditos iniciais apenas “filmado e montado por Robert Rogrigues”.
Na primeira história, "Cidade do Pecado", o bruta-montes Marv (Mickey Rourke, fabuloso) jura vingança aos assassinos da única mulher na vida que teve coragem de fazer amor com ele, a enigmática garota de programa Goldie (a estonteante Jamie King).
Em seus percalços em busca dessa vingança –e de um mínimo de significado para o assassinato de Goldie –ele se depara com uma conspiração que envolve os políticos graúdos de Basin City, assim como um de seus mais respeitados sacerdotes e um jovem e estranho canibal. Isso tudo enquanto luta com os fantasmas ilusórios (e enganadores) de sua própria esquizofrenia.
Na segunda, "A Grande Matança", um mal-entendido protagonizado pelo foragido Dwight (Clive Owen), pela prostituta Gale (Rosário Dawson, vulcânica) e pela pequena ninja Miho (a ágil e surpreendente Devon Aoki) pode por em risco uma trégua milenar mantida entre os policiais e os moradores de um bairro chamado Cidade Velha.
Na terceira, "O Assassino Amarelo", acompanhamos o policial Hartigan (Bruce Willis, num papel perfeito para ele) que sacrifica sua vida, sua carreira e seu casamento para proteger a garotinha Nancy de um perverso assassino e maníaco sexual (Nick Stahl, fantástico) cujo fato de ser filho de um senador o torna blindado aos olhos da lei. Após tentar praticar justiça com as próprias mãos –e de amargar quinze anos na cadeia por isso –Hartigan deve encontrar Nancy (agora vivida pela bela Jéssica Alba) e salvá-la das garras desse psicopata.
Assim sendo, com essas três emblemáticas premissas (nada menos do que três contos extraídos da graphic-novel e escolhidos a dedo), Rodrigues concebeu essa transposição literal (em tom, enquadramento de câmera, e paleta de cores) do sensacional e inovador trabalho do quadrinista Frank Miller, que à propósito foi convidado a dividir com Rodrigues o crédito de direção: Mais uma prova do objetivo estóico de Rodrigues em manter-se completamente fiel à fonte de inspiração, uma postura em geral ignorada por outros realizadores.

Em tempo: Melhor amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodrigues convidou-o para dirigir uma única cena do filme; trata-se da tensa, dúbia e surreal conversa banhada por luzes estroboscópicas entre Clive Owen e o personagem de Benicio Del Toro dentro de um carro em movimento.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Bem - Vindo À Selva

Das primeiras tentativas do hoje astro consolidado Dwayne ‘The Rock’ Johnson em tentar emplacar como herói de ação –para o qual tem um físico perfeito –este “Bem-Vindo À Selva” (não confundir com uma produção mais recente e infame estrelada por Van Damme) foi uma grata surpresa em razão da direção cheia de propriedades de Peter Berg, que mais tarde emplacaria filmes irregulares e diversos como “Hancock”, “O Reino”, “Battleship” e “O Grande Herói” –em comum, todos os seus trabalhos revelam uma vigorosa noção de ritmo.
Essa característica já era fortemente perceptível neste despretensioso filme de ação lançado em 2004, no qual The Rock (revelando mais capacidade interpretativa do que em seu trabalho anterior, o divertidamente descompromissado “Escorpião Rei”) é um mercenário cheio de manias que sonha em abrir um restaurante e, para tanto, viaja ao Brasil para lucrar em uma última missão: trazer para os EUA o filho fujão de um milionário (Seann Willian Scott, na época ainda gozando de sucesso junto ao público juvenil pelo seu Stiffler de “American Pie”).
Impertinente, o rapaz revela-se um arqueólogo apaixonado quando é enfim encontrado. Seu objetivo em terras brasileiras é achar uma valiosa peça arqueológica, mas seu plano bate de frente com os interesses das pessoas moradoras daquela região –uma síntese de Serra Pelada com a ambientação de algumas aventuras de Indiana Jones –que, oprimidas e empobrecidas, dependem do dinheiro obtido com a relíquia para melhorar de vida. Todos na verdade terão de se acertar com o vilão local (Christopher Walken, à vontade) que controla um bando de bandidos mal-encarados e praticamente manda no lugar.
Como na maioria desses filmes, o que importa aqui não é a originalidade e nem a engenhosidade com as quais a história é contada (ausentes, diga-se), mas a maneira envolvente e fluida com que tudo transcorre, tornando o filme assim exatamente aquilo que ele é: Um bom passatempo.
Basta pegar a dica na participação relâmpago (estilo piscou, perdeu) especialíssima de Arnold Schwarzenegger logo na cena inicial do filme. Ele olha para The Rock e apenas diz: Divirta-se!
Um comentário à parte requer o modo com o Brasil e os brasileiros são retratados no filme: Da forma mais caricata, exagerada e equivocada possível.
Não chega ao mesmo grau de ofensa do terror “Turistas”, mas dá uma boa idéia da maneira afetada com que os brasileiros em particular (e os sul-americanos em geral) são vistos pelos EUA, ou pelo menos pela sua indústria do entretenimento: Vivem sujos e em estado precário pelas ruas barrentas, falam com sotaque macarrônico, embora alguns personagens específicos sejam mais fluentes em inglês do que na própria língua portuguesa –a brasileira interpretada por Rosaria Dawson, por exemplo, não sabe falar a palavra “gato” (ao invés disso diz “garbo”...), mas não erra nenhuma palavra em inglês (!).
Pelo menos, uma explicação existe: A equipe até fez um reconhecimento no Brasil durante sua pré-produção, mas como foram assaltados durante sua estada aqui (!), eles decidiram filmar as cenas ambientadas no Brasil em locações no Hawaí (ou seja, no fim das contas, até fizemos por merecer).

