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terça-feira, 7 de maio de 2024

Sr. & Sra. Smith


 O filme de ação de Doug Liman –planejado e pensado como tantos outros conceitos cinematográficos onde dois astros de grande apelo popular são colocados juntos em cena –por pouco não ficou à sombra de todos os burburinhos que suscitou: Foi durante a produção deste filme que os astros Brad Pitt e Angelina Jolie se conheceram, engataram um romance e se casaram.

Para a sorte dos produtores, o resultado final, independente das prioridades dos tablóides, foi um filme hábil, satisfatório e prazeroso de se ver, hoje com certeza convertido em clássico aos olhos de toda uma geração de cinéfilos –recentemente, ele ganhou uma nova versão, desta vez em minissérie, estrelada por Donald Glover.

Casados à cinco ou seis anos (eles não entram muito em concordância ao relatar sua história ao conselheiro matrimonial...), John e Jane Smith (Brad e Angelina, partilhando de uma química que realmente é um dos elementos explosivos do filme) enfrentam um ligeiro desgaste no relacionamento –eles ainda amam um ao outro, mas a rotina e as pequenas irritações diárias criaram um abismo entre eles que fica cada dia maior. No entanto, um detalhe tornará as coisas muito mais... digamos, complicadas: Ambos são (sem que o outro saiba) verdadeiras celebridades no ramo profissional que mantêm em segredo, o de assassinos de aluguel.

Em função da rivalidade das empresas que os contratam, eles acabam eventualmente sendo requisitados para matar um ao outro. Descobrindo aos poucos esse mistério –e o fato de que, à reboque dessas revelações, todo o casamento deles é, enfim, uma mentira –John e Jane se veem não somente diante do dilema de escolher entre a profissão e o coração (sem muita certeza se o cônjuge com quem casaram haverá de fazer a mesma escolha), mas também da necessidade de encontrar um meio imprevisto de salvar a própria pele. E, nessa esteira, o diretor Doug Liman explora o humor (muito por conta do timing brilhante de Brad Pitt) numa sucessão de cenas bem realizadas de ação ao mesmo tempo em que usa desse mote para questionar muitas idiossincrasias da relação a dois.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

