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sábado, 7 de outubro de 2023

Breakdown - Implacável Perseguição


 Os cenários do Monument Valley que serviram de pano de fundo a inúmeros clássicos de John Ford inundam a tela já no prólogo deste conto de suspense dirigido pelo habilidoso Jonathan Mostow (de “O Exterminador do Futuro 3” e “U-571 A Batalha do Atlântico”) cujo sub-gênero remete aos road-movies carregados de tensão no melhor estilo “A Morte Pede Carona” –a estrada convertida em todo um universo à parte, onde regras e personagens muito particulares, em princípio, bem ocultos da visão comum, comparecem para complicar de formas imprevistas as vidas dos protagonistas; e não raro, ameaçá-las. “Breakdown” também empresta alguns expedientes infalíveis do mestre Alfred Hitchcock, tal como o mistério insolúvel que atormenta o herói (e, por consequência, o expectador) até o limite do insuportável.

Capturados na transição de uma crise econômica, o casal Jeffrey (Kurt Russell, ótimo) e Amy Taylor (Kathleen Quinlan, de “Apollo 13”) atravessam o deserto do meio-oeste americano de carro, em busca de uma vida melhor na Costa Leste. Todavia, o roteiro não precisa e nem irá se aprofundar em tal situação: Logo no início, após uma parada num posto de gasolina, o carro deles dá uma pane, simplesmente parando no meio do deserto. Surge então um caminhoneiro solícito (J.T. Walsh, de “O Poder da Sedução”, “Os Imorais” e “Nixon”) que sugere dar-lhes carona até o ponto mais próximo, um conhecido restaurante de beira de estrada.

Amy aceita a carona; Jeffrey resolve ficar, afinal, ela enviará um guincho na sequência e ele não deseja abandonar o carro, com todos os pertences que eles possuem, na estrada. Algum tempo depois, porém, Jeffrey consegue descobrir o defeito no carro e o conserta, voltando a dirigir. Indo em busca de Amy no dito local combinado, Jeffrey descobre que ela não foi levada lá. Quando o desespero começa a tomar conta dele, Jeffrey reencontra o tal caminhoneiro que, desta vez, insiste que não o conhece e que não faz ideia do paradeiro de sua esposa.

É só o início de uma intriga que colocará ele e sua mulher na mira de perigosos e inescrupulosos psicopatas da estrada.

Realizado com eficiência e objetividade, como tinha que ser, “Breakdown” é uma obra que se beneficia deliberadamente das características do tempo a que pertence: Uma época anterior às mídias digitais, aos celulares, ao GPS, ou mesmo à internet –sem a conectividade e a velocidade da informação, os personagens principais se veem, de uma hora para a outra sozinhos em sua aflição, isolados num mundo selvagem e primitivo onde a única referência é o asfalto que corta o vasto deserto, ambiente no qual seus antagonistas parecem muito mais à vontade que eles. Um mote do qual podiam se valer os hábeis artesões a ambientar suas tramas de suspense numa época anterior à tecnologia e sua fácil acessibilidade, concebendo assim pérolas notáveis como este ótimo trabalho.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Saga Velozes e Furiosos


Velozes e Furiosos
No ano de 2001 talvez ninguém tivesse idéia (nem mesmo seus realizadores) de que “Velozes e Furiosos” viria a ser uma franquia tão longeva e comercialmente marcante.
Visto hoje, o primeiro filme se revela tímido (em meio à trama policial, há uma única sequência realmente explosiva de perseguição de carro) e incrivelmente datado (os cabelos, atitudes e modismos do filme deixam bem claro que este já pertence a uma época que não é a atual).
Provavelmente pensado como um produto escapista de verão, o primeiro filme não faz um único esforço para ser original.
Seu enredo em particular se resume a um conceito que pega emprestado elementos de filmes lançados anos antes como a premissa do policial infiltrado presente tanto em “Atraídos Pelo Desejo” (com Charlie Sheen), quanto no ótimo “Caçadores de Emoção” (dirigido por Kathryn Bigelow, com Keanu Reeves e Patrick Swayze).
Uma quadrilha audaciosa tem roubado caminhões em L.A. munida de carros de corrida –os assaltos são executados sem paradas, em alta velocidade!
Logo, o policial Bryan O’ Connell (Paul Walker, no personagem pelo qual será sempre lembrado) é designado para infiltrar-se nesse meio e encontrar uma pista dos assaltantes.
Ele faz amizade com o experiente Dominique Toretto (Vin Diesel, roubando consideravelmente a cena) que lhe põe a par das complexidades do contexto.
Como é inevitável na cartilha de um roteiro pretensamente bom e envolvente (ainda que indiferente ao clichê), a amizade entre O’ Connell e Toretto cresce em paralelo aos indícios de que é ele o líder da misteriosa quadrilha.
Grande sucesso de bilheteria, o grande acerto de “Velozes e Furioso” foi a sua, digamos, romantização dos rachas e corridas de carro –mais ou menos, o quê “Top Gun” fez pelos pilotos de caça-aéreos: Uma roupagem de glamour, adrenalina e fascínio proporcionada pelo cinema (e que certamente não tem nada a ver com a realidade) indo de encontro às ansiedades de toda uma geração de expectadores ávidos por um filme que representasse suas aptidões.