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Quentin Tarantino, Robert Rodrigues e o Projeto Grindhouse

Uma das idéias mais ambiciosas e insanas dos últimos tempos saiu, não por acaso, das mentes fervilhantes e ousadas de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues: Grindhouse.
Tratava-se de um projeto de 2007, no qual eles peitavam a estrutura padrão de filmes norte-americanos (e mundiais, já que os cinemas do mundo todo adotaram o formato multiplex).
A ideia era entregar um longa-metragem que, na verdade, era dois filmes em um: Num mesmo rolo a ser exibido nos cinemas de shopping center (e hoje quase só existem essas salas de cinema mesmo, com raras exceções), haveria dois filmes, “Planeta Terror” e “À Prova de Morte”, ambos de não mais que noventa minutos de duração, dirigidos por Rodrigues e Tarantino, respectivamente, que junto de outros ‘trailers falsos’ –dos quais já iremos falar –compunham uma experiência que simulava uma sessão de filmes B, o cinema poeira, o grindhouse dos anos 1970, cujos exemplares Tarantino tanto ama homenagear.
Eram filmes de baixo orçamento, de conteúdo por vezes popular e popularesco, que por serem de metragem enxuta, podiam ser exibidos em sessões duplas nos drive-ins.
Muitas dessas obras, tão cultuadas por Tarantino, se perderam, algumas na transição de mídia para o VHS, por que muitos estúdios e distribuidoras do período não lhe davam valor. Alguns desses filmes são cults, muitos deles pelo simples fato de serem raríssimos.
Os filmes idealizados por Rodrigues e Tarantino, imulam as características dos filmes daquele período, inclusive com ‘sujeiras na projeção’ e partes cortadas onde o ‘negativo se perdeu’. Disfarçando suas produções de filmes B, os realizadores propunham ao expectador uma espécie de viagem no tempo.
No primeiro deles, “Planeta Terror”, Robert Rodrigues exercita sua paixão pelos filmes de zumbi, com um pé na ficção científica barata.
Só assim para comprar a trama mirabolante em que uma pequena cidadezinha do Texas é subitamente assolada por uma praga de zumbis carniceiros e gosmentos. Os sobreviventes que se unem contra eles são uma coleção de personagens peculiares e cartunescos: o rapaz misterioso, bom de briga e de papo (Freddy Rodrigues, nenhum parentesco com o diretor), o xerife paternalista (Michael Biehn) e seus ajudantes ineptos e engraçados, o dono de lanchonete que protege sua receita secreta de churrasco como sua própria vida (Jeff Fahey), o médico sádico e sarcástico (Josh Brolin) que parece saído de um gibi, assim como sua esposa (Marley Shelton), e a heroína,a stripper que tem a perna amputada e em seu lugar recebe uma metralhadora! Interpretada por uma Rose McGowan sensualmente vulcânica, ela não só rouba o filme como é também a figura mais emblemática dos filmes Grindhouse.
Já, na obra de Quentin Tarantino, “À Prova de Morte”, Kurt Russel surge na pele de um personagem chamado Dublê Mike, um psicopata, que mata suas vítimas usando seu carro, todo equipado para protegê-lo das consequências mais sérias de acidentes automobilísticos –já que nas horas vagas, ele atua como dublê de cinema em cenas perigosas ao volante. Assim ele procura, em bares e estradas, por suas vítimas, em geral, mulheres, para deliberadamente arremessar seu carro sobre elas. Mas, Dublê Mike encontra um grupo de garotas, formado por Rosário Dawson, Zoe Bell e Tracie Thoms que vão fazê-lo se dar mal.
O filme de Tarantino possui mais qualidade, como cinema (desde o roteiro mais elaborado à condução da atuação do elenco), do que o filme de Rodrigues, mas isso nem chega a ser uma novidade. Como é de praxe no cinema de Tarantino, os personagens destilam uma prosa desconcertante em brilhantes atuações. Ao fim, as mulheres são redimidas pelas três protagonistas que parecem surgir para subverter a então misoginia da narrativa.
Intercalando os dois filmes, uma série de trailers falsos (ou seja, não eram filmes reais!) cujo objetivo era, de fato, dar uma idéia e um “sabor” de como eram as impressões passadas pelos filmes e propagandas do período. São eles:
“Machete” –O mais sensacional deles, realizado pelo próprio Rodrigues, e que anos depois, de fato, tornou-se um longa-metragem, ganhando até uma continuação. “Machete” mostra a história de um policial federal mexicano (Danny Trejo) envolvido numa aloprada trama de vingança (e absolutamente nada disso deve ser levado à sério!).