True Detective - 1ª Temporada

A primeira temporada da série “True Detective é, ao mesmo tempo, uma obra-prima da parte do escritor Nic Pizzolatto (roteirista de “Sete Homens e Um Destino”) ao conceber um dos mais magníficos retratos de caçada à um psicopata já engendrados, uma aula de direção de Cary Joji Fukunaga e parte essencial do processo de reviravolta na carreira do astro Matthew McConaughey que com esta série e uma sucessão de grandes filmes –“O Poder e A Lei”, “Magic Mike”, “Killer Joe”, “Amor Bandido” entre outros –provou-se o ator competente e destemido que é, característica recém-descobertas que o levaram ao Oscar de Melhor Ator por “Clube de Compras Dallas”.
A série “True Detective”, em si, foi idealizada por Nic Pizzolatto como uma antologia –ou seja, cada temporada dedicava-se a uma única trama com começo, meio e fim, sem ligação com as outras, exceto por sua disposição temática. Isso permitiu agregar à série duas qualidades estratosféricas: A primeira, que seus personagens pudessem ser assim profundamente afetados pelo andamento natural da premissa, pelo transcorrer  plausível do tempo e para que esses efeitos fossem trabalhados diretamente na essência dramática do projeto. A segunda, um tanto consequência da primeira, é que “True Detective”, nas características que reúne, trata-se de cinema do início ao fim; seja na presença de astros muito além do calibre televisivo como McConaughey e Woody Harrelson, seja na direção circunspecta e poderosa de Fukunaga que, com personalidade própria desvencilha-se da comparação com os grandes clássicos desse sub-gênero, “O Silêncio dos Inocentes” e “Seven-Os Sete Pecados Capitais”, ou seja no tratamento conferido à história que, além de detalhes pertinentes relativos à trama e ao desenvolvimento sensacional de personagens, fornece à premissa um viés épico ambientando os acontecimentos em três núcleos distintos de tempos, separados por anos, quase décadas (!).
Assim, elucidando essa imensa carpintaria dramática construída com zelo incomum por Pizzolatto, começamos a história em 2012, quando os já aposentados detetives de polícia Rust Cohle (McConaughey, espetacular) e Marty Hart (Woody Harrelson), retornam a uma delegacia de polícia para prestar depoimentos sobre um caso que ambos, outrora parceiros, resolveram em 1995.
Marty, pai de família, mulherengo, e relativamente esforçado em não deixar que os desdobramentos macabros de seu ofício deixem de torná-lo uma pessoa normal, recebe um parceiro de atitudes estranhas: Colhido pelo pessimismo convulsivo em decorrência da morte da filha e do fim do casamento, Rust é anti-social, pragmático, metódico e, na falta de traquejo em suas relações humanas e profissionais, intolerável.
Mas, é também o homem certo para esmiuçar o caso de uma prostituta assassinada no que parece um ritual satânico, que abala a comunidade rural da Louisiana.
A medida em que a trama vai sendo descortinada em meio ao interrogatório no presente, descobrimos que Rust e Marty acharam indícios de que outras mortes foram perpetradas –eles estavam, pois, no rastro de um serial-killer –e que, de alguma maneira, aquele caso afetou a vida pessoal e a amizade dos dois.
No brilhante quarto episódio, o diretor Fukunaga entrega uma sequência inacreditável constituída de um único take de câmera que percorre casas (interiores, inclusive), ruas e quintais de uma vizinhança, antecipando o virtuosismo assombroso de “1917”, e, logo em seguida, no quinto episódio, há uma espécie de guinada: Os investigadores chegam ao que parece ser um culpado, no entanto, as circunstâncias a cercar essa tentativa de prisão os obriga a encenar um tiroteio que os torna famosos.
Logo, a trama salta de 1995 para 2002, quando já condecorados pelo feito e vivenciando distintas situações domésticas, os detetives são confrontados com a possibilidade do verdadeiro psicopata ainda estar em liberdade, e continuar matando. Sem saber lidar com isso, Rust e Marty entram numa espiral decadente que compromete a vida pessoal e profissional de ambos pelos próximos dez anos, até o destino conduzi-los a um reencontro.
Essa consideração passa a interferir nos momentos mostrados em 2012 –que deixam, cada vez mais, de ser mero artifício narrativo para se tornar parte essencial da trama quando o derradeiro episódio final de aproxima: Afinal, tudo leva os investigadores atuais a suspeitarem de Rust; seu desempenho certeiro no caso, seus comportamentos pouco usuais e propensos à auto-destruição e, sobretudo, o fato de que, mesmo já afastado da polícia, ele continuou rondando as cenas dos crimes que se sucederam.
No entanto, Rust sabe que será ele, ao lado de Marty, que deve encarar e carregar o fardo de encontrar o verdadeiro responsável, nem que essa obsessão o leve junto consigo.
A obra de Pizzolatto e do diretor Fukunaga, pelo tempo e pela dedicação investidos nos personagens e nas minúcias de sua trama, alcança um primor de suspense e detalhamento narrativo assombroso no oitavo e último episódio, dono de um dos marcos de audiência do canal HBO, embora hoje, “True Detective” possa ser enxergada pela perspectiva daquilo que revela ser de fato: Um grande filme de oito horas de duração.
Tão brilhante foi sua execução e tão alto foi o padrão estabelecido que as temporadas que se seguiram à esta primeira (foram duas, até então, com promessa de uma quarta) sequer chegaram perto de equiparar sua excelência.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Controle Absoluto

