Aos olhos desavisados, “Acampamento Miasma” pode parecer mais um filme que pega carona em referências oitentistas tão em voga no cinema comercial, com suas homenagens aos clássicos do terror slasher que preservam fãs e apreciadores até hoje – e que, por isso mesmo, são uma fonte de lucro tida por inesgotável para muitos produtores picaretas.
Na verdade, “Acampamento Miasma” pode parecer
inúmeras coisas: Uma sátira às franquias de terror sob o viés woke a salientar
os elementos problemáticos (misoginia, homofobia, racismo e o politicamente incorreto
em geral) que normalmente todas as franquias antigas compartilhavam; um
exercício de estilo até que impressionante da diretora Jane Schoenbrun (de “Eu
Vi O Brilho da TV”); e uma carta de amor ao subgênero slasher em geral e à
“Acampamento Sinistro” em particular.
Mas, acima de tudo, “Acampamento Miasma” é uma
pérola de metalinguagem, uma realização autoconsciente de toda extensão
cultural do subgênero que aborda e, diante desses fatores, realiza uma reflexão
humana, artística e cinematográfica de todas as suas implicações para, no fim
das contas, mostrar-se aquilo que todo o filme deveria ser: Um ótimo
entretenimento.
No passado (mas especificamente, nos anos
1980), a série de terror “Acampamento Miasma” fez imenso sucesso de público (o
que é ilustrado nos créditos iniciais com imagens do filme, de produtos de
merchandising relacionados e infindáveis matérias e capas de revista à
respeito), assim como seu antagonista principal, o assim chamado Little Death
(“Pequena Morte”, como os franceses apelidaram o orgasmo, não à toa o filme foi
abraçado na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026), um vilão nos
mesmos moldes de Michael Meyers (“Halloween”), Jason Vorhees (“Sexta-Feira
13”), Freddy Krugger (“A Hora do Pesadelo”), Ghostface (“Pânico”) e tantos
outros, com uma emblemática e impraticável máscara feita de duto de ventilação
(!). Na trama do filme dentro do filme – a exemplo do que se sucedia no
originalíssimo “Acampamento Sinistro” – um jovem rapaz se converte em assassino
serial devido a uma avassaladora crise de identidade sexual; um aspecto que
aponta a transfobia e a alegoria embutida na combinação entre jovens,
sexualidade e matança que transpassava todo o gênero. Com o tempo, “Camp
Miasma” sofreu o mesmo que todas as demais franquias do slasher: Teve sua
qualidade diluída em dezenas de continuações medíocres, repetitivas e
formulaicas que abarrotaram as prateleiras de videolocadoras dos anos 1980 e
90.
Contudo, os estúdios (como, aliás, volta e meia
ocorre no mundo real) querem trazer “Camp Miasma” de volta com uma nova visão,
repaginada para os novos tempos. A escolhida para a empreitada é a cineasta
Kris Williams (a interessante Hanna Einbinder, a Ava Daniels da série “Hacks”)
sobre quem pesa a responsabilidade de levar um novo enfoque à uma obra atrelada
aos estranhos valores de uma outra época.
A fim de entender o que mais a fascinava, desde
muito jovem, no “Camp Miasma” original (o enigmático olhar da protagonista na
mais marcante dentre todas as cenas de morte), Kris vai a procura da estrela do
primeiro filme, Billy Presley (a ótima Gillian Anderson, a Dana Scully da série
“Arquivo X”) que, depois do sucesso do primeiro filme, resolveu isolar-se de
tudo e de todos, como uma espécie de Norma Desmond (de “Crepúsculo dos Deuses”)
com quem, aliás, é comparada em algumas ocasiões.
Dessa forma, o filme de Schoenbrun promove o
encontro e o embate entre duas personagens que representam considerações
opostas de períodos bastante diferentes do cinema (a atriz lembrada por um
papel só, emoldurada numa imagem inatingível de diva em oposição à sua
humanidade; e a jovem realizadora do cinema independente autoral cujas
predisposições são reflexos de todas as vulnerabilidades e inseguranças de
ordem sexual que traz consigo) e de duas espetaculares atrizes de diferentes
gerações (e de duas séries marcantes em dois diferentes períodos de tempo) –
entretanto, ao contrário do que se poderia supor, não é o atrito que surge
desse encontro, mas sim o fascínio. E é no jogo de sedução, profundamente
enraizado na correlação entre desejo e morte explorada na franquia, que o filme
irá demandar boa parte de seu tempo.

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