+ Velozes + Furiosos
A primeira continuação seguiu assim um caminho convencional enquanto sequência –e, para variar, revelando-se menos interessante que o anterior...
Seu maior problema: Vin Diesel, grande responsável pelo sucesso do filme declinou de sua participação no filme; Diesel então investia pesado em sua carreira e, com outras duas franquias em potenciais para se ocupar (a aventura de espionagem “Triplo X” e a elogiada ficção científica “Eclipse Mortal”, com o personagem Riddick), ele desistiu de “Velozes e Furiosos” fazendo com que o protagonismo integral caísse sobre os ombros de Paul Walker e seu Bryan O’ Connell.
Na direção, substituindo Rob Cohen do filme original, entrou John Singleton (de “Os Donos da Rua”) que, em resposta às pressões corriqueiras desse tipo de produção acrescentou mais dinamismo à montagem, amplificou consideravelmente as cenas de corridas e fez do filme um mero policial de ação.
Continuando exatamente onde o primeiro filme parou –com O’ Connell renegado pela polícia após ter deixado que Toretto escapasse –reencontramos o ex-policial em disputas de rachas ilegais na fronteira com o México. O’ Connell é então requisitado em Miami para uma missão de tal maneira movediça que, se realizá-la, obterá perdão pelos desvios na missão anterior.
Este roteiro visivelmente agrega o personagem de Tyrese Gibson como forma de tentar substituir a presença de Vin Diesel, mas tanto esse esforço quanto as manobras executadas pelo diretor Singleton não contornam a redundância da produção.
Ainda assim, “+ Velozes + Furiosos” parece ter agradado seu público que se mostrou satisfeito com a prevenção dos elementos que constituíam o clichê desse gênero –uma característica que passaria a dominar a franquia.

Velozes e Furiosos 3-Desafio Em Tóquio
Por sua vez, quando foi lançado o terceiro filme da série "Velozes e Furiosos" pouco pareceu ter de relação com os anteriores (exceto uma citação surpresa perto do fim), inclusive abandonando sua trama policial e o elenco de protagonistas que surgiram nos outros filmes.
A idéia acabou lembrando um pouco o que havia sido feito em “Halloween III”, nos anos 1980 –também ele uma trama completamente à parte dos dois filmes anteriores.
Contudo, foi aqui que entrou o diretor Justin Lin, compensando tudo com um trabalho de ritmo e edição tão vertiginoso quanto criativo que pôs as peripécias dos demais filmes no chinelo –foi o próprio Lin quem capitaneou, mais tarde, uma espécie de reinvenção de “Velozes e Furiosos”, mas, antes vamos à trama deste terceiro filme...
Rapaz que arrumou muitos problemas em Los Angeles (terminando com uma enorme dívida após um racha de automóveis) é despachado para Tóquio onde seus familiares esperam que encontre um rumo na vida. Mas lá ele conhece um grupo que também participa de rachas ilegais, usando os carros inclusive para manobras impossíveis chamadas "driffting".
Curioso como certos conceitos de filmes oitentistas ainda influenciam o filme –mesmo estando ele desconectado da trama principal dos demais; aqui, muito lembra a premissa de “Karatê Kid 2”, substituindo as lutas, claro, por carros de corrida e suas manobras impossíveis.

Velozes e Furiosos 4
O filme que retoma a tradição de “Velozes e Furiosos” –ou, na opinião de alguns, a inicia de fato!
Justin Lin, o diretor e Chris Morgan, o roteirista, ambos responsáveis pelo terceiro filme, considerado um dos mais bem-acabados da série uniram-se ao agora produtor Vin Diesel, e juntos tomaram a decisão de resgatar o elenco do filme original, para fazer o que é a mais autêntica continuação do primeiro filme. Assim a dinâmica entre os personagens originais (uma das razões do sucesso do primeiro “Velozes e Furiosos”) interpretados pelo próprio Vin Diesel e por Paul Walker, é retomada, junto das alucinantes corridas de automóveis turbinados.
É aqui também que começa a se desenhar o grande subtexto proclamado pela saga (aplicado sem muita sutileza, como teria de ser mesmo...) no qual se enaltece o conceito de família.
O policial O’ Connell –aparentemente já tendo superado as conseqüências do primeiro filme –na perseguição a uma quadrilha cruza o caminho de um velho conhecido seu, um ex-criminoso que foi seu aliado no passado e que agora quer vingança pelo assassinato da namorada, Dominique Toretto –que o roteiro, a condução e a influência de Vin Diesel como produtor trataram de finalmente enfatizar como o protagonista de fato da franquia.
De forma inicialmente relutante, os dois unem forças mais uma vez para, juntos, enfrentarem os bandidos no terreno que mais dominam: as corridas de carro.

Velozes e Furiosos 5
Parte do tempo e do enredo despendido nos filmes que se seguiram foi empregado para unir muitas das pontas soltas deixadas por três filmes que não necessariamente se importavam em estabelecer conexões entre si.
Por sorte, os realizadores passaram a tratar a narrativa com coesão e unidade, justificando eventos pregressos que soavam banais e aleatórios –foi tão funcional que os fãs, neste filme e nos próximos, passaram a enxergar em “Velozes e Furiosos” uma sinergia entre os personagens e suas tramas paralelas semelhante ao que –pasmem! –a própria Marvel Studios vinha fazendo com seus heróis num universo compartilhado.
Também outra característica dos filmes de super-heróis logo começou a aparecer em “Velozes e Furiosos”: A ação em tintas cada vez mais implausíveis.
O quinto filme –para o qual o anterior já deixava um gancho palpitante ao final –acompanha Toretto numa tentativa de elucidar o misterioso assassinato de Letty (Michelle Rodrigues), sua companheira desde o primeiro filme, o que o leva a associar-se, mais uma vez, ao ex-policial O’ Connell, desta vez numa aventura em terras brasileiras.
Um dos apelos deste quinto filme foi a introdução, como vilão ocasional (nos filmes seguintes ele passou para o lado dos mocinhos), do brutamontes Hobbs, interpretado por Dwayne ‘The Rock’ Johnson: Afinal, Johnson e Diesel eram os dois grandes astros de ação do novo milênio, os mais autênticos sucessores de Schwarzenegger e Stallone.