Rendendo uma bem azeitada parceria em “Paranoia”, o jovem astro Shia LaBeouf e o diretor D.J. Caruso tornaram a reunir-se sob a asa do produtor Steven Spielberg neste projeto consideravelmente mais ambicioso.
Houve quem dissesse, na época, que se “Paranoia” era uma versão modernizada de “Janela Indiscreta”, então, “Controle Absoluto” era uma versão modernizada de “Intriga Internacional”.
Não é bem assim.
Co-produzido por Alex Kurtzman e Robert Orcci e roteirizado por Dan McDermott (autor da ideia original), John Gleen, Hilary Seitz e Travis Adam Wright, “Controle Absoluto” era uma trama de espionagem e aventura das mais mirabolantes a tentar unir, num único pacote, elementos da então festejada “Trilogia Bourne”, o reverberante temor americano pós-11 de setembro, tecnologia de ponta (com o vasto aparato de câmeras de segurança, redes de network e aparelhos celulares surgindo como ferramentas fundamentais no roteiro), ação ininterrupta, uma discussão algo rasa sobre a vigilância governamental e referências pós-modernas ao Grande Irmão de “1984 de Orwell”.
Uma das pontas soltas do emaranhado de fios narrativos que vai se construindo ao longo do filme, o personagem de Shia LaBeouf, Jerry Shaw, recebe a devastadora notícia da morte de seu irmão gêmeo.
Paralelamente, outras coisas acontecem, como o fato de Rachel, a mãe solteira vivida por Michelle Monaghan, deixar seu filho pequeno ir, de trem, a uma apresentação musical de sua escola, na cidade de Washington.
No mesmo dia, Jerry recebe em seu apartamento, uma misteriosa remessa de armas e apetrechos que o tornam um suspeito de terrorismo aos olhos da lei –uma das muitas manobras sem muita lógica do roteiro que parece mais interessado em justificar o corre-corre do que em estruturar uma trama sem furos. Na delegacia, Jerry recebe o telefonema de uma mulher desconhecida (na voz da atriz Julianne Moore, à propósito) que lhe instrui, de forma quase premonitória, à perpetrar uma fuga inacreditável: Um guindaste arromba a parede da sala onde ele se encontra, e a tal voz parece ser capaz de controlar o fluxo dos trens do metrô para faze-lo seguir o rumo que ela deseja.
O mistério acerca de quem ou o quê é a voz no telefone não se sustenta do modo como poderia se imaginar –ou porque, em sua empolgação, o diretor Caruso não demanda maior atenção a isso, ou porque lhe falta perspicácia para realizá-lo: A voz é, pois, de uma inteligência artificial operando de dentro do próprio Pentágono e, no plano nebuloso que ela parece desenvolver, estão incluídos não só os perplexos Jerry e Rachel (que, coagidos cada qual à sua maneira, logo se veem lado a lado), como também o Agente do FBI Thomas Morgan (Billy Bob Thornton), a Investigadora da Força-Aérea Zoe Pérez (Rosario Dawson), o Major Bowman (Anthony Mackie, antes de virar o Falcão em “Capitão América-Soldado Invernal”) e o Secretário de Defesa Callister (Michael Chiklis, da série “The Shield” e do filme “Parker”).
Acelerado, dotado de uma produção ostensiva à cargo de Spielberg, e orgulhoso das reviravoltas que entrega minuto e minuto num ritmo perigosamente enervante e quase inverossímil, “Controle Absoluto” é um filme de ação high-tech a demonstrar, acima de tudo, um comando bastante seguro e convicto de D.J. Caruso, que não perde a mão, nem mesmo quando o filme ameaça ruir diante das próprias pretensões narrativas na sua parte final.

