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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Thelma

O filme do norueguês Joachim Trier (diretor de “Oslo, 31 de Agosto”, “Começar de Novo” e “Mais Forte Que Bombas”) se inicia numa cena enigmática, nada óbvia: Um homem e uma menininha, pai e filha, caminham por um lago congelado, depois por uma floresta. Estão caçando. Em um momento, o homem é invadido pela possibilidade de usar a arma na criança. Por pouco não o faz.
O filme que se segue a partir daí desafia o expectador a tentar encontrar um motivo plausível para um gesto tão radical e contundente e, dessa forma, desvencilha pouco a pouco a névoa misteriosa ao redor dos personagens.
A menina Thelma (a excelente Eili Harboe), agora uma jovem beirando os vinte anos e não mais uma criança, começa a dar os primeiros passos de independência quando vai morar sozinha e estudar na universidade de Oslo.
Mesmo à distância, o pai e a mãe (Henrik Rafaelsen e Ellen Dorrit Petersen, ambos de “Blind”, produzido por Joachim Trier) exercem influência opressora sobre Thelma e a narrativa não tarda a vislumbrar por meio disso um passado traumático; entre outros indícios, a mãe de Thelma usa cadeira de rodas, fator que no cinema costuma indicar uma tragédia pregressa.
Elementos intrigantes cercam Thelma o tempo todo. Pássaros e outros animais parecem estabelecer com ela uma estranha sintonia. Ela tem pavorosos surtos que parecem ser crises de epilepsia. Tudo está relacionado com poderes paranormais que ela apresenta desde criança –e que estai diretamente ligados à incomum crença religiosa fundamentalista que norteia sua família.
Quando Thelma conhece Anja (Kaya Wilkins) –e por ela nutre uma irreprimível atração –o controle instável que ela mantinha sobre esses poderes começa a se desestabilizar; e a revelar suas inacreditáveis extensões.
Fazendo lembrar as obras de M. Night Shyamalan, “Thelma” é um suspense primorosamente bem dirigido e bem escrito (seu roteirista Eskil Vogt é diretor de “Blind”), o quê confere ao seu tema fantástico um contexto poderosamente austero e realista.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Blind

Feito de inúmeras sutilezas, "Blind", em seu princípio, nos dá a impressão de que dificilmente iremos nos encontrar naquela confusão de pistas dúbias e cenas aleatórias. Não que seja complexo.
Pelo contrário: É bastante inteligível a premissa da mulher (Ellen Dorrit Pettersen, que nos brinda com diversas cenas de seu lindo corpo nu) que fica cega devido à uma doença, e que se enclausura no próprio apartamento, para a perplexidade do marido.
O problema são as supostas tramas paralelas (o voyeur tímido e anti-social cuja carência não é mais capaz de suportar; e sua vizinha, uma professora, também ela agravada por uma súbita cegueira) que vão se agregando à narrativa, e que trazem cenas estranhamente ambíguas, confusas, mas que não deixam dúvida sobre a perícia da direção do dinamarquês Eskil Vogt: Em uma conversa banal de cafeteria, dois homens tentam travar um diálogo enquanto a cena parece indecisa se o cenário é realmente uma cafeteria ou o interior de um ônibus (!), e a despeito dessa confusão estranha e proposital, as tomadas de close nos quais o cenário de fundo transcorre atrás dos atores são sensacionais.
Em outra, durante as lembranças da professora a respeito de seu filho, temos a impressão que ela mudou de ideia, e por isso ela é mãe de uma menina, e não mais um menino.
É notável ainda, o modo como o roteiro encontra um desfecho, harmonizando esses elementos que antes pareciam impossíveis de se conciliar em termos narrativos, resultando no fim, em uma obra de beleza insuspeita e de intrigante caráter temático.