Velozes e Furiosos 6
Se o filme anterior girava em torno da busca pelos assassinos de Letty, a sexta produção –que transfere sua ação para as ruas e auto-estradas de Londres, na Inglaterra –se inicia a partir da descoberta de que Letty, na verdade, não morreu. Todavia, ela não parece lembrar quem foi, visto que agora está aliada aos inimigos e comporta-se como se não conhecesse seus outrora aliados –nem mesmo seu amado Toretto!
Também a ‘Parte 6’ traz uma manobra sintomática à série: Hobbs, personagem de Dwayne Johnson e antagonista do filme anterior, por uma série de circunstâncias, se junta ao grupo e se torna mais um dos membros da ‘família’ –e esse é um tema que, a partir do quarto filme passou a definir os propósitos da série.
É Hobbs quem arregimenta Toretto e sua trupe (incluindo O’ Connell; Roman Pearce, o personagem de Tyrese Gibson introduzido no segundo filme e que, depois, ganhou um background de alívio cômico; e tantos outros) para perseguir e capturar o grupo mercenário de operações especiais liderado por Owen Shaw (Luke Evans, até então o vilão mais expressivo da série) ao qual Letty (por razões mirabolantes esmiuçadas ao longo do filme) está integrada.
A “Saga Velozes e Furiosos” neste ponto já havia atingido uma espécie de ápice: Suas bilheterias eram gordas e garantidas, seus fãs, entusiasmados e satisfeitos, e seus astros, na pior das hipóteses, agradecidos. O plano certamente era continuar assim indefinidamente; e a cena pós-crédito, que finalmente começava a conectar a narrativa do terceiro filme com todos os demais, deixava isso bem claro.
Contudo, como se sabe, durante as filmagens da ‘Parte7’ um acidente tirou a vida de Paul Walker, um dos protagonistas, levando a série para um outro rumo em geral e o sétimo filme para uma outra abordagem em particular.

Velozes e Furiosos 8
O quê nos leva ao oitavo filme.
Depois da estrondosa bilheteria do sétimo filme –em grande parte, impulsionada pelo fascínio mórbido e pelo viés emotivo da morte de Paul Walker –a produção ainda buscou, de forma nada lisonjeira, continuar capitalizando em cima de seu astro falecido: A afirmação de Diesel e dos envolvidos era que o filme anterior era “para Paul” e que o novo era “por Paul”...
Este novo filme, dirigido por F. Gary Gray, trazia como vilã a personagem de Charlize Theron (que trabalhou com Gray em “Uma Saída de Mestre”) –e todas as suas características (uma hacker, com recursos ilimitados e maldade megalomaníaca), já denunciavam o fato de que os filmes já haviam assimilado todo o absurdo fantasioso de referências ao estilo “James Bond” (inclusive com locações ao redor do mundo se sucedendo com a naturalidade de uma ida até a esquina!).
Conforme já havia acontecido antes, o vilão do filme anterior, Ian Shaw (Jason Statham, mais um emblemático marombado) por força das circunstâncias se torna um dos aliados, ao passo que o protagonista Toretto (com Vin Diesel ainda mais altivo e prepotente com a ausência de Paul Walker) tem uma curiosa reviravolta: Ele se alia à vilã contra seus amigos, num estratagema que vai sendo revelado aos poucos.
Assim, sem Vin Diesel para conduzir os momentos envolvendo os numerosos personagens que passaram a compor a galeria da série, a liderança de cena pesa assim sobre os volumosos ombros de Dwayne Johnson e Jason Statham, que revelam-se juntos o grande achado do filme: Tão primorosa é sua química em cena –inclusive em meio à ação e à pancadaria –que, logo, o estúdio tratou de viabilizar um derivado protagonizado pelos dois; desta vez, sem Vin Diesel para ficar atrapalhando!
A série “Velozes e Furiosos” em si, por outro lado, está prevista para durar dez filmes (!), restando ainda ser anunciado o lançamento dos próximos dois.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Tango & Cash


Uma escolha inesperada de projeto para o russo Andrei Konchalovski que, de obras de natureza clássica como “Os Amantes de Maria”, “Gente Diferente” e “Expresso Para O Inferno”, foi para o supra-sumo do cinema oitentista descerebrado de ação numa produção que reunia dois astros casca-grossa do período: Sylvester Stallone, o “Rambo” em pessoa (há até uma piadinha dele a respeito do personagem), e Kurt Russel, o Snake Plissken de “Fuga de Nova York” –os dois, por sinal, voltaram a dividir o elenco de um mesmo filme (mas, não a mesma cena) em “Guardiões da Galáxia Vol. 2”.
Não há um pingo de constrangimento no diretor Konchalovski ao abraçar um filme com todas as facetas técnicas e pirotécnicas do gênero ação; ele inclusive até parece exultante em poder brincar com toda essa parafernália.
Com efeito, a sua experiência como realizador sério e sensato se manifesta na premissa, rasa e caricata como é o habitual, mas certeira e incisiva em seus propósitos: Policiais de distritos diferentes e de estilos diferentes, o sofisticado Raymond Tango (Stallone) e suburbano Gabriel Cash (Russel), ambos determinados e implacáveis, se aproximam –cada um ao seu modo –do mesmo barão do crime que comanda o tráfico que querem desbaratar (vilão que Jack Palance, notório especialista em vilões, compõe com gracejos típicos).
Os dois experimentarão o perigo de mexer com inimigos munidos de amplos recursos: Tango e Cash são, os dois, acusados por crimes que não cometeram, e largados, por meio de uma série de maquinações, numa prisão de segurança máxima, onde terão de encarar os mesmos criminosos que lá puseram.
Da encrenca mirabolante que o roteiro lhes colocou, Tango e Cash devem obter uma saída, também ela mirabolante: Fugir da prisão (numa seqüência montada com todas as manobras implausíveis do gênero a que se tem direito, mas poderosa em sua capacidade de fazer vibrar e empolgar), para então caçar seu nêmesis e dar fim aos seus planos de uma vez, o que conduz o filme de Konchalovski a um clímax explosivo e característico –e pensar que este é o mesmo realizador que serviu de roteirista para “Andrei Rublev”, de Tarkovski!
Curioso, justamente por esse motivo, e até admirável no esforço em desvincular Stallone da imagem truculenta de Rambo (Ray Tango, sobretudo na comparação com o despojado Gab Cash de Russel, é um personagem bem mais ‘almofadinha’), “Tango & Cash” é hoje uma obra de ação com todos os ingredientes incontronáveis e indeletáveis do gênero, com a vantagem de serem aqui administrados por um cineasta de orientação incomum e dramática.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Fuga de Nova York