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Dia do Atentado

Percebe-se um padrão nos três filmes realizados pelo diretor Peter Berg em colaboração com o astro Mark Wahlberg, o drama de guerra “O Grande Herói”, o filme-catástrofe “Horizonte Profundo-Desastre No Golfo”, e este “O Dia do Atentado: Todos eles reconstituem episódios reais centralizando os esforços extraordinários de homens ordinários.
Aqui, Berg volta a atenção de suas lentes para os acontecimentos deflagrados em abril de 2013, durante a Maratona de Boston, no estado de Massachussets.
Ele lança de mão de diversas linhas narrativas, mostrando os numerosos personagens do filme –o policial Sgt. Tommy Saunders (Mark Wahlberg) incumbido da segurança da maratona; o comissário Ed Davis (John Goodman); o chefe de polícia de Watertown, o município vizinho, Jeffrey Puglieses (J.K. Simmons); o estudante chinês de intercâmbio Dun Meng (Jimmy O. Yang); o jovem casal Patrick Downes e Jessica Kensky (Christopher O. Shea e Rachel Brosnahan); o jovem policial, oficial Sean Collier (Jake Picking); e os terroristas interpretados com deliberado desleixo por Themo Melikidze e Alex Wolf (de “Hereditário”) –todos são apresentados por Berg ao seu estilo de baixa voltagem nesse primeiro terço, para então, na cena do atentado, terem unidas as pontas soltas de suas narrativas, revelando que todos eles ocupam, de uma forma ou de outra, um papel nesse trágico acontecimento, elevando assim consideravelmente o nível de tensão e ansiedade no expectador.
É quase um filme de ação transfigurado numa fórmula narrativa diferenciada (ao invés de rompantes ocasionais, tudo vai num aumento gradual), mas que ao longo desses projetos citados, Peter Berg aprimorou a ponto de domina-la com maestria.
O atentado propriamente dito ocorre quase com meia hora de filme, abrilhantado por uma recriação visual que não deixa margens para dúvidas acerca da habilidade do diretor.
É chocante, angustiante e visceral, no entanto, sua qualidade mais flagrante, passada a intensa reação que provoca, é o controle absurdo de ritmo que Peter Berg impõe: Ele nunca se apressa nem se atrasa em relação a sua intenção de expor os fatos para então partir para os finalmentes –ele toma tempo com as devidas informações pertinentes a respeito dos eventos, enquanto sem o expectador notar eleva o nível de urgência e a sensação de ameaça da narrativa.
Quando as bombas explodem, uma perplexidade palpitante contamina muitos dos personagens. O primeiro a retomar o controle é Saunders que imediatamente orienta a chegada das ambulâncias e socorristas. Patrick e Jessica estão entre as vítimas –se encontravam praticamente ao lado de uma das bombas! Ao comissário Davis, no comando das investigações, logo de junta o agente do FBI DesLauriers (Kevin Bacon). Os terroristas, erráticos, acompanham os noticiários de seu sujo apartamento exibindo assustadora falta de empatia.
A medida que os dias vão passando, e a investigação vai se revelando frutífera –graças ao aparato tecnológico fenomenal do FBI na captura das imagens das telas de segurança –os terroristas se veem compelidos a prosseguir com seu plano, desta vez, roubando uma arma e um carro para irem à Nova York.
A arma, eles tiram do policial Collier, que matam; o carro, eles obtêm sequestrando o jovem Dun Meng.
É ele quem consegue escapar e alertar a polícia sobre os terroristas, a tempo para que sejam interceptados numa vizinhança suburbana de Watertown; onde um tiroteio espetacular coloca o policial Pugliese na história –e nesse detalhe, no de ter conferido um background prévio a cada personagem que contribui à narrativa, o filme de Berg se mostra astuto, bem lapidado e de um zelo pontual para com os personagens e os eventos que retrata.
Se há nele um porém é no excesso de enaltecimento aos valores norte-americanos –comum nos filmes de Peter Berg –que, a partir de algum momento, começa a soar xenófobo em algumas cenas, piegas em outras.
Nada que desfaça a constatação do grande filme que foi realizado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Presa Na Escuridão


Lembrado tão somente pelo pouco relevante “Dormindo Com O Inimigo”, com Julia Roberts, no início dos anos 1990, o diretor Joseph Ruben ressurgiu no comando deste “Presa Na Escuridão” no qual apenas ratifica sua tendência para o convencional com esta trama que extrai elementos de um sem fim de outros filmes muito parecidos.
Sara (Michelle Monaghan) é uma fotógrafa de guerra cuja trágica explosão de uma bomba lhe tirou aquilo que a definia: A visão –ainda que tal drama seja absolutamente deixado de lado pelo roteiro.
Anos depois, já em Nova York e na companhia do namorado Ryan (Andrew Walker), Sara aguarda as festividades do Ano-Novo.
Entretanto, após uma ida ao supermercado tudo está diferente quando ela chega em casa. Ryan está morto (!), e um estranho chamado Chad (Barry Sloane) está em seu apartamento. Ele quer algo –dinheiro, talvez –que, aparentemente, Sara não faz ideia do que seja; as atividades ilícitas do namorado, pelo jeito, lhe eram completamente despercebidas.
A medida que galgam as aflições de Sara, outro indivíduo soma-se à vilania de Chad: O veemente Hollander (Michael Keaton, sempre inspirado).
Fazendo uma fusão objetiva e restritiva entre dois filmes até bem conhecidos –“Um Clarão Nas Trevas”, de Terence Young (onde Audrey Hepburn também vivia uma cega acuada dentro do apartamento por bandidos), e “O Homem Nas Trevas”, de Fede Alvarez (onde os assaltantes, desta vez, tinham por antagonista um cego) –o trabalho de Joseph Ruben se prejudica não pela repetição de expedientes já vistos nessas premissas, mas devido a contradição acarretada pela necessidade de estender ao máximo possível sua história.
Quase sem abandonar o espaço do apartamento da personagem principal –alternativa que parece mais por questões orçamentárias do que por opção narrativa –o roteiro faz malabarismos mirabolantes e tacanhos para conquistar reles minutos a mais de duração; sua jogada mais lastimável é a alteração de personalidade que os protagonistas sofrem em alguns momentos: Hollander, no princípio, apresenta-se como o líder experiente e austero, o único capaz de conter o ímpeto violento do psicótico Chad. Logo mais, entretanto, é Hollander quem adquire ares psicopatas e Chad ganha certa suavidade conforme o roteiro começa a querer sugerir um embate iminente entre os dois.
Não bastasse essa discutível incoerência, a própria heroína também se torna vítima dela: Sara aparenta inocência durante quase todo o filme –e nada em seu ‘background’, incluindo o flashback inicial, vai contra esses indícios –até que, de um ponto em diante, muda quase que completamente; agora, não apenas ela faz uma ideia de quem Ryan era e de onde ele escondeu o precioso material que os bandidos procuram, como usa de manipulação para fazer com que Hollander e Chad matem um ao outro.
Um resultado muito melhor poderia ter sido obtido se os realizadores estivessem atentos a pormenores mais humanos desses personagens, e não se contentasse em deles fazer arquétipos básicos.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Missão Impossível - Efeito Fallout


