Lançada pela HBO, esta série documental em seis episódios esmiúça algumas das situações mais alarmantes surgidas nos bastidores de Hollywood, revelando ao público informações que talvez não fossem de seu conhecimento e mostrando que desdobramentos ocasionados atrás das câmeras podem ser infinitamente mais sórdidos do que podemos imaginar. Com duração de um longa-metragem (cerca de uma hora e vinte e oito minutos), cada episódio traz as observações técnicas, profissionais e éticas da jornalista Scaachi Koul e do psiquiatra Dr, Drew Pinsky, as duas únicas presenças recorrentes em toda série.
No primeiro episódio, somos introduzidos à
trama que provavelmente mais escapou ao conhecimento do público (até porque,
entre outras coisas, sucedeu-se num período em que a internet não trazia tanta
abrangência assim), as obscuras revelações sobre o ator Stephen Collins. Revelado
ainda nos anos 1970, graças à participações em “Jornada Nas Estrelas-O Filme” e
na série de TV “Tales of Gold Monkey”, Collins rapidamente subiu ao estrelato
graças a uma soma favorável de predicados como boas atuações, carisma e ótimas
relações-públicas, no entanto, o depoimento de uma jovem que encontrou-se com
ele nos anos 1980 – e que transcorre, paralelo à sua ascensão nos anos 1990 –
vai desmascarar um lado sombrio que passou completamente despercebido do
público e do meio hollywoodiano que o havia enaltecido.
Indícios já estavam lá, desde sempre, como
aponta o Dr. Pinsky ao notar sua propensão para escrever romances de cunho
erótico com estranhos desvios de comportamento, porém, a reputação de Collins
seguia inabalável, ainda mais solidificada depois que ele foi escolhido para
interpretar o Pastor Eric Camden na série de apelo religioso/familiar “7º Céu”.
Elogiada como uma das mais salutares séries da TV da época pelos valores que
passava episódio após episódio (e tendo revelado a estrela Jessica Biel), “7º
Céu” durou impressionantes 11 temporadas (de 1996 até 2007) e Stephen Collins
foi ovacionado como um dos mais queridos atores da televisão norte-americana
por público e crítica.
Foi somente em 2014 que a bomba explodiu e revelações da ex-esposa expuseram Stephen
Collins que, em rede nacional, admitiu ter cometido abusos sexuais contra
meninas menores de idade nos anos 1970.
No episódio 2 são mostrados alguns casos
problemáticos de atores-mirins que enfrentaram revezes imensuráveis quando
deixaram de ser criança.
Como Brian Bonsall, intérprete do jovem Andy
Keaton, na época com apenas seis anos de idade, na série “Family Ties” – ou
“Caras & Caretas” – aquela que revelou Michael J. Fox, antes mesmo de “De Volta Para O Futuro”. Encerrada a série após sete temporadas, Brian (como é
passível de acontecer a muitas crianças pequenas no meio) não soube lidar com o
término de sua “família” fictícia – que para ele era real – e o resultado foi
uma adolescência e juventude problemática, envolvida com drogas e
marginalidade.
São mostrados também os casos de Dee Jay Daniels
(jovem ator afro-descendente que fez sucesso interpretando o caçula do seriado
“The Hugleys”, de 1998 a 2002), de Zachery Ty Bryan (que aos sete anos fez
parte do elenco da série de Tim Allen, “Home Improvement”) e Orlando Brown
(parte do elenco de “That’s So Haven”, do Disney Channell, de 2003 a 2007).
Todos foram incapazes de lidar com a fama quando ela revelou, em algum momento,
suas facetas fugazes e ilusórios – e todos decaíram no consumo de drogas
ilícitas, no envolvimento com a criminalidade – embora alguns, como Brian e Dee
Jay tivessem sido capazes de se reabilitar.