Ao lado de “O Enigma de Outro Mundo”, este “Fuga de Nova York”, de 1981, é um dos filmes mais cultuados da parceria entre o diretor John Carpenter e o astro Kurt Russell.
Como toda ficção científica oriunda daquele fantasioso período comercial, ela hoje soa absurda em sua proposta: Em 1988 (o futuro dali a sete anos), a ilha de Manhattan, em Nova York, é convertida em uma gigantesca prisão com imensas muralhas a circundá-la. Anos depois, em 1997, o lugar é um domínio confinado de bandidos completamente isolado do resto do mundo.
Poucos têm noção das circunstâncias lá dentro, e seus muros são patrulhados ferozmente por militares impedindo qualquer tentativa de fuga.
As autoridades que vigiam esse inacreditável perímetro são pegas de surpresa quando um grupo revolucionário denominado Movimento de Libertação Nacional seqüestra o avião presidencial, o Força Aérea-1, e leva o presidente em pessoa (Donald Pleasence, outra presença habitual nos filmes de Carpenter) a cair com uma cápsula ejetora dentro da própria Manhattan. Com um refém dessa importância nas mãos dos bandidos, o chefe de segurança Bob Hauk (Lee Van Cleeff) não encontra outra opção senão recorrer aos serviços do mercenário Snake Plissken (Kurt Russell, antológico usando tapa-olho), outrora um herói de guerra, e agora sentenciado àquela mesma prisão.
O acordo feito é pouco favorável a Plissken –ele recebe uma dose de cápsulas microscópicas que irão matá-lo se não trouxer o presidente em 22 horas –mas ele aceita a missão em troca do possível perdão presidencial por seus crimes.
Em Manhattan –que ele invade pousando um planador numa das torres do World Trade Center –o perigo ronda cada esquina, e não são raras as menções feitas pelos personagens à Leningrado (esse precedente histórico parece servir constantemente de modelo para o clima que Carpenter deseja construir neste trabalho).
A medida que seu prazo avança, Plissken adquire alguns aliados inesperados naquela terra de ninguém, como o fanfarrão Cabbie (o grande Ernest Borgnine, já em fim de carreira), o bem informado, mas pouco confiável Brain (o saudoso Harry Dean Stanton) e sua ajudante/companheira Maggie (Adrienne Barbou, usando o filme todo um decote matador!).
Há ecos claros de “Mad Max”, de “Selvagens daNoite” e de “Ruas de Fogo”, todos filmes dos anos 1980 que, em comum, têm aquele clima distópico no qual o protagonista adentra um ambiente tão inóspito quanto mirabolante –e curiosamente em todos, essa hostilidade mirabolante vem calcada numa previsão pessimista, subversiva até, de uma deterioração urbana e social, como se fosse um reflexo condicionado do cinema de ação oitentista, a previsão de um futuro devastado e retrógrado em suas mazelas criminais e bárbaras.
“Fuga de Nova York” ganhou uma seqüência, um tanto tardia, em 1996, bastante beneficiada pelo culto que surgiu ao longo dos anos em torno deste filme: Com um orçamento generoso, o diretor Carpenter levou Snake Plissken à Costa Oeste em “Fuga de Los Angeles”. Toda a inspiração da premissa e de seu protagonista, entretanto, parecem mesmo terem ficado restritos à este primeiro filme.

domingo, 30 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Volume 2

O primeiro filme dos Guardiões da Galáxia já aparece com freqüência nas listas de melhores filmes da Marvel Studios, e é bem provável que esta sua continuação direta passe, também ela, a integrar o apanhado de filmes mais prestigiados dessa editora tornada estúdio de cinema.
A razão é simples: James Gunn, roteirista e diretor do primeiro filme e deste também, retoma a trama e seus personagens com uma espontaneidade que poucas continuações têm.
Se no filme anterior, o terráqueo Peter Quill (Chris Pratt) auto-denominado Senhor das Estrelas, havia assumido para si a tarefa de gerenciar o grupo improvável formado por ele, a guerreira Gamorra (Zoe Saldana), o mercenário Drax (Dave Bautista), o guaximin Rockett (voz de Bradley Cooper) e a árvore ambulante Groot (que, nesta seqüência, é uma hilária e adorável versão bebê do personagem adulto com voz de Vin Diesel), nesta nova trama, esse objetivo se revela mais complicado do que parecia: Rockett, num ímpeto habitual, resolve roubar baterias alienígenas de um povo conhecido como Soberanos –baterias estas que deveriam salvaguardar de uma criatura.
Perseguidos pelos Soberanos, os Guardiões da Galáxia terminam encontrando Ego (Kurt Russell, sempre sensacional), um ser cósmico que se revela o verdadeiro pai de Peter (que ele procura desde o filme anterior), e o leva até seu planeta –na verdade, ele próprio É o planeta! –para lhe elucidar sua origem (e do porque, na realidade, ele é uma ameaça para todo o universo!).
Ao mesmo tempo, Rockett e Groot envolvem-se numa enrascada ao lado de Yondu (Michael Rooker, num dos melhores personagens deste novo filme), quando este sofre um motim promovido por seus piratas espaciais ao lado de Nebulosa (Karen Gillan), a vingativa irmã de Gamorra.
Entre os novos personagens que marcam presença estão a empara Manthis (Pom Klementieff), que os leitores de quadrinhos sabem que passará a integrar a equipe –e já demonstra aqui uma química hilariante com Dave Bautista –e rápidas aparições de Starhwak (Sylvester Stallone, que infelizmente não divide nenhuma cena com Kurt Russell para reeditar a parceria de “Tango & Cash”) e de outros saqueadores espaciais (vividos por Wing Rhames, Michelle Yeoh e Michael Rosenbaun), personagens que podem vir sem sombra de dúvidas a integrar uma nova equipe de heróis cósmicos da Marvel no futuro.
Ainda mais engraçado, vibrante e pontual em suas referências à cultura pop (assim como na primeira produção a seleção de canções da trilha sonora, com clássicos dos anos 1970, é de uma deleite espetacular) do que o filme anterior, este roteiro de Gunn volta seu olhar aos laços afetivos e familiares que unem seus interessantes personagens e explora maravilhosamente bem suas dinâmicas, obtendo sucessivas cenas que flutuam com naturalidade entre o humor, o drama, a tensão e a ação.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Horizonte Profundo - Desastre No Golfo