Houve um tempo em que “Missão Impossível” era associado a uma conhecida série de TV. Esse tempo se acabou.
Desde 1999, o conceito da série –assim, como elementos que a tornavam clássica, como a icônica trilha sonora de Lalo Schifrin –migrou para o cinema e, se no início a sombra do programa televisivo oprimia um pouco do resultado, pelo menos os últimos quatro longa-metragens se desvencilharam completamente dessas amarras.
“Missão Impossível” é, agora e para toda uma nova geração de expectadores, cinema.
E essa convicção se ampara no protagonista Ethan Hunt –sintomaticamente um personagem feito especialmente para cinema –interpretado pelo produtor de cada um dos filmes, Tom Cruise.
Ele quem fez da série algo seu; tornou seu nome, hoje, indivisível do título “Missão Impossível” e transformou Ethan Hunt, filme a filme, num dos grandes agentes secretos do cinema ombreando James Bond e Jason Bourne.
Como ele o fez?
Conferindo qualidade indiscutível ao material.
O filme anterior, “Missão Impossível-NaçãoSecreta” já havia sido agraciado como o melhor da franquia até então graças ao roteiro meticuloso e à direção refinada de Christopher McQuarrie, e como produtor, Cruise garantiu que esse talento se mantivesse neste novo “Efeito Fallout” –a primeira vez, portanto, em que um diretor assume dois filmes na franquia.
Tudo começa com a habitual incumbência de uma missão “Sua missão, caso aceite, será...”, culminando no clássico “esta mensagem se auto-destruirá em cinco segundos”.
Basicamente, Hunt deve adquirir três cargas de urânio antes que um grupo terrorista denominado “Os Apóstolos” o façam. Durante a negociação, porém, seus inimigos se revelam mais ladinos que o esperado e Hunt, ao optar por salvar a vida do amigo Luther (Ving Rhames) coloca o sucesso da missão em risco, o tal do “efeito fallout”.
Quando o filme se inicia de fato, Hunt tem a própria CIA em seu pescoço, acompanhando cada passo que sua equipe dá a fim de remediar o ocorrido –e o representante da CIA para tal tarefa vem a ser o beligerante e nada sutil August Walker (Henry Cavill, o único membro falho do elenco), um assassino nato com toda propensão para deixar os colegas de lado que Hunt não tem. Eles devem estabelecer um contato com a vendedora de armas conhecida como Viúva Branca (Vanessa Kirby, um charme só), ao mesmo tempo em que simulam a identidade do negociador que pode estar por trás de tudo, o misterioso agente duplo John Lark –cuja identidade é a única reviravolta fácil de prever do filme.
Todas as complicações levam à libertação do perigoso e psicótico Solomon Lane (Sean Harris, o notável vilão derrotado e capturado em “Nação Secreta”), e com isso, entra em cena mais uma vez a maravilhosa Agente Ilsa (Rebecca Ferguson, tão sensacional e surpreendente quanto no filme anterior), cujo MI-6 (o Serviço Secreto Inglês), para quem trabalha, lhe cobra uma prova de lealdade matando Lane –o quê a coloca, desta vez, em rota de colisão com Hunt e sua equipe.
Avançando por caminhos sempre intrincados, este magistral filme de espionagem não nega o fato de seu realizador ter sido premiado pelo rocambolesco “Os Suspeitos”: McQuarrie tece uma trama brilhante e bem amarrada onde cada índole, cada decisão humana e tática, cada pormenor conduz a uma guinada em seus acontecimentos, enfileirando, como conseqüência disso, uma cena de ação atrás da outra; todas concebidas com um entusiasmo e um rigor que imediatamente eleva “Efeito Fallout” ao status de Melhor Filme de Ação do Ano: O salto arrepiante de um avião em grande altitude (proeza executada de fato pelo astro Tom Cruise); a luta brutal dentro de um banheiro público; uma perseguição pelas ruas de Paris; uma outra perseguição (desta vez, a pé) pelos telhados de Londres; e uma assombrosa seqüência final envolvendo helicópteros –em todas elas, fica evidente a entrega absurdamente audaz de Tom Cruise.
Assim, como cinema, “Missão Impossível” chega neste sexto e magnífico filme, também ele, ostentando suas próprias características das quais se faz indivisível (o personagem de Cruise, ação desenfreada, trama intrincada, ameaças mirabolantes, produção requintada, a trilha sonora inconfundível).
Em “Efeito Fallout”, o diretor e roteirista McQuarrie, contudo, se dá o luxo de inserir um novo elemento: O dilema moral que acomete mesmo o mais implacável dos agentes quando cada ínfima decisão que toma pode levar ao salvamento (ou à perda) de milhões de vidas.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Um Parto de Viagem