O episódio 3 fala sobre os percalços de abuso
profissional perpetrados na famosa série infanto-juvenil dos anos 1990, “Power
Rangers”, que começou como um aproveitamento picareta da parte do criador Haim Saban de sobras de seriados japoneses
com direitos autorais comprados a preço de banana (!), com o inesperado sucesso
avassalador na TV, a prática de utilizar somente as cenas de ação (e
acrescentar cenas de diálogos com elenco norte-americano) transformou “Power
Rangers” num fenômeno e seu jovem elenco, em astros. Contudo, o sucesso não
trouxe garantias nem estabilidades: O produtor Saban submetia os atores à
jornadas físicas extenuantes (a série, afinal, envolvia artes marciais) e seus
salários eram negociados por valores irrisórios. As temporadas que se seguiram
(num total de assombrosas 28 temporadas, além de especiais para a TV e longas
de cinema!), ainda que cada vez mais endinheiradas na produção graças ao
sucesso de audiência, provaram que os atores eram descartáveis; eles podiam ser
substituídos por outros, sempre que reclamassem, exigissem pagamentos mais
justos ou condições menos severas -e o
documentário mostra que foi exatamente esse o destino de Audri Bubois,
intérprete original da Ranger Amarela, substituída ainda no episódio-piloto
pela asiática Thuy Trang por discordar das políticas de pagamento, e da própria
Thuy Trang, que enfrentou, mais tarde, terríveis revezes por tentar lutar por
seus direitos e os de seus colegas. O episódio, entretanto, reserva um tempo
todo especial para falar de Jason David Frank, intérprete de Tommy Oliver,
inicialmente o Ranger Branco e, depois, o Ranger Verde -de longe, o mais icônico
dentre todos os atores que participaram de “Powers Rangers” (e o mais duradouro
dentre todos também), Jason David Frank se tornou, para os fãs, uma espécie de
representante da série em infindáveis excursões por convenções em todo solo
norte-americano. Porém, todo o carinho dos fãs não foi capaz de afastá-lo de
seus problemas pessoais, do vício em drogas e das crises de depressão que
culminaram em seu suicídio em 19 de novembro de 2022.
O quarto episódio foca no reallity show do Canal Bravo, “The Real Housewifes” e seus
bastidores pra lá de conturbados, sobretudo, a origem da fortuna de Danielle
Staub (uma das estrelas da edição de Nova Jersey do programa), relacionada ao
tráfico de drogas; a situação ilícita de Jen Shah (da edição de Salt Lake
City), condenada por fraude e lavagem de dinheiro; e (o relato mais alarmante dentre todos) a
terrível condição de violência doméstica sofrida por Taylor Armstrong nas mãos
de seu então marido.
O quinto episódio é sobre a Família Von Erich
cujos seis irmãos, filhos do lutador Fritz ‘Iron Claw’ Von Erich se tornaram
famosos entre os anos 1960 e 70. Entretanto, como uma espécie de maldição
reservado à algumas celebridades, cada um dos seis – Jack, Kerry, Kevin, Chris,
Mike e David – encontrou um desfecho trágico acometido por diferentes
transtornos psicológicos, restando somente Kevin (o principal entrevistado)
como único sobrevivente.
Os percalços da Família Von Erich foram
transformados num longa-metragem para cinema, “Garra de Ferro”, dirigido por
Sean Durkin (de “Martha, Marcy, May, Marlene”), com Zach Efron, Lilly James e
Harris Dickinson no elenco, no entanto, as liberdades poéticas em relação à
realidade foram tantas que diversos depoimentos (incluindo o do próprio Kevin
Von Erich) surgem tentando esclarecer ou corrigir muitas passagens do filme.
O sexto e último episódio aborda várias
situações que envolvem stalkers das
Celebridades – quando fãs perdem a consciência de seus limites e transformam a
admiração por seus ídolos em obsessão – inclusive trazendo o caso mais famoso e
aqui tratado com mais superficialidade: O stalker
que chegou a invadir a casa de Sandra Bullock!

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