Intensidade parece ser a palavra de ordem no cinema do diretor Peter Berg.
Também ele um ator (participou do elogiado “O Poder da Sedução”, de John Dahl, nos anos 1990), Berg chamou a atenção como realizador em “Bem-Vindo À Selva”, com The Rock, depois com o suspense investigativo de ação “O Reino” e com um quase filme de super-herói “Hancock”, estrelado por Will Smith, demonstrando notável controle sobre ritmo e clima e, não raro, valendo-se disso para a concepção de filmes comerciais contundentes, carregados de som e fúria.
Na seqüência vieram a catastrófica ficção “Battleship-A Batalha dos Mares”, e o ótimo filme de guerra “O Grande Herói”, com Mark Wahlberg, com quem voltou a se reunir aqui.
O imenso fiasco nas bilheterias de “Battleship” fez Peter Berg notar o quão escorregadios poderiam ser os projetos amparados em um elemento pop (no caso, adaptado do conceito de um jogo da Hasbro) e ainda escorados num gênero de fantasia.
Com “O Grande Herói” e este “Horizonte Profundo”, ele se manteve fiel aos seus posicionamentos estéticos, sem abrir mão da realidade –mas, certamente, continua interessado em explorar as possibilidades dos efeitos visuais de última geração.
A narrativa, criteriosa, começa acompanhando a rotina doméstica de Mike Willians (Mark Wahlberg) ao lado de sua esposa (Kate Hudson). Tudo parece normal naquele 20 de abril de 2010 quando ele, um operário da empresa Deepwater Horizon, se prepara para mais uma escala de vinte e tantos dias em alto-mar numa plataforma de petróleo no Golfo do México.
Outros personagens são mostrados, o chefe de segurança, Sr. James (Kurt Russell), a jovem funcionária da torre de comando (Gina Rodriguez), o mandatário de escritório, Sr. Vidrine (John Malkovich), alguns outros empregados e pessoas a bordo da plataforma –um total de cento e vinte e seis pessoas embarcadas.
Todos os atores, de um modo geral, correspondem somente com suas impressões básicas (e as impressões que o pública previamente tem sobre eles) para os personagens que interpretam. Leia-se: Kurt Russell faz o veterano mentor, uma versão mais madura do próprio protagonista estóico (papel também comum à Wahlberg), e é claro que, com sua fleuma habitual, Malkovich fará o mais próximo que a trama possui de um antagonista, o responsável pelas atitudes mais negligentes que detonarão a tragédia.
Peter Berg leva o expectador em baixa voltagem durante essa primeira parte, ávido em demonstrar um controle narrativo que ele até certo ponto realmente tem.
Seu estilo de exuberante técnica sobre um raso conteúdo quase lembra o de Michael Bay em “13 Horas-Os Soldados Secretos de Benghazi”, não fosse Berg bem mais feliz ao obter resultados de seu elenco.
É claro que será o acidente espetacular (e espetacularmente filmado) que irá, na progressivamente tensa e aflitiva segunda metade do filme, mostrar à que ele de fato veio.
A equipe de efeitos visuais faz, pelo filme, o que todo o roteiro e o elenco, em geral, mal tiveram a chance de fazer: Entrega o produto pulsante e arrebatador que se esperava.
É válido enquanto denúncia e enquanto entretenimento, mas sua capacidade de ficar na memória deve durar somente até o próximo filme-catástrofe.