Com uma premissa parecida com a de um filme dos anos 1980, "Antes Só Do Que Mal Acompanhado" de John Hugues, o ator Zach Galifianakis e o diretor Todd Phillips, repetem a parceria do hilariante "Se Beber Não Case" –que também se valia do expediente de reaproveitar o enredo de outras comédias pregressas.
Como ambos estavam a frente de uma das mais festejadas e bem-sucedidas comédias dos últimos tempos, eles aqui podem contar com um acréscimo de luxo: Robert Downey Jr. cuja colaboração com a Marvel Studios tornou o astro mais bem pago de Hollywood.
E, de fato, é a versatilidade de Downey, inclusive para a comédia (outrora ele foi membro fixo de uma das temporadas do humorístico “Saturday Night Live”), que valoriza “Um Parto de Viagem”, mais até do que a presença de Galifianakis ou a técnica de Todd Phillips.
Seu personagem é um arquiteto que inicia a trama na Costa Leste dos EUA. Com a esposa (Michelle Monaghan, com quem Downey Jr. já havia feito par em “Beijos e Tiros”) prestes a dar a luz em Los Angeles, ele precisa cruzar o país para encontrá-la e estar presente no nascimento do primeiro filho.
Um mal-entendido no aeroporto, porém, o impede de ir de avião, e ele se vê na desastrosa companhia do mesmo sujeito que havia começado toda a confusão: Um aspirante a ator (Zach Galifianakis, que o roteiro transforma no agente de todo o caos), cheio de manias e esquisitices que sonha em ir para Hollywood.
Embora não seja tão bom quanto “Se Beber Não Case” –e não consiga esconder opções e tendências formulaicas de gênero que definem sua estrutura –este filme ainda possui graça e ritmo o suficiente para manter a atenção do expectador até o fim.
Isso sem falar das ótimas participações que ele ostenta que, além do sensacional Robert Downey Jr. e da sempre encantadora Michelle Monaghan, incluem também o oscarizado Jamie Foxx e Juliette Lewis.
São presenças que terminam valorizando a sucessão episódica de contratempos que constituem seu enredo, ainda que, no final, seja de fato Downey Jr. quem consegue carregar a obra nas costas: Seu timing cômico é muito mais impecável que o do próprio Galifianakis, o pretenso comediante do filme.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Beijos e Tiros

