sábado, 7 de novembro de 2026

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte


 Aos olhos desavisados, “Acampamento Miasma” pode parecer mais um filme que pega carona em referências oitentistas tão em voga no cinema comercial, com suas homenagens aos clássicos do terror slasher que preservam fãs e apreciadores até hoje – e que, por isso mesmo, são uma fonte de lucro tida por inesgotável para muitos produtores picaretas.

Na verdade, “Acampamento Miasma” pode parecer inúmeras coisas: Uma sátira às franquias de terror sob o viés woke a salientar os elementos problemáticos (misoginia, homofobia, racismo e o politicamente incorreto em geral) que normalmente todas as franquias antigas compartilhavam; um exercício de estilo até que impressionante da diretora Jane Schoenbrun (de “Eu Vi O Brilho da TV”); e uma carta de amor ao subgênero slasher em geral e à “Acampamento Sinistro” em particular.

Mas, acima de tudo, “Acampamento Miasma” é uma pérola de metalinguagem, uma realização autoconsciente de toda extensão cultural do subgênero que aborda e, diante desses fatores, realiza uma reflexão humana, artística e cinematográfica de todas as suas implicações para, no fim das contas, mostrar-se aquilo que todo o filme deveria ser: Um ótimo entretenimento.

No passado (mas especificamente, nos anos 1980), a série de terror “Acampamento Miasma” fez imenso sucesso de público (o que é ilustrado nos créditos iniciais com imagens do filme, de produtos de merchandising relacionados e infindáveis matérias e capas de revista à respeito), assim como seu antagonista principal, o assim chamado Little Death (“Pequena Morte”, como os franceses apelidaram o orgasmo, não à toa o filme foi abraçado na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026), um vilão nos mesmos moldes de Michael Meyers (“Halloween”), Jason Vorhees (“Sexta-Feira 13”), Freddy Krugger (“A Hora do Pesadelo”), Ghostface (“Pânico”) e tantos outros, com uma emblemática e impraticável máscara feita de duto de ventilação (!). Na trama do filme dentro do filme – a exemplo do que se sucedia no originalíssimo “Acampamento Sinistro” – um jovem rapaz se converte em assassino serial devido a uma avassaladora crise de identidade sexual; um aspecto que aponta a transfobia e a alegoria embutida na combinação entre jovens, sexualidade e matança que transpassava todo o gênero. Com o tempo, “Camp Miasma” sofreu o mesmo que todas as demais franquias do slasher: Teve sua qualidade diluída em dezenas de continuações medíocres, repetitivas e formulaicas que abarrotaram as prateleiras de videolocadoras dos anos 1980 e 90.

Contudo, os estúdios (como, aliás, volta e meia ocorre no mundo real) querem trazer “Camp Miasma” de volta com uma nova visão, repaginada para os novos tempos. A escolhida para a empreitada é a cineasta Kris Williams (a interessante Hanna Einbinder, a Ava Daniels da série “Hacks”) sobre quem pesa a responsabilidade de levar um novo enfoque à uma obra atrelada aos estranhos valores de uma outra época.

A fim de entender o que mais a fascinava, desde muito jovem, no “Camp Miasma” original (o enigmático olhar da protagonista na mais marcante dentre todas as cenas de morte), Kris vai a procura da estrela do primeiro filme, Billy Presley (a ótima Gillian Anderson, a Dana Scully da série “Arquivo X”) que, depois do sucesso do primeiro filme, resolveu isolar-se de tudo e de todos, como uma espécie de Norma Desmond (de “Crepúsculo dos Deuses”) com quem, aliás, é comparada em algumas ocasiões.

Dessa forma, o filme de Schoenbrun promove o encontro e o embate entre duas personagens que representam considerações opostas de períodos bastante diferentes do cinema (a atriz lembrada por um papel só, emoldurada numa imagem inatingível de diva em oposição à sua humanidade; e a jovem realizadora do cinema independente autoral cujas predisposições são reflexos de todas as vulnerabilidades e inseguranças de ordem sexual que traz consigo) e de duas espetaculares atrizes de diferentes gerações (e de duas séries marcantes em dois diferentes períodos de tempo) – entretanto, ao contrário do que se poderia supor, não é o atrito que surge desse encontro, mas sim o fascínio. E é no jogo de sedução, profundamente enraizado na correlação entre desejo e morte explorada na franquia, que o filme irá demandar boa parte de seu tempo.

O que não significa que “Camp Miasma” não seja também um filme de terror – mas, é um filme de terror inteligente, inclinado à uma intrigante observação da natureza involuntariamente psicanalítica do subgênero a que pertence, e que, em sua excelência, se irmana aos tantos títulos antológicos que o gênero ganhou nos últimos anos nessa Nova Era de Ouro do Terror nos cinemas. Dentre eles, talvez, aquele que mais me remete à “Camp Miasma” seja o sensacional “A Substância”, no qual também temos uma diretora mulher munida de duas grandes atrizes em diferentes etapas da vida e da profissão discorrendo sobre pautas e inquietações atuais em um subgênero outrora exclusivamente voltado ao exploratório e sensacionalista.

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