domingo, 11 de setembro de 2016

Rastro de Maldade

“Bone Tomahawk” –título original –não é um filme para todos. É um faroeste, e tem Kurt Russell, e param por aí as semelhanças com “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino.
Seu diretor e roteirista, S. Craig Zahler, não se mostra interessados em duelos ao pôr-do-sol, os demonstrações romantizadas de honra que fizeram a fama do gênero –seu olhar está o tempo todo voltado para as condições atrozes à que foram submetidos os homens e as mulheres que ousaram tentar sobreviver no Velho Oeste.
É assim que encontramos os personagens principais, moradores da cidadezinha de Bright Hope. O xerife Hunt (Russell, ótimo como sempre) prende um suspeito forasteiro que apareceu no bar local (David Arquette), sem saber que ele profanou um cemitério indígena, dias antes. Na calada da noite, índios aparecem e levam junto com ele uma moça, assistente do médico do lugar e o jovem assistente do xerife.
Dessa maneira, Hunt junta um grupo de resgate, formado por seu idoso assistente, Chicory (Richard Jenkins, fantástico), pelo perplexo –e aleijado –marido da moça, Arthur (Patrick Wilson), e pelo irascível almofadinha Brooder (Mathew Fox), e partem ao encalço dos selvagens, sob o apavorante alerta de que os índios que procuram são primitivos e capazes das mais terríveis atrocidades.
A partir daí, o diretor Zahler não tem pressa em esmiuçar todos os obstáculos naturais e existenciais que surgem frente ao grupo, devastando pouco a pouco sua determinação.
Embora as cenas externas predominem, com a câmera enfatizando a poderosa opressão do desolado horizonte aberto, este é um filme essencialmente intimista; a angústia que brota dos personagens encontra trânsito livre para chegar ao expectador.
Afirmar que este é um faroeste revisionista seria redundante: Ele é um esforço natural –e legítimo, sendo Zahler também um escritor –em transpor um retrato no Oeste muito mais autêntico e realista, despojado e condizente com a realidade, muito mais frequentemente empregado na literatura do que no cinema –onde prevalece o romantismo dos grandes clássicos.

Este grande filme de Zahler não tem espaço para qualquer romantismo, ou mesmo as homenagens referenciais dos faroestes de Tarantino, a não ser que se tome por referência as cenas terrivelmente sangrentas e impiedosas, infligidas aos personagens na parte final, quando enfim encontram os tais índios, e que por vezes parecem saídas do perturbador e brutal “Holocausto Canibal”.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Vanilla Sky

Em 2001, recém-saído daquela que talvez seja sua obra-prima (o inebriante “Quase Famosos”), o diretor e roteirista Cameron Crowe encarou (à pedido o amigo e produtor Tom Cruise, com quem realizou "Jerry Maguire-A Grande Virada") esta incomum e improvável refilmagem do suspense espanhol “Abra Los Ojos” (ou “Preso Na Escuridão”) de Alejandro Almenábar.
Cameron, com sua percepção pop e aguçada sensibilidade, deu uma nova e realmente curiosa roupagem à trama rebuscada e intrincada que, no filme original, era mais um conto aflitivo feito com baixo orçamento, mas que aqui se torna quase um delírio romântico que discute, entre outras coisas, o limite nem sempre perceptível entre sonho e realidade, tendo alterados radicalmente sua abordagem, sua melodia, e no fim, sua proposta.
Há uma névoa de estranheza já identificável no início quando o personagem de Tom Cruise, David Aames, surge em cena. Ele é editor de uma revista masculina e herdeiro milionário de um império da mídia (já impondo enorme contraste com o tímido escopo do filme espanhol, cujo protagonista era hoteleiro...). Sua vida parece –e, por vezes, a narrativa sugere, de fato ser –um sonho: Vive cercado por mulheres belíssimas e é, sendo ele interpretado por Tom Cruise, extremamente boa-pinta.
Em algum momento, contudo, dessa vida perfeita, David perdeu tudo, como logo é possível perceber quando fica claro que os acontecimentos que ele relata são flashbacks, vislumbrados por ele quando se encontra numa prisão e com o rosto deformado (!), na companhia de seu atencioso advogado (Kurt Russell). A explicação para a face deformada, inclusive, não tarda a chegar: Após conhecer a jovem Sofia (Penélope Cruz, oriunda do filme original), por quem se apaixona, David se envolve num acidente automobilístico que mata sua ciumenta ex-namorada (Cameron Diaz) e o deixa terrivelmente desfigurado.
E, a partir daí, o filme parece tentar levantar uma sutil questão: O que sobra a um homem egoísta e egocêntrico quando sua vaidade perde a razão prática de existir?
E é até admirável e impressionante o modo como a atuação visceral de Tom Cruise abre mão que qualquer zona de conforto para comunicar essa angústia ao expectador: Seu trabalho, guardadas as devidas proporções, remete ao efeito igualmente incômodo que seu talento consegue arrancar no dramático “Nascido Em 4 de Julho”.
Mas, o filme de Cameron Crowe irá além, com reviravoltas e questionamentos que caminham num equilíbrio sempre tênue entre o surpreendente e o absurdo. E debaixo de todos esses elementos ora confusos ora sensacionais de sua trajetória, o que sobra em David é um homem atormentado por um acidente, pela busca de um verdadeiro amor, e no final pela busca da distinção entre realidade e sonho.
"Vanilla Sky" esconde muitas de suas cartas por trás de uma muralha de romantismo, mas, no fim, é uma ficção científica triste, surpreendente e reconfortante.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Quentin Tarantino, Robert Rodrigues e o Projeto Grindhouse