Para o diretor Shane Black, o projeto de “Beijos e Tiros” representou um regresso às fileiras mais reverenciadas dos realizadores de Hollywood, décadas depois que ele renovou os paradigmas do gênero policial de ação com os roteiros para os dois primeiros “Máquina Mortífera”.
Para o ator Robert Downey Jr., o protagonista, o filme representou algo ainda mais crucial e divisor de águas, um recado para a indústria: Os escândalos, bebedeiras e toda sorte de problemas acarretados por seu vício em drogas que mancharam sua reputação nas décadas de 1980 e 90, tinham ficado para trás e somente seu grande talento havia restado.
Com efeito, Downey Jr. (cujo trabalho anterior havia sido o estranho “Crimes de Um Detetive”) não faz muito esforço para surpreender o expectador já na primeira cena: Seu personagem, um reles ladrão em fuga, ao tentar escapar de ser preso, finge-se de ator em uma audição, e tão genuinamente assustado e angustiado é seu teste que ele acaba conseguindo um contrato (!) onde terá de interpretar um detetive particular numa produção a ser filmada em Los Angeles.
Ele é orientado pelo próprio estúdio a fazer um "laboratório", ou seja, acompanhar um detetive de verdade para captar seus maneirismos e compor o personagem. O detetive em questão é estressado, mau-humorado, durão e homossexual (e o ator Val Kilmer se esbalda na caracterização rabugenta e melindrosa de tão notável personagem) que o envolve numa investigação de homicídio que inclui segredos sórdidos de pessoas poderosas.
E com isso, Shane Black já adentra não em um, mas em dois conceitos que ele domina com maestria: Um, o dos filmes de parceiros, tal e qual “Máquina Mortífera”, onde as diferenças essenciais da dupla protagonista moldará a dinâmica através da qual o filme entreterá o expectador; e o outro, o film noir pós-moderno, onde os arquétipos detetivescos que sempre definiram o gênero recebem uma pertinente transfiguração da realidade, da modernidade, da própria especificação cultural do lugar (o retrato do submundo de Los Angeles é pontuado por minúcia, lascívia e conhecimento de causa) e do estilo particular de seu realizador (o roteiro de Shane Black mescla elementos de comédia e de trama rocambolesca de forma tão excessiva e proporcional que é difícil levá-lo a sério).
Tão frutífero e habilidoso foi o desempenho de Shane Black ao lidar com esta produção que ele voltou a realizar um filme em moldes parecidíssimos com o deste daqui, o divertidíssimo “Dois Caras Legais”, com Ryan Gosling e Russel Crowe.
E Robert Downey Jr.? Ele soube muito bem lidar com as portas que se abriram depois de provar sua eficiência, sua capacidade e seu valor neste ótimo filme (cujo bom resultado de muitos momentos dependiam exclusivamente de seu talento), fechando um contrato com a Marvel Studios onde interpretou o personagem de sua vida, Tony Stark, o “Homem de Ferro”, papel que fez dele o ator mais bem pago de Hollywood na década seguinte.
Já gozando desse cacife, Downey Jr. reuniu-se com o diretor e roteirista Shane Black justamente em “Homem de Ferro 3”, um dos mais desiguais trabalhos do estúdio.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Missão Impossível - Protocolo Fantasma

Tendo mostrado o caminho a ser seguido em “Missão Impossível 3” –e assumido a co-produção dos filmes posteriores –o diretor J.J. Abrahams deixou caminho livre para que a série pudesse crescer. E foi o que de fato ocorreu, aliás, num momento bem propício para Tom Cruise: A época do lançamento deste quarto filme da série coincidiu com um dos períodos de mais baixa popularidade de sua carreira devido à uma bizarra entrevista no programa de Oprah Winfrey e à sua ligação com a cientologia.
Sorte para ele que Brad Bird, um aclamado diretor de animação (dos espetaculares "Os Incríveis" e "Ratatouile") resolveu fazer, com este trabalho, sua estréia em filmes live-action e realizou um filmaço de ação e espionagem.
Após a explosão de uma bomba no Kremlin, a tensão entre os EUA e a Rússia chega às vias de uma iminente guerra nuclear, uma vez que esse atentado terrorista recai sobre a equipe da IMF (Impossible Mission Force) que estava no local.
Ao ser instaurado o "protocolo fantasma", toda a IMF é desativada inclusive a equipe renegada, cujo líder –o agente Ethan Hunt, quem mais? –deve agora inocentar seu time que inclui, além dele, a linda agente Carter (Paula Patton, de “Preciosa” e “Idlewild”), o analista-chefe Brandt (Jeremy Renner, de “Vingadores” e “Guerra Ao Terror”) e o agente de campo Benji (Simon Pegg), para juntos deterem uma conspiração que tem por finalidade a Terceira Guerra Mundial.
Se o filme anterior, de JJ. Abrahams, começava a colocar as coisas em ordem dando relevantes características humanas a Ethan Hunt, este novo filme o coloca como um grande personagem de ação, equivalendo-o às figuras icônicas do gênero como Jason Bourne e James Bond; e o astro Tom Cruise, que já não é nenhum garoto, não nega fogo nas espetaculares cenas de ação.
Foi durante a realização deste filme que o astro Tom Cruise começou uma parceria com o roteirista e diretor Christopher McQuarrie –aqui contratado para aperfeiçoar o roteiro, uma prática na qual ele é especialista –protagonizando um projeto seu, o ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro” e depois chamando-o para dirigir “Missão Impossível-Nação Secreta”, até então o melhor filme da série.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Missão Impossível 3