“Thanks Giving” –Sobre um suposto filme slasher de terror (aqueles de contagem de corpos, estilo “Sexta-Feira 13”), mas que faz referencia ao que talvez seja o único feriado americano ainda pouco explorado por filmes de terror: O Dia de Ação de Graças. Esse trailer foi criado e dirigido por Eli Roth, chapa de Tarantino (fez até uma participação em “Bastardos Inglórios” como ator) e diretor de “Cabana do Inferno” e “O Albergue”.

“Werewolf Women of SS” –Na trama... bem, na verdade, nem existe trama, afinal, é um trailer falso! Mas, a idéia discorre sobre os filmes de nazi exploitation (produções cheias de violência e nudez envolvendo nazistas torturando mulheres que compunham o repertório dos grindhouses e, para variar, eram adoradas por Quentin Tarantino), mostra um cientista (Bill Moseley) fazendo experiências em mulheres, que terminam virando lobisomens, é dirigido por Rob Zombie (“A Casa dos 1000 Corpos”) e tem até uma aparição de Nicolas Cage ao final, como Fu-Manchu (!?!).

Don’t! –Quase um teaser dos tempos de antigamente, onde o espirituoso diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”) adotava o mesmo estilo com que eram feitos os trailers de produções inglesas de terror: Os trailers eram todos narrados, omitindo cenas de diálogos para que o público não percebesse o sotaque dos atores (!).
Pode parecer uma proposta radical demais para produtores e exibidores de cinema, e de fato era! Tanto que, logo, esse projeto foi redesenhado: Salvo algumas salas nos EUA, eles foram lançados divididos em dois filmes mesmo, “Planeta Terror” (junto com o trailer de “Machete”) e “Á Prova de Morte”, e essa lógica foi seguida, mais tarde, para o lançamento em DVD.

Vale lembrar que as cópias canadenses de “Grindhouse” tiveram um adendo: Foi feita uma espécie de seleção, na qual fãs enviaram seus próprios ‘trailers falsos’ para um fosse escolhido e ganhasse a honra de integrar o projeto. O trailer escolhido foi “Hobo With Shotgun” que contava a alucinada trama de um indigente que, ao juntar uma grana cortando grama na cidade, resolve usar o dinheiro para comprar uma espingarda calibre 22 e sair pela rua matando a bandidagem. Anos depois, assim como ocorreu com “Machete”, “Hobo With Shotgun” tornou um longa-metragem de fato, estrelado por Rutger Hauer, e lançado aqui no Brasil em DVD com o título “O Vingador-Fazendo Justiça A Cada Bala”. O filme, paupérrimo ao extremo, possuía todo um clima precário de filme trash evidenciando o amadorismo de seus realizadores.