Uma das idéias mais ambiciosas e insanas dos últimos tempos saiu, não por acaso, das mentes fervilhantes e ousadas de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues: Grindhouse.
Tratava-se de um projeto de 2007, no qual eles peitavam a estrutura padrão de filmes norte-americanos (e mundiais, já que os cinemas do mundo todo adotaram o formato multiplex).
A ideia era entregar um longa-metragem que, na verdade, era dois filmes em um: Num mesmo rolo a ser exibido nos cinemas de shopping center (e hoje quase só existem essas salas de cinema mesmo, com raras exceções), haveria dois filmes, “Planeta Terror” e “À Prova de Morte”, ambos de não mais que noventa minutos de duração, dirigidos por Rodrigues e Tarantino, respectivamente, que junto de outros ‘trailers falsos’ –dos quais já iremos falar –compunham uma experiência que simulava uma sessão de filmes B, o cinema poeira, o grindhouse dos anos 1970, cujos exemplares Tarantino tanto ama homenagear.
Eram filmes de baixo orçamento, de conteúdo por vezes popular e popularesco, que por serem de metragem enxuta, podiam ser exibidos em sessões duplas nos drive-ins.
Muitas dessas obras, tão cultuadas por Tarantino, se perderam, algumas na transição de mídia para o VHS, por que muitos estúdios e distribuidoras do período não lhe davam valor. Alguns desses filmes são cults, muitos deles pelo simples fato de serem raríssimos.
Os filmes idealizados por Rodrigues e Tarantino, imulam as características dos filmes daquele período, inclusive com ‘sujeiras na projeção’ e partes cortadas onde o ‘negativo se perdeu’. Disfarçando suas produções de filmes B, os realizadores propunham ao expectador uma espécie de viagem no tempo.
No primeiro deles, “Planeta Terror”, Robert Rodrigues exercita sua paixão pelos filmes de zumbi, com um pé na ficção científica barata.
Só assim para comprar a trama mirabolante em que uma pequena cidadezinha do Texas é subitamente assolada por uma praga de zumbis carniceiros e gosmentos. Os sobreviventes que se unem contra eles são uma coleção de personagens peculiares e cartunescos: o rapaz misterioso, bom de briga e de papo (Freddy Rodrigues, nenhum parentesco com o diretor), o xerife paternalista (Michael Biehn) e seus ajudantes ineptos e engraçados, o dono de lanchonete que protege sua receita secreta de churrasco como sua própria vida (Jeff Fahey), o médico sádico e sarcástico (Josh Brolin) que parece saído de um gibi, assim como sua esposa (Marley Shelton), e a heroína,a stripper que tem a perna amputada e em seu lugar recebe uma metralhadora! Interpretada por uma Rose McGowan sensualmente vulcânica, ela não só rouba o filme como é também a figura mais emblemática dos filmes Grindhouse.
Já, na obra de Quentin Tarantino, “À Prova de Morte”, Kurt Russel surge na pele de um personagem chamado Dublê Mike, um psicopata, que mata suas vítimas usando seu carro, todo equipado para protegê-lo das consequências mais sérias de acidentes automobilísticos –já que nas horas vagas, ele atua como dublê de cinema em cenas perigosas ao volante. Assim ele procura, em bares e estradas, por suas vítimas, em geral, mulheres, para deliberadamente arremessar seu carro sobre elas. Mas, Dublê Mike encontra um grupo de garotas, formado por Rosário Dawson, Zoe Bell e Tracie Thoms que vão fazê-lo se dar mal.
O filme de Tarantino possui mais qualidade, como cinema (desde o roteiro mais elaborado à condução da atuação do elenco), do que o filme de Rodrigues, mas isso nem chega a ser uma novidade. Como é de praxe no cinema de Tarantino, os personagens destilam uma prosa desconcertante em brilhantes atuações. Ao fim, as mulheres são redimidas pelas três protagonistas que parecem surgir para subverter a então misoginia da narrativa.
Intercalando os dois filmes, uma série de trailers falsos (ou seja, não eram filmes reais!) cujo objetivo era, de fato, dar uma idéia e um “sabor” de como eram as impressões passadas pelos filmes e propagandas do período. São eles:
“Machete” –O mais sensacional deles, realizado pelo próprio Rodrigues, e que anos depois, de fato, tornou-se um longa-metragem, ganhando até uma continuação. “Machete” mostra a história de um policial federal mexicano (Danny Trejo) envolvido numa aloprada trama de vingança (e absolutamente nada disso deve ser levado à sério!).

“Thanks Giving” –Sobre um suposto filme slasher de terror (aqueles de contagem de corpos, estilo “Sexta-Feira 13”), mas que faz referencia ao que talvez seja o único feriado americano ainda pouco explorado por filmes de terror: O Dia de Ação de Graças. Esse trailer foi criado e dirigido por Eli Roth, chapa de Tarantino (fez até uma participação em “Bastardos Inglórios” como ator) e diretor de “Cabana do Inferno” e “O Albergue”.

“Werewolf Women of SS” –Na trama... bem, na verdade, nem existe trama, afinal, é um trailer falso! Mas, a idéia discorre sobre os filmes de nazi exploitation (produções cheias de violência e nudez envolvendo nazistas torturando mulheres que compunham o repertório dos grindhouses e, para variar, eram adoradas por Quentin Tarantino), mostra um cientista (Bill Moseley) fazendo experiências em mulheres, que terminam virando lobisomens, é dirigido por Rob Zombie (“A Casa dos 1000 Corpos”) e tem até uma aparição de Nicolas Cage ao final, como Fu-Manchu (!?!).

Don’t! –Quase um teaser dos tempos de antigamente, onde o espirituoso diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”) adotava o mesmo estilo com que eram feitos os trailers de produções inglesas de terror: Os trailers eram todos narrados, omitindo cenas de diálogos para que o público não percebesse o sotaque dos atores (!).
Pode parecer uma proposta radical demais para produtores e exibidores de cinema, e de fato era! Tanto que, logo, esse projeto foi redesenhado: Salvo algumas salas nos EUA, eles foram lançados divididos em dois filmes mesmo, “Planeta Terror” (junto com o trailer de “Machete”) e “Á Prova de Morte”, e essa lógica foi seguida, mais tarde, para o lançamento em DVD.

Vale lembrar que as cópias canadenses de “Grindhouse” tiveram um adendo: Foi feita uma espécie de seleção, na qual fãs enviaram seus próprios ‘trailers falsos’ para um fosse escolhido e ganhasse a honra de integrar o projeto. O trailer escolhido foi “Hobo With Shotgun” que contava a alucinada trama de um indigente que, ao juntar uma grana cortando grama na cidade, resolve usar o dinheiro para comprar uma espingarda calibre 22 e sair pela rua matando a bandidagem. Anos depois, assim como ocorreu com “Machete”, “Hobo With Shotgun” tornou um longa-metragem de fato, estrelado por Rutger Hauer, e lançado aqui no Brasil em DVD com o título “O Vingador-Fazendo Justiça A Cada Bala”. O filme, paupérrimo ao extremo, possuía todo um clima precário de filme trash evidenciando o amadorismo de seus realizadores.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Algumas previsões para o Oscar 2016...