O fecho da primeira trilogia –a partir deste, os filmes posteriores deixaram de apresentar numeração em seu título optando por derivações –com a qual Tom Cruise se aventurou a levar a famosa série televisiva aos cinemas é provavelmente a produção a partir da qual finalmente a estrutura e o tom narrativo foi enfim acertado: Superando as incompatibilidades autorais dos diretores como nos dois filmes anteriores e a pretensão de mesclar inteligência ostensiva e ação imposta num produto comercial, este filme se harmoniza com a fórmula que já estava lá nos episódios da antiga série de TV e com os valores de produção que fazem dele cinema de verdade.
Muito dessa fidelidade às características originais da série e a sua boa mistura de ação, trama de espionagem e suspense se deve pelo ótimo diretor J.J. Abrahams –cuja produtora Bad Robot, não por acaso, passou a co-produzir os filmes da série a partir daqui –que conferiu à narrativa uma empatia, uma urgência e uma percepção comercial de espetáculo que já existia em sua bem-sucedida série “Alias-Codinome Perigo”, também ela, uma série de espionagem –e por isso mesmo, um molde ideal para uma produção hollywoodiana não afundar no anacronismo inerente à sua fonte (a série de TV data dos anos 1960).
Faz-se perceber assim todo um processo de humanização do protagonista Ethan Hunt –algo deixado de lado até mesmo do segundo filme onde ele chega a se apaixonar (!) –quando vemos que, no início do filme ele está prestes a se casar com uma jovem médica (a bela Michelle Monagham) que sequer faz idéia do perigo de sua profissão –e já nisso há uma forte proximidade das características que norteavam a tensão do seriado “Alias”.
Naturalmente dadas as circunstâncias, Ethan Hunt (que finalmente começa aqui a tirar proveito do carisma de Tom Cruise) busca uma forma de se aposentar das suas peripécias no departamento das "missões impossíveis".
Pela primeira vez na série, portanto, o protagonista é confrontado com escolhas e dilemas emocionais –pela primeira vez (salvo uma menção muito breve quase prolixa feita no primeiro filme) descobrimos que ele tem entes queridos, um lugar para o qual voltar ao fim das missões.
É justamente isso que torna as atribulações surgidas neste filme mais intensas que as bem elaboradas (mas, no fundo pouco eficientes) enrascadas nos filmes anteriores: E o filme de Abrahams ainda por cima entrega um dos melhores vilões da série quando surge um perigoso e inescrupuloso milionário (Philip Seymour Hoffman, brilhante e ameaçador), que financia uma série de operações ilícitas e terroristas ao redor do mundo para obter um artefato tecnológico, misteriosamente conhecido apenas como "pé-de-coelho".
Outra contribuição do filme –ou melhor dizendo, outra recuperação de uma característica da série televisiva –foi a de tirar um pouco (mas, só um pouco) do peso dos ombros do protagonista Ethan e distribuí-lo em outros personagens que passaram a aparecer com freqüência nas continuações: Além do personagem de Ving Rhames (o único que acompanhava Ethan em todos os filmes), este filme introduz Benji (Simon Pegg, do festejado “Todo Mundo Quase Morto”) que não faltou em nenhum filme desde então, e a esporádica presença de Julia, a noiva de Ethan vivida por Michelle.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Contra O Tempo

Os bons autores reconhecem, no gênero da ficção científica, o terreno onde suas tramas acomodam inquietações que refletem nossa sociedade, seja de ordem política, filosófica, existencial ou pessoal.
“Contra O Tempo” embora não seja a mais espetacular das realizações (talvez, peque pelo peso excessivo que a narrativa dá ao seu andamento), é um trabalho no qual essas características casam com perfeição.
Ele conta uma história onde um capitão do exército norte-americano desperta num trem de Chicago, na companhia de uma moça que desconhece. Nos oito minutos seguintes, ele descobrirá que todos naquele trem morreram num atentado a bomba, e que ele, como parte de uma experiência do governo, tem a missão de reviver as últimas lembranças de um ocupante do trem até descobrir o responsável.
Diretor do instigante "Lunar", Duncan Jones criou aqui mais uma vez um belo conto de ficção científica onde ele questiona os limites da mente e da realidade, com base na gradual conscientização de seu protagonista (o ótimo Jake Gyllenhall) da situação fantástica em que está metido.