Curioso notar que, com sua alardeada previsibilidade, parece que faltam surpresas na cerimônia do Oscar. Quando o vencedor é anunciado é sempre em um clima de "já sabia...".
É curioso também notar que, horas antes do mesmo anúncio, não é tão fácil assim apontar os verdadeiros ganhadores (prova disso são os bolões de apostas que não são vencidos por todo mundo).
Pela minha experiência, nesta época do ano, nós provavelmente, já ouvimos falar do filme que sairá com a cobiçada estatueta em mãos: Nessa mesma época, em 2014, já se falava de "Birdman", assim como em 2013, já havia algum murmúrio sobre "12 Anos de Escravidão". Ninguém, porém, sabia que seriam exatamente ESSES filmes que ganhariam o Oscar...
Dessa forma, com esse espírito especulativo, vou falar de alguns filmes ainda vindouros, que têm algumas chances, na minha humilde opinião, de disputar o prêmio.
Selecionei cinco, embora hajam muitos mais:

The Hatefull Eight

Quentin Tarantino. Esse nome já explica muito do hipe que já se forma em torno desse filme.Não é pra menos. Os dois últimos trabalhos de Tarantino figuraram entre os indicados ao Oscar, e "Django Livre" venceu os de Ator Coadjuvante, para Christoph Watz, e de roteiro original! Aqui, Tarantino volta a fazer western, com uma trama que resgata muitos elementos de seu sensacional filme de estréia, "Cães de Aluguel". Na história, acompanhamos oito estranhos, isolados em uma cabana no meio de uma nevasca nas montanhas. Um deles, não é quem diz ser, e o caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel não pretende deixar que esse traidor em potencial, colabore na fuga de sua prisioneira, interpretada com fúria por Jennifer Jason Leight.
O trailer, lançado na última semana, é pra animar qualquer um, e a data de lançamento (Natal deste ano) coloca o filme em um momento estratégico para ser lembrado pelos membros da Academia.

Divertida Mente

Já com presença garantida em toda e qualquer lista dos melhores filmes do ano por qualquer pessoa com bom senso, o novo e genial trabalho da Pixar é, talvez, a aposta mais garantida desta pequena lista.
Deve ganhar o Oscar de Melhor Longa de Animação, mas a exemplo dos sensacionais "Toy Story 3" e "Up - Altas Aventuras", deve figurar também entre os indicados a Melhor Filme.
O motivo para isso é bem simples: A Pixar, uma vez mais, conseguiu criar uma obra prima da animação com a magnífica história de uma garotinha, cuja mente é guiada por cinco distintas emoções (Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo) que ganham representações brilhantes. A própria geografia do cérebro humano criada na animação é algo digna, no mínimo, de aplausos.
Isso sem falar nas mais emocionantes sequências do ano, até agora.

A Travessia

Faz tempo desde que o diretor Robert Zemeckis ganhou seu Oscar (com "Forrest Gump" num já distante 1994!), de lá para cá, ele enveredou pela tecnologia de captura de perfomance, criando animações como "Expresso Polar", "A Lenda de Beowulf" e "Os Fantasmas de Scrooge" que não chegaram a causar muita celeuma. Seu retorno aos filmes com atores de verdade seu deu com o elogiado "O Vôo".
Este ano, Zemeckis surge com um projeto que parece ser certeiro: A história romanceada de Phillip Petit, equilibrista francês que, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980, empreendeu uma tentativa clandestina de cruzar, numa corda bamba, o World Trade Center, na época, os edifícios mais altos do mundo.
A mesma história foi relatada no magistral documentário "O Equilibrista", que à propósito, ganhou o Oscar da categoria em 2008.
Ao lado do ator Joseph Gordon Levitt, como Petit (papel que pode ajudá-lo a emplacar sua primeira indicação), o diretor Zemeckis tem tudo para fazer uma obra espetacular com sua habilidade em manipular efeitos especiais em 3D.

Perdido em Marte

O mais arriscado dos meus palpites, "Perdido em Marte", ou "The Martian" é adaptado de um livro escrito por Andy Weir cuja história surpreende do início ao fim. Uma mistura muito bem urdida de "Gravidade", "Apollo 13" e "Náufrago", o filme conta a jornada até inacreditável, mas ancorada em verdades científicas perfeitamente plausíveis, de Mark Whatney (Matt Damon), que acidentalmente, é deixado para trás por seus companheiros, que o dão como morto, numa missão em Marte. Ao longo do tempo que se segue, o astronauta Mark deve usar de sua inventividade para fazer com que o oxigênio, a comida, a água e a energia que dispõe em quantias limitadas, não acabem antes de encontrar uma solução para seu apuro.
A direção desta trama fascinante ficou a cargo de Ridley Scott, que quando quer sempre entrega um filmaço, sobretudo quando cisca no terreno da ficção científica, vide seus seminais "Alien" e "Blade Runner".

Joy - O Nome do Sucesso 

Por último, mas não menos importante, uma das barbadas no próximo Oscar. Também com estréia agendada para o fim do ano, este filme trás, além da direção de David O' Russel (cujos três últimos trabalhos foram todos indicados ao Oscar!) a presença da fantástica Jennifer Lawrence (presença assídua nos filmes de O' Russel) como Joy Mangano, uma personagem real, cujo talento para invenção a tornou uma milionária, numa época em que as mulheres tinham de lutar ainda mais para conseguir seu espaço.
Não só o filme aparece como certo em muitas apostas do vindouro Oscar, como Jennifer Lawrence é dada como certa na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, que ela já ganhou, é bom lembrar, por "O Lado Bom da Vida", um filme também dirigido por